PSICANÁLISE E MEDICINA: VELHOS E NOVOS DESAFIOS

 

 

Filipe Pereirinha

 

 

Proponho-me revisitar, pelos motivos que adiantarei a seguir, um texto de Freud, escrito em 1926 e intitulado: A Questão da Análise Leiga. Mais do que o texto propriamente dito, interessa-me aqui precisar a questão que ele coloca e desenvolve. Daí que se torne inevitável a referência a outros textos.

 

Os recentes e céleres desenvolvimentos ocorridos no mundo psy (particularmente em França)[1] como resposta à emenda que o deputado francês Bernard Accoyer levou ao parlamento e que foi votada por unanimidade no dia 14 de Outubro deste ano, vem tornar por demais actual a “questão” que Freud apresenta e discute nesse texto célebre. Apesar dos contextos serem aparentemente diversos, a recorrência desta questão vem relembrar-nos que o inconsciente não conhece o tempo e, por isso, os velhos desafios podem converter-se facilmente em novos desafios. Parece-me ser também este o caso.

 

Vejamos, em primeiro lugar, o está em “questão” na emenda proposta pelo deputado francês. Num mundo em que o Outro da garantia e da legitimação não existe (segundo a tese de Lacan, secundada à sua maneira pelo posmodernismo) e em que tudo parece ameaçar a segurança pública, não faltam as comissões de ética[2], num caso, ou os homens de boa vontade e bem intencionados, no outro, para tentar restabelecer a ordem onde impera caos e legislar onde reina o “vazio jurídico”. Tal é o caso da recente emenda proposta pelo deputado francês. Conferindo ao ministro da saúde o poder de fixar por decreto as diferentes categorias de psicoterapia e as condições do exercício profissional, uma tal emenda visava, segundo o promotor da mesma, preencher um “inquietante vazio jurídico que ameaçava a segurança pública”. Na prática, a medida implicaria que as psicoterapias baseadas na fala e na escuta, procedentes em grande parte da psicanálise, acabavam por ser remetidas para fora da lei, primeiro; marginalizadas, depois; e, finalmente, eliminadas. Quem ganharia com isso? Tentando eliminar a “fala e a escuta” não é o “fármaco” que toma definitivamente o seu lugar? E que implicações teria isso para a própria psicanálise: nomeadamente para o sujeito que ela se propõe escutar, para o sintoma de que este se queixa e para o desejo do analista que dirige a cura?

 

Sem querer desacreditar os avanços extraordinários da Medicina ocorridos nos últimos anos devido à “cientifização” da mesma, o que Jacques-Alain Miller tentou mostrar num texto publicado no jornal Le Monde, em 30 de Outubro de 2003, é que há uma especificidade da psicanálise que faz com que os métodos que tiveram sucesso em cancerologia ou em epidemiologia, por exemplo, encontram obstáculos de estrutura em psicanálise. Isto porque, diferentemente do que acontece com o sintoma médico ou psiquiátrico, o sintoma propriamente analítico não é objectivo (por isso não pode traduzir-se num conjunto de números nem ser apreciado de fora), mas depende do sujeito que o diz e, nesse movimento do dizer, o vai construindo em análise. Nessa medida, a própria avaliação da cura é devedora, em grande parte, do testemunho do analisando.

 

É também em nome desta especificidade da psicanálise frente a outros métodos de tratamento (em particular a medicina) que Freud decide escrever o seu texto em 1926.

 

Antes de mais, uma nota sobre o título. Em alemão, o artigo chama-se: Die Frage der Laienanalyse. Ele levanta, desde logo, dois tipos de questões: 1) O que é que está, finalmente, em “questão” (Frage) na Questão? 2) Quem é ou quem são os “leigos” (Laien) a que alude o título?

 

Logo no início da introdução[3], Freud esclarece que “leigo” significa “não-médico” e o que está em causa é saber se deve ou não permitir-se àqueles que não são médicos o exercício da psicanálise.

 

Porque é que surge uma tal questão e qual a circunstância ou o motivo imediato que a suscitam, precisamente nessa altura?

 

Como esclarece Freud no Posfácio publicado em 1927, na sequência de uma discussão organizada sobre o tema, o motivo imediato da redacção do texto foi a acusação de charlatanismo dirigida contra Th. Reik pelas autoridades de Viena. Mesmo se, entretanto, a acusação foi retirada (talvez devido à sua própria inconsistência ou à publicação do artigo de Freud), o que é certo é que essa circunstância deu azo e serviu de ocasião para lançar a discussão sobre os princípios, os meios e os fins da psicanálise. Parece-me haver aqui, de novo, uma similitude (se não de contexto, pelo menos de princípio) entre o que se passou em 1926 em Viena e o ocorrido recentemente em França.

 

Mas subsiste uma pergunta: por que motivo, a dada altura, começa a fazer questão o facto de algumas pessoas que exercem a análise não terem uma formação e, consequentemente, um diploma médico?

 

A ideia parece ser mais ou menos esta: a psicanálise, enquanto método de tratamento de certos distúrbios mentais, deveria ser considerada, muito naturalmente, como uma especialidade médica. É, aliás, uma das perguntas mais frequentemente colocadas pelo interlocutor imparcial com quem Freud dialoga no seu texto: por que não considerar a psicanálise simplesmente como uma especialidade médica?

 

Dentro dessa lógica de raciocínio, é fácil acusar uma pessoa como Th. Reik (aqui constituído em exemplo paradigmático) de charlatanismo e ilegalidade. Com efeito, Th. Reik, fazendo parte da primeira geração de psicanalistas em torno de Freud, caracterizava-se, neste grupo, pelo facto de não ser médico. Ele tinha feito estudos de literatura e psicologia e, aconselhado pelo próprio Freud, desistira de empreender estudos de medicina. Em vez disso, ele submeteu-se a uma análise didáctica, em Berlim, com Karl Abraham. Quando este morre, Reik escreve as Variações psicanalítica sobre um tema de Mahler, onde faz uma análise das suas próprias obsessões musicais. Aliás, diversamente de Freud, que parecia indiferente a esta matéria, Reik foi um dos poucos analistas a interessar-se pela coisa musical. Além da análise propriamente dita, ele interessa-se sobretudo pelas aplicações da psicanálise fora do campo terapêutico[4].

 

Poderíamos perguntar em que medida é que esta questão nos interpela e diz respeito. Ela diz-me respeito a mim, em particular, pois, devido à minha formação inicial (a filosofia), a questão da “laicidade” da análise acabou por colocar-se, de forma inevitável e mais ou menos sintomática, desde que se deu o encontro, há já alguns anos, entre mim e a psicanálise. Ela diz respeito igualmente a todos nós aqui presentes, pois, salvo erro, somos todos “leigos” no sentido indicado pelo texto de Freud. Efectivamente, há aqui analistas e analisandos, pessoas que vêm da literatura e da filosofia, psicólogos, assim como estudantes de psicologia, entre outros, mas creio não haver nenhum médico. Isto poderia ser considerado como um problema (e é assim em certa mediada, pois mostra até que ponto os médicos não se mostraram, até agora, interessados pela orientação da psicanálise que é a nossa, mas também o quanto é ainda preciso trabalhar nesse campo); contudo, o que eu gostaria, para já, de realçar é o facto de que a análise leiga não pode deixar de ser e fazer questão, aqui e agora, para cada um de nós. Nessa medida, não se trata apenas de uma velha e ultrapassada questão, mas de um novo e urgente desafio.

 

Além disso, poderíamos perguntar: será um diploma médico garantia necessária e suficiente para não ser leigo…nesta matéria em particular?

