Apresentação de um Édipo

 

Teatro Nacional D. Maria II, terça-feira 16 de Março 2010, 19h

 

José Martinho

 

 

Apenas algumas palavras para vos apresentar a obra que “Coisas de Ler” fez vir a lume uns dias antes

do último Natal. Édipo, uma história completa: foi este o título escolhido pela editora e os autores, o

psicólogo Carlos Céu e Silva, que conta a história, e o artista plástico Pedro Salvador Mendes, que a

desenha.

 

Por ser algo vistoso, este livro já me valeu um elogio: disseram-me que era o mais bonito que tinha

publicado até hoje. É engraçado, porque não sou o editor, nem o autor do livro, mas apenas o de um

dos seus posfácios.

 

Limitei-me a redigir um dos textos sobre Édipo que foram pedidos aos psicanalistas que representam

as mais antigas associações de Psicanálise do nosso país, por ordem cronológica, a Sociedade

Portuguesa de Psicanálise, a Antena do Campo Freudiano e o Centro Português de Psicanálise.

 

Mesmo se desconhecia o que os outros iriam escrever, penso que desenvolvi no meu texto algumas

frases que encontrei posteriormente no livro. O que disse à minha maneira foi que “o lugar de onde

partimos” (Seabra Dinis), onde se desenrola uma “história sem tempo” (Maria Belo), ou onde o tempo

existe “como se fosse uma infância eterna” (Carlos Céu e Silva) é precisamente aquilo que Freud

chamou o “complexo de Édipo”.

 

O complexo freudiano fornece o conceito da tragédia de Édipo.[1] Digo hoje que se trata do lugar na

linguagem onde se cria a lenda. É sempre ao nível da letra e do espírito de uma língua que se vai trilhar o

roteiro dramático do ser pai ou filho, homem ou mulher; é também nesse local simultaneamente

hospitaleiro e inóspito que se vai construir o cenário do mito individual (Lacan) que Freud chamou

“romance familiar”.

 

Eis é a razão pela qual centrei o meu texto na família. Mesmo se ela se insere sempre num contexto mais

vasto, a família não deve ser reduzida a uma instituição social, nem à célula da reprodução da espécie; o

psicanalista sabe que a família onde se constrói a intimidade psicológica e a exterioridade mundana

é sobretudo uma fonte de sintomas. Era já isso que Freud quis dizer com o seu “complexo nuclear

das psiconeuroses”.

 

Mas a água ou, melhor, a fala que jorra da fonte familiar já não é a mesma. Fala e família vão mudando

e, por esta razão, Édipo tornou-se diferente do que era.

 

Aquilo que mais caracteriza a família contemporânea é o despeito, o desprezo, o declínio de tudo o que

se disse e fez durante séculos em Nome do pai. Uma vez retirado o pai do eminente lugar do chefe da

família, quem passou a mandar nela? Não se julgue que foi a mãe, incestuosa ou outra, pois foi a

criança que a passou a dominar, a fascinar. Freud mostrou que este fascínio pela criança era o avesso do

complexo de Édipo. Introduziu nessa data (1914) na psicanálise uma outra personagem da

mitologia grega, Narciso, e afirmou que o narcisismo que reinava já na sua época assentava no trono de

“His majesty the baby”.

 

O que Freud disse continua a ser verdade, falando-se mesmo hoje de um “neo-narcisismo”. Mas

também é verdade que, com o progresso da ciência e do capitalismo, uma outra satisfação se veio

impor cada vez mais no seio da família: o gozo consumista.

 

Uma das consequências é que as antigas identidades fixadas pelas identificações e relações familiares

deixaram de se efectuar pela via da filiação simbólica, do modelo sexual, do exemplo moral, ou até da

aprendizagem de uma arte ou ofício; num mercado comum que é cada vez mais global, o processo organiza-

se em torno do que cada um consome.

 

A nova ordem política, económica e social que corresponde a este novo individualismo já não tem

como pilar o pai de Nome. Ela encontra a sua potência sintomática no Número, na Estatística e mais

recentemente na Avaliação.

 

A Família está também sob os holofotes da Avaliação. Pais e filhos são constantemente avaliados, mas

cabe agora sobretudo aos filhos avaliar se aqueles que eles nomearam para a função ou a quem deram o

emprego de pais lhes servem ou não. O resultado tem sido bastante negativo: não só os pais não sabem

mais o que fazer, como os filhos se sentem cada vez mais perdidos.

 

Será este fenómeno de estranhar? Não entranhámos nós há muito o facto de discurso que, depois de ter

morto o pai, Édipo se castigou furando os olhos ou recusando ver o que se passava; e que este foi o

caminho que o levou finalmente a desejar nunca ter nascido. Resta saber se esta antiga mensagem vinda de Édipo

em Colono ainda consegue chegar até nós?


 

[1] Lembro que a versão encenada de Jorge Silva e Melo do Rei Édipo de Sófocles (427 a.C.) é representada neste momento, com lotação esgotada, no Teatro Nacional D. Maria II.