CARTA ACF

 

AS PATOLOGIAS DO ATO

 

Jorge A. Pimenta Filho

(Belo Horizonte, Brasil)

 

I – Introdução

Cada vez mais vemos chegar a clínica sujeitos que nos trazem transtornos ou perturbações — situando-se numa posição de objeto. São casos em que encontramos muitas dificuldades quanto ao manejo da transferência.

Como tematizar essa questão? Como tratá-los?

II – O objeto e o gozo

A partir de Lacan pensamos o objeto a em duas dimensões:

i) A dimensão de causa, tal como podemos perceber no Discurso do Analista:

 

 

 

ii) A dimensão de mais-de-gozar, como no Discurso do Mestre ou Discurso do Inconsciente:

 

 

 

O objeto a na posição de causa (i) sempre se articulará ao desejo; na posição de mais-de-gozar (ii) é inseparável da definição de gozo como satisfação de uma pulsão.

E qual é a definição de Gozo? Gozo é a satisfação de uma pulsão que envolve o corpo comprometido pela ação do significante. O corpo aqui não é o organismo biológico. Corpo inseparável do gozo, atravessado pela cadeia significante. Corpo sede do gozo. Falamos então, em gozo do corpo.

O objeto a apresenta-se, pois, como solidário do desejo e da pulsão.

No Seminário 18, De um outro ao Outro, Lacan (lição de 13/11/68) — introduziu a noção de mais-de-gozar: "[…] o objeto a está preparado especialmente por sua estrutura para ser um lugar de captura de gozo".

O objeto a captura o plus, o excesso de gozo, recuperação de uma perda de gozo, de uma renúncia prévia ao gozo, renúncia que é logicamente anterior a sua recuperação.

No Seminário 10 – A Angústia, Lacan trabalhou essa noção de renúncia dizendo que ela traz necessariamente a divisão do sujeito. O objeto aparece nesse contexto como o resto desse sujeito atravessado pelo significante, que é o sujeito dividido $. Sujeito dividido produzido pela concatenação de dois significantes que deixam um resto, que é o objeto a:

 

 

 

 

 

 

Falamos acima de perda de gozo. Mas o que é perda de gozo? Uma primeira distinção se faz necessária: gozo não é prazer. Gozo é um excesso, uma infração do princípio do prazer. O prazer é homeostático, o gozo é equiparado ao mais além do princípio do prazer, então Lacan o situa na dimensão da pulsão de morte. Dizemos, então, que o gozo aponta para algo confinado à dor. No Seminário 11 – Os Quatro conceitos Fundamentais da Psicanálise, Lacan retoma a noção de homeostase para falar do narcisismo, a homeostase em nível libidinal. Aí o desejo é visto em sua forma de automaton, como repetição da cadeia, é anti-homeostático para o organismo, contrariando a auto-regulação biológica.

Atenção: O conceito de gozo, o mais-de-gozar em sua articulação com o desejo, como desejo do Outro, não deve ser confundido com as formulações de Lacan sobre o Outro do gozo. O Outro do gozo é uma articulação com a perversão — tema central para se pensar a perversão, pois, para todos os falantes não há gozo sexual, enquanto gozo de cada sexo como tal. O que o perverso desmente, pois, embora tenha passado pela castração, recusa-a em si. Ou seja, se vê como sendo o falo imaginário (j) da mãe. Quer ser o significante imaginário da falta de gozar desta. É o que podemos depreender da escritura do matema da perversão: a ® $. O perverso conserva do seu lado o mais-de-gozar, colocando a função subjetiva no Outro, recusa-a em si. (1)

O gozo sexual como tal está perdido para os falantes. É o gozo fálico que o substitui como medida comum para ambos os sexos, o que o torna uma suplência, pois não há relação (proporção) sexual. Não existe o Universal para o Outro sexo, para o sexo feminino. O perverso, na forma do desejo perverso, assume a Vontade de Gozo. Vontade de gozo que é o estender o prazer a um limite onde se encontra a dor — confins do próprio prazer.

Assim, enquanto na neurose as fantasias são uma espécie de teatro privado, lugar de um tesouro escondido, na perversão ela é escancarada. É onde atua o perverso, ou melhor, o desejo perverso, vontade a serviço do Outro. Ele vai querer ser o objeto, o artefato, o instrumento que provoca e que atinge o sujeito, fazendo-o gozar. Ele busca assim, não propriamente o sofrimento do outro, mas sua angústia, cindindo-o, dividindo-o, retalhando o seu corpo ( ®  $). Interessa ao perverso fazer voltar o gozo ao campo do Outro, pois para ele o Outro não quer e não sabe gozar. (2)  

Vontade de gozo é equivalente ao conceito de pulsão de morte, elaborado por Freud. Noção que ele retoma de Kant, a partir da lei moral e do imperativo categórico, que Lacan renomeia: "Goza!". Esse imperativo é pensado a partir de uma lei feroz que não admite desculpas – "podes porque deves" – e que ganha por isso, o ar de centralidade malfazeja, de uma indiferença malévola. (3) Esse imperativo categórico, que é uma lei do supereu, vai contra o bem-estar do sujeito, ou, mais precisamente, é totalmente indiferente a seu bem-estar.

