"A PIANISTA"

DE MICHAEL HANEKE

João Peneda

Erika Kohut é professora no Conservatório de Viena, onde ensina piano num estilo altivo e severo. Na intimidade, ela forma com a sua mãe uma parceria ambivalente. A relação é um misto de amor/ódio, uma ligação visceral acompanhada de protesto e rejeição. Erika é, apesar da idade, tratada como uma pequena rapariga, assolada pelos cuidados, ordens e recomendações maternas. A mãe possessiva, que se sacrificou pela sua carreira musical, segue-a para todo o lado e controla o destino da sua vida.[1] Entre as duas impera uma violência latente, pois formam uma parelha ao abrigo da função paterna, segundo o princípio do terceiro excluído.

Numa desavença entre as duas, Erika arranca um tufo de cabelo à sua mãe deixando à mostra uma pelada, um buraco ("trou"). Esforço temerário para criar um furo que não existe do lado do Outro. Se para a mãe a sua filha representa tudo, a razão de ser e o sustento, Erika, por seu lado, não consegue escapar à asfixia materna. Uma mãe que nada deseja para além da filha e cujo gozo (todo‑fálico) ninguém ou palavra o tempera. Simbolicamente, Erika dorme com a sua progenitora, ocupando o lugar de um pai duplamente ausente.

Com os seus alunos, a professora Kohut é excessivamente exigente e cruel. Mas, em contraste com a elevação da grande arte, a música de Schubert e Schumann, a pianista é dada a uma sexualidade furtiva e obscena. Erika está muito distante da tradicional posição feminina, pois nela não há sombra de amor ou de maternidade. O seu desejo é perverso e o seu gozo regressivo: amor incestuoso, observação do sexo materno, urinar perante a cena da cópula, ser espancada, observar a mãe maltratada, mutilar-se na vagina, masturbar o parceiro. Se não há aqui amor que contemporize o desejo, a coisa sexual aparece na sua crueza, sob a forma de secreções e fluxos (sangue, urina, vomitado, muco).

Um dia, num recital privado, um jovem talentoso e insolente de nome Walter[2] dá-se a conhecer, sente-se atraído por ela e insiste em se tornar seu aluno. Walter vem perturbar a cumplicidade da parelha mãe/filha. Às investidas amorosas por parte do jovem rapaz, Erika responde com um pacto sadomasoquista. Se como professora a sua "inteligência" prevalece sobre "o sentimento", já a sua condição de gozo coloca-a sob o domínio de um roteiro perverso que a rebaixa e suja. Nas suas lições de piano é dominadora, desumana, implacável; na sua sexualidade, ela destina ao outro masculino esse papel.

As suas fantasias sexuais destinam-se a produzir e erguer o outro masculino (pai), outro que ela abandona e observa no seu ponto extremo de tensão. Passar esse limiar seria um sinal seguro da falência do outro. Quando isso acontece ela desinteressa-se, tosse, vomita, urina. Erika procura assim reanimar um outro masculino viril, sem desfalecimento que desminta a castração. O que está em falta, e que o seu roteiro do gozo encena, é o lugar para um terceiro dominador que a separe definitivamente da órbita materna. Erika esperou por alguém como Walter (de walten, reinar, dominar) para executar e representar o papel que o seu fantasma lhe destina. O seu gozo perverso supõe um contrato, uma carta que descreve minuciosamente um conjunto de passos. Uma vez ditadas as regras, ela ocupa o lugar do objecto, obtendo então um gozo irrecusável que lhe tinha sido até então negado.

O argumento da sua fantasia sexual descreve uma cena em que a mãe é maltratada, fechada à chave, assistindo de fora as sevícias exercidas sobre a filha, o que indica que se trata de uma cena familiar e regressiva (encenação da violação paterna). Mais uma indicação que o sujeito sonha com um pai violento e dominador[3], um masoquismo onde ressoa um sadismo primordial. A virilidade (o falo) é o que se obtém na manobra de submissão a um terceiro dominador. Eis o paradoxo do desmentido da castração através da violência de um terceiro. A estratégia de gozo de Erika visa assim as insígnias fálicas do outro masculino.

Em contrapartida, a pianista despreza impiedosamente o feminino, o seu próprio corpo (mutilação da vagina), a mãe (arrancar um tufo de cabelo, bater-lhe), a aluna (ferir-lhe os dedos, incapacitá-la), a mãe da aluna (desprezo, mentira). Existe aí uma vontade de deixar o outro feminino em ferida, em sangue. Como se a falta, a diferença sexual coincidisse do seu lado com acto de mutilação[4]. A fórmula da sua relação com o sexo feminino resume-se assim a penalizá-lo em todos os sentidos.

É verdade que o filme nos confronta com o avesso de um ideal artístico austero que irrompe sob a forma de violência física e moral. Contudo, o percurso da personagem principal não se reduz à repressão familiar e social. Erika vive sob o espectro da insânia. As referências à figura paterna limitam-se à sua demência (Erika) e à sua morte (mãe). A mãe queixa-se amargamente dos desvarios da filha, mas esta vive atraída pelos encantos da loucura. Um dos seus compositores preferidos, Schumann, enlouqueceu. Na primeira conversa que tem com Walter, Erika fala entusiasmada da percepção que o compositor teria tido quando estava prestes a perder o juízo.[5]

O final do filme mostra que a pulsão destrutiva e auto-punitiva que habita o corpo de Erika Kohut acabou por prevalecer e retornar sobre si própria. A professora parece perder o domínio também na sua profissão, aproximando-se da loucura definitiva, o que indica que Erika, para além de contrariar a demanda materna, tente a seguir o pai ausente na loucura e na morte. A pianista (Klavierspielerin) paga um preço real elevado pela relação imaginária e dual onde ficou cativa. Isto porque as teclas simbólicas do feminino, brancas e pretas, ficaram por tocar.


[1] A mãe diz-lhe: "Schubert é o teu domínio".

[2] Walter Klemmer é um nome muito significante, em alemão walten significa reinar, dominar, klemmen apertar, entalar, roubar, arrebatar; Klemmenspannug tensão nos bornes (Walter Klemmer cuja especialidade era "correntes fracas"). Se o encontro com a professora de piano irá introduzi-lo às altas tensões, Erika, por seu lado, irá ver no seu aluno alguém que pode desempenhar o papel de dominador (Walter), arrebatando-a (klemmen) finalmente ao desejo materno.

[3] Na cena do drive-in é também um homem dominador que a excita.

[4] O filme está repleto de objectos e instrumentos cortantes: lâmina, vidro, faca.

[5] Uma das Lieder de Schubert alude igualmente ao fenómeno da loucura.