DITOS II

José Martinho

Fim-de-Século, Lisboa, 2003



Se é verdade que o sentido daquilo que se diz só retroactivamente se vai constituindo, então, é um momento privilegiado a vinda a lume do último livro de José Martinho, para lançar uma nova luz sobre o ensino que vem sendo desenvolvido por ele desde há vários anos, tanto no que diz respeito àquilo que é dito, como ao estilo do dizer que lhe subjaz.

Num dos capítulos fundamentais deste livro, não só pelo carácter inovador que preside ao tratamento do tema, como pelo sentido de oportunidade do mesmo – “O que é um sintoma psicanalítico” –, o autor esclarece que o seu ensino começou no dia em que todo o seu saber se veio condensar na palavra Gozo (p. 124). Há, assim, podemos dizer, um antes do Gozo e um depois do Gozo. Antes, foi a época dos “restos”: do que sobrou da questão “O que é um Pai?” (cf. Assírio e Alvim, 1990), e daquilo a que a «sua psicanálise» o reduziu e em nome do qual ele causa o desejo dos seus analisandos e dirige o respectivo tratamento (cf. “A Minha Psicanálise”, Fim de Século, 1997). Após o seminário dedicado ao Gozo (1998-99), toda uma nova área de investigação se abriu, e um estilo se impôs, tanto na continuidade (uma tendência para o condensado dos livros anteriores) como na diferença (sobretudo em alguns artigos deste último livro, onde uma certa aridez lógica do matema, se bem que no essencial permaneça, dá igualmente lugar à paródia).

Este recentramento do ensino na palavra Gozo, ajuda, por um lado, a entender os ditos (proferidos entre 1999 e 2002 e agora publicados) como inter-ditos, isto é, como a via que resta a quem fala de assediar o gozo sem o qual o universo seria vão (p. 101); por outro lado, permite dar conta dos passos essenciais que foram dados nestes últimos anos por José Martinho, quer ao nível da prática clínica, quer ao nível do ensino e da investigação.

No capítulo 13 do livro “Gozo” (o tal que marca o ponto de viragem), relembrando um dito lacaniano, José Martinho convidava o leitor a não se esquecer do dizer que está por detrás do que se pôde ouvir naquilo que se disse (Fim de Século, 1999, p. 71).

Comecemos, então, pelo princípio. O que vem agora a lume é o que se pôde ouvir, nestes últimos anos, quer nas aulas do Seminário do Centro de Estudos de Psicanálise, a decorrer semanalmente na Universidade Lusófona, quer nas Jornadas organizadas anualmente pela Antena do Campo Freudiano, bem como em algumas aulas dadas no Curso de Psicologia, nomeadamente nas cadeiras de Teorias da Personalidade (2º ano) e Psicoterapias I (4º ano), bem ainda como nalgumas outras intervenções, designadamente a conferência que abre o volume e que foi pronunciada nas Jornadas sobre Psicanálise, Sonho e Criatividade que decorreram na Escola Superior de Bragança em 1 de Julho de 2000. Não obstante, apesar da diversidade dos lugares aqui assinalados, o que ressalta, naquilo que se pôde ouvir, é uma voz (a de José Martinho) e uma orientação (lacaniana).

Quanto àquilo que é dito, se bem que permaneça um retorno a alguns textos freudianos – retorno agora lido (…) como uma paródia – tal como a alguns conceitos fundamentais da psicanálise (transferência, pulsão, desejo, fantasma…), é igualmente verdade que tudo parece girar, desta vez, em torno de um conceito aglutinador: o “sintoma”. Na variedade temática dos ditos que vão sendo desfiados, há, por assim dizer, uma constância do sintoma. Ele tem sido a bússola dos últimos seminários e investigações de José Martinho. Quer na sua dimensão típica (o mais problemático para Freud), quer na sua dimensão individualizada (o mais problemático segundo o autor). Foi, de resto, esta última dimensão do sintoma que levou José Martinho a revisitar o caso multiplamente individualizado (ou singularmente múltiplo) do sintoma dos Pessoa (cf. Pessoa e a Psicanálise, Almedina, 2001). E visto que o sintoma não é apenas uma formação do inconsciente como as outras, mas igualmente um modo de satisfação da pulsão, este recentramento no sintoma levou ainda à introdução de um termo inédito: clínica do gozo; clínica esta – enquanto o gozo de que se trata é o do próprio sintoma – que vem substituir a procura da verdade na talking cure (p. 124).

É preciso, finalmente, não esquecer o dizer (a casa vazia) que preside ao movimento dos ditos. Isto implica, por um lado, que sob a variedade daquilo que vem sendo dito (e passado a escrito), há a constância de um dizer que tem incidido fundamentalmente sobre a questão de saber o que é, o que faz e o que cabe ao psicanalista quando ele está à altura do seu acto (cf. pp. 93-94). Por outro lado, mais do que aquilo que já se sabe, há desta vez um desejo que parte do que ainda não se sabe, particularmente sobre o sintoma (p. 123) e visa – como aposta para a psicanálise futura – um saber…mais e ainda (p. 97).