 

Na verdade, temos de começar por distinguir entre dois significados da palavra leigo (laien). Um dos eixos fundamentais do texto de Freud passa, aliás, por essa torção. Ela consiste em distinguir entre o leigo no sentido legal (o que não possui um diploma e uma formação médica) e o leigo no sentido em que este carece de uma formação, uma competência e uma saber-fazer adequados à natureza e à especificidade da matéria com que lida ou se propõe lidar. Neste último sentido, nada garante a priori que o verdadeiro leigo não seja, precisamente, o médico, na justa medida em que este, perante a especificidade da resposta que exige um tratamento propriamente analítico, está tão desarmado, à partida, como qualquer outro. Aliás, num texto publicado em 1910, Sobre a Psicanálise Selvagem[5], o plano de fundo que subjaz ao que aí é apresentado e discutido passa, sem dúvida, por esta advertência preliminar.

 

De que trata esse texto?

 

Abreviando, poderíamos dizer que a personagem (um jovem médico) que ali nos é apresentada constitui o avesso do discurso analítico. De acordo com a regra fundamental, espera-se que o analista se cale enquanto cede a palavra ao analisando; de igual forma, espera-se que ele, em vez de indicar esta ou aquela medida, se abstenha de responder, para que seja o analisando, por si mesmo, a encontrar a solução ajustada à singularidade do seu caso; finalmente, espera-se que o analista dê tempo ao analisando para compreender em vez de sugerir apressadamente este ou aquele sentido para o seu problema.

 

Pois bem. No caso que nos é apresentado por Freud em 1910, nada disto acontece. Perante uma paciente que vem queixar-se de estados de angústia, surgidos na sequência da separação do marido, o jovem médico que a atende, em vez de escutar as razões do sujeito que lhe pede ajuda, propõe-se, de forma apressada e “selvagem”(Wilde), a aconselhar uma das soluções seguintes: reconciliar-se com o marido, arranjar um amante ou auto-satisfazer-se.  

 

Contudo, em vez da melhoria pretendida, esta opinião do jovem médico teve o efeito piorar as coisas: não só não diminuíram os estados de angústia como a doente viu desvanecer-se toda a esperança de cura, uma vez que não queria reatar a sua relação conjugal e as outras duas soluções apontadas, sendo contrárias às suas convicções morais e religiosas, lhe repugnavam. De resto, como Freud vai reconhecer mais à frente, mesmo que um tal conselho estivesse justificado cientificamente (o que não é, evidentemente, o caso), ele seria irrealizável para ela; caso contrário, já o teria feito sem pedir conselhos ou explicações ao médico. É tomar-se numa conta exagerada (como mestre, digamos) pensar o contrário.

 

Curiosamente, o jovem médico, servindo-se do argumento de autoridade, faz apelo às descobertas de Freud, nomeadamente em matéria sexual, para basear o seu diagnóstico. Contra essa interpretação “selvagem”(Wilde) das referidas descobertas, a amiga que acompanhava a paciente em causa lembrou que, tendo ficado viúva muitos anos atrás, nem por isso sofrera de estados de angústia; por conseguinte, a opinião do médico só poderia ser errónea.

 

Sem deixar de salvaguardar a possibilidade de que esta paciente, tal como acontece em geral com qualquer neurótico, não diga toda a verdade sobre o que realmente aconteceu (acabando por projectar na pessoa do médico desejos que pertencem, no fundo, ao que há de mais estranho no seu íntimo), Freud propõe-se analisar o caso supondo que o médico falou realmente como a doente pretendia. Este caso serve aqui de ocasião a Freud para esclarecer uma questão de princípio e separar, dessa forma, as águas entre o que é e não é psicanálise. Trata-se mais, portanto, de um problema de demarcação do que de um gosto por alimentar polémicas estéreis.

 

Grande parte do texto consiste na apresentação de uma série de objecções críticas ao comportamento do jovem médico, aqui tomado como exemplo paradigmático do que não dever ser (tanto no sentido clínico como ético) o procedimento de alguém que se propõe lidar com o sintoma (ou sofrimento alheio) de um ponto de vista psicanalítico. E antes de mais, como objecção de princípio, poderia apontar-se o facto de que em nenhuma das soluções propostas pelo jovem médico haja lugar para a psicanálise.

 

Para além desta objecção de princípio, há outras objecções que Freud não deixa de apontar. Desde logo, a falta de tacto e delicadeza na abordagem de uma questão tão sensível como é a sexualidade. Além disso, o médico interpretou mal toda uma série de teorias psicanalíticas, demonstrado ter avançado muito pouco na compreensão quer da sua natureza, quer das suas finalidades. Ele falha tanto ao nível dos meios (despropositados e sem sentido de oportunidade), como ao nível dos princípios e dos fins.

 

O próprio conceito de “sexualidade” que pode subentender-se na apreciação do jovem médico é pré-analítico e perfeitamente consentâneo com o uso vulgar do mesmo, no qual se confunde o desejo sexual com a necessidade de coito ou de actos análogos que provoquem o orgasmo e a ejaculação de matérias sexuais. Uma tal visão simplista deixa escapar o facto de que as relações sexuais normais não impedem que, do ponto de vista psíquico, não haja relação sexual (ou, como diz Freud, o comércio sexual normal não evita a insatisfação psíquica). Por meio do acto sexual apenas se pode satisfazer uma parte das tendências sexuais insatisfeitas. Se não houvesse, na base da neurose, outros factores (tais como o conflito interno e a resistência), a própria energia libidinal da pulsão indicaria o caminho para a satisfação sem necessitar para nada dos conselhos e das boas intenções do médico. É esquecer que o desejo, no ser humano, um ser falado e falante, não é redutível à necessidade e não tem propriamente um objecto imediato que o satisfaça.

 

Outro erro consiste em supor que o sujeito sofre de ignorância e que bastaria, por isso, comunicar-lhe certos dados acerca das relações causais entre o seu estado actual e, por exemplo, as suas experiências infantis para que o doente não tivesse outra alternativa senão curar-se. Isso é esquecer que o factor patogénico determinante não é propriamente a ignorância, mas as resistências internas (o não querer saber) que a provocaram, da qual depende e que a fazem ainda perdurar. Caso contrário, os doentes curar-se-iam a si próprios, lendo alguns livros ou assistindo a algumas conferências. Seria como tentar matar a fome em tempo de escassez distribuindo belos menus impressos em cartolina. Mesmo se “os olhos também comem”, como diz o povo, é preciso algo de mais “real” para matar a fome.

 

Para comunicar ao doente algo do recalcado, há que respeitar, pelo menos, duas condições: deixar, antes de mais, que seja o próprio sujeito a aproximar-se suficientemente dele, e, igualmente, que se tenha instalado entre o analista e o analisando uma relação de transferência. É neste sentido que se pode falar de um Kairos (de um momento oportuno) da análise e entender o que dizia Jacques-Alain Miller, em 2001, na lição inaugural do seminário de Orientação lacaniana que ele anima: “basta com efeito ser analisado, analista, para poder apreciar que a interpretação é um dizer na ocasião, no momento oportuno, o kairos. O que quer dizer que ‘a formação do analista’, culmina com o espírito do a propósito. Trata-se de produzir alguém com o discernimento, o julgamento, capaz de apreciar convenientemente o caso que se lhe apresenta.”[6]

 

Não basta, portanto, ao médico – eis a conclusão principal a extrair do texto de Freud – conhecer alguns preceitos avulsos da psicanálise. Ele tem de familiarizar-se com a sua técnica (e, naturalmente, com a sua ética) se quer responder capazmente ao desafio novo que cada psicanálise lhe coloca. Ora, isto não pode aprender-se sozinho ou nos livros, mas sob a orientação daqueles que já a dominam.

