FREUD E COMPANHIA

José Martinho

 

 

 

O psicanalista José Martinho publicou mais um livro, desta vez Freud & Companhia. O nome de Freud todos o conhecem, é o inventor da já centenária psicanálise que, simbolicamente, remonta à publicação da Interpretação dos Sonhos (1900). No diz respeito à Companhia, é sabido que a empresa freudiana acabou por conquistar os seus seguidores, dissidentes e detractores.

É verdade que a psicanálise é a invenção de um homem e também o fruto do desejo do seu inventor, do sintoma-Freud. Mas a análise originária do primeiro psicanalista teve a companhia inicial de Breuer e de Fließ, figuras do analista impossível de Freud. Foi este trabalho que permitiu trocar o sintoma pela invenção de um método inédito para dissecar a personalidade psíquica, invenção que acabou por fazer sintoma na cultura. Porém, acima de tudo, o novo método clínico nasce na companhia do sintoma histérico. De facto, a psicanálise começou por ser um dispositivo criado para escutar e decifrar o enigma do sujeito histérico, visando pacificar o seu conflito psíquico. De qualquer modo, o sintoma é o parceiro de todas as ocasiões, sendo muitas vezes uma má companhia, pois abriga estranhos hóspedes que causam mal‑estar no indivíduo e na civilização.

Através da fala dos seus pacientes, do novo método terapêutico – a associação livre verbal –, Freud descobriu um saber inconsciente, isto é, traços simbólicos que identificam o sujeito, mas que lhe permanecem contudo opacos. Um saber que nos governa, mas que é ao mesmo tempo avesso à consciência, e que o sujeito prefere ignorar. Teoricamente, Freud avançou com a hipótese do inconsciente e com o conceito de pulsão para assim dar conta dos efeitos deste saber sobre o sujeito e o seu corpo. A pouco e pouco, a teoria freudiana foi sendo elaborada e também aplicada nos diversos domínios da cultura, formando um matriz incontornável do pensamento contemporâneo.

Em Portugal, na área da psicanálise, José Martinho tem se destacado pela publicação regular de um trabalho rigoroso. Elegeu como o seu principal interlocutor, depois de Freud, Jacques Lacan (de quem se comemora este ano o centenário do seu nascimento). O psicanalista francês começou por promover o retorno a Freud e acabou por libertar os analistas do jugo da psicologia colectiva. A sua última proposta para o final da análise é a identificação ao sintoma e corresponde, grosso modo, a um sujeito finalmente remetido à causa do seu desejo. Por outras palavras, o psicanalista é fundamentalmente o resultado de uma análise que tem como resto o que Lacan chamou de desejo do analista. Ao contrário de Freud, Lacan já não encara a verdade, o amor à verdade freudiano, como o fundamento da sua teoria e clínica, pois, como disse, a verdade tem estrutura de ficção. Lacan elegeu em contrapartida o Real, o impossível de dizer, como parceiro do analista. Naturalmente, como Freud, o psicanalista francês acabou também por conquistar os seus discípulos e por criar dissidências e rupturas. Hoje em dia, o mundo analítico está divido em dois, os que seguem a orientação lacaniana e os que se mantêm fiéis à internacional de psicanálise (IPA).

Neste novo livro de José Martinho, podemos seguir um percurso que tem como ponto de partida os  princípios e os  meios da psicanálise e atravessa ainda as vicissitudes de Freud & Companhia no mundo e em Portugal.

 

João Peneda