SEMINÁRIO 

Antena do Campo Freudiano

2017-2018

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10h-12h : O primeiro ensino de Lacan

Responsável: José Martinho

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12h-14 h O último ensino de Lacan

Responsável: Filipe Pereirinha

 

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SEMINÁRIO ABERTO 1

 

O primeiro ensino de Lacan

leitura e comentário do Seminário I[1]

 

     Começo por dizer algumas palavras sobre o título genérico do Seminário ACF deste ano, que será animado em dois tempos por mim e o Filipe Pereirinha: o “primeiro” e o “último” ensino de Lacan referem à ordem de leitura do percurso de Lacan estabelecida por Jacques-Alain Miller.

 Em Le tout-dernier Lacan Miller apontou ainda para um “ultimissimo” ensino, e há já quem se tenha lembrado de escrever e publicar sobre o que seria o “primeiríssimo” ensino de Lacan, o seu ensino como médico psiquiatra, amigo dos surrealistas, mas no qual podemos também incluir o ensino que corresponde aos primeiros anos da sua análise - no quadro da Sociedade Psicanalítica de Paris -, que começa em 1932.

 Podemos sempre criticar ou não querer seguir a ordem de leitura proposta por Jacques-Alain Miller. Podemos perder a sua preciosa orientação, mas também simplificá-la, como fez o Filipe numa recente apresentação do seu Seminário, onde reduz os muitos possíveis Lacan a dois. É destes dois que nós os dois vamos falar numa espécie de torção borromeana, no meu caso girando em torno do Seminário I, Os Escritos Técnicos de Freud.

 Porquê esta minha escolha do Seminário I?

 Apesar de se reunir há cerca de dez anos com os analistas da SPP mais interessados no estudo das Cinco Psicanálises de Freud (Lacan trabalhou muito particularmente os casos do Homem dos Lobos, do Homem dos Ratos e de Dora em Seminários no hospital Sant’Anne consagrados ao “retorno a Freud”), exposto em Roma (1953) o célebre Relatório intitulado A Função e o Campo da Fala e da Linguagem na Psicanálise, e proferido a sua conferência sobre O Simbólico, o Imaginário e o Real (1953), o Seminário I (1953-54) é, do ponto de vista do seu “verdadeiro ensino” como psicanalista, o primeiro da série dos 27 Seminários que têm vindo a ser publicados pelo seu “executor testamentário”, Jacques-Alain Miller.

 Lacan prossegue o estudo dos casos de Freud no Seminário III (sobre Schreber), no Seminário IV (Pequeno Hans) e um pouco por todos os outros Seminários. Ele pensa que Freud trouxe essa literatura mas que já não interessa mais expor e comentar casos clínicos como um romance ou mito individual do neurótico, pois a verdadeira psicanálise está para além desta retórica. Lacan julga que os casos de Freud bastam para o efeito, que o seu ensino se situa num outro plano, que também não é o da ciência.

 Queria ainda lembrar que o Seminário I veio a lume (Edições do Seuil, 1975) durante a vida de Lacan, logo que este pôde dar o seu aval à ordem de publicação dos Seminários proposta por J-A Miller.

 O último Seminário da série, o 26°, é a A topologia e o tempo (1978-79). É verdade que Lacan deu mais três lições de um novo Seminário, intitulado Dissolution (1979-80), mas este foi por assim dizer o acto de dissolução da referida série dos Seminários e, ao mesmo tempo, da dissolução da Escola Freudiana de Paris (5 de Janeiro de 1980), instituição que Lacan disse, em 1964, ter fundado, sozinho, na sua relação com a causa analítica. Neste momento de concluir Lacan-o-fora-de-série dissolve, pois, o seu ensino e a sua Escola.

 Alguns anos antes da dita-solução, no Seminário XXIII (1975-76), Lacan retomou o “sozinho” fundador de 1964 afirmando que aquilo que tinha inventado se reduzia finalmente ao sinthome. É a solidão sintomática que faz com que Lacan não tenha podido legar realmente mais nada aos seus alunos senão o exemplo de um saber-fazer com o seu sinthome.

