CARTA ACF

 

Do Intratável

 

Filipe Pereirinha 

 

Alguém sugeriu, ao ler o título que eu dei à minha comunicação, que se tratava de um paradoxo; na verdade – dizia essa pessoa – como tratar do “intratável”? Seja como for, é disso mesmo que eu me proponho hoje tratar.

Começo por uma anedota. Conta-se que certo dia, Diógenes, o Cínico, foi abordado por Alexandre, o Grande, que o admirava profunda e sinceramente. Querendo fazer algo por ele, Alexandre sugeriu-lhe que formulasse um desejo. Diógenes, impassível e descaradamente, retorquiu-lhe apenas: “Afasta-te do meu sol”. Eis uma primeira ilustração – cínica – do que pode ser o “intratável”: o desarme completo do outro que, cheio de boa vontade, pretende o nosso bem.

Tenho ouvido também, ultimamente, a seguinte frase, dirigida ao meu filho pequeno: “Hoje estás intratável!” Neste caso, o intratável diz respeito, simultaneamente, quer ao objecto do desabafo (o meu filho que se torna, em certos dias, difícil de aturar), quer ao sujeito do mesmo (o qual, impotente e desalentado, não sabe, nessas ocasiões, como lidar com ele).

Freud, em 1937, parece encontrar-se numa posição um tanto ou quanto análoga a esta; não porque tenha de cuidar de uma criança pequena, mas porque a sua invenção, a psicanálise, que entretanto crescera e se expandira, chegou, do ponto de vista clínico, a uma espécie de obstáculo intransponível (intratável) contra o qual vem embater a análise, que arrisca tornar-se, por isso, interminável. Os dois sexos, cada qual à sua maneira (o homem recusando permanecer passivo diante de um outro homem e as mulheres mantendo, no inconsciente, o que Freud chama a inveja do pénis), recusariam, desta forma, a castração que os feminizaria. Esta rocha da castração (como Freud lhe chama[1]) constituiria, assim, uma espécie de limite insuperável do percurso analítico. De tal forma que Freud é levado a perguntar – questão que analisa ao longo de todo o artigo – se, finalmente, a análise tem ou não tem um fim.

A palavra fim não é aqui unívoca: tanto pode significar uma mera interrupção do tratamento (sem que o mesmo tenha chegado a uma conclusão lógica) como, igualmente, o alvo que é visado, por princípio, numa análise; a saber: levá-la até às suas últimas consequências. Seja como for, o obstáculo anteriormente assinalado (a castração) parece dar conta de um impasse que, por esta altura, se mostrava sem fim à vista.

No entanto, talvez seja pertinente colocar, desde logo, a seguinte questão: será a psicanálise, enquanto tal, que se mostra aqui sem fim (interminável), ou é, pelo contrário, a sua vocação terapêutica (de curar) que é posta em questão? No dizer de Freud, aquilo que se visa é  apenas “(…) explicitar os limites que existem para a eficácia da terapia analítica.”[2] Uma tal formulação estabelece, desde logo, uma diferença entre a psicanálise propriamente dita e as psicoterapias.

Isto não significa pretender que a psicanálise não tenha efeitos terapêuticos, simplesmente esses efeitos vêm por acréscimo e não constituem o seu princípio ético[3]. É o incurável (como princípio) o que é visado numa cura propriamente analítica, na medida em que esta diz respeito – como assinalava Lacan em 1955 – “ao que há de mais particular no sujeito”. É esta singularidade radical – ou esta “diferença absoluta” (como lhe chama Lacan no final do seminário de 1964[4]) – que faz objecção a toda a ética do bem comum. Talvez não fosse, por isso, inteiramente descabido falar aqui do “intratável” da singularidade.

A princípio, porém, se voltarmos a Freud, as coisas eram um pouco diferentes. Ao pessimismo dos últimos escritos (apoiado na rocha da castração), correspondia, nessa altura, um optimismo triunfante. Freud acabara de inventar, com a psicanálise, um meio de tratar o que até aí permanecera basicamente intratável. Para tal, bastara supor uma causalidade psíquica para aquilo que, do ponto de vista médico, permanecia estranho e incompreensível: o sintoma neurótico.