Quando marcamos — gozo do falante, estamos reafirmando a condição para o ser falante aceder ao registro Simbólico, que é a castração, então dizemos que a condição para a entrada no Discurso é o que chamamos sexualidade e não sexo.

III – O impulso

Dissemos que esses sujeitos se apresentam na posição de mais-de-gozar, como na situação (2), anteriormente descrita. São pacientes com uma gama de transtornos ou patologias, que a tradição psiquiátrica chamaria de caracteriopatias, ou ainda psicopatias.

Pode-se recentemente nomeá-las patologias do ato. Sujeitos postados numa posição de atuar, atuações que remetem a série: passagem ao ato, acting out. São sujeitos com distúrbios de comportamento como os anoréxicos, bulímicos, obesos, ou que apresentam atos anti-sociais como os toxicômanos, os delinqüentes, adolescentes infratores, meninos de rua, gangues, jovens, etc. Quando nos referimos a esses atos ou atuações, falamos de situações onde se dá uma aposta do sujeito sem o Outro, ou, onde uma subjetividade está em suspensão. Essas impulsões podem ser verificadas nas distintas estruturas clínicas: neuroses, perversões ou psicoses.

O que se pode observar nesses pacientes é presença de certa satisfação a qual não podem renunciar — "é mais forte que eu" — dizem. Não há em suas manifestações o que em psicanálise convoca um Outro, o que nomeamos sintoma. O mais-de-gozar se apresenta nessas patologias como um aumento de satisfação, uma satisfação desmedida, que em sua busca não representa, necessariamente, um bem para o sujeito, mas produzem, de fato, um mal.

É um gozo auto-suficiente, masturbatório, auto-erótico, ligado à produção de algo conectado diretamente ao próprio sujeito, sem circular pelo campo do Outro — dizemos então que o gozo não tem circularidade social. Mas tem, paradoxalmente, a estrutura discursiva. Lacan definiu discurso como uma forma ou meio de se fazer laço social. Há, entretanto, um discurso que rigorosamente não poderia ser tomado como tal, pois não implica um laço social. Diferentemente do Discurso do Mestre, do Discurso da Histérica, do Discurso do Universitário — que implicam laços sociais, nesse discurso — o Discurso do Capitalista — se vê um gozo autista, que liga o produto (a) do saber (S2), ao sujeito ($):

 

 

 

 

Na posição de mais-de-gozar, esses sujeitos se encontram numa posição de idiotas, agarrados a esses produtos que Lacan chamou de gadgets — objetos ofertados pela mercantilização contemporânea, produtos do Discurso do Capitalista. Consumistas solitários, em adesividade ao consumo chamado de massa se colam a esses objetos descartáveis. Cola e consumo que foraclui o sujeito. Como diz Lacan: as condições às quais o homem se vê submetido ao social — sua significação profundamente alienada — não é da estrutura social que ele depende, mas ele é servo, precisamente, desses meios de produção com os quais se fabricam coisas que enganam o mais-de-gozar (Seminário 18, lição de 8/01/69). Meios de produção que condicionam a prática dos serviços do bem, enquanto bem-estar, estritamente ligados ao princípio do prazer.

Trata-se de pacientes identificados ao objeto de gozo, que não apresentam uma questão, uma pergunta, não postulam um enigma diante de suas existências. Colocam-se mais do lado das respostas. Respostas que os impedem de se dirigir a um Outro, de questionar sua consistência (barrar o Outro, A/), mantendo-o consistente: A.

Essas respostas: "eu sou anoréxico", "eu sou bulímico", "eu sou toxicômano", "eu sou da gangue tal", etc; podem ser escutadas como se dissessem: "tudo para o Outro", restando para o sujeito "o nada". É esse "nada" que deve ser mobilizado no tratamento analítico.

Dizemos que na psicanálise o convite à associação livre só se sustenta no fato de se confiar em que "o significante não significa nada". E, confia-se nele para que signifique qualquer coisa, podendo-se encontrar, a partir daí, as significações mais essenciais do que se costuma chamar "a vida humana". Depois das elaborações de Lacan aprendemos a localizar na experiência analítica um operador lógico — o sujeito suposto saber que vai permitir que o significante que não significa nada se ponha a significar qualquer coisa, como efeitos de suas permutações. (4)

 

IV – A condução do tratamento

Quanto ao manejo com esses pacientes, lembremos: desde que o analista esteja alertado através de sua escuta, há possibilidade de vir a ser surpreendido contando com algo advindo do sujeito. Mesmo que esteja mal situado, com queixas vagas, triviais ou mal definidas. Pois, comummente, encontramos entre esses pacientes, aqueles que não querem falar ou que falam em meio-tom. É aí que veremos sobressair à sintonia fina da escuta do analista. Não é que sejam não-analisáveis, que não haja nada neles que possa ser mobilizado. Há um tempo de espera, ou melhor, de escuta precisa.