 O velho Lacan deixou-os deste modo num patatras (carta à EFP de 26 de Janeiro de 1981), termo que designa o estardalhaço que faz o corpo que cai violentamente no chão, mas também um jogo de sociedade (tric-trac), que se perde quando caiem os bonecos que se foram encaixando em montanha russa.

 Assim, é até um certo ponto normal que seja também a um jogo de sociedade que se tenha livrado o monte (tas) de psicanalistas e associações que se reclamaram em seguida do ensino do morto.

 Ao mesmo tempo que evocou o patatras, Lacan deu carta-branca a todos os que entendessem retomar o seu testemunho na estafeta da psicanálise, cabendo desde logo a cada um saber-fazer invenção do seu sintoma ou mostrar a sua mais-valia.

 Mas antes de falecer Lacan lançou ainda para o ar duas ideias: a primeira é que não se deixasse que os discursos dominantes - o do amo moderno ou do capitalista e o da ciência, e, nos lugares onde a burocracia domina, o discurso universitário - assassinassem a psicanálise. Convidou deste modo aqueles que lutavam pelo discurso do analista a prosseguir a reconquista do “campo freudiano”. A segunda ideia, associada à primeira, foi que se criasse uma nova base de operações onde os mais decididos a lutar pelo discurso do analista pudessem se associar; evocando então a Causa freudiana, disse: “a Causa terá a sua Escola” (carta à EFP de 23 de Outubro de 1980).

 Falecido em 9 de Setembro de 1981, já não foi Lacan, mas Jacques-Alain Miller que acabou por fundar a Escola da Causa Freudiana de Paris no final de 1981.

 A EFP durou 16 anos e a ECF tem já 37 anos. Da primeira pouco restou. Alguns nomes, muita polémica, nenhuma literatura.

O que é uma verdadeira Escola de psicanalistas? Há partida podemos dizer que é uma instituição que reúne artificial ou oficialmente uma multidão de sintomas. Jacques-Alain Miller adiantou, em 21 de Maio de 2000, na chamada “teoria de Turim” (http://www.causefreudienne.net/theoriedeturin/), que esta é apenas a etapa final da constituição legal do sujeito de direito coletivo que é uma Escola, pois o que basicamente interessa é que a transferência de trabalho que aí se fomenta devenha o sujeito suposto saber dos membros que a Escola representará. O saber produzido (no lugar da verdade) é então um excelente critério para avaliar a excelência de uma Escola. Por esta razão também a ACF sempre apostou na produção de um saber que transmita o ensino de Lacan com o máximo rigor.

 Os “lacanianos” que na altura deixaram de ter acesso direto a Lacan e entenderam que era melhor afastar-se da ECF formaram uma espessa nebulosa, onde acabou por emergir um grupo que se designa atualmente por Associação Lacaniana Internacional (ALI). Se apenas me refiro a este grupo entre os demais é por ser a ele que pertence o Centro Português de Psicanálise, criado nos anos 1990 em Lisboa por Maria Belo, a tradutora portuguesa do Seminário I (Edições Dom Quixote, 1986).

 A história da vinda a lume em Portugal do Seminário 1 - o único dos Seminários de Lacan até hoje publicado  - foi tortuosa. As Edições Dom Quixote tinham comprado numa Feira do Livro os direitos de tradução dos Seminários de Lacan e convidaram a Maria Belo para fazer essa tradução. O livro já tinha sido traduzido no Brasil (Zahar, 1979) por Betty Milan, mas Jacques-Alain queria na altura que fosse um outro brasileiro a traduzir os Seminários. Também não queria que fosse a Maria Belo a fazer a tradução portuguesa do Seminário 1. Depois de um certo número de peripécias, Miller acabou por pedir que fosse eu - então o único português do Campo Freudiano, mas residindo em Paris - a fazer essa tradução; como não me mostrei disponível, pediu-me que, ao menos, supervisionasse o trabalho da Maria Belo. Acabei por aceitar um pouco contrariado a tarefa de que me incumbia, pois não podia demitir-me completamente da responsabilidade de introduzir finalmente o ensino de Lacan em Portugal pela via do Seminário. As Edições Dom Quixote não se mostraram muito favoráveis a que eu entrasse nesta negociação. Finalmente aceitaram o que Miller e as Edições do Seuil lhes exigiam, mas foi um problema para fazer as coisas como deviam ser, por exemplo para colocar um elefante na capa do livro; também não fizeram as alterações que propus à tradução da Maria Belo. O volume acabou por sair sem essas alterações. Editaram posteriormente uma errata, mas que não foi devidamente distribuída pelas livrarias. Depois publicaram uma segunda edição sem elefante na capa. Como vêem, tenho uma velha e ingrata relação com o Seminário I.