Nestes primeiros tempos, a psicanálise apresenta-se, assim, como uma nova psicoterapia. De facto, o que preocupa Freud, por esta altura, não é tanto separar a psicanálise da psicoterapia (ainda que haja o cuidado de especificar a psicoterapia analítica relativamente aos métodos sugestivos usados por outros), mas, acima de tudo, de distinguir entre a psicanálise e a medicina. Em vez de uma intervenção directa sobre o corpo ou da suposição de uma causalidade anatómico-fisiológica, a terapêutica analítica funda-se, desde logo, na causalidade psíquica e na hipótese do inconsciente. É sobre esta base que Freud vai construindo o edifício desse novo método de tratamento que ele inventara.

Contudo, após a euforia inicial, Freud depara com algo de que não estava à espera. Contrariamente a toda a expectativa – visto que eles se queixam dos seus sintomas, como um corpo estranho que os incomoda e embaraça – os doentes resistem à cura[5]. No capítulo V da “Questão da Análise Profana” – texto de 1926 – Freud não deixa de realçar esta estranheza, ao resumir o que se passa genericamente numa análise. O sujeito vem queixar-se, perante o psicanalista, das suas misérias (do que não vai bem na sua vida) e este promete-lhe a cura, desde que ele se submeta à regra fundamental que manda dizer não importa o quê. Ora, é precisamente ao longo deste processo, necessariamente complexo e demorado, que o psicanalista encontra algo de espantoso: “o doente não quer sobretudo curar-se”[6],  ou então: “ele quer seguramente curar-se, mas ao mesmo tempo não quer.”[7]

Esta estranha resistência à cura (quando tudo parecia indicar o contrário) vai receber, em 1923, no capítulo V do artigo intitulado “O Eu e o Isso”, o nome de reacção terapêutica negativa. É, se quisermos dizer as coisas assim, um dos nomes freudianos do incurável.

Mas porque resiste o sujeito?

Aparentemente, há aqui um contra-senso. Na verdade, se o sintoma incomoda e atrapalha o sujeito – a prova é que ele se queixa – por que razão, quando as coisas parecem caminhar no sentido de uma melhoria,  aquele se opõe à cura, como se houvesse nele, a par de uma vontade de curar-se, um desejo, mais veemente e incompreensível, de permanecer doente?

Para além dos diversos “benefícios secundários” que uma doença pode proporcionar (por exemplo, se estamos doentes não vamos trabalhar e temos mais atenções por parte daqueles que nos são queridos; ou seja, temporariamente, o “princípio de prazer” recupera o domínio sobre o “princípio de realidade), seria legítimo ainda perguntar se não haverá, por assim dizer, um outro benefício mais primária da doença.

Para responder a uma tal questão, impõe-se, antes de mais, voltar a interrogar o sintoma psicanalítico. Se é certo, a partir da Conferência 17 da Introdução à Psicanálise, que “cada sintoma tem um sentido”[8], resta ainda determinar qual a natureza do mesmo. Ora, num importante artigo escrito em 1926 – Inibição, sintoma e Angústia – Freud dá a seguinte definição do sintoma: “signo e substituto de uma satisfação pulsional que não ocorreu”.

Há nesta definição crucial do sintoma o reconhecimento de que este não é apenas o sinal de um desarranjo ou de uma disfunção, nem mesmo uma forma indirecta de fazer chegar uma mensagem a alguém (ainda que ambos os aspectos possam estar, sem dúvida, presentes), mas é também o signo e o substituto de uma satisfação. Ora, acontece que se esta satisfação pulsional (esperada) não ocorreu, o signo tem aqui um estatuto algo paradoxal. Na verdade, ele não comemora uma satisfação que tivesse ocorrido no passado (pois tal não foi o caso), mas repete, em vez disso, a expectativa de uma tal satisfação. Por isso, a haver aqui saudade (forma aportuguesada de ler o signo freudiano), seria mais uma saudade do futuro (onde se projecta a miragem de uma satisfação) do que a saudade do passado.

