PSICANÁLISE E PSICOTERAPIA:

 

Uma introdução a partir de Freud*

 

 

Filipe Pereirinha

 

 

Tratava-se, à partida, de comentar dois textos de Jacques-Alain Miller, sendo o primeiro resultado de uma intervenção num congresso em Rennes, em 1992, e o segundo, a transcrição de duas sessões do Curso de Orientação Lacaniana (Le Lieu et le Lien) que teve lugar durante os anos de 2000-2001, mais concretamente as Lições de 10 e 17 de Janeiro de 2001. Estes textos podem ser lidos, respectivamente, nos números 22 (o primeiro) e 48 (o segundo) da revista da Causa freudiana[1].

 

Apesar de separados por alguns anos, eles podem ser vistos, até certo ponto, como o prolongamento um do outro. Mais exactamente: trata-se de duas aproximações ou dois modos de abordagem de uma mesma questão fundamental: o que distingue e especifica o modo de proceder da psicanálise frente a algo que sob alguns aspectos com ela se assemelha – a psicoterapia?

 

Dito isto, eu gostaria de redireccionar a questão. Ou seja: antes mesmo de entrar nos dois textos de Jacques-Alain Miller, começar por perguntar – a título introdutório – como é que esta questão se colocava em Freud, ou mesmo se era de todo colocada.

 

Os tempos eram, evidentemente, outros; por isso, a necessidade mais premente que Freud sente nos seus escritos e nas suas intervenções não é tanto separar a psicanálise da psicoterapia, mas antes distingui-la da medicina. É o caso, por exemplo, de um escrito de 1926 intitulado: A Questão da Análise Leiga[2]. Este texto tem por motivo próximo a acusação de charlatanismo que havia sido feita, por parte das autoridades de Viena, a Theodor Reik pelo facto de ele, não sendo médico, exercer a psicanálise. Freud tenta demonstrar, num conjunto de conversas com um suposto interlocutor imparcial, que a psicanálise, pela sua especificidade, não só pode ser exercida por leigos (isto é, não médicos), como o facto de ser médico, nesta matéria, não dá qualquer garantia de um saber-fazer relativamente ao sintoma em questão. Assim, poderíamos concluir: o que parece, antes de mais, preocupar Freud é a separação das águas entre a psicoterapia analítica (segundo a especificidade do seu campo, dos seus meios e dos seus fins) e a medicina, mais do que entre a psicanálise propriamente dita e as psicoterapias. Daí que ele tenha dado a uma conferência proferida em 1904 no Colégio de Médicos de Viena – onde se fala da especificidade da psicanálise frente a outros métodos de tratamento – o título: Sobre Psicoterapia (Über Psychotherapie)[3].

 

Desde logo, o título sugere a ideia de uma terapêutica que não se funda, como a medicina, numa intervenção directa sobre o corpo (portanto, na suposição de uma causalidade anatómico-fisiológica), mas antes na existência daquilo que poderíamos designar como um factor psi, o qual é determinante na cura do paciente, haja ou não consciência dele.

 

Aliás, perante a opinião dos médicos que encaram a psicoterapia como um misticismo moderno frente aos meios curativos físico-químicos, Freud propõe-se mostrar como é injusta e errónea uma tal opinião. De que forma? Em primeiro lugar, defendendo a ideia de que a psicoterapia, ao invés de ser um método moderno, é ainda mais antiga do que a medicina. Os métodos da medicina antiga e primitiva pertencem na sua maioria à psicoterapia (por exemplo: para alcançar a cura, provoca-se nos doentes um estado de espera crédula, que de resto, segundo Freud, ainda hoje presta um igual serviço).

 

Em segundo lugar, os médicos não podem prescindir da psicoterapia visto que a outra parte interessada no processo, o doente, não renuncia a ela. Isto significa que há um certo factor que depende da disposição psíquica do doente e que não pode ser desprezado: a sugestão.

 

Por último, e no seguimento da ideia anterior, existem certas doenças – especialmente as psiconeuroses – que se mostram mais sensíveis à influência psíquica do que a qualquer outro meio.

 

Perante isto, como age a psicoterapia científica? Ao invés de desprezar este factor psíquico ou, por outro lado, de submeter-se-lhe cegamente, propõe-se apoderar-se e servir-se dele para os seus fins: a cura do paciente. De que modo? Não há aqui o perigo de confundir a psicoterapia com o tratamento por sugestão hipnótica?