 Todas estas peripécias não impedem que vá me servir deste Seminário para vos falar este ano do primeiro ensino de Lacan.

 Como está mencionado na primeira edição francesa do Seminário 1, só possuímos 22 aulas de Lacan, já que faltam as lições do final do ano de 1953.

 J.-A. Miller dividiu a sua transcrição desse ensino oral de Lacan em cinco grandes capítulos. Depois da Abertura, em que Lacan apresenta o psicanalista como uma espécie de Mestre Zen, o 1º capitulo tem como título “O momento da resistência”, o 2º capitulo vai desenvolver a “tópica do imaginário”, o 3º caminha “Para além da psicologia”, o 4º fala dos “Os impasses de Michael Balint”, e o 5º é sobre “A fala na transferência”.

 O capítulo 1 distingue, entre outras coisas, a “análise do discurso” e a “análise do eu”, distinção que Lacan sobrepõe à distinção clássica entre “análise do material” e “análise das resistências”. O material da talking cure consiste nas palavras que chegam ao analista pela via da fala do analisando. A análise do discurso (ou do desejo) mobiliza a estrutura e as leis da linguagem, enquanto a análise das resistências se debruça sobre o Ego ou Eu psicológico do sujeito que fala.

 A interrogação sobre o Eu conduz Lacan a uma re-elaboração da tópica do imaginário (2º capitulo), a qual estava anteriormente centrada no “estádio do espelho” (1936-45). O desenvolvimento desta tópica obriga Lacan a recordar aos presentes os três sistemas de referência que introduzira numa conferência de 1953:  O Simbólico (S), o Imaginário (I) e o Real (R). O Seminário I vai reafirma a primazia do Simbólico - nomeadamente das leis matemáticas - sobre o Imaginário, mas também sobre o que pode se apreender do Real.

 Ao mesmo tempo que retoma as três dimensões, S, I e R, Lacan vai se afastando de tudo aquilo que se chama “psicologia” (3º capitulo).

 A descoberta freudiana do Inconsciente encontra-se para além da psicologia. Lacan denunciará sempre qualquer inclusão da psicanálise na Psicologia Geral. Na p.127 dos Écrits encontramos por exemplo isto: Nous les voyons donc, sous toutes sortes de formes qui vont du piétisme aux idéaux de l’efficience la plus vulgaire (…) se réfugier sous l’aile d’un psychologisme qui, chosifiant l’être humain, irait à des méfaits auprès desquels ceux du scientisme physicien ne seraient plus que bagatelles.

 Foi infelizmente este rumo psicologisante que seguiram muitos psicanalistas, a começar pelo próprio analista de Lacan, Rudolph Löwenstein, um dos promotores da Ego Psychology nos EUA. Entende-se que Lacan não tenha querido a dada altura prosseguir a sua análise com Löwenstein, já que este não analisava para além do reforço do Ego.

 Depois de citar os impasses de vários outros colegas da IPA (Anna Freud, Melanie Klein, Annie Reich, Jean Bergler, Otto Fenichel, Ernst Kris, etc.), o capítulo 4 tece uma crítica de Michael Balint, a propósito da confusão que este prolonga entre “relação de objecto” e “relação inter-humana”.

 O 5º capítulo vai finalmente formular o conceito da análise como praxis e não como “técnica”.

 

Abertura

 

No início do seu verdadeiro ensino Lacan diz que que o analista se tornou um símbolo, e que é como tal que ocupa o lugar prevalecente do Mestre na análise.

O analista detém o poder face à impotência do sujeito, dirige ou orienta a “cura pela palavra”; mas ocupa também o lugar do antigo sábio, pois atua como Mestre na busca verdade de quem o/a procura. O Mestre aqui não é um professor, não ensina ex cathedra, apenas facilita a resposta do sujeito à pergunta que o mobiliza e define, mas só quando este já está prestes a encontrar esta resposta.