Para além de signo, o sintoma é também substituto. Um substituto é o que vem no lugar de algo, que faz as vezes de algo. Assim, mais do que aquilo que falta (que está ausente), é aquilo que supre (que está presente). Ora, como diz o povo, “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Quer dizer: mais vale uma satisfação substitutiva do que satisfação nenhuma. É por isso, talvez, que o sintoma é tão renitente: é que ele não é apenas o alerta do que não funciona, mas também, apesar de tudo, um modo de funcionamento e de satisfação. O seu sentido é, afinal, o gozo que proporciona, mesmo se esse gozo é um gozo paradoxal. O sintoma, para além de tudo o mais, é então, essencialmente, uma modalidade de gozo.

Eis uma das razões por que ele resiste e não se vai embora tão facilmente como seria de esperar. É por isso que Freud não se contenta com a visão daqueles que pensam que a mera supressão dos sintomas significa a cura do paciente. Mesmo quando desapareceram os sintomas, resta ainda, segundo ele, “a capacidade de formar novos sintomas.”[9]  Para lá da supressão (ou da cura) deste ou daquele sintoma em particular, a capacidade de formar novos sintomas parece, em si mesma, incurável. De tal forma que poderíamos perguntar-nos se o fim da “cura” analítica não visa, precisamente, confrontar o sujeito com esse incurável. Seria uma forma de entender as coisas. A outra, igualmente possível – e talvez na sequência da anterior – seria permitir ao sujeito chegar até  a um limite tal em que o velho sintoma (não só o que o faz sofrer e que o divide, mas também o que não pára de repetir o mesmo) cede o lugar à invenção, singular e contingente, de um novo sintoma, o qual repete, desta vez, não o mesmo, mas a diferença, a diferença absoluta de que falava Lacan no final do Seminário XI. Vendo as coisas por este prisma, não se trataria propriamente de curar o sintoma (mesmo se a supressão ou a alteração de muitos deles pode vir como um acréscimo da cura psicanalítica), mas antes de transformar decisivamente a relação que o sujeito mantém com ele.

Para além da reacção terapêutica negativa e do sintoma, a repetição é um outro nome freudiano para incurável. No fundo, talvez pudéssemos dizer que todos estes nomes não são mais do que diferentes aproximações a um mesmo problema fundamental: por que razão o sujeito, queixando-se embora do sintoma que lhe atrapalha a vida, resiste à cura, como se sentisse a “aproximação desta última como um perigo”?[10] e, em vez de recordar, repete?[11]

Num artigo de 1914, Freud apresenta-nos o conceito de repetição (Wiederholung) da seguinte forma: “Quando a cura começa sob o patrocínio de uma transferência positiva (…) permite-nos penetrar a princípio, profundamente, nas recordações, como acontecia antes com a hipnose (…). Porém quando o curso ulterior da análise se torna hostil ou muito intensa esta transferência, a recordação é substituída pelo acto da repetição, e, a partir deste momento, as resistências vão marcando a sucessão das repetições. O paciente extrai do arsenal do passado as armas com as quais se defende contra a continuação da cura (…).”[12]

Se, neste caso, o conceito de repetição parece dizer apenas respeito a uma dificuldade  técnica  e circunstancial detectada no decurso da análise de certos pacientes, já a retomada da questão por Freud, em 1920, vai bastante mais longe. Com efeito, para dar conta de toda uma série de fenómenos repetitivos desprazerosos (que põem em causa, portanto, a hegemonia do princípio de prazer, tal como fora avançado anteriormente), Freud vê-se obrigado a formular a hipótese de uma Compulsão à repetição (Wiederholungszwang): “algo que parece mais primitivo, mais elementar, mais pulsional que o princípio de prazer”.[13]

Esta hipótese arrasta consigo outras duas: a hipótese de uma Pulsão de morte (Todestrieb) e de um masoquismo primordial. São estes, talvez, os verdadeiros nomes freudianos do incurável. Se a reacção terapêutica negativa e o sintoma (enquanto este tem um sentido inconsciente), e até mesmo a repetição (enquanto esta é apenas um outro meio de dizer, em acto, aquilo que não foi dito em palavras), se apresentavam mais como dificuldades da própria cura psicanalítica (no que esta se distingue de todas as outras), do que efectivas expressões do incurável, com a Pulsão de morte (e o masoquismo primordial), este (o incurável) adquire uma dimensão por assim dizer mais radical e estrutural. Ele não é mais, apenas, uma dificuldade de facto, mas é elevado, por assim dizer, a questão de direito

Mas que estranho termo, este, de Pulsão de morte?