 

É o próprio Freud quem formula a questão, respondendo-lhe da seguinte maneira: entre a técnica sugestiva e analítica existe uma máxima oposição semelhante ao que acontece, por exemplo, nas artes. Aqui – segundo Leonardo – existem, pelo menos, duas vias ou dois modos de proceder: um, que é próprio da pintura (per via di porre) consiste em ir acrescentando cores sobre a tela branca onde antes não havia nada; pelo contrário, a escultura, que actua per via di levare, vai retirando da pedra a massa que encobre a estátua nela contida. Da mesma forma, a técnica sugestiva actua per via di porre, isto é, não se preocupa com a origem, a força e o sentido dos fenómenos psicológicos, limitando-se a sobrepor-lhe a sugestão de modo a impedir a exteriorização da ideia patogénica; pelo contrário, a terapia analítica não quer acrescentar nada de novo, mas extrair algo (como a escultura), preocupando-se com a génese dos sintomas patológicos e as respectivas conexões.

 

Além disso, o método sugestivo tem ainda, pelo menos, dois inconvenientes: não garante a duração da cura (como comprova a experiência de Freud) e oculta o funcionamento das forças psíquicas, não deixando, por exemplo, descobrir a resistência com a qual os doentes se obstinam na sua enfermidade e se revoltam contra a cura.

 

Em resumo: Freud reconhece a existência e o carácter determinante de um factor psi (a sugestão) que os médicos, de alguma forma, teimam em desconhecer; porém, há em Freud, igualmente, a preocupação em separar as águas. Ou seja, entre a técnica sugestiva e a psicanálise há uma diferença de peso: enquanto a primeira pretende calar o sintoma, a segunda visa que este chegue a dizer as suas razões inconscientes. Podemos ver aqui uma primeira oposição entre dois modos de proceder e os respectivos discursos que os sustentam: o discurso do poder (onde se tanta calar o sintoma) e o discurso analítico (onde se propõe escutar as razões inconscientes do mesmo).

 

Esta diferenciação da psicoterapia analítica frente a outros métodos terapêuticos que pudessem, de algum modo, confundir-se com ela, vai acentuar-se progressivamente e de forma cada vez mais radical. É o que acontece, por exemplo, no último texto das Conferências Introdutórias de Psicanálise (1916-17) intitulado: A Terapia Analítica[4].

 

Para começar, torna-se claro, desde o primeiro parágrafo, que a sugestão de que se falava anteriormente a propósito da terapia analítica não é mais do que fenómeno de transferência. E a pergunta de Freud é a seguinte: se a influência analítica assenta sobre a transferência (isto é, a sugestão), porque não se utiliza directamente esta última?

 

O que se segue como resposta de Freud constitui uma clara e decisiva demarcação entre dois modos de proceder, dois estilos, e – se dissermos as coisas segundo a terminologia de Lacan – dois discursos diametralmente opostos: o discurso analítico e o discurso do senhor[5]. Vejamos.

 

Desde logo, a sugestão directa vai contra a manifestação dos sintomas, constituindo um combate entre a autoridade do médico e as razões do estado patológico. Estas razões são desprezadas e exige-se, pelo contrário, que o doente deixe de manifestá-las por meio dos sintomas. Trata-se, verdadeiramente, do avesso do discurso analítico, o qual, graças à regra fundamental proposta por Freud, exige ao paciente que fale sem restrições aí mesmo onde sofre.

 

Entre a sugestão hipnótica (Freud relembra, a este propósito, no seguimento do seu mestre Bernheim, que a sugestão é a essência dos fenómenos do hipnotismo, sendo este apenas um efeito daquela, isto é, um fenómenos sugerido) e a “sugestão” psicanalítica há profundas diferenças: enquanto a terapêutica hipnótica tenta encobrir e disfarçar algo da vida psíquica, a terapia analítica procura fazê-lo emergir com clareza e precisão para só depois o suprimir; a primeira actua como um procedimento cosmético (embeleza) enquanto a segunda como um procedimento cirúrgico (extrai); aquela utiliza a sugestão para proibir os sintomas e reforçar os recalcamentos, mas deixa intactos os processos que conduziram à formação de sintomas; pelo contrário, a terapia analítica procura descobrir o conflito que gerou os sintomas, indo até à raiz dos mesmos; a terapia hipnótica deixa o sujeito numa absoluta passividade, não produz qualquer modificação e deixa-o desprotegido perante uma nova investida do real (ou, segundo palavras de Freud, uma nova perturbação patogénica) enquanto a terapia analítica procura levantar as resistências internas, para que, sendo estas vencidas, o sujeito possa estar à altura de responder aos novos embates patogénicos.