 

Por conseguinte, aquilo que está fundamentalmente em questão, como escreverá Freud mais tarde, não é “saber se o analista possui um diploma médico, mas se adquiriu a formação particular de que tem necessidade para a prática da psicanálise.”[7] Deste ponto de vista, toda a formação prévia, quer seja médica, psicológica, literária, filosófica ou outra é ainda “leiga” (num dos sentidos apontados) relativamente à matéria específica com que tem de lidar o psicanalista.

 

Surge, então, uma nova questão: qual é, para o psicanalista, a formação mais apropriada?[8]

 

O fio condutor que orienta os principais desenvolvimentos do texto que Freud escreve em 1926 parece-me ser a resposta a essa questão. Tudo o que nele é dito, mesmo se por vezes parece desviar-se por outros caminhos, acaba por desembocar aí. São sete capítulos para dar resposta a uma questão de fundo e não apenas para defender um amigo em apuros.

 

O texto é-nos apresentado não num estilo dogmático, como por vezes acontece com outros textos de Freud, mas antes num estilo dialógico, argumentativo e, até certo ponto, aporético, no sentido em que não se trata propriamente de encerrar a “questão”, mas de abrir e situar as suas coordenadas. Trata-se, antes de mais, de convencer ou persuadir através de argumentos (poderíamos falar aqui das virtualidades da democracia) em vez de impor simplesmente e sem discussão este ou aquele ponto de vista (como pretendeu, curiosamente, fazer-se no caso da “emenda Accoyer”, aproveitando, desta vez, não as virtualidades, mas a “patologia da democracia”).

 

O texto de Freud tem como subtítulo: Conversas com um interlocutor imparcial. E a primeira pergunta poderia ser esta: quem é o “interlocutor imparcial”? Ou, dizendo de outra maneira: se o estilo, como dizia Lacan na abertura dos Escritos, é “o homem a quem nos endereçamos”[9], quem é, neste caso o “homem” a quem se endereça Freud?

 

De acordo com as indicações que ele mesmo nos dá no Posfácio que escreveu em 1927, tratar-se-ia de um alto funcionário, de espírito aberto e de uma integridade pouco comum com o qual ele mesmo tivera uma conversa sobre o caso Reik e a quem enviara, a pedido daquele, um atestado a título pessoal. Numa carta escrita por Freud a K. Abraham, é-nos explicado que esta personagem era o fisiologista Durig, membro do Conselho Superior de Medicina, que havia pedido a opinião de Freud sobre a questão da “análise leiga” (Laien analyse).[10]

 

No fundo, mais importante do que identificar quem era realmente a personagem que serviu de “modelo” à figura do interlocutor imparcial, interessa sobretudo apreender o lugar e a importância que essa figura detém no texto de Freud. Ela é, antes de mais, um outro (a’) com quem se pode conversar. Um outro que tem as suas dúvidas, mas que conserva a mente aberta. Nessa medida, ele é também o Outro (A), como um certo lugar (terceiro) das partes envolvidas no diálogo. Não se trata apenas de um simples interlocutor, mas é suposto ser “imparcial”. Ele é também, portanto, o lugar da verdade.

 

Ora, se esta verdade de aqui se trata não é uma verdade qualquer, mas é relativa à psicanálise, não será o próprio desejo de Freud (enquanto foi ele o inventor da mesma) o objecto que é interrogado através da figura do interlocutor imparcial? A ser assim, essa figura está aí como o lugar de onde se pode interrogar o desejo do analista (x) na sua especificidade (a).

 

É nessa medida que a questão da análise leiga se transforma (e deve transformar) na questão da “laicidade” da análise. Que quer isto dizer?

 

Voltemos ao Posfácio escrito em 1927. A certa altura, Freud, em resposta à questão sobre qual será para o analista a melhor formação, diz o seguinte: “Pensava, e continuo a pensar, que ela não é a que a universidade prescreve ao futuro médico.”[11] As razões que ele invoca para alicerçar esta opinião passam fundamentalmente pelo facto de que uma tal formação, mesmo que proporcione ao futuro analista algo que lhe possa ser útil, dá-lhe igualmente uma série de coisas que não lhe servem para nada. Para além do penoso desvio que implicaria, poderia até desviar o seu interesse do essencial: os fenómenos psíquicos. Em vez disso, o programa de ensino do psicanalista (digamos, a dimensão teórica da sua formação) passaria por coisas tão diversas como: ciências do espírito, psicologia, história da civilização, sociologia, biologia, história da evolução, etc. A medicina, a fazer parte do currículo, não seria nunca condição necessária e suficiente para a formação (tanto teórica como prática) do futuro analista. Além disso, mesmo se é possível utilizar a psicanálise para fins médicos (digamos, terapêuticos), não é aí que reside a sua essência.

 

Todavia, poderia objectar-se o seguinte: não foi a psicanálise inventada por um médico nos seus esforços para ajudar os doentes?

 

É aqui que o desejo de Freud se afirma, essencial e plenamente, como um desejo laico. Na verdade, e após quarenta anos de actividade médica, o que lhe diz o conhecimento que ele tem de si mesmo é que não foi jamais um verdadeiro médico. Tornou-se médico um pouco por acidente, graças  ao desvio forçado de um desígnio original, e o seu triunfo na vida consistiu em ter reencontrado, após um longo desvio, esse desígnio. Aliás, dos seus primeiros anos, não se lembra de ter sentido a necessidade de ajudar as pessoas que sofrem nem brincou ao “doutor”. Mais tarde, na juventude, era a necessidade de compreender os enigmas do mundo aquilo que o movia. A inscrição na faculdade de medicina foi apenas o “meio”, e jamais o fim, para tentar realizar um tal desejo. Por isso, fez todos os exames de medicina sem se interessar por nada de médico.

 

Porém, isto não deve levar-nos a pensar que Freud considere que os médicos são inaptos para o exercício da psicanálise. Mesmo se os analistas médicos sem formação podem ser ainda mais perigosos que os leigos, isto é, os não-médicos – tal como Freud havia já advertido a propósito da “análise selvagem” –, a demarcação essencial não passa por aí. “Na realidade – como diz Freud – a linha de demarcação situa-se entre a psicanálise científica (diríamos hoje: pura) e as suas aplicações no domínio médico (diríamos hoje: psicanálise aplicada ao sintoma) e não médico (ou seja: as conexões da psicanálise, com as artes, as letras e as ciências). Seja como for, o desejo de Freud (e, por conseguinte, o desejo do analista) é, essencialmente, um desejo laico, isto é, não-médico. Daí que os médicos, como tal, não tenham à partida nenhuma vantagem especial em relação aos não-médicos no que toca especificamente à coisa analítica. Aquilo que os pode autorizar a ser analistas não é um diploma médico, mas sim, tal como para todos os outros (quer sejam psicólogos, sociólogos, filósofos, antropólogos ou outra coisa qualquer, segundo a formação prévia de que são detentores), a análise a que foram sujeitos ($) e que levaram até ao fim (a). É nessa medida que, de forma singular para cada um, acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar-se o encontro, dentro ou fora da análise, não apenas com a questão circunstancial da análise leiga (isto é, de esta poder ou não ser conduzida por não-médicos), mas, de forma mais radical, com aquilo que eu chamaria a “laicidade” da análise; quer dizer, com o facto de que o objecto (a) que o analista encarna para permitir ao sujeito ($) produzir os significantes – amos (S1) da sua história não se resolve num acto médico, mas destaca-se por meio de um acto analítico.