De tal forma é assim, que a maior parte dos pós-freudianos (sendo Lacan uma das raras excepções), não sabendo o que fazer com esse estranho conceito, o quiseram pura e simplesmente eliminar como intratável. Porém, se voltarmos a ler com atenção o artigo de 1920, onde surge pela primeira vez este conceito[14], verificamos que a questão não é puramente especulativa ou metafísica, mas antes clínica e metapsicológica; ou seja, trata-se de nomear, com um termo porventura paradoxal, o que há de mais íntimo e simultaneamente estranho no coração do ser falado e falante (parlêtre). Com efeito, do ponto de vista da pulsão, todo o ideal soa a falso e toda a mania de curar (furor sanandi) encontra o seu limite. A pulsão de morte é o nome, por excelência, desse limite.

***

Podemos encontrar uma boa ilustração do que é a pulsão de morte num conto de Herman Melville intitulado “Bartleby, o Escrivão”[15]. De todas as criações literárias, esta é, porventura, uma das mais estranhas e singulares.

O interesse que este conto e esta personagem (Bartleby) provocaram em escritores  (M. Blanchot, por exemplo), filósofos (os casos de G. Deleuze e G. Agamben), psicanalistas (Jacques Hassoun, Catherine Lazarus-Matet, entre outros) parece mostrar, antes de mais, que o âmbito da letra (veremos como isto é importante) ultrapassa o domínio da literatura.

A estranha personagem de que se fala neste conto, é-nos apresentada da seguinte maneira: um certo advogado de Wall Street, devido ao avolumar inesperado de trabalho que uma promoção recente lhe trouxera, decide acrescentar um terceiro aos dois escrivães que com ele trabalhavam. Bartleby é o nome deste terceiro escrivão e é-nos apresentado, genericamente, como uma figura pálida e asseada, inspirando piedade, mas respeitável.[16]

A princípio, portanto, nada de muito extraordinário. Aliás, devido ao seu temperamento, ele é até suposto constituir uma influência positiva para os outros dois copistas, cada qual com a sua excentricidade. Com efeito, um deles, Turkey, era zeloso no seu trabalho durante a manhã, mas tornava-se inflamável e trapalhão à tarde, enquanto o outro, Nippers, pelo contrário, permanecia irritável e nervoso durante toda a manhã, acalmando depois do almoço. De certo modo, eles complementavam-se nas suas pequenas “manias”. Era uma espécie de “arranjo natural”, pois, deste modo, o advogado nunca tinha de lidar com as duas excentricidades ao mesmo tempo. Mas, por outro lado, também não podia contar com eles, alternadamente, numa parte do dia. Neste contexto, percebe-se a felicidade com que o advogado contrata Bartleby: “um homem tão singularmente pacato” teria, sem dúvida, “uma influência benéfica sobre o temperamento caprichoso de Turkey e o outro, arrebatado, de Nippers”[17].

Porém, desde o princípio, há certos indícios que fazem prever o pior. Bartleby apresenta-se “sem referências”. É alguém que, diferentemente dos outros dois copistas, não tem algo de particular (uma qualidade, um traço) que o identifique, que o torne de algum modo reconhecível. Não dá para o “alcunhar” como Turkey (Peru) ou Nippers (Tenazes)[18]. Ele é, verdadeiramente, um “homem sem qualidades”.