 

Mas há mais: não só a terapêutica analítica e a terapêutica sugestiva se opõem ponto por ponto, como os efeitos de sugestão que existem, inevitavelmente, no processo de transferência devem ser enquadrados, e mesmo relativizados, segundo o desejo do analista (para utilizar aqui um termo de Lacan, mas devidamente justificado pelas palavras do próprio Freud).

 

Vejamos como é que isto acontece. Por meio de uma técnica apropriada, procura-se evitar os efeitos prematuros da sugestão; porém, mesmo que esses efeitos se manifestem, isso constitui, afinal de contas, um mal menor, visto que não nos contentamos com os primeiros resultados obtidos nem se dá por terminada a análise até esclarecer completamente o caso, preencher todas as lacunas mnésicas e descobrir as causas desencadeantes dos recalcamentos. Sendo assim, os resultados obtidos com demasiada rapidez, não são uma ajuda mas sim um obstáculo, uma pedra no caminho (para usar uma expressão de D. Andrade) do tratamento analítico. Eis, em resumo, uma diferença de peso: enquanto nas terapias sugestivas, o desejo do terapeuta está inteiramente subordinado à sugestão, na análise a sugestão, pelo contrário, deve subordinar-se ao desejo do analista. E qual é o desejo do analista para Freud? Segundo o que vimos atrás, consiste em levar a análise até às últimas consequências.

 

No entanto, há algo que parece destoar deste quadro. É uma frase que se repete nestes dois textos, ainda que sofrendo ligeiras nuances no tipo de formulação. “O tratamento analítico – dizia Freud no primeiro texto – pode ser considerado como uma segunda educação”[6]. Agora, neste último texto, ele replica: “ a psicanálise é uma pós educação”[7]. Significará isto que se liberta a psicanálise da sugestão, mas não do discurso ou da tentação pedagógica? Dizendo de outro modo: será o desejo do psicanalista comparável (ou mesmo redutível) ao desejo do educador? A ser assim, a psicoterapia analítica seria, no fundo, uma pedagogia.

 

Ora, é deste tipo de confusões que pretende arredar-nos Freud numa conferência proferida em 1918 no V Congresso Psicanalítico de Budapeste (Caminhos da Terapia Analítica)[8] ao reinterpretar a famosa regra da abstinência. A ideia é a seguinte: o psicanalista deve abster-se de exercer o poder que o paciente lhe confere ao colocar-se nas suas mãos, isto é, não pretender estruturar o seu destino, impondo-lhe os seus ideais e formando-o com orgulho criador à sua imagem e semelhança. E mesmo naqueles casos em que uma influência educadora se mostre necessária, o psicanalista deve actuar com o máximo de prudência, tentando robustecer a personalidade do paciente em vez de impor as directrizes da sua. Da mesma forma, por mais nobre que pareça a intenção, não se deve impor ao paciente esta ou aquela concepção filosófica do universo. Enfim: vemos como Freud tem sempre a mesma e constante preocupação em afastar o discurso analítico do discurso do senhor (do amo ou do mestre).

 

Mas já num texto anterior, de 1912 – Conselhos ao Médico no Tratamento psicanalítico – esta ideia era não só afirmada como, se quisermos, o era de uma forma ainda mais radical. Ou seja: não só é criticada, como um perigo, a ambição pedagógica (propor elevadas metas para a pulsão) como também a ambição terapêutica. “ A ambição pedagógica é tão inadequada – diz Freud – como a ambição terapêutica”[9].

 

Trata-se, no fim de contas, em todas estas diferentes retomadas da questão, de libertar e purificar o desejo do analista relativamente a todos os ideais que o possam limitar, adulterar ou reduzir, quer seja o ideal de domínio do outro (pela sugestão), o ideal pedagógico (da educação), filosófico (da imposição desta ou daquela concepção do mundo) ou mesmo...terapêutico. Quer dizer: a essência da terapia analítica mostra-se aqui, paradoxalmente, como não terapêutica. Ou então, para sermos mais claros (retirando as consequências do dizer que subjaz aos ditos de Freud), poderíamos propor o seguinte: essencialmente, a psicanálise (isso que Freud inventou) não é psicoterapia. Ou há, pelo menos, uma diferença entre a psicanálise propriamente dita e as suas aplicações terapêuticas.

