O SILÊNCIO

Filipe Duarte

 

(Condensado da Conferência proferida no dia 18 de Maio de 1996 no Curso de Psicologia da Universidade Lusófona - Lisboa)

 

Pode dizer-se que a Psicanálise começa no preciso momento em que Freud resiste à tentação do silêncio. Em vez de abandonar o fundamento da palavra, - tentação que ainda hoje se apresenta ao analista - encontra aí o seu ponto de Arquimedes, a base sobre a qual irá fundar o edifício da Psicanálise.  Escutando os seus pacientes, ele ouve, tanto nas palavras como nos silêncios, o próprio discurso do inconsciente.

Lacan, alguns anos mais tarde, inspirando-se na letra do texto freudiano, vai lançar as bases de uma autêntica "revolução copernicana", nomeadamente a partir do famoso Discurso de Roma ("Campo e Função da Fala e da Linguagem").  Em vez de ceder ao inefável (dos afectos, por ex.), ou alimentar a desconfiança em relação aos "poderes da palavra" (como faz Santo Agostinho no "Mestre"), ele limita-se, pelo contrário, a seguir as pegadas de Freud para afirmar de um modo absolutamente lógico que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem".  Se a palavra "livremente associada" (segundo a regra fundamental) é capaz de revelar a verdade do sujeito é porque esta mesma verdade tem estrutura de linguagem e o sujeito é constituído graças a ela.

Isto implica, manifestamente, que a verdade do sujeito é diferida ou deslocada para uma Outra cena: "a cena do inconsciente". É este o sentido da "revolução copernicana de Freud".  E para realçar o significado desse deslocamento - ou desse ex-centramento, se quisermos - do sujeito em relação a si mesmo (tornando-se estranho, estrangeiro, outro no seu mais íntimo), Lacan ressitua igualmente o lugar da enunciação da verdade, pondo na "boca" desta as seguintes palavras enigmáticas: "Eu, a verdade, falo" (Moi, la verité, je parle).

A verdade fala para dizer o "segredo" do sujeito.  Antes de mais, que ele não é inteiramente transparente a si mesmo, que é habitado por um discurso e um desejo que vêm do Outro, desse Outro que o dilacera e "aliena" de modo irreversível, tornando-o estruturalmente um "sujeito dividido".  A verdade fala, para dizer isso mesmo, através das "formações do inconsciente": sintomas, sonhos, esquecimentos, lapsos...

Se o sujeito é marcado por essa estrutura (simbólica), da fala e da linguagem, nem por isso a verdade se diz "toda"; há um resto que se cala, ou se inter-diz, nas falhas da fala.

Fomos levados, assim, a percorrer o circuito que nos conduziu do silêncio que tenta ao silêncio que sustenta (permita-se-me a expressão) o desfile dos significantes que vão tecendo o destino do sujeito.