Além disso, havia algo desconforme na sua maneira de trabalhar. Por um lado, parecia o exemplar perfeito do trabalhador ideal (aquele que tanto agrada ao discurso capitalista), pois trabalhava noite e dia sem cessar (como o inconsciente, de resto), sem pausa para o almoço ou para a digestão, copiando à luz do sol e da vela, como se andasse esfomeado por copiar. Porém, ao mesmo tempo, ele não revelava qualquer alegria no trabalho, mas escrevia silenciosa, apagada e mecanicamente.[19]

No entanto, apesar de “incuravelmente desamparado” – no dizer do advogado – ele não se queixa, não reivindica, não é exigente (segundo uma expressão que o próprio vai usar mais tarde). Ele não tem, por isso, sintoma. Diferentemente do sujeito neurótico, esta personagem não se apresenta como estando dividida por um sintoma. É por isso, talvez, que seja correcto dizer, como faz Deleuze no ensaio que dedicou a esta obra, que a psicose de Bartleby escapa à neurose do velho mundo[20].

Se ele não tem sintoma[21], ele é, no entanto, sintoma. É sintoma porque faz sintoma para o Outro. A começar, para o advogado, que se vai sentindo cada vez mais impotente e desarmado para lidar com o comportamento desta estranha personagem; mas também nos outros dois copistas, Turkey e Nippers, que vão sendo contagiados por esse comportamento;  e em nós, finalmente, leitores e intérpretes desta obra enigmática.

Uma das coisas mais interessantes, em meu entender, deste conto de Melville, é a relação (talvez fosse melhor dizer a não-relação) que se estabelece entre Bartleby e o advogado. Desde o princípio que este se apresenta como alguém tranquilo, seguro, prudente, metódico e que raramente perde a calma. Ora, é neste contexto de mestria que surge uma estranheza, primeiro, depois um incómodo, em seguida um embaraço e, por fim, uma verdadeira conversão. O comportamento de Bartleby, primeiro na sua actividade frenética, mas irracional e sem entusiasmo, depois, a partir de certa altura, na sua inactividade, provoca no advogado reviravoltas sucessivas que o fazem deslizar progressivamente de uma atitude prepotente e de mestria (aquele que sabe o que fazer e que tem o poder para tal) para uma atitude de compreensão e simpatia (pelo sofrimento deste ser desamparado e solitário) e, por fim, até uma atitude de revolta e impotência por já não saber o que fazer. É aliás, constante, a pergunta, de estilo kantiano, por parte do advogado: Que hei-de fazer, que devo fazer?[22] Porém, contrariamente a Kant, cuja ética desemboca na universalidade, neste caso, estamos perante uma absoluta e radical singularidade, irredutível a qualquer universal, mas também a toda a ética da simpatia e a toda a psicologia da compreensão.

O que faz, então, Bartleby? Apenas uma coisa: escreve. Na medida em que não tem sintoma (não se queixa), também não fala. Esta personagem quase não fala, ainda que faça falar abundantemente os outros. Aquilo que ela diz, como veremos, é quase nada. Da mesma forma que não diz quase nada, também não come quase nada. Isso vai-se tornando cada vez mais evidente até ao dia em que deixa de comer seja o que for. Há aqui algo que nos lembra, por momentos, essa estranha figura e esse estranho sintoma que a anorexia nos apresenta quando, para salvar a todo o custo o desejo (que é, no fundo, um desejo de nada) se sacrifica toda a necessidade, comendo-se literalmente nada.

Bartleby escreve cem cessar (uma boa definição do sintoma) até que, ao terceiro dia, cessa de escrever. Quando o advogado, perante a necessidade de conferir o trabalho copiado, chama por Bartleby, este, em vez de corresponder ao chamamento, pronuncia apenas, com voz singularmente suave e firme, uma frase enigmática, que deixa estupefacto o advogado: I would prefer not to (preferia não).

Sobre a correcção gramatical desta frase, já se disse e escreveu bastante. Deleuze, por exemplo, dedica-lhe alguns parágrafos do seu estudo. Basicamente, ele considera que, se bem que a sua correcção sintáctica não esteja em causa, ela introduz uma certa “agramaticalidade” ou “uma espécie de língua estrangeira na língua”, na medida em que o seu uso não é corrente no inglês vulgar. Ela parece virar, assim, a língua vulgar do avesso, introduzindo, nesta, alíngua (lalangue), como escrevia Lacan numa só palavra. Ou seja: a estranha fórmula usada por Bartleby para responder ao advogado, permanece, paradoxalmente, impossível de formalizar. Ela é, assim, a presença de uma real (enquanto este é impossível) no limite extremo da lógica e da linguagem.