 

Recapitulando: a psicoterapia distingue-se da medicina (devido à existência do factor psi); a psicoterapia analítica distingue-se de outros métodos psicoterapêuticos (havendo, nos dois casos, a presença do factor sugestivo, mas sendo este encarado – e trabalhado – diferentemente); a psicanálise (e, como tal, o desejo do analista) não se reduz à ambição terapêutica, isto é, ao desejo de curar. Como dirá Freud, em inúmeras ocasiões, este desejo de curar (furor sanandi) esbarra, mais cedo ou mais tarde, com algo de fundamentalmente incurável: a pulsão.

 

Isto não quer dizer que a psicanálise não tenha efeitos terapêuticos, simplesmente esses efeitos – como recordava Lacan nos anos 50, num artigo intitulado Variantes do Tratamento-padrão – devem ser vistos como um benefício adicional e não como aquilo que é visado por princípio. É isso mesmo que – segundo ele – Freud não deixou de fazer: não só alertando-nos contra o furor sanandi, mas precavendo-se contra todo o abuso do desejo de curar – mesmo se admite a cura como um benefício adicional do tratamento psicanalítico – e mostrando, dessa forma, que a psicanálise não é uma terapêutica como as outras e que “implica um rigor de alguma forma ético, fora do qual qualquer tratamento, mesmo recheado de conhecimentos psicanalíticos, não é senão psicoterapia”[10]

 

Isto significa que ao perguntarmos pelo desejo do psicanalista não se visa apenas o quid facto (ou seja, nos termos de Lacan, aquilo que ele faz ou não faz), mas o quid juris (ou seja, qual deve ser, por princípio, o desejo que preside ao seu acto). E se Lacan, na esteira de Freud, mostra que esse desejo não se reduz, por princípio, ao desejo de curar, isso não quer dizer que a psicanálise não cure, ou que não tenha efeitos curativos; porém, isso não é o seu princípio, quando muito, é uma das suas consequências. E é nisso que ela se mostra de um rigor – como dizia Lacan – de alguma forma ético. A diferença entre a psicanálise e a psicoterapia, portanto, é essencialmente de natureza ética e não meramente factual.

 

Mas será que em Freud as coisas já tinham verdadeiramente este cariz? Apesar de algumas hesitações, poderíamos dizer que há uma certa orientação que se vai reforçando e ganhando consistência ao longo da sua obra e que consiste no seguinte: mostrar, no limite, a essencial irredutibilidade da psicanálise frente a todo o desejo de curar. Isto implica, por outro lado, que a questão do incurável se impõe de uma forma cada vez mais incontornável na sua obra: como, digamos, uma espécie de resto sintomático que permanece, de alguma forma, constante e irredutível.

 

Isto pode querer dizer, pelo menos, duas coisas: por um lado, que o sintoma, em si mesmo, não é apenas fonte de mal-estar e desprazer, mas igualmente meio de satisfação da pulsão (ou seja, como dirá mais tarde Lacan, modalidade de gozo) e que, por isso mesmo, o sujeito não se quer desfazer dele tão facilmente como seria suposto.

 

Freud di-lo, à sua maneira, em duas passagens bastante esclarecedoras. A primeira na ultima das Cinco Lições de Psicanálise, onde, depois de mostrar que os doentes se refugiam na doença para, através desta, obterem os prazeres que a vida lhes recusa (isto é, a satisfação das suas necessidades eróticas que lhes é recusada na realidade), ele afirma: “constatamos que os sintomas mórbidos são uma parte da actividade amorosa do indivíduo ou mesmo toda a vida amorosa do indivíduo.”[11] Quer dizer: o substituto do gozo que não se tem ou que se perdeu torna-se assim, para o sujeito, na própria substância gozante (para usar aqui um termo do último Lacan).

 

É por isso que o sujeito, apesar de querer aparentemente (ao nível do eu e da consciência) livrar-se do seu sintoma (como algo que incomoda, que disfunciona), lá no fundo (ao nível do inconsciente e da pulsão), ele não quer livrar-se dele, mesmo se isso parece estranho.