 

É a esta especificidade “laica” da análise que o texto de Freud tenta introduzir-nos de forma inevitavelmente aporética e inconclusiva (um pouco à maneira dos primeiros diálogos platónicos, onde se vão deixando um conjunto de pistas sem nunca se dar uma resposta definitiva) e através de uma série de desvios, desta vez essenciais. A razão deve-se, fundamentalmente, ao carácter novo e específico (carecendo, por isso, também de um julgamento novo[12]) da matéria em questão.

 

O texto, além da introdução, é composto por sete capítulos. Na introdução, coloca-se o problema que está em causa (se deve ou não permitir-se àqueles que não são médicos o exercício da psicanálise), e enquadra-se o mesmo segundo as condições do espaço e do tempo. Do tempo, na medida em que, até à data, ninguém se tinha preocupado em saber quem praticava a análise (a ideia era, no fundo, que ninguém a praticava); por isso, exigir que só os médicos possam praticá-la é um facto novo que exige reflexão. De espaço (ou de lugar), na medida em que a questão não se coloca de igual forma em todos os países. Em alguns, o tratamento analítico está reservado por lei aos médicos. O problema é que estes doentes não são como os outros e, por isso, nem os médicos são exactamente o que é legítimo esperar deles nem os “leigos” (os não-médicos) são propriamente leigos (incompetentes) na matéria. Daí que a pergunta inicial tenha uma significação prática e que seja legítimo esperar que a lei não seja aplicada sem modificação. Parece que estamos a ouvir ou a ler as palavras que Jacques-Alain Miller, por exemplo, tem escrito e dito recentemente a propósito da “emenda Accoyer”. Muito actual.

 

Vejamos, resumidamente, o que é tratado em cada um dos sete capítulos que compõem o texto. Poderíamos fazê-lo sob a forma de “questões”. A “questão” da análise leiga desdobra-se aqui numa série de questões.

 

No primeiro capítulo, coloca-se a questão de saber como e até que ponto a psicanálise pode responder ao sofrimento do sujeito (em vez de ficar impotente como a medicina da época) e em que medida essa resposta a difere dos métodos hipnótico-sugestivos.

 

No segundo capítulo, a questão recai sobre a diferença entre a nova (psicanálise) e a velha psicologia (psicologia de universidade) no que toca ao psiquismo (aparelho psíquico e processos mentais).

 

No terceiro capítulo, a pergunta é pelo que faz funcionar (a pulsão) e disfuncionar (o que se traduz na irrupção da doença, do sintoma) o aparelho psíquico (nomeadamente no que concerne às relações entre o Eu e o Isso). Coloca-se ainda a questão acerca do que é visado, finalmente, pela terapia analítica.

 

No quarto capítulo, aborda-se a questão da sexualidade, tanto no que diz respeito à sua natureza e definição, como à importância que ela tem na determinação da neurose, bem como à polémica e resistência que ela tem gerado.

 

No quinto capítulo, a questão abordada é a natureza do tratamento analítico: a interpretação (do material), as resistências (do Eu, do Supereu e do Isso) e a transferência (enquanto mola e obstáculo à análise).

 

No capítulo seguinte, entra-se definitivamente na questão-charneira deste texto, que consiste em mostrar porque é que os charlatães do ponto de vista legal (ou seja, os que não possuem um diploma médico) não são forçosamente os verdadeiros charlatães (isto é, os que não têm conhecimentos e capacidades adequadas para conduzir um tratamento) e porque é que os médicos, num certo sentido, podem ser os verdadeiros charlatães. Por isso, a questão principal, não é ser ou não ser médico, mas ter uma formação adequada ao exercício da psicanálise.

 

Por fim, no último capítulo, começa por colocar-se a questão, digamos, a contrario sensu: onde é que os médicos, apesar de tudo, poderiam ter alguma vantagem sobre os não-médicos (por exemplo, no diagnóstico de certas perturbações cuja natureza não é apenas psíquica, mas tem uma forte componente somática. No entanto, o capítulo termina a defender, por diversas razões, a necessidade de existirem analistas leigos. Mais uma vez, a “laicidade da análise” se mostra como questão essencial.

 

Sem desenvolver exaustivamente todos os aspectos que são abordados por Freud neste texto, vejamos agora as principais ideias de cada capítulo. Sobretudo no que toca mais directamente à questão que nos vem ocupando desde o princípio.

 

Imaginemos, para começar, alguém que sofre de uma série de inibições, de sintomas e de estados de angústia que se tornam insuportáveis e que, por mais insensatos que pareçam, lhe atrapalham e complicam a vida. Essa pessoa vai ao médico e este, examinando os órgãos onde é suposto residir a causa do mal (coração, estômago, intestinos, órgãos genitais, etc.) não encontra nada. Objectivamente, portanto, o problema não existe. Os médicos aconselham então a esta pessoa que altere o modo de vida habitual, que se distraia, que faça desporto ou que tome certos medicamentos tonificantes. Apesar das medidas propostas, não se notam grandes melhorias. O doente ouve então falar de certas pessoas que se ocupam especialmente destes males e entra em análise.

 

Contra a grande expectativa que possamos ter relativamente ao que se passa numa análise (expectativa representada no texto pelo interlocutor imparcial), Freud começa por esclarecer que se trata apenas do seguinte: o analista convoca o paciente a um certo lugar e a uma certa hora do dia, deixa-o falar, escuta-o, depois fala-lhe e deixa-o escutar. Tudo se passa, portanto, em palavras.

 

Pode supor-se aqui uma certa magia da palavra ou então ficar de pé atrás, como Hamlet, perante o facto de se tratar apenas de palavras. No entanto, como relembra Freud, se é magia, ela acaba por perder o encanto, visto que a análise demora o seu tempo e o encanto acaba por se desvanecer. Apesar de tudo, não deve descurar-se o poder da palavra, na medida em que ela tanto pode fazer um bem extraordinário como causar feridas terríveis. Além disso, mesmo se no princípio era a acção (como relembra Goethe), foi um grande progresso cultural quando a acção se moderou e se fez palavra.

 

Contudo, não se trata de convencer o paciente desta magia ou deste poder da palavra. A única coisa que se faz é convidá-lo a ser totalmente sincero e a dizer tudo o que lhe vai na cabeça sem nada excluir. Só dessa forma pode começar a nascer a esperança de que essa palavra não seja “vazia” (retomando aqui um termo de Lacan) e acabe por ter efeitos singulares sobre o sintoma de que o sujeito se queixa.

 

Não é isto idêntico à confissão? Mesmo se esta pode entrar na análise a título “introdutório”, ela distingue-se desta última pelo seguinte: enquanto na confissão o pecador diz o que sabe, na análise o sujeito deve dizer um pouco mais; além disso, a confissão nunca conseguiu eliminar os sintomas relacionados com a doença.

 

O que significa dizer um pouco mais do que aquilo que se sabe? Não se tratará de um efeito de sugestão hipnótica devido à influência que se vai adquirindo sobre o doente ao longo do tempo? Se for este o caso, então o tratamento hipnótico seria melhor, visto que não demora tanto tempo.

 

Só que há uma diferença de fundo: é que o psicanalista não utiliza a sua influência pessoal (o factor sugestivo) para reprimir os sintomas dolorosos como acontece com a sugestão hipnótica. Se alguém se queixa, por exemplo, de um forte sentimento de culpa, o psicanalista não o aconselha, em nome da sua indubitável inocência, a abandonar esse sentimento (isso já ele o tentou em vão), mas adverte-o que uma tal sensação deve fundar-se em algo de “real” que pode descobrir-se. A psicanálise mostra-se aqui, portanto, como uma aposta no real.