É talvez por isso que esta fórmula tem gerado um sem número de interpretações, arriscando-se, também neste domínio, uma espécie de análise sem fim. Porém, não devemos esquecer-nos de que se trata apenas de uma fórmula literal que “não quer dizer mais do que aquilo que diz literalmente.[23]A instância da letra não é aqui redutível à via do sentido.

Literalmente, esta fórmula termina de maneira abrupta (fazendo-nos lembrar as “frases interrompidas” do presidente Schreber), como se o sujeito quisesse dizer algo mais do que aquilo que diz efectivamente. É também o que pensa, a princípio, o advogado. Mas, como vai ficando cada vez mais claro ao longo das intervenções de Bartleby, tal não é o caso. Ele limita-se a repetir uma série de vezes a mesma fórmula, com ligeiras alterações que não acrescentam qualitativamente nada de novo. Em vez de um progressivo esclarecimento (segundo o sonho do iluminismo), a fórmula torna-se cada vez mais sombria, mais obscura. Ela vai provocando não apenas mais efeitos de estranheza nos outros (advogado, copistas, leitores) como desencadeia, ao mesmo tempo, um processo imparável e irreversível no próprio. A partir do momento em que utiliza pela primeira vez a fórmula (ou seja: em que é instado pelo advogado a falar, a responder por aquilo que faz mecânica e automaticamente), Bartleby não só não responde (pois aquilo que ele diz não pode ser considerado, com justeza, uma resposta), como deixa até, a certa altura (mais propriamente, a partir da oitava ocorrência) de fazer aquilo que ele vinha fazendo silenciosamente, isto é, copiar. Dá-se aqui um último desprendimento do sujeito em relação ao Outro. Apesar de tudo, a cópia era ainda o fio débil que o mantinha suspenso dos significantes alheios. A partir do momento em que deixa de escrever, a solidão do sujeito torna-se irremediável. O Outro não existe, há apenas um. O que nos faz perguntar se a escrita, na sua função literal (para aquém ou para além da significação), não suprirá, de algum modo, para os sujeitos que não falam, o défice da fala. Exemplos não faltariam. Vejam-se os casos de Schreber e de Rousseau, que se viram na necessidade de testemunhar da autenticidade dos seus “casos” por meio da escrita, respectivamente, das “Memórias” e das “Confissões”. Mas também, o caso de James Joyce, que decidiu – não sem um gozo muito especial – virar toda a literatura ocidental do avesso. Ou, para concluir, do nosso Fernando Pessoa, que se viu obrigado, como se cumprisse um castigo, a fazer do sintoma toda uma literatura. Nestes casos, parece que a letra tem, no campo da linguagem, uma função de (real) correspondente à função que a fala tem, no mesmo campo, para outros casos.

Quando Bartleby é obrigado a falar, a esclarecer-se, a justificar-se, ele pronuncia a fórmula enigmática: “preferia não”. A partir daí, tudo começa a resvalar. A não-relação (ou o mau encontro, se quisermos), entre Bartleby e o advogado torna-se cada vez mais evidente e incontornável. Sempre que há a tentativa, por parte deste, de fazer uma aproximação, um fosso maior é cavado entre eles. O advogado-patrão sente-se cada vez mais desarmado, desconcertado e aturdido. Até que, por fim, tendo chegado a um limite extremo (eis uma diferença entre o sem limites para que Bartleby nos transporta e os limites onde se move o advogado), abandona Bartleby ao seu destino, não sem um misto de sentimentos contraditórios. Aquele acaba por deixar-se levar para a prisão, sem oferecer resistência, e aí viver durante algum tempo, sem se alimentar, e por fim morrer.

A fórmula que Bartleby emprega é paradoxal por diversas razões. Em primeiro lugar, ela não constata um estado de coisas nem pretende ser uma declaração de intenção que vise a execução desta ou daquela actividade. Se a primeira parte parece querer afirmar algo (preferia), já a segunda nega ou suspende aquilo que acabara de afirmar. Ela não parece ser, nesse caso, nem uma afirmação, nem uma negação, mas um domínio algo neutro, entre a afirmação e a negação, estabelecendo uma espécie de “zona de indeterminação”[24] entre as duas. G. Agamben, servindo-se da noção de “potência” em Aristóteles, considerou que estávamos perante uma “pura e absoluta potência”[25]. Com efeito, na formulação da estranha preferência de Bartleby, toda a possibilidade fica em aberto, sem que este ou aquele acto concreto venham limitar a pura “indeterminação” da mesma.

