CARTA ACF

Conceito de objecto a em Lacan

João Peneda

(Condensado)

 

"La technique ne peut être comprise, ni donc correctement appliquée, si l'on méconnaît les concepts qui la fondent." Lacan[1]

 

              No ensaio "A análise terminal e interminável" (1937), Freud diz que "a finalização <Beendigung> de uma análise" aparece como "uma questão prática <eine Angelegenheit der Praxis>"[2], de qualquer modo, não crê que "a análise seja em geral um trabalho sem conclusão <ohne Abschluß>". A tese freudiana derradeira sobre o fim <Ende> do tratamento analítico coincide com a metáfora do "rochedo de base <gewachsener Fels>"[3], de onde derivou a noção de "rocha da castração". Chegados a este ponto, o psíquico esbarraria com o real biológico[4], o que significa que o inventor da psicanálise não deixa aqui de adoptar o adágio de Napoleão: "l'anatomie c'est le destin". Em contrapartida, Lacan dirá por sua vez que "la tomie [o corte] c'est le destin".

              O conceito de objecto a de Lacan visa ultrapassar o que chamou de "impasse freudiano", isto é, uma certa indeterminação a respeito do final da análise. A introdução dessa noção permite não só pensar o carácter finito do percurso analítico como também da interpretação em análise, pois o próprio objecto a é ininterpretável, é exterior à "cadeia significante". Assim, o ponto de conclusão lógica da análise coincide com a extracção do objecto a, com a "queda do objecto a". A partir daí, a relação analítica (a transferência) dissolve-se e a interpretação cessa. No fundo, o objecto a é uma letra que indica uma réstia de gozo avessa ao significante, um resto heterogéneo à linguagem.

              Lacan confere à linguagem (Autre), à oposição significante, toda a primazia na constituição da realidade psíquica[5]. Só depois vem o sujeito, o sujeito do/ao significante: $. Deste modo, o inconsciente é também efeito da oposição significante, "o inconsciente está estruturado como uma linguagem". Por último, o resto dessa operação é o objecto a, objecto que desconcerta o desejo do sujeito (agalma do Banquete de Platão). Lacan dirá que "o grande segredo da psicanálise" é que "um significante falta ao nível do Outro", S(%), ou ainda, "não há Outro do Outro".[6] Assim, porque falta o significante último S(%), nessa casa vazia aparece o objecto a como resto de gozo (Real) que decorre da divisão do sujeito pelo significante. Em síntese, o objecto a é o resto resultante da alteridade absoluta do Outro, é um produto inassimilável ao significante, resultado do corte simbólico que engendrou o sujeito. O objecto a é o preço, uma "libra de carne" (Shakespeare), que o ser falante paga para se constituir como sujeito. Daí a fórmula lacaniana do fantasma: $&a".

              No dizer de Lacan, a sublimação "eleva um objecto à dignidade da Coisa"[7], na arte a obra vem no lugar do gozo perdido: ò, o que significa que o objecto artístico vem mascarar, dissimular o vazio da Coisa. Mas a arte não deixa também de se aproximar do fantasma, do último véu que cobre "o real". Em contrapartida, a psicanálise tem por tarefa acercar-se do objecto a através da equivocidade significante (interpretação).[8] A análise chega ao seu fim com a travessia do fantasma <traversée du fantasme>[9], o que permite passar para trás do véu com que o sujeito vê a realidade (Weltanschauung). Neste sentido, a travessia do fantasma corresponde ao para além do "rochedo da castração" de Freud. Lugar a que o "desejo do analista" deve conduzir o sujeito, para que este faça a experiência do objecto que ele é para o desejo do Outro, e assim isolar e irrealizar o objecto a por detrás das identificações imaginárias e simbólicas. A conclusão da análise coincide com o isolamento e a disjunção do objecto a que obtura o vazio causa do desejo ("queda do objecto a"). Porém, a última proposta de Lacan para o final da análise é a "identificação ao sintoma" através da noção de sinthome (S). O sinthome (sintoma+fantasma) é um sujeito não desprevenido em relação ao objecto e às chaves significantes do seu gozo <jouissance>.

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[1] "Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse" in Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 246.

[2] "Die endliche und die unendliche Analyse" in Studienausgabe, Ergänzungsband,  p. 389(266). Freud acrescenta que "a análise visa instalar condições psicológicas mais favoráveis para as funções do Eu; desse modo estaria a sua tarefa resolvida <ihre Aufgabe erledigt>." p. 389(267).

[3] Op. cit., p. 392.

[4] "Denn für das Psychische spielt das Biologische wirklich die Rolle des unterliegenden gewachsenen Felsens." p. 392.

[5] "Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse" in Écrits, Paris, Seuil, 1966, pp. 237-322.

[6] DOR, Joël, Introduction à la lecture de Lacan – 2. La structure du sujet, Paris, Denoël, 1