 

O primeiro capítulo encerra com uma pergunta do interlocutor imparcial sobre os fins e os meios da análise: quais são as intenções analíticas e o que é empreendido com o paciente.

 

Em vez de responder directamente à pergunta, Freud reformula-a: antes de saber como actua e o que quer o psicanalista (os meios e os fins), é necessário expor os princípios teóricos que orientam essa actuação. Com isto, dá-se início ao segundo capítulo.

 

Até ao momento, a velha psicologia (a psicologia da universidade, segundo a expressão de Freud) fora incapaz de esclarecer fenómenos da mente tais como: ideias obsessivas ou sonhos. Para esclarecer tais fenómenos, é necessária uma nova representação do aparelho psíquico. Não tanto no que diz respeito ao material de que este é feito, mas à articulação e funcionamento das partes (ou instâncias) que o compõem. O aparelho psíquico é uma representação auxiliar, uma “ficção”, cujo valor depende do que se pode obter com ela. É um instrumento construído por diversas partes, em que cada uma tem uma função particular e que conservam entre si uma relação espacial constante.

 

Aquilo que interessa sobretudo a Freud é esclarecer as relações existentes entre duas “instâncias” do aparelho psíquico: o Eu (a organização psíquica intercalada entre as excitações sensoriais e a percepção das necessidades corporais) e o Isso.

 

É curioso, a este propósito, a pergunta do interlocutor imparcial: porque não usar nomes gregos mais sonantes? Efectivamente, na tradução do Ich e do Es freudianos acabou por se adoptar não o grego mas o latim: traduzindo o Eu por Ego e o Es por Id. Ora, a explicação dada por Freud para manter estes termos parece-me deveras interessante, não só porque desmistifica uma certa tendência de alguns para o obscurantismo, como aproxima e situa decisivamente a questão do aparelho psíquico no campo da fala e da linguagem. E diria até: no campo da “língua” de todos os dias, da língua vulgar, a mesma que importunou tantos lógicos e filósofos que a consideravam imperfeita devido às suas equivocidades.

 

Vejamos o que diz Freud a este propósito: “nós gostamos em psicanálise de permanecer em contacto com o pensamento popular (…). O Isso impessoal liga-se directamente a certas formas de expressão do homem normal. Diz-se, por exemplo: “isso fez-me estremecer”; “C’était plus fort que moi””[13]

 

Para além das distinções entre estas duas instâncias do aparelho psíquico (Freud limita-se, de algum modo, a repetir o que já dissera por diversas vezes e em diferentes textos), reforça-se igualmente a ideia de que o Eu não é aquela instância autónoma e independente (como pretendiam certos filósofos, psicólogos e, mais recentemente, certas correntes da psicanálise), mas está intrinsecamente ligado e é dependente do Isso. Ele é a camada externa e periférica do Isso[14]. É uma ideia que vai ser plenamente desenvolvida na última tentativa de sistematização de Freud: o Esboço de Psicanálise.

 

Neste momento, poderíamos colocar a seguinte pergunta: se a questão inicial era se os não-médicos podiam ou não empreender tratamentos psicanalíticos, para quês estes desvios teóricos?

 

Na verdade, a exigência fundamental é a de que quem pense praticar a análise em outros se submeta previamente ele mesmo a uma análise. Só no decurso desta pode nascer a convicção pela qual ele será guiado mais tarde. Por isso, as considerações teóricas são meramente aproximativas e carecem de uma experiência. É esse o valor e o limite da “metapsicologia” freudiana: uma tentativa sempre incompleta de dar conta da experiência.

 

Dito isto, o objectivo final continua a ser o mesmo: explicitar as premissas em que se baseia a análise e o que se empreende com o paciente em particular, para, com base nesses dados, poder decidir acertadamente sobre a questão da análise leiga.

 

O terceiro capítulo introduz um ponto de vista novo a que Freud chama “dinâmico”. À dimensão “tópica” que já havia sido apresentada no capítulo anterior, vem juntar-se agora a dimensão “dinâmica”, ou seja, relativa às “forças” em presença. No fundo, essas forças que põem em acção o aparelho psíquico têm origem no corpo e exprimem as suas grandes necessidades, como a fome e o amor (segundo a expressão de Schiller, que Freud retoma). A estas necessidades corporais, na medida em que elas representam estimulações da actividade psíquica, chama Freud triebe (pulsões).

 

Com as pulsões introduz-se um novo ponto de vista (o económico) e apresenta-se um novo problema: a satisfação. É este o problema fundamental que é desenvolvido ao longo do terceiro capítulo.

 

Por “satisfação” entende-se, antes de mais, a instauração de situações tais em que as necessidades corporais se extinguem. O abaixamento da tensão da necessidade é sentida como prazer, enquanto o aumento se traduz em desprazer. O que parece dominar o aparelho psíquico (segundo a velha tese freudiana) é, portanto o “princípio de prazer”.

 

Se as exigências pulsionais não encontram qualquer satisfação geram estados insuportáveis. Acontece, porém, que a satisfação dessas exigências depende do mundo exterior. É aí que entra em cena o Eu como parte do Isso voltada para o mundo exterior. O que ele faz não é abandonar a exigência de satisfação (o que seria impossível), mas negociar, por assim dizer, uma solução de compromisso, isto é, levar o Isso a adiar ou diferir a satisfação das exigências pulsionais que o habitam. É a isto que se chama a substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade. Este não é, como poderíamos julgar, o fim do “programa” de satisfação, mas antes o seu adiamento ou a sua continuação por outros meios. Prova disso é que o Eu pode intervir no mundo exterior para o mudar e instaurar nele condições que tornem possível a satisfação. Não é esse, afinal, o desejo inconfessado da cultura científico-tecnológica: moldar a “realidade” à forma do fantasma?

 

Nesta forma de compromisso “ideal”, parece não haver lugar para a doença. No entanto, algo falha. O surgimento da doença corresponde a uma falha de funcionamento.

 

Tudo começa na infância, numa altura em que o Eu ainda é pouco diferenciado do Isso e extremamente dependente. Perante uma forte exigência pulsional (sentida como um perigo), o Eu trata o perigo pulsional como se fosse um perigo exterior e faz uma tentativa de fuga. É o que se chama “recalcamento”. O efeito temporário é de evitar o perigo. Mas não se confunde impunemente o interior e o exterior. Aquilo que se “recalca” transforma-se num território intimamente estranha (o que Lacan chamará, no seminário VII, êxtimo). E o problema é que, de ora em diante, já não se pode fugir de si mesmo. Com isto, querendo evitar o perigo e obedecendo ao princípio de prazer, o Eu restringe grandemente o seu poder. A moção pulsional, embora isolada, não fica inactiva e cria novos elos e formações substitutivas (que irrompem no eu e na consciência sob a forma, por exemplo, de sintomas), não deixando nunca de perseguir o objectivo último que é a satisfação.

 

Como vemos, o aparelho psíquico (e as relações mais ou menos conflituosas entre o Eu e o Isso) traduz, no fundo, uma certa maneira de “aparelhar” o problema da satisfação, de dar conta das relações entre o sujeito e o gozo.

 

Sendo assim, qual é o objectivo terapêutico da psicanálise?

