DITOS

José Martinho

Fim-de-Século, Lisboa, 1999

138 páginas

Preço: 2.000$00

A editora Fim de Século acaba de lançar mais uma das suas apostas no campo da psicanálise. Na colecção "Margens", veio a lume o último livro de José Martinho. Esta publicação, se bem que reúna um conjunto de intervenções públicas do psicanalista em meios especializados, não deixa por isso de interessar a um público mais alargado.

No momento em que nos aproximamos das comemorações dos cem anos da Interpretação dos Sonhos (1900) de Freud, os Ditos de José Martinho convidam-nos a revisitar a descoberta freudiana e demonstram que os ventos gerados a partir desta obra ainda sopram, que terão recebido mesmo do ensino de Lacan um novo alento que se tem estendido pelo campo da cultura.

À partida, o livro de um analista constitui um modo privilegiado de este se responsabilizar publicamente pelo ensino que orienta a sua prática; neste caso, dá igualmente testemunho de alguém que, depois de se ter formado e leccionado em Paris, regressou a Portugal com o firme propósito de promover a causa freudiana. Os Ditos de José Martinho constituem por isso marcas de um percurso clínico e teórico que tem na leitura de Freud por Lacan o seu fio condutor.

O volume abre com uma aposta na psicanálise, muito em particular no seu princípio fundamental baptizado por Anna O. de cura pela fala. Segue-se o retorno a Freud promovido por Jacques Lacan, acompanhado das vicissitudes do destino ulterior da obra freudiana nas mãos dos seus primeiros seguidores. Aí, o autor aproveita para separar as águas entre o dizer de Freud e a interpretação da sua obra realizada pela Psicologia do Ego e pela Psicologia da Relação de Objecto. No fundo, o que permaneceu esquecido nestas leituras da obra freudiana foi a palavra, ou o que Lacan chama de função da fala no campo da linguagem. É finalmente o conceito de Simbólico em Lacan que permite iluminar a especificidade do objecto analítico como um objecto estruturalmente perdido, ou um real para além do pai.

Os três artigos sobre clínica (obsessão, psicose e perversão), e também um artigo sobre o olhar, lembram que é do dizer dos analisandos que a psicanálise retira o seu saber. Em Os Poderes da Palavra, recorda-se que já o Evangelho Segundo São João começava por colocar o Verbo no princípio de todas as coisas. O ser humano é definido como corpo vivo afectado pelo inconsciente que a linguagem estrutura. Também a propósito do tema Prevenção, o autor reitera os efeitos da linguagem sobre o indivíduo, de tal modo que se pode falar de um corte com a natureza, com o biológico; por essa razão, não há vacina psicanalítica. A psicanálise é assim uma experiência que lida com um sujeito irremediavelmente dividido, sujeito do desejo que a ciência moderna evacuou na sua procura de objectividade. É, pois, o sujeito excluído no Discurso da Ciência que a psicanálise faz falar.

A relação da psicanálise com o dinheiro também não foi esquecida. A esse respeito, José Martinho começa por lembrar o último axioma lacaniano para a psicanálise que postula que não há relação sexual. O analisando procura a seu modo contradizer este axioma, pagando porventura um preço (sofrimento) demasiado elevado. Por seu lado, a aposta na análise consistirá, como refere o autor, em baixar o preço que o sujeito terá de pagar para chegar à satisfação que mais lhe condiz. É nesse sentido que na análise se recria o dilema a bolsa ou a vida, tornando patente que tudo o que se obtém tem um custo e que tudo se aprende também à própria custa. Se, na clínica, o analisando é convidado a dizer tudo o que pensa, a associar livremente, todavia, o que conta é a fala plena pela qual paga, reconhecendo nos seus ditos os ditos do Outro, para desse modo dizer finalmente a réstia do gozo que em si se cala, mas que é inerente a todo o ser vivo falante.

Numa conferência proferida no Colóquio Moderno/Pós-moderno, discute-se não só a contribuição da obra de Jacques Lacan para o debate em torno da modernidade (retorno a Descartes), mas destaca-se, particularmente, a vertente ética da clínica psicanalítica que permanece inflexível no quadro das diferentes concepções do mundo. Significa que, por detrás da retórica do tempo, o analista tem o dever ético de conduzir o sujeito a atravessar o seu fantasma, de modo a que encontre o objecto responsável pelo sofrimento do seu sintoma. Somos assim conduzidos ao registo que Lacan chamou de Real.

Se o pensamento contemporâneo está indelevelmente marcado pelos mestres da suspeita, Nietzsche, Marx e Freud, é neste último que José Martinho detecta um pensamento que permanece vivo, anima o movimento psicanalítico internacional, mas que acima de tudo constitui para muitos a única maneira que lhes resta de transformar a sua relação com o real. Trata-se do real excluído pelo Discurso da Ciência, real de um gozo (jouissance) acéfalo que Lacan determinou logicamente como impossível.

Os últimos textos que José Martinho reuniu põem à prova as potencialidades da abordagem psicanalítica no campo da arte. Ao contrário do que sucede no sintoma, a criação artística permite romper o ecrã do fantasma e produzir um objecto inédito, fazendo do seu autor um nome. Mas é o registo Simbólico que, em última instância, introduz a falta ao nível do real e abre caminho para que o objecto de arte venha ocupar esse vazio; é neste sentido que Lacan diz que na arte o objecto é elevado à dignidade da Coisa.

Antes de chegarmos ao texto derradeiro, o autor convida-nos ainda a revisitar os primórdios da invenção psicanalítica através das peripécias que a cocaína teve inicialmente na vida e na obra de Freud. Contudo, com a interpretação do emblemático sonho da Injecção dada a Irma, o fascínio que Freud tinha por essa droga foi substituído pela fórmula que deu consistência lógica ao objecto do seu desejo. É aí que podemos situar o nascimento da psicanálise, o findar do percurso de Freud como médico e o despontar do analista.

Por fim, o livro termina com o lema da Liga Hanseática: Navegar é preciso, viver não é preciso! Recorrendo à única referência de Freud ao nosso país, precisamente sobre o sentido etimológico do termo Madeira (materia, mater), José Martinho deixa-nos como resto da gesta dos lusitanos o amor à nossa língua materna, onde cada português deve navegar para descobrir a sua verdadeira pátria, onde para além das palavras, se pode apanhar o objecto dos seus ditos.

João Peneda

Publicado no "Cartaz" do "Expresso" de 3 de Junho de 2000