 

É desta estranheza, deste paradoxo, que Freud dá conta, por ex., no capítulo V da Questão da Análise Leiga. À partida, as coisas seriam claras: o doente vem visitar o psicanalista, queixa-se das suas misérias (isto é, daquilo que não anda, que não funciona na sua vida) e o psicanalista promete-lhe a cura ou a melhoria desde que ele, submetendo-se à regra fundamental, diga não importa o quê. O objectivo é que, do mineral bruto da fala vazia a que se entrega o paciente, se vá progressivamente extraindo o metal precioso da fala plena. Ora, é no decorrer deste processo, inevitavelmente longo, que o psicanalista acaba, para seu espanto e para espanto de todos nós (representados no texto de Freud pelo interlocutor imparcial), por ser confrontado com algo para o qual não estava preparado: “que o doente, acima de tudo, não quer curar-se.” Ou melhor: “o doente quer seguramente curar-se, mas ao mesmo tempo não quer, o seu eu perdeu a unidade, por isso não pode elaborar uma vontade unificada” (...); eles queixam-se da sua doença, mas protegem-na com todas as forças, tal como a leoa os seus pequenos; reprovar-lhes esta contradição não tem sentido.”[12].

 

Confrontando os dois textos, isto parece implicar a presença de um resíduo constante (para usar aqui uma expressão de Alfredo Zenoni)[13] ao nível do sintoma que tende a permanecer como um resto ineliminável. Os vários conceitos que Freud vai inventando ao longo do tempo (reacção terapêutica negativa, masoquismo primordial, pulsão de morte, compulsão de repetição...até à questão da análise terminável e interminável) procuram dar conta desse resto.

 

Dando um passo mais (passo que Freud, apesar de tudo, não chega a dar completamente), poderíamos concluir, com Anicette Sangnier[14], o seguinte: “aí onde a terapia se desenvolve no campo do curável e coloca o incurável como o limite que se trata de fazer recuar (parece-me ser esta, até certo ponto, a posição de Freud, às voltas com o incurável), a psicanálise põe o incurável no próprio fundamente do seu processo (como um princípio, digamos), no coração e não nos confins. (...) Elas vão em sentidos opostos no que diz respeito ao tratamento do real (incurável por natureza): enquanto a psicanálise se esforça por reconquistar o real para que o sujeito dele se torne responsável, a psicoterapia esforça-se por apagá-lo”. Eis onde elas se mostram inconciliáveis quanto à posição ética adoptada no que diz respeito ao real.


 

[1] Cf. Jacques-Alain Miller, “Psychothérapie et Psychanalyse”, La Cause Freudienne, nº 22, Outubro de 1992, pp. 7 e sgs. ; « Psychanalyse pure, psychanalyse appliquée et psychothérapie », La cause freudienne, nº 48, Maio de 2001, pp. 7 e sgs. (Para além de mim, estes textos foram sucessivamente comentados pela Erika Morbeck, pelo João Peneda e pelo José Martinho; um comentário bastante detalhado do João Peneda sobre os mesmos pode ler-se na página Web da Antena do campo Freudiano).

[2] Cf. S. Freud, La Question de L’analyse Profane, Gallimard, Paris, 1985.

[3] Cf. S. Freud, “Sobre Psicoterapia”, in Obras Completas de Sigmund Freud, Tomo I, Biblioteca Nueva, Madrid, 1996.

[4] Cf. S. Freud, “La Terapia Analítica” , Leccion XXVIII (Lecciones Introductorias al Psicoanalisis), in Obras Completas de Sigmund Freud, Tomo II, Biblioteca Nueva, Madrid, 1996, pp. 2402 e sgs.

[5] Em francês, segundo o termo de Lacan: discours du maître.

[6] S. Freud, op. cit., p. 1013.

[7] S. Freud, op. cit., p. 2404.

[8] CF. Freud, “Los Caminos de la Terapia Psicoanalitica”, in Obras Completas de Sigmund Freud, Tomo III, Biblioteca Nueva, Madrid, 1996, pp. 2457 e sgs.

[9] S. Freud, “Consejos al medico en el tratamento psicoanalitico”, op.Cit., Tomo II, p. 1659.

[10] Cf. Lacan, “Variantes do Tratamento Padrão”, in Escritos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1995, p. 326.

[11] S. Freud, Cinq Leçons sur la Psychanalyse, Editions Payot, Paris, 1966, p. 59.

[12] Cf. S. Freud, op. cit., pp. 90-92.

[13] Cf. A. Zenoni, “Le residu constant”, in Quarto, nº 67, Março de 99, p. 18.

[14] A. Sangnier, “Qui est responsable de l’incurable”, op. cit., p. 16.

*Trabalho apresentado no Centro de Estudos de Psicanálise, Seminário de 2002-2003.