 

A ideia de Freud é que se trata de restituir ao Eu (sujeito) um certo domínio sobre o Isso (o gozo), libertando-o dos seus entraves. Ou, como dirá noutras alturas, “onde havia Isso (Es), deve advir o sujeito (Ich)”. Por meio da técnica analítica, procura-se, no fundo, que em vez do recalcamento ou da fuga, o sujeito encontre uma outra solução para o “gozo”. Uma solução, digamos, que não tenha um preço tão gratuitamente elevado. Freud fala mesmo da transformação do “recalcado” numa espécie de “jogo de infância”. Curioso. E com isto termina o capítulo terceiro.

 

No quarto capítulo entra em cena a questão sexual. Esta questão tornou-se um dos principais motivos de escândalo e resistência à psicanálise. Além disso, foi motivo de dissidência de Jung (para quem o sexual não significava sexualidade, mas algo de abstracto, de místico) e de Adler (para quem o sexual não passava de uma manifestação de uma necessidade mais fundamental: a vontade de poder).

 

Neste capítulo recordam-se as principais características da sexualidade: o papel que esta representa na determinação da neurose, a descoberta da sexualidade infantil (onde o “primado do falo”, o desconhecimento do órgão sexual propriamente feminino e, depois, o Complexo de Édipo e as suas vicissitudes, acabam por ser determinantes), além do carácter “difásico” da vida sexual no homem. É ainda neste capítulo que Freud, numa alusão ao livro do explorador Stanley – Through the dark continent –, declara, numa frase que ficou célebre, que a vida da mulher adulta é ainda, para a psicologia, um dark continent[15].

 

Das considerações relativas à sexualidade, decorre que o primeiro objecto do desejo (que se constitui, de alguma forma, em matriz) é incestuoso. Aliás, a mitologia não deixou de o dizer à sua maneira. Os desejos incestuosos, como demonstra a mitologia de todos os povos, são uma herança humana originária e nunca foram completamente ultrapassados.

 

A mitologia não é, porém, a única fonte de informação nesta matéria. Ela deriva, igualmente, do testemunho dos adultos e da observação directa das crianças, ou até mesmo das confirmações acessórias feitas pelos pais por aqueles que se ocuparam das crianças. Como exemplo da análise de uma criança, Freud refere o caso do “pequeno Hans”. Fica, além disso, a ideia de que o futuro pode trazer-nos novidades no que diz respeito à análise de crianças.

 

Seja como for, a ideia que Freud acaba por destacar é a seguinte: “a reconstrução exacta destas experiências esquecidas da infância tem sempre um efeito terapêutico, quer estas permitam ou não uma confirmação objectiva.”[16] Isto porque, como dizia Jacques-Alain Miller no texto já citado anteriormente, “o sintoma no sentido analítico não é objectivo”. Ele não é independente do sujeito que o sofre (a que está sujeitado) e que o diz (ou subjectiva).

 

No capítulo seguinte a questão essencial é a natureza do tratamento analítico. Supõe-se que alguém vem queixar-se das suas misérias e o analista promete-lhe a cura desde que ele se submeta à regra fundamental e diga, sem restrições, não importa o quê. O que se espera, no fim, é que o sujeito, que até aí apenas recalcara e padecera, saiba agora enfrentar as situações e, por assim dizer, desenrascar-se ou sair-se melhor delas que outrora.[17]

 

À pergunta sobre a duração do tratamento, Freud responde que tal se deve ao facto de que o material fornecido pelo paciente é, à partida, tão falho de sentido para o analista como para o paciente. Só trabalhando o “mineral” fornecido é possível extrair, com o tempo, algum “metal” precioso.

 

Mas como se trabalha esta matéria-prima?

 

Antes de mais, é preciso começar por interpretar o material fornecido, pois este não diz, sem deformação, o que quer dizer.

 

E o que nos garante que a interpretação seja correcta e não arbitrária?

 

Respondendo a esta e a outras objecções críticas (frequentemente colocadas por alguns filósofos, por exemplo, Wittgenstein), Freud diz o seguinte: é preciso, antes de mais, que o futuro analista se faça analisar a fundo a ele mesmo. Só nessa medida ele será capaz de acolher sem preconceito o material analítico fornecido, fazendo, dessa forma, interpretações justas e independentes das suas características pessoais. No fundo, trata-se de não confundir os seus problemas com os demais e de não considerar o seu bem como o bem universal. O critério kantiano da universalidade encontra aqui os seus limites.

 

Mas não basta que a interpretação seja adequada, é ainda preciso encontrar o momento oportuno, o Kairos como dizia Miller. Para saber qual é esse momento, não há propriamente uma ciência. Freud fala de “tacto”, o que pode ser afinado por meio da experiência. É aqui que a psicanálise aparece como sendo não uma ciência (exacta), mas uma arte. É por isso também que a psicanálise não se pode aprender nos livros (pois não é um saber “codificável”) mas carece de uma experiência singular. Só essa experiência pode evitar os graves erros que sucedem quando (como vimos a propósito da análise “selvagem”), pretendendo abreviar a análise, não se espera que seja o próprio sujeito a aproximar-se suficientemente delas, mas se lançam as interpretações logo que se encontram. Isto só pode gerar resistência, recusa e indignação, mas não uma mudança efectiva ao nível da relação que o sujeito entretém com o seu sintoma.

 

Contra a tentativa apressada de abreviar a cura, Freud fala-nos a seguir de uma situação algo estranha. Com efeito, quando pensávamos que aquele sujeito que sofre e se queixa dos seus males quer curar-se o mais depressa possível, o que constatamos é exactamente o contrário: o sujeito não quer curar-se. Ou melhor: Ele quer curar-se, mas ao mesmo tempo não quer. Na medida em que o seu eu perdeu a unidade (é um sujeito dividido), ele não consegue elaborar uma vontade unificada que faça coincidir, por assim dizer, o seu querer com o seu desejo. Se não fosse assim, ele não seria neurótico. Ele queixa-se da sua doença, mas utiliza-a com todas as forças. É por isso que a questão da análise leiga é também a questão do “incurável” no seio da cura analítica. Diferentemente do sintoma “médico”, o sintoma propriamente analítico é a expressão de um desejo que não visa, antes de mais, ser curado, mas ser ouvido. Foi essa uma das descobertas fundamentais de Freud desde o princípio e deve-o às mulheres que na altura se chamavam “histéricas”.

 

Sobre as razões que levam alguém a querer estar doente, Freud fala tanto dos benefícios da doença (secundários), como de motivações mais profundas. É aqui que entra em cena uma outra instância do aparelho psíquico a que ainda não tinha sido feita referência anteriormente: o Supereu.

 

O Supereu, embora se situe entre o Eu e o Isso tem uma relação particular com o Isso. Ele é o precipitado dos primeiros investimentos objectais, o herdeiro do Complexo de Édipo, após o abandono deste. Ele pode opor-se ao Eu e tratá-lo duramente como objecto. Tem por isso, como dirá Lacan, mais tarde, um carácter obsceno e feroz. A doença pode tornar-se, para o neurótico, um meio de que o Supereu se serve para satisfazer a necessidade de castigo ou de punição. Como vemos, tal como acontecia ao Eu, igualmente enraizado no Isso, o supereu continua, por outros meios, às vezes bem cruéis, o caminho da satisfação. Aquilo que aparenta ser o avesso da pulsão é, no fundo, apenas a sua outra face, ligada topologicamente (por continuidade) à primeira. Nessa medida, o Supereu – como realçará mais tarde Lacan – é, fundo, um imperativo de gozo.