 Por conseguinte não se trata de um Mestre no sentido das figuras da mestria da civilização ocidental, antiga ou clássica, como o pater familias romano ou o Principe de Maquiavel; também não é o Filho de Deus com a sua mensagem evangélica, mas uma nova espécie de Mestre budista. O Mestre Zen não dá lições nem conselhos a quem o procura e segue, limita-se a causar o desejo do discípulo, como o analista deve causar o desejo do analisando de levar a sua análise até ao fim.

 Mais tarde Lacan atribui explicitamente o lugar do Mestre ao saber inconsciente e, depois, ao objeto a.

 No Seminário 1 o Mestre encaminha a procura da verdade do sujeito pela via da fala. Lacan diz que ele quebra o silêncio com um sarcasmo ou outra banalidade qualquer. Esta interrupção do silêncio equivale a uma interpretação.

 Tradicionalmente a interpretação é a operação da busca do sentido que falta através da palavra.

 Falar já é interpretar. Contrariamente ao que alguns afirmam, o analista não deve falar demais, nem de menos: “Muitas vezes o analista acredita que a pedra filosofal do seu ofício consiste em calar-se. O que eu digo lá é bastante conhecido. É de qualquer maneira um erro, um desvio, o fato de que os analistas falam pouco” (Jacques Lacan in Universidade de Columbia, 1975)

 O Seminário 1 sublinha a importância da procura freudiana do sentido face à exigência positivista que reinava na época. Afirma, no entanto, que aquilo que ensina não é propriamente a procurar o sentido (por exemplo o sentido inconsciente de um sonho), mas, fundamentalmente, como o Mestre Zen, a dar um pontapé em todo o sistema.

 Como já referi é a “série” (n+1) que se inicia no Seminário I  que substitui o “sistema” no ensino de Lacan (e não a sua “teoria” como alguns gostam de dizer).

 Lacan insiste no facto que Freud também não tinha nenhum sistema, que ele era contra toda Weltanschauung, toda a cosmovisão ou mundovivência. O mundo não existe, como coisa-em-si, pois, como pretendia Schopenhauer, tem sempre por detrás a vontade e a representação. Freud defendeu o primado da “realidade psíquica” para dizer que cada um tem um mundo ou vive no seu mundo. Pela mesma razão a verdade que se procura na análise é a verdade de um só e não a verdade de todo o mundo.

 O fato do texto do inventor da psicanálise possuir uma face dogmática não implica que deva ser lido como um dogma gasto, assim como fez Anna Freud. Permanentemente aberto à revisão, podemos dizer que, por detrás da ortodoxia freudiana, há uma heresia fundamental.

 Isso lê-se nas palavras de Freud enquanto são animadas por um movimento dialético, aberto ao diálogo e à história. Encontramos aqui o Freud hegeliano do primeiro Lacan.

 O Hegel em questão não é o Filósofo do Saber Absoluto, do Círculo dos Círculos ou Sistema do Sistemas, mas o jovem Hegel da Fenomenologia do Espírito, tal como o ensinaram em França Alexandre Kojève e depois Jean Hyppolite. Lacan mantém nesta altura um frutífero diálogo com Hyppolite, e este vem e intervém no Seminário de Lacan.

 Trata-se do Hegel que põe em relevo - com a famosa dialética do Senhor e do Escravo - que o objeto do desejo não é uma coisa, mas um outro desejo. Aquilo que o desejo deseja é o seu reconhecimento por outro desejo. Hegel mostra que este reconhecimento não pode ser unicamente viável pela via do medo e/da luta à morte, que o desejo só realiza o seu reconhecimento de modo universal pela mediação da linguagem e do trabalho. Encontramos aqui uma ilustração do que leva o primeiro Lacan a dizer que o desejo é o “desejo do outro”.

 Não é a mesma palavra que designa o desejo em Hegel (Begierd), em Freud (Wunsch) e em Lacan (désir), mas é a mesma coisa que cada um trata à sua maneira.

 No início dos anos 1960 Lacan fala também do Wunsch como o “desejo de Freud”. Explica por exemplo no Seminário XI como este é crucial para se entender a própria emergência da psicanálise.

