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GOZO José Martinho
Fim-de-Século, Lisboa, 1999 |
Veio a lume o Seminário que José Martinho desenvolveu em 1998-99 no âmbito do Centro de Estudos de Psicanálise. Ele constitui um marco histórico, visto que é a primeira vez, desde a sua chegada a Portugal, que ensino e investigação voltam a dar-se as mãos, tal como acontecera durante os anos em que fora professor no Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII. Para tal contribuiu grandemente o surgimento de um público novo, que não se limita apenas a escutar, mas intervém igualmente, como é possível constatar pela leitura do Seminário agora publicado. Este é, pois, um Seminário aberto e experimental, na medida em que vai muito para além de um mero repisar de velhos conceitos da psicanálise, como se de um corpo fechado se tratasse, e lança, pelo contrário, hipóteses novas, que terão de ser confirmadas, ou infirmadas, ao longo do Seminário.
O título “gozo” pode ser lido de duas maneiras: ou como conceito ou como forma verbal. No primeiro caso (precedido do artigo definido), o gozo é um substantivo que pode ser elevado ao universal de um conceito da psicanálise; no segundo (sem artigo definido), gozo é para ler na primeira pessoa do presente do indicativo do verbo gozar. Podemos, assim, conjugar: eu gozo, tu gozas, ele goza, o que tem a vantagem de sublinhar, desde logo, a dimensão plural do gozo, pois cada um goza à sua maneira, segundo a modalidade que o seu programa lhe impõe.
Sendo assim, a pergunta inicial a colocar não é o que é o gozo? (ainda que não se retire pertinência a um tal modo de colocar a questão), mas antes: quem goza? E é como resposta a esta questão que deve ser entendida a hipótese inicialmente colocada por José Martinho, a qual orienta, como uma referência básica, todo o trabalho desenvolvido ao longo do Seminário. Ela formula-se nos seguintes termos: só o ser vivo goza, ou que o morto e o ente inanimado não gozam.
Esta maneira de situar a questão obriga a reformular o modo habitual de encarar a problemática do gozo. Tradicionalmente, na comunidade analítica lacaniana, é usual (desenvolvendo as implicações da reflexão freudiana) situar o gozo num para além do Princípio de Prazer. No entanto, a hipótese colocada por José Martinho, numa tentativa de dar conta de certos fenómenos da clínica, obriga a postular uma espécie de gozo prévio, aquém do Princípio de Prazer, que consistiria no padecimento que experimenta o ser vivo porque está vivo, ou porque se introduz um furo na sua organização básica. Isto corresponde, até certo ponto, ao que Freud diz sobre a dor (que distingue do desprazer), a partir dos desenvolvimentos que empreende no Projecto de uma Psicologia Científica.
Todavia, há um paradoxo do gozo: se é verdade que por razões clínicas relativas à experiência da dor começamos por referir o gozo do vivente (ou o gozo do corpo), também é verdade que, no caso do ser humano, não há meio de assediar o gozo do corpo sem a linguagem. Para que o gozo não escape à acção do analista, é necessário ter presente este princípio fundamental.
Temos assim, finalmente, uma base sólida onde assentar os princípio, o meio e os fins da psicanálise, na justa medida em que estes permitem: uma correcta orientação clínica, uma separação das águas que leve, nomeadamente, a distinguir a clínica lacaniana de outras orientações, uma clarificação dos conceitos fundamentais da psicanálise, bem como um ajustado enquadramento do desejo do analista, enquanto motor e condição do tratamento. É de tudo isto que se fala ao longo das restantes páginas, assim como das diversas articulações da psicanálise com as artes e as ciências.
Como Seminário aberto que se propôs, é natural que algumas questões permaneçam igualmente em aberto; mas também isso convém, de resto, ao teor da aposta que José Martinho tem feito ao longo destes últimos anos: uma re-abertura do inconsciente.
Filipe Pereirinha