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COMEÇOU O SÉCULO XXI João Peneda |
A 11 de Setembro de 2001 teve lugar o maior atentado terrorista de todos os tempos. Um acto de barbárie sem precedentes, pelo número de vítimas, pela ousadia e pela escala da operação. O propósito foi claro, ferir a América no seu orgulho, atingindo violentamente os símbolos da sua hegemonia económica, militar e política. Se o acontecimento acabou por ser mediado como nenhum outro, as atenções recaíram sobre o ataque e a derrocada do World Trade Center. As imagens foram difundidas em directo para todo o mundo. Em poucos minutos, o que antes era o símbolo do poder económico, ficou reduzido a escombros. Todos vimos como os Estados Unidos, antes inexpugnáveis no seu território, foram violentamente abalados pela acção de um grupo terrorista.
Se até aqui não nos sentíamos ainda definitivamente instalados no século XXI, pois bem, a 11 de Setembro, começou tragicamente o novo século e porventura uma nova era. Foi também a Primeira Guerra Mundial que cortou definitivamente com o século XIX. A pergunta que se impõe é, no fundo, se estamos a lidar com meras contingências da história ou se existe aqui um sinal dos tempos que importa clarificar?
Antes de mais, o 11 de Setembro comprova que o que até então parecia impossível pode ocorrer. Quando os americanos se mostravam capazes de exorcizar o fantasma de Pearl Harbour, eis que é desferido um ataque às pérolas da sua nação. Nem mesmo Hollywood foi capaz de imaginar tal cenário. O impensável ocorreu, o real superou em muito a ficção. Um ataque kamikase dirigido contra os símbolos do poder americano, nomeadamente do capitalismo triunfante (WTC). As imagens traumáticas a que todos assistimos atónitos expuseram uma superpotência vulnerável aos ataques perpetrados por terroristas sem rosto. O episódio trágico provou que não existem lugares a salvo do terrorismo e que América deixou de ser um porto de abrigo. Foi através do velho expediente do cavalo de Tróia que os terroristas furaram todos os sistemas de controlo mais sofisticados. Recorreram aos meios do adversário para o combaterem no seu interior. Sinal de que a tecnologia não é uma garantia absoluta, pois pode ser posta ao serviço de propósitos ignóbeis.
Em resposta, ouvimos vezes sem conta a ideia de um ataque da barbárie contra a civilização. A oposição é enganadora, porque sugere que o acto bárbaro é estranho ao mundo civilizado. Para o efeito, basta lembrar que as duas Grandes Guerras, onde a barbárie atingiu níveis impensáveis, foram desencadeadas e tiveram lugar nos países mais civilizados da época. Ainda que seja uma resposta sempre à mão, o maniqueísmo nunca deu verdadeiramente conta da realidade humana. Pois, atribuir a tragédia a uma espécie de substância maléfica, diabolizar, acaba por reproduzir e alimentar a violência que se quer neutralizar. Retaliar segundo a lógica de olho por olho seria para o mundo civilizado ceder à tentação de regredir à condição do adversário, e assim perder a autoridade moral que lhe assiste.
A par do combate ao terrorismo e do inevitável reforço da segurança, importa contribuir activamente para resolver a réstia de violência que é gerada pela própria ordem civilizada actual. Ordem que tem assentado num só pilar e que tem defendido com altivez os interesses e o bem-estar económico de alguns em prejuízo de muitos. Não foi certamente por acaso que o primeiro ataque e o mais decidido tenha sido dirigido contra o maior templo comercial do mundo, o malogrado World Trade Center.
12-9-2001