 Mas já no Seminário 1 refere o problema dizendo que há quem prefira explicar o nascimento da psicanálise e toda a obra de Freud pela sua vida, por exemplo fazendo de Freud um reflexo do seu século. Mas não basta escrever a biografia de Freud e reconstruir a História da Psicanálise para saber o que esta é e praticá-la.

 Há um “acontecimento Freud”. Mas o que interessa Lacan aqui é sobretudo o que Freud começou a fazer depois de ter inventado a psicanálise, e finalmente o que fazem os psicanalistas quando fazem psicanálise (S1, Seuil. p.16).

 Um primeiro ponto realçado por Lacan é que a psicanálise não é uma ciência, que Freud, como psicanalista, não realiza um trabalho cientifico, nem faz investigação laboratorial como fazia antes. Mesmo se teve uma sólida formação científica, e se serviu da ciência para por vezes colocar um limite à fantasia, Freud nunca foi cientista.

 Lacan diz-nos que até parece que Freud prefere regredir na história, andar à procura da origem, voltar ao pensamento mais arcaico, pré-científico, por exemplo quando se dedica, como os antigos oniriocríticos, à revelação do sentido dos sonhos.

 Na verdade trata-se de outra coisa, da emergência da psicanálise como saber novo, um saber inconsciente, a situar na falha entre o saber antigo, mítico-retórico, e o saber moderno, científico.

 Aquilo que interessa o inventor da psicanálise não são os fenómenos físicos e a sua explicação por um sistema de forças, de ações e reações, como lhe ensinaram os seus mestres Brück, Ludwig, Helmholtz, Du Bois-Reymond. Não se trata para Freud de psicofísica, mas da subjetividade.

 A subjetividade freudiana não é caracterizada pela função de síntese ou a plena consciência de si, mas pelo Wunsch, o voto, o desejo recalcado que retorna, e que faz com que o sujeito sonhe, cometa lapsos, atos falhos. É esse desejo que a análise oferece a oportunidade de falar.

 É tomando a palavra no lugar da consciência que o desejo inconsciente pode vir a ser reconhecido Este reconhecimento é finalmente o reconhecimento, pelo Outro, do que é à partida uma exigência de satisfação pulsional, mas que arrasta consigo as antinomias da infância, os sabores e dissabores da sexualidade, as incongruências da vida quotidiana, as relações com outrem, com o meio, com a própria vida.

 Importa aqui saber, e sublinhar - é esta a subversão -, é que no reconhecimento psicanalítico do desejo é sempre o sujeito que está em questão. Lacan começa mesmo por definir o sujeito como uma questão, uma questão sobre “si mesmo” (soi-même, Selbst, self) como dividido (Ichspaltung).

 Mas ainda: quando Freud começa a apresentar o sujeito da psicanálise é primeiramente ele que se apresenta.

 Antes de poder apresentar-se como analista, se autorizar como se expressou mais tarde Lacan, logo antes de poder apresentar qualquer analisando aos colegas (supervisão, colóquios, etc.), o analista deve apresentar-se enquanto sujeito. Não só como sujeito em questão, analisando ou em análise, mas como sujeito analisado, já portador da resposta que a sua psicanálise deu à questão que o mobiliza.

 Entendemos assim melhor assim porque é que psicanálise não é uma ciência, dado que a ciência, por princípio, exclui toda a particularidade subjetiva.

 O sujeito da psicanálise não é o indivíduo biológico, nem a alma da metafísica, não é um ente natural ou cultural, mas o sujeito que só emerge no campo da linguagem.

 É o sujeito não só sujeito à linguagem, como o sujeito criado, educado pelas palavras e os seus significados, por conseguinte pela falta ou o excesso de sentido dado aos fenómenos vitais, sociais e mentais, ao sonho, à fantasia, ao sintoma.

 Nesta medida, diz Lacan, a tarefa do seu ensino “é reintroduzir o registro do sentido” (S1, Seuil, p.8).

 Ele não diz re-introduzir o sentido, mas o “registro” do sentido. Só interessa à psicanálise o sentido que fica registrado. O Outro sentido – se existisse – permaneceria desconhecido ou envolto num insondável mistério. O sentido pode ser compreendido mas, para Lacan, a riqueza da escuta reside na incompreensão. Não no que se compreende, mas no que surpreende. Há um capitulo que se chama a verdade surge da méprise, o que poderia ser da surprise.