Poderíamos pensar, com base no texto de Freud sobre “A Denegação” (Die Verneinung), que se trata aqui de algo semelhante. Isso porque também aí se trata de negar aquilo que fora anteriormente afirmado. Por exemplo, quando, no decorrer de uma sessão de análise, o sujeito conta (afirma, portanto) um sonho em que entra a sua mãe, e logo diz: “Não é a minha mãe”[26], é certo, segundo Freud, que se trata da sua mãe. A negação serve aqui como uma tentativa (segunda) de recalcar o que o sonho e a fala do paciente deixara passar. Ora, no caso da fórmula de Bartleby, tal não parece ser o caso. O resultado da denegação é um sujeito, necessariamente dividido, entre o que não queria dizer e o que disse, apesar de tudo. Quanto à formula empregue por Bartleby, ela nega (not to), mas o quê? Na verdade, a primeira parte da fórmula (I would prefer), não afirma nada de concreto, nenhum romance familiar, nada que diga respeito ao papá e à mamã.

O que preferia, então, Bartleby?

Bartleby parece saber que não se pode deixar de escolher, de preferir. É este o princípio mesmo daquilo que Lacan chamava alienação no Seminário XI[27]. Para o sujeito se constituir como tal, ele tem de escolher necessariamente, o que implica uma perda estrutural. Por exemplo, entre “a bolsa ou a vida”, se ele escolhe a bolsa, acaba por perder as duas e se escolhe a vida, acaba por ter uma vida desfalcada da bolsa. Há um outro exemplo mais radical que consiste em pôr num dos lados da alternativa a liberdade e no outro a morte e em que se vê que a única liberdade que resta ao sujeito é a liberdade para morrer. Será este o sentido da escolha de Bartleby?

No fundo, se pensarmos bem, o que Bartleby preferia é não ter que escolher; não ter que escolher nem uma nem outra coisa. O que ele recusa, no fim de contas, é a própria alienação significante enquanto esta é o destino comum ao ser falado e falante. Ele escolhe não (ter de ) escolher. Paradoxalmente, ele vive completamente alienado aos significantes do Outro (na medida em que se limita a copiá-los, a transcrevê-los maquinalmente, sem poder reinventá-los). Mas até mesmo este último vínculo (embora frágil) que o ligava ao Outro, acaba por se romper. E é nessa altura que, “a letra é a Coisa”,[28] já não restando mais distância entre as duas.

Quase a finalizar a narração, é lembrado um vago rumor que corria sobre Bartleby. Ele fora, supostamente, funcionário subalterno dos Refugos Postais (em inglês: Dead Letter Office), tendo sido subitamente afastado devido a uma mudança administrativa. Tal como estas cartas (letters) que não chegam ao seu destino e são destruídas (cartas mortas), também Bartleby, recusando a alienação, se transforma, literalmente, numa carta (letra) morta.

No entanto, Bartleby não é um caso clínico (mesmo se ele pode ilustrar diversas estruturas clínicas), é uma personagem de ficção (mesmo se esta pode fornecer a estrutura da verdade[29]). Daí que valha, talvez, a pena ir um pouco mais além e perguntar se esta repetição da fórmula, mais do que uma expressão de um sujeito particular (Bartleby), não é antes, até  pelo seu carácter paradoxal,  a fórmula da própria repetição, no que esta tem de pulsional e irredutível. “Eu preferia não” (I would prefer not to) seria idêntico, neste caso, à “Compulsão de repetição” (Widerholungszwang). Poderíamos, então, escrever: “Bartleby ou a Pulsão de Morte”[30]. É aqui que todo o ideal e todo o sentido encontram o seu limite.