Incômodos, embaraços, mal-estar são pequenos indícios, sinais subjetivos que nos dão pistas para seguir escutando, pois muitas vezes não temos como abordar diretamente o sujeito. Colhemos, recentemente, da observação de um colega algo que nos chamou a atenção. Dizia o colega sobre o manejo com esses pacientes: às vezes temos de olhar de través, de esguelha, olhar diretamente pode não focar o ponto que queremos. Se olharmos de lado, talvez cheguemos ao ponto. Isso nos exige paciência, prudência e invenção. Temos de inventar e contar com a invenção também advinda do sujeito, acomodado e escondido, atrás desses pacientes.

A condição de passagem ao ato relacionada aos transtornos a que fizemos referência se articula a um apagamento da posição subjetiva, a um "eu não penso", posição de um sujeito que se mantém enquanto mudo diante da satisfação da pulsão. (5)

O transtorno pode se produzir enquanto passagem ao ato, como impulso, pois não está associado ao sintoma dirigido a um Outro, não está associado ao desejo, pois deixa o sujeito sem lugar, ele não nos diz nada, ou quase nada, mostra-nos no ato sua curiosa satisfação muda: sujeito identificado ao objeto como dejeto, caído.

Só a escuta vai possibilitar fazermos um diagnóstico de estrutura, esclarecendo-nos de que ordem são os indícios trazidos pelo paciente. É o diagnóstico, logicamente, que vai orientar o caminho a seguir. Na neurose o sujeito se identifica com o objeto do desejo do Outro e a fantasia é construída simbolicamente para mediar sua relação com o Outro: para situar sua posição em relação ao Outro. Quanto ao psicótico, por não dispor de recursos simbólicos, por estar mais confrontado ao real, não observaremos essa distinção, essa separação do objeto a, do Outro — não se verifica uma extração do objeto a. Então, em lugar de um circuito pulsional que estabelece a possibilidade de um encontro ou desencontro com o objeto da demanda dirigida ao Outro, temos um curto-circuito da pulsão sobre o corpo. Como fica evidenciado, por exemplo, nos casos de esquizofrenia.

A posição ética do psicanalista indica que devemos trabalhar, na condução do tratamento, essa posição do "eu não penso", possibilitando um giro para uma outra posição que nos permite constatar que algo do sujeito foi tocado. Essa outra posição — "eu não sou" — não estará articulada à passagem ao ato, que é muda, mas vai nos permitir perceber que, de fato, uma subjetivação ali ocorreu. (6)

A transferência é a alavanca, o motor para que esse giro seja possível. Se o sujeito consente com o manejo transferencial, poderemos, na escuta, detectar indícios que apontem para instantes de perplexidade que podem levá-lo à passagem ao ato. Diremos que algo do sintoma, em sua acepção psicanalítica se instala: o paciente se dirige ao analista, a um sujeito suposto saber (SSS) a quem endereça suas questões em busca de explicação sobre o que o aflige.

Endereçar-se a um SSS é consentir com a perda de gozo. Perda de gozo impossível de ser pensada na situação em que o sujeito faz recurso ao objeto como mais gozar. Nas condições de um atendimento psicanalítico, falar para alguém pode produzir, um certo número de efeitos, efeitos de verdade, uma mutação, remanejando o sujeito. Essa é a aposta que se faz. Se há um gozo, gozo inicial que desorganiza o sujeito, esse gozo pode ser esvaziado a partir do trabalho analítico. (7)

Na transferência ele poderá construir sua fantasia e, se tiver fôlego e persistência, atravessá-la em busca de uma redução, de um desbastamento.

Todas as elaborações que temos acompanhado, a partir dos finais de análises recentemente testemunhados no Campo Freudiano, nos demonstram o que é essa redução de gozo, ou localização de gozo. Não há um caminho único ou universal — essa é uma saída contingencial, singular a cada sujeito. Chegar a um final de análise, identificado a mínimo necessário do sintoma, sabendo aí fazer — savoir y faire — com isso que lhe resta, recompondo seu percurso pulsional — são aspectos essenciais e demandam um longo tempo e trabalho. Temos escutado e lido relatos de finais de análises e de momentos de passes clínicos, testemunhados por alguns, que, enfim, puderem, corajosamente, dar a público textos memoráveis situando o périplo de seus percursos.

Ou seja, sujeitos que saem do impasse de suas existências e nos demonstram com o passe, momentos conclusivos e suas formalizações. Ou melhor, nos demonstram como ir do sintoma ao sinthoma, recompondo um novo circuito mais tolerável para suas existências.

NOTAS:

(1)    MILLER, J. - A., Lacan elucidado – Palestras no Brasil, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1997.

(2)    Idem, ibidem.

(3)    ZIZEK, S., Eles não sabem o que fazem, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1990.

(4)    MILLER, J. - A., "La lógica del significante – (1ª Conferência)" in Matemas II, Buenos Aires, Ed. Manantial, 1991, pp. 11-12.

(5)    LACAN, J., Seminário 10 – A angústia (1962-1963), inédito.

(6)    Idem, ibidem.

(7)    MILLER, J. - A., "Os seis paradigmas do gozo" in Opção Lacaniana, 26/27 Abril de 2000, São Paulo, Ed. Eólia, pp. 87-105.