 Como o sujeito desejante, o sentido pressupõe uma estrutura. Qual? Lacan demarca-se aqui de duas possibilidades: esta estrutura não é a estrutura fisico-química do organismo, nem o arquétipo jungiano.

Aquilo que se encontra para lá da vida biológica é a vida da linguagem. Primeiramente da linguagem comum, de qual toda a gente se serve como um mau instrumento (organum). É no entanto deste banho de linguagem que se extrai a ordem simbólica, não apenas a do símbolo como figura (por exemplo a imagem da balança como figura da justiça), mas também e sobretudo a do símbolo como fonema, da letra e do numero, matéria sem a qual não existiria ciência.

 O sentido é sempre um efeito da linguagem, mas não se confunde com ela. É algo que supõe e resulta também das continências, e se acrescenta à vida transformando-a em existência histórica. Efetivamente o humano não se limita a viver, tem também uma história, é, existe, por exemplo como filho ou filha, homem ou mulher, não se limitando a sobreviver como animal.

 É a busca do sentido que vai conduzir Freud - na direção da cura - à reconstrução da verdade histórica. A história não é a experiência vivida, mas o que se pode escrever ou reescrever sobre o passado.

 A busca da verdade do sujeito faz com que a psicanálise não possa ser assimilada à determinação objectiva dos fenómenos anímicos. Depois de ter comparado, no Mito individual do neurótico, a análise a uma “arte liberal” - Trivium (lógica, gramática, retórica) e Quadrivium (aritmética, sica, geometria, astronomia), Lacan diz que ela é análoga a um comentário de texto, onde o analista começando por decifrar ao pé da letra o criptograma que o sujeito é. 

 A estrutura do sentido leva Lacan para a estrutura do discurso e do diálogo.

 O diálogo analítico é, na verdade, uma “arte da interpretação” (Freud). Lacan compara esta à arte do bom cozinheiro (saber-fazer): o analista disseca a personalidade psíquica do sujeito como o cozinheiro corta ou decepa o corpo de um animal separando as partes, mas respeitando as articulações, sem quebrar o esqueleto e esmagar a carne.

 Todavia não é com uma faca ou um cutelo que o psicanalista opera, mas com conceitos, no fundo, com as palavras que desenham e descrevem as coisas antes que a ciência as consiga explicar.

 O facto de Freud não ser cientista não faz dele um obscurantista. Lacan defende um Freud iluminista, cuja descoberta é uma re-descoberta da razão num terreno baldio, não ainda cultivado.

 O sentido contrapõe-se aos factos, mesmo aos factos provados cientificamente. Não depende todavia de um céu de ideias eternas ou arquétipos, mas das leis da linguagem, da pontuação das frases, em suma. da gramática (como diziam Nietzsche e Wittgenstein); mas igualmente do contexto, das contingências históricas.

 Lacan ensina que o psicanalista deve partir sempre da função da palavra no campo da linguagem. Só assim se torna evidente que o desenvolvimento do Eu segue as vias da formação do sintoma, em resumo, que o Ego é um sintoma.

 No final do Seminário 1, a propósito da histeria, Lacan explica ainda que, diferentemente das outras formações do inconsciente, o sintoma não pode ser unicamente pescado com a rede da linguagem, do verbum, pois ele é signum, letra assinada no corpo.

 O Eu era central na confusão que reinava então na psicanálise. Lacan distingue radicalmente o Ego (moi) e o sujeito (falado e falante).

 Freud dizia que o Eu tem à partida a forma de uma superfície corporal. É o que Lacan explicou com o “estádio do espelho”, o Eu e seu corpo próprio formando-se à imagem e semelhança de uma Gestalt. Se o Eu (moi) é uma forma imaginária, o sujeito (je) como tal só é situável no campo da linguagem.

 Sujeito é aquele que pode dizer “eu” (je), mas também “nós” (nous), a “gente” (on), etc, que não só pode desdizer-se, contradizer-se, mas também expressar-se nos mais variados registos, bem como comunicar com outrem, endereçar-se a um outro, como o analisando ao analista.

 O falante invoca, evoca, convoca a estrutura da linguagem como lugar da busca da verdade. É a esse lugar prevalecente, não transcendente, mas heterogéneo à realidade humana, que Lacan chama o “grande Outro” (A).