No entanto, tal como nos mostra o autor deste conto, Melville, que continuou a escrever para além do destino pulsional (ou do desfecho) que deu a esta personagem, há outros usos para a letra e outros destinos para a pulsão que não acabam, forçosamente, como este.

 


[1] CF. Freud, “Analisis terminable e interminable”, in Obras Completas, Biblioteca Nueva, Madrid, 1996, pp.3364.

[2] Ibidem, p. 3349.

[3] Cf. Lacan, “Variantes de la Cure-type”, in Écrits (1966), Paris, Seuil, p. 324.

[4] Cf. Lacan, Le Séminaire, Livre XI, Éditions du Seuil (collection « Points Essais »), Paris, Fevereiro de 1973, p. 303 : « Le désir de analyse n’est pas un désir pur. Cést un désir d’obtenir la différence absolue (…) ».

[5] Cf. Freud, Cinq Leçons sure Psychanalyse, Payot, Paris, 1966, pp. 59-60.

[6] Cf. Freud, La Question de L’analyse Profane, Paris, Gallimard, 1985, p. 90.

[7] Freud, op. cit., p. 91.

[8] Cf. Freud, Introduction à la Psychanalyse, Éditions Payot, Paris, 1961, pp. 239 e sgs.

[9] Cf. Freud, op. cit., p. 337.

[10] Cf. Freud, “Le Moi et le Ça », in Essais de Psychanalyse, Éditions Payot, Paris, 1981, p. 264.

[11] Cf. Freud, “Recuerdo, Repeticion y Elaboration”, in Obras Completas, op. Cit., p. 1684.

[12] Ibidem, p. 1685.

[13] Freud, “Além do Princípio de Prazer”, in Textos Essenciais de Psicanálise, Volume I, Publicações Europa-América, Lisboa, S/D, p. 242.

[14] Ver anterior.

[15] No original: “Bartleby the Scrivener”, in Bartleby and Benito Cereno, Dover Publications, New York, 1990 (tradução portuguesa de Gil de Carvalho, Assírio e Alvim, Lisboa, 1988).

[16] Cf. tradução potuguesa, p. 27.

[17] Cf. tradução portuguesa, p. 27.

[18] Há ainda um outro ajudante, moço de recados, que tem igualmente uma alcunha: Ginger Nut (Bolo de Gengibre). Este último tem, aparentemente, um papel secundário; no entanto, é curioso como a sua alcunha, Bolo de Gengibre, é também o nome da única coisa que Bartleby, de forma cada vez mais rara, comia.

[19] Op. cit., p. 28.

[20] Cf. G. Deleuze, “Bartleby ou la Formule”, in Critique et Clinique, Les Éditions du Minuit, Paris, 1993, p. 100.

[21] Num sentido propriamente psicanalítico podemos dizer que não há sintoma sem subjectivação.

[22] Veja-se, por exemplo, a página 64 da tradução portuguesa.

[23] Cf. Deleuze, op. cit., p. 89.

[24] Cf. Deleuze, op. cit., p. 92.

[25] Citado por António Bento (Universidade da Beira Interior) em “I would prefer not to” – Bartleby, a fórmula e a palavra de ordem” (http://bocc.ubi.pt/pag/bento-antonio-bartleby.html)

[26] Cf. Freud, “La Négation”, in La Psychanalyse, textes essentiels (Roland Chemama), Larousse, 1996, pp. 468 e sgs.

[27] Cf. Lacan, “Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse” (1964), Éditions du Seuil (Collection « Points Essais »), Paris, 1973

[28] Cf. Jacques-Alain Miller, “Ironia”, in Clínica de las Psicosis, Uno por Uno, Janeiro/Março de 1993, pp. 8-9.

[29] Sabe-se, com alguma certeza, que a ideia de “Bartleby” surgiu de um amigo de juventude de Melville, de seu nome Eli James Murdock Fly, que, sem um único tostão no bolso, encontrou um trabalho de copista em Nova Iorque, e que passava, de acordo com uma informação achada na correspondência com Melville, “todo o dia a escrever, de manhã até à noite”.

[30] É esta, de resto, a proposta de Catherine Lazarus-Matet (Cf. “Le Choix de Bartleby ou la pulsion de mort selon Hernan Melville”, in Ornicar digital).