Isto envolve não apenas um bem-dizer (ética) e um bem-fazer (prática), mas igualmente um estilo, pois é este o que perdura como a via mais escondida e verdadeira por onde cada psicanalista transmite a sua psicanálise ao nível da cultura (p. 132).

*Fim de Século, 2003
Filipe Pereirinha
 

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Apresentação[1]

 

Filipe Pereirinha[2]

 

 

Ao ser convidado – convite que muito me honra – para apresentar o livro, Ditos III,[3] e o autor, José Martinho, veio-me à ideia algo que, se não me falha a memória, constava de A Minha Psicanálise, livro que o mesmo publicou, igualmente nesta editora, em 1997 – já lá vão, portanto, alguns anos. Esclarecia ele, na altura, que a sua psicanálise o desautorizava, num certo sentido, a tornar-se um autor. Isto levou-me a ficar algo embaraçado, não sabendo se devia apresentar o autor ou o “não-autor” deste livro. Afinal, quantos livros são precisos para nascer um autor? Ditos III poderia ser uma boa conta, pois, como diz o povo na sua imensa sabedoria, “à terceira é de vez!”

 

Compreende-se que José Martinho, que é, acima de tudo, um psicanalista, tenha feito esse esclarecimento prévio, pois não se trata, nos seus escritos, de simples literatura ou poesia, ainda que rasgos da mesma possam, aqui ou ali, relampejar. Contudo, passado este tempo, eu gostava – se ele me permitir, naturalmente – dizer que José Martinho já se tornou também um autor. E eu diria mais: não apenas um autor entre outros, mas um autor de referência, incontornável para todo aquele que pretenda inteirar-se, em Portugal, sobre o que é uma orientação lacaniana, tanto na prática como na teoria.

 

Com efeito, José Martinho é já um marco na história da psicanálise em Portugal, na medida em que foi um dos principais impulsionadores desta orientação no nosso país, ao criar, nomeadamente, a Antena do Campo Freudiano (ACF) e o Centro de Estudos de Psicanálise (CEP), cujo trabalho foi recentemente reconhecido por um painel internacional da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) como “uma contribuição importante cuja seriedade é de assinalar e que deixa entrever desenvolvimentos positivos nos próximos anos”.

 

Nos três últimos livros, José Martinho tem-se mantido fiel a um único título – Ditos – variando apenas o número da série: I, II e III. Porquê “ditos”? Porque é nestes, no que é dito por cada analisando, que se baseia uma análise. É também o que, num certo sentido, impede um psicanalista de se tornar um “autor”. A singularidade da sua própria análise e de cada análise singular que ele “dirige” impedem-no de se tornar um autor…como os outros.

 

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Pensa-se – e com razão – que numa análise compete ao analisando falar, enquanto o analista se mantém em silêncio a maior parte do tempo. O analista cala-se para escutar o que é “dito” pelo analisando. Pois bem, no caso presente, é o psicanalista quem fala, quem escreve, e somos nós que ocupamos o lugar do grande Outro – supostos-saber-ler o que está “escrito” ao longo das 192 páginas deste livro.

 

Pensa-se igualmente – com uma certa razão – que a psicanálise está voltada para o passado (Freud, a infância, o inconsciente…). Ora, acontece que este último livro de José Martinho se vira, decididamente, para o futuro. É por isso que, ao mesmo tempo que faz série com os anteriores, marca também uma ruptura, abrindo novas frentes de interpelação e de análise.

 

Pensa-se, além do mais, que a psicanálise lançou novos desafios ao mundo (tal como os portugueses, no seu tempo, deram “novos mundos ao mundo”). Mesmo que não deixem de ter razão os que assim pensam, também é verdade que há cada vez mais desafios que o próprio mundo lança à psicanálise. É nesta dupla vertente e em torno destes “novos desafios” – nomeadamente os políticos e científicos, mas não só – que reside a aposta e a novidade deste livro.

 

Pensou-se, finalmente, que a psicanálise, após um tempo de dificuldades iniciais, se imporia definitivamente no mundo, inscrevendo aí a sua marca indelével. Porém, o próprio mundo, como já dizia o nosso poeta, é composto de mudança (a globalização, as novas potências, em particular a chinesa, a profusão de seitas e medicinas alternativas, ao mesmo tempo que cresce a hegemonia da ciência - o que não deixa de ser paradoxal - estão aí para o demonstrar) e há, por isso, cada vez mais “interrogações” no ar, sinais preocupantes de que a coisa freudiana pode estar em vias de se perder. Se quiséssemos imaginar uma fábula em que fosse dado à psicanálise falar, poderíamos colocar na sua voz a seguinte interrogação: “Será que o mundo me pode perder? E, nesse caso, o que perderia o próprio mundo?”

 

É por ter a coragem de não “denegar” e, pelo contrário, de dar voz a estas novas questões e aos desafios científicos, políticos e éticos que elas implicam que este é um livro profundamente oportuno e actual.


 

 


 

[1] Grande Auditório da Feira do Livro (Lisboa), dia 5 de Junho de 2005, 21h30.

[2] Antena do Campo Freudiano

[3] MARTINHO. José. (2005). Ditos III, Conferências psicanalíticas. Lisboa: Fim de Século