 “A” é antes de mais um lugar vazio. É também a “Outra cena” do mito trágico-cómico, do teatro privado, do romance familiar, o lugar da representação, que pode ser habitado por múltiplas personagens.

 Nos termos da teoria da comunicação é o lugar do código a partir do qual o sujeito pode formular, de modo invertido, a sua própria mensagem (queixa, demanda, etc.).

 É ainda no lugar do Outro que se situa o “Tu” do reconhecimento do desejo ou desejo de reconhecimento, “Tu” do je, para lá do alter-ego, do “pequeno outro” do ódio e do amor.

 Não tendo dado a devida importância ao Outro, os pós-freudianos reduziram a análise à análise do Ego.

 Basicamente do Ego da segunda tópica. Mas a perspectiva estrutural que Freud constrói a partir de 1920 não é a mesma de que falam os seus seguidores.

 Estes não entenderam que a estrutura da segunda tópica era a nova versão freudiana do sujeito dividido (Ichspaltung), um Eu cindido entre várias instâncias. À força de fazerem do Ego um herói do tipo Hércules, eles esqueceram que ele era mais como o Arlequim da Commedia dell´Arte, o servidor de dois amos, o Id e o Superego.

 Quando se parte da estrutura da linguagem podemos não só distinguir entre Supereu e Ideal-do-eu, como entender que este último é um elemento simbólico, estudado por Freud como pólo de identificação. É também este Ideal que preside à criação do sentido mais elevado, por conseguinte à satisfação resultante da sublimação.

 O sublime, como dirá Lacan, é o ponto mais elevado do que se encontra em baixo. O Ideal-do-Eu não eleva apenas para as alturas da cultura, pode também conduzir à mania, quando o Eu se toma pelo Ideal; e à depressão e melancolia, quando a sombra do objecto perdido que o Ideal encobre se abate sobre o Eu.

 Erro semelhante acontece com o Supereu. Freud definiu este como um imperativo moral derivado do complexo de Édipo. Melanie Klein vê-lo-á de preferência como o herdeiro da posição esquizo-paranóide do bebé na relação precoce com o seio devorador. Lacan discute esta autora mais à frente no Seminário 1. Por enquanto contenta-se a explicar que, se partirmos uma vez mais da estrutura da linguagem, o Supereu não é a voz da consciência, mas uma frase desprovida de sentido, que enuncia uma lei absurda, ou uma ordem inexplicável, do tipo: “vira à direita”. O Eu vê-se então obrigado a seguir nesta direção sem saber como nem porquê.

 Por sua vez o Id não é um dado objectivo, por exemplo um instinto, ou uma quantidade de energia mensurável, como há quem goste de imaginar a pulsão freudiana. Lembra que uma análise nunca procurou determinar a carga energética ou a taxa de erotismo e de agressividade de um indivíduo.

 Mesmo o “Tu és isso” que ilustra nesta época o fim da análise não reduz o sujeito ao que é de uma vez por todas, o “isso” não é nenhuma coisa, não define nenhuma positividade ontológica, apenas indica que o desejo do sujeito foi finalmente reconhecido pelo Outro: Tu és finalmente o que desejas.

 Mas há um resto, pois o sintoma permanece, irredutível. Lacan explica nesta passagem que o fim da análise não suprime a falta, ou seja o desejo, nem elimina o sintoma. A análise não é uma cura radical, que vise alcançar o pleno domínio de si, o equilíbrio total, a ausência de paixão.

 Uma análise tenta sobretudo formar um analista. Um analista capaz de sustentar o que se passa sob transferência, atento ao momento oportuno para intervir, sem falar demasiadamente cedo, nem demasiadamente tarde. É esta arte da prudência (Baltazar Gracian) que faz com que a análise possa devir didáctica, formadora de quem virá a ser capaz de ocupar o lugar e a função do analista.

 

 

 

 

 


[1] J. Lacan (1975), Le Séminaire, Livre 1, Les écrits techniques de Freud (1953-1954). Paris: Seuil. Tradução brasileira: J. Lacan (1975), Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar; tradução portuguesa: J. Lacan (1986), Os Escritos Técnicos de Freud. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

 

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