Kawasaki

"CINCO MULHERES À VOLTA DE UTAMARO"

DE KENJI MIZOGUCHI

João Peneda

"Cinco mulheres à volta de Utamaro" de Mizoguchi é um filme sobre a beleza feminina enquanto objecto pictórico. O pintor Utamaro (1753-1806), na sua busca da beleza, persegue a feminilidade, a "essência da mulher", o que não deixa de ser uma incontornável metáfora do próprio acto criador, da causa da criação artística.

À partida, temos um Utamaro virtuoso, rodeado de discípulos, um artista capaz, como nenhum outro, de acrescentar vida e movimento aos seus retratos femininos. Em contraste, as estampas dos outros pintores manifestam uma completa ausência de vida, isto ao ponto do representado merecer o epíteto de "monstro". Por essa razão, o talento de Utamaro traz-lhe alguns dissabores. Um pintor de uma escola de arte rival sente-se gravemente ofendido na sua honra e desafia Utamaro para um duelo de morte. Utamaro desloca a contenda para a pintura, triunfando uma vez mais através da sua arte.

Mas se Utamaro não tem adversário na arte de pintar, já o objecto da sua pintura, o feminino, constitui para ele o grande desafio, uma procura sem fim. Nesse ponto, não deixa de se mostrar desorientado, revelando grandes hesitações. Na busca obstinada da essência do feminino, Utamaro chega mesmo a pintar uma imagem de mulher no torso de uma modelo (Takasode), para assim, honrando a beleza das costas desnudas, tentar desesperadamente fazer coincidir a representação com o representado.

Numa outra ocasião, e na tentativa de aplacar o desejo do pintor pelo feminino, os amigos de Utamaro propõe-lhe observar secretamente o banho das mulheres de um senhor aristocrata. O pintor japonês é agora confrontado com uma paleta de mulheres cortesãs muito belas. Aqui a câmara percorre com rapidez o harém como se de uma mera série se tratasse.

Subitamente, a imagem fixa-se numa certa mulher, Oran, "a mais bela mulher do mundo", o que faz despertar o olhar de Utamaro, julgando ter encontrado finalmente o que sempre procurou ("A mulher"). O pintor pede a Oran que se deixe representar, que se disponha a ser a matéria da futura "obra-prima". Muito entusiasmado, toca a sua modelo para melhor lhe captar as medidas do dorso e observa ainda atentamente as suas melhores vistas.

É muito interessante aqui a caracterização do olhar masculino por parte de Mizoguchi. Um olhar quase omnipresente e que fragmenta o seu objecto, atento às partes, às vistas (costas, perfil), em fim, às fracções do corpo. Numa cena burlesca, o amigo do pintor confessa o seu agrado pelas "vistas muito belas da sua companheira". Entretanto o pintor é condenado por excesso de ousadia na execução das suas estampas, permanecerá 50 dias com as mãos amarradas, o que só fará crescer o seu desejo de pintar, de se relançar na busca da beleza feminina.

Das cinco mulheres do pintor, é Okita que lhe abre finalmente, e do modo mais inesperado, o acesso à essência do feminino. Okita, que antes se interrogava sobre o amor, acabou por levar o seu amor por Shozaburô até às últimas consequências, assassinou o companheiro que a abandonou, matou a sua rival (Takasode) e dispôs-se a ser punida pelo seu acto criminoso.

Mais tarde, Okita relata ao pintor a devastação amorosa que a levou a consumar o acto. Nas restantes mulheres de Utamaro, esta confissão tem um efeito de revelador, elas choram de empatia, revendo-se no destino trágico de Okita. Identificadas com a desventura de Okita, as mulheres de Utamaro afirmam que finalmente os seus olhos se abriram.

O que Okita demonstrou com o seu acto foi que é no amor sem concessões que reside a natureza da feminilidade. Okita, que não foi objecto de representação, é quem revela assim, no seu acto violento, a essência do feminino e, por consequência, a sua beleza. Utamaro já não precisa de procurar mais, o acto de Okita facultou-lhe por fim o acesso à natureza do feminino, natureza indissociável da desolação amorosa de cada mulher.

Mizoguchi encena aqui uma peculiar coincidência dessa falta insaciável que causa o amor com o vazio que alimenta o acto criador. De agora em diante, Utamaro não terá mais hesitações, não cessará de pintar a beleza singular de cada mulher, uma por uma. O filme termina com uma sequência de alguns dos seus trabalhos mais belos.