 

Às forças que se opõem à cura do doente, chama-se “resistência”. Há vários tipos de resistência: do Eu (que se manifesta por meio da angústia), do Supereu (sentimento de culpabilidade) e do Isso (ligada ao processo pulsional). Durante a análise, o trabalho principal consiste na remoção destas várias formas de resistência. A interpretação do material é, deste ponto de vista, uma tarefa secundária. Eis porque o tratamento demora tanto tempo. De resto, todas as tentativas para o encurtar fracassaram. A melhor forma de o encurtar é uma correcta condução do tratamento do princípio ao fim.

 

Para dissolver a resistência o analista conta, entre outras coisas, com a sua influência pessoal. O neurótico mete-se ao trabalho não devido aos conhecimentos intelectuais do seu analista, mas graças à instauração de um sentimento particular para com este. Esta influência “sugestiva” que o analista possa ter sobre o paciente não é utilizada para reprimir os sintomas – no que difere de outros procedimentos psicoterapêuticos – mas como um meio que permite ao sujeito ultrapassar as resistências.

 

A relação sentimental estabelecida com o analista é análoga a um estado amoroso. Apesar do carácter estranho deste amor, não devemos pensar que ele difere muito do amor comum.

 

A princípio, a instauração deste “estranho amor” é boa para a análise, mas com o decorrer desta vai-se tornando incompatível. O amor do paciente não se contenta em obedecer, mas exige, reclama satisfações, requer exclusividade, mostra cada vez mais o seu avesso, a hostilidade e a vingança, quando não consegue levar a água ao moinho. Além disso, ele acaba por extinguir no paciente o interesse pela cura. De algum modo, ele tomou o lugar da neurose e o trabalho da análise teve como resultado a substituição de uma doença por outra.

 

Porém, em vez de fugir, deve tomar-se este amor como objecto mesmo da análise. No fundo, o que se passa é o seguinte: o paciente repete, por meio deste amor, experiências psíquicas que ele viveu anteriormente. Ele transfere para o analista atitudes psíquicas intimamente ligadas à constituição da sua neurose e que estavam disponíveis nele. Por meio disso, o que se revela é o núcleo da história íntima da sua vida. “Ele reproduz de maneira palpável, como actual, em vez de rememorar.”[18]

 

Perante isto, como deve agir o psicanalista? Ceder às exigências da transferência, realizando os desejos que tem o paciente de uma satisfação de ternura e dos sentidos, não é apenas interdito do ponto de vista moral, mas é também, enquanto meio técnico, completamente desajustado para levar a cabo o desígnio analítico. A única saída perante esta situação é conduzir o paciente de regresso ao passado, tal como ele o viveu ou moldou pela actividade fantasmática, com vista a encontrar o modelo primordial desse amor (geralmente, na sua relação com um dos membros do casal parental).

 

Este capítulo termina com uma pergunta e a resposta. A pergunta, feita pelo interlocutor imparcial, é esta: onde se aprende o que é preciso para praticar a análise? Como resposta, Freud, para além de fazer referência aos institutos existentes na altura (Berlim e Viena) ou em vias de constituição (Londres), acaba por dizer algo importante relativamente à questão que vem sendo “assediada” desde o princípio. Com efeito, mesmo se a preparação para a actividade analítica é um trabalho denso e que exige uma grande responsabilidade, aquele que se submeteu a um tal ensinamento, que foi ele próprio analisado, que aprendeu sobre a psicologia do inconsciente o que pode actualmente ser ensinado, que está ao corrente dos conhecimentos relativos à vida sexual e que adquiriu a técnica delicada da psicanálise, a arte da interpretação, a luta contra as resistências e o manejo da transferência, esse já não é um leigo no domínio da psicanálise.

 

No capítulo seis, faz-se uma distinção essencial no que concerne ao termo “charlatão. Do ponto de vista legal, é charlatão aquele que trata os doentes sem poder provar que possui um diploma médico fornecido e aprovado pelo Estado; já de um outro ponto de vista, digamos ético, é charlatão o que empreende tratamentos sem possuir os conhecimentos e as capacidades requeridas para tal. Assim sendo, os médicos podem fornecer à análise um grande número de charlatães. Isto porque um diploma médico, só por si, está longe de garantir que não se trata de um charlatão nesta meteria. A formação que ele recebeu é em grande parte o contrário do que ele necessitaria para se preparar para a psicanálise. A sua atenção foi orientada para realidades, anatómicas, físicas, químicas, etc. objectivamente determináveis. O seu interesse por fenómenos psíquicos não foi despertado. Por isso, quando se trata da prática de curar um neurótico em particular, a sua formação médica não serve para nada.

 

Mas poderíamos perguntar: se para exercer a análise, mais do que um diploma se requer uma formação aprofundada, não poderiam os médicos que se orientarem no sentido da análise fazer uma tal formação?

 

A isto, Freud responde o seguinte: “Ponho o acento sobre a exigência segundo a qual ninguém deve praticar a análise sem ter adquirido o direito por meio de uma formação determinada. Que essa pessoa seja médico ou não, parece-me acessório.”[19]

 

Além disso, querendo interditar a análise aos “leigos”, pode gerar-se até um efeito perverso, sendo a actividade recusada a uma série de pessoas que beneficiaram de uma excelente formação e se aperfeiçoaram admiravelmente na prática e permitida a outros em relação aos quais não existe uma tal garantia.

 

Depois, há ainda um facto de observação: onde existem poucas interdições, elas são cuidadosamente respeitadas; pelo contrário, onde se interdita por tudo e por nada, experimenta-se a tentação de não ligar ou de transgredir. Por isso, mais vale, por enquanto, um certo laissez-faire em vez de um “furor prohibendi”. Afinal, a psicanálise é algo de tão novo no mundo que parece prematuro intervir desde já no seu desenvolvimento por meio de prescrições legais. Era assim no tempo em que Freud escrevia o seu texto, será que a novidade ainda se mantém?

 

No capítulo seguinte, o último, a questão começa por ser colocada ao contrário: se os médicos, apesar de tudo, não teriam uma certa vantagem em relação aos que não são médicos, nomeadamente no que diz respeito ao diagnóstico. Com efeito, saber se um determinado problema é “psicogénico” ou “somatogénico”, se tem origem no psiquismo ou no corpo, parece exigir um parecer médico. É neste sentido que Freud reconhece ao médico o diagnóstico de certos casos relevantes, quando está em causa decidir se certos sintomas, com uma grande componente somática, têm ou não têm uma natureza orgânica.

 

Aliás, no decurso do tratamento, quando estão em causa sintomas “equívocos”, o analista “leigo” não pode dispensar o médico. Isto por três razões: não é fácil reunir numa só pessoa o tratamento orgânico e psíquico; a relação de transferência pode dissuadir o analista a examinar fisicamente o paciente; o analista tem razão em duvidar da sua objectividade, uma vez que o seu interesse está essencialmente voltado para os factores psíquicos.

 

Como se vê, Freud não pretende, com o seu texto, alimentar qualquer tipo de polémica em relação aos médicos. Eles são bem-vindos, desde que não pretendam reduzir a novidade do acto analítico a um acto médico. Todavia, pondo assim o problema, parece que a existência de analistas leigos perde a razão de ser.

 

Freud não é, contudo, da mesma opinião. Segundo ele, há interesse tanto dos doentes como dos médicos, e, last but not least, da própria ciência, que inclui o interesse de todos os futuros doentes.

 

Para o doente, é mais importante que o analista disponha de qualidades pessoais que o tornem digno de confiança e que tenha adquirido o saber, a sagacidade e a experiência que o tornam apto a preencher a tarefa do que ser ou não ser médico. Ora, os analistas “leigos” que hoje praticam a análise não são pessoas quaisquer, mas de uma formação e personalidade eminente. Além do mais, a análise à qual devem submeter-se é o melhor meio e garantia da sua aptidão pessoal para exercer uma actividade tão exigente.

 

No que diz respeito ao interesse médico, parece não haver nenhum ganho em incorporar a psicanálise na medicina. As exigências de tempo e os custos da formação médica já são tão elevados que seria um desperdício de energia sem qualquer justificação económica. Além disso, é até vantajoso para os médicos que esta categoria especial de “terapeutas” os ajude a aliviar o fardo que representam as neuroses, tão extraordinariamente frequentes.

 

Mas há ainda, por último, o interesse da ciência. Por “ciência” entende Freud o que há de específico e irredutível na psicanálise. É aqui que o seu desejo, enquanto ligado, do princípio, ao fim, com a invenção da psicanálise, se mostra intrinsecamente “laico”.

 

Ele não quer que a psicanálise seja absorvida pela medicina, encontrando lugar num tratado de psiquiatria, no capítulo terapêutico, ao lado de procedimentos como: sugestão hipnótica, auto-sugestão, persuasão. A utilização da psicanálise para a terapia das neuroses é apenas uma das suas aplicações e talvez não o mais importante. O seu domínio de aplicações ultrapassa grandemente o interesse médico.

 

Freud termina este capítulo de uma forma optimista, reconhecendo que, independentemente da decisão que for tomada sobre a questão da análise leiga não tem assim tanta importância. Mesmo se pode ter um efeito local (o que talvez já não seja bem o caso na época da “aldeia global”), o que conta, segundo Freud, são as possibilidades de desenvolvimento da psicanálise, e estas não caem sob o golpe de éditos e interditos.

 

Mesmo podendo não estar hoje inteiramente de acordo com Freud, na medida em que, como se viu recentemente em França, o poder político pode constituir um verdadeiro perigo para o desenvolvimento, não só das psicoterapias, mas também da psicanálise, percebe-se o que ele quer dizer. Com efeito, a continuidade da psicanálise, cuja sobrevivência não está, à partida, garantida, dependo mais do desejo decidido de cada um do que dos éditos e interditos que sobre ela possam recair. Foi também esta a lição que o enxame de uns que se gerou recentemente em França em torno de Jacques-Alain Miller pode dar ao mundo.

 

Após tudo aquilo que foi dito, a conclusão poderia esta: aquilo que está em “questão” na análise leiga não é saber se aquele que pratica a análise tem ou não tem um diploma médico, mas se tem ou não tem uma formação adequada.

 

À pergunta sobre se existe uma tal formação, a resposta poderia ser, ao mesmo tempo, sim e não. Sim, na medida em que se deve passar por uma experiência analítica como condição sine qua non do exercício da psicanálise, independentemente das formações que se possa ter adquirido previamente. A experiência analítica é aqui a verdadeira pedra de toque. Não, se quisermos seguir Lacan que dizia: “Não há formação do analista, mas apenas formação do inconsciente”[20]. Que quer isto dizer?

 

No último capítulo do seu texto, a propósito dos analistas didácticos (Lehranalytiker), ou seja, os que entrariam na análise não pelo sintoma, mas, digamos, por um “desejo intelectual de saber”, Freud defende que a formação destes terá de ser particularmente cuidada. No final do capítulo V, fala-se em “dois anos de formação”, e o que falta deve ser adquirido pela prática e pela troca de ideias. Isto quer dizer que se encara o que há de “didáctico” na análise como um ponto de partida e não como um ponto de chegada. Tal sujeito faria uma análise “didáctica” durante um certo tempo e, finda esta, estaria “formado” para analisar o sintoma alheio. Sabemos que Freud, nos últimos anos, se deparou com o problema do interminável da análise[21]. Portanto, a uma formação terminável (ou finita), sucederia uma análise interminável (ou sem fim). Mas não é este, precisamente, o “erro” de Freud?

 

Lacan, pelo contrário, considerava que o “didáctico” de uma análise não é um pressuposto, mas uma consequência. Isto é, uma análise pode ou não revelar-se didáctica. Além disso, achava que a análise pessoal tinha um fim, dando lugar, no caso em que se revelasse didáctica, a uma formação infinita. É nesse sentido que não há formação definitiva (encerrada de uma vez por todas) do analista, uma vez que ele lida com o que há de mais singular, e, como dizia já Aristóteles na Metafísica, “não há ciência do singular”.

 

Nessa medida, todo o verdadeiro analista é “leigo”, não apenas no sentido de “não-médico”, mas também e sobretudo no sentido de que não há saber prévio ou definitivo que lhe valha. Isso porque ele lida com “(…) um particular que não se deixa reabsorver no universal, mas que em vez disso é votado à singularidade, à originalidade, à bizarria do caso a caso.”[22]

 

É por isso que o analista não actua a partir do que sabe (S2), mas a partir do que é ou do que encarna como objecto (a) para um sujeito ($) que produz, em análise, os significantes singulares (S1) da sua história.

 

 

 

 

 

 


 

[1] O que tem passado por diversas iniciativas, tais como: fóruns públicos, entrevistas nos media, artigos de jornal, a recente criação da Association pour la Psychanalyse Laïque, etc.

[2] Cf. Éric Laurent e Jacques-Alain Miller, “L’Autre qui n’existe pas e ses comités d’éthique », in La Cause Freudienne, nº. 35, Diffussion Navarin Seuil, Fevereiro de 97.

[3] Cf. Freud, La Question de L’analyse Profane, Collection Folio/Essais, Gallimard, Paris, 1985.

[4] Mais do que uma psicanálise aplicada (ao sintoma), trata-se, aqui, portanto, dos usos da psicanálise “fora dos muros” (segundo uma expressão utilizada no número 54 da revista La Cause Freudienne).

[5] Sigmund Freud, “El Psicoanálisis ‘Silvestre’”, in Obras Completas, Tomo II, Biblioteca Nueva, Madrid, 1996.

[6] Cf. La cause Freudienne, número 52, Diffusion Navarin Seuil, Novembro 2002, p. 14. É talvez nesse sentido que deve entender-se a referência que Lacan faz ao « Zen » na lição inaugural do Seminário I.

[7] Sigmund Freud, La Question de L’analyse Profane (Postface), Collection Folio/Essais, Gallimard, Paris, 1985, p. 143.

 

[8] Cf. S. Freud, Ibidem.

[9] Cf. Lacan, Escritos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, p. 9

[10] Cf. La Question de l’analyse Profane (prefáce), op. cit., pp. 7-8.

[11] S. Freud, La Question de L’analyse Profane (Postface), op. cit., p. 143.

[12] Cf. Freud, “Postface”, op. Cit., p. 142: “O problema da análise leiga não pode ser decidido conforme aos usos tradicionais, mas resulta de uma situação inédita e requer por isso um julgamento novo.”

[13] Op. Cit., p. 46.

[14] Cf. Freud, op. Cit., p. 51.

[15] Cf. Freud, op. Cit., p. 75.

[16] S. FREUD, op. Cit., p. 82

[17] Cf. S. Freud, op. Cit., p. 86.

[18] S. Freud, op. Cit., p. 100.

[19] S. Freud, op. Cit., pp. 112-113.

[20] Citado por Jacques-Alain M iller, La Cause Freudienne, nº 52, op. cit., p. 10.

[21] Cf. Freud, “L’analyse avec fin et l’analyse sans fin », in Résultats, idées, problèmes, II, Puf, Paris, 1985.

[22] Jacques-Alain Miller, La Cause freudienne, nº 52, op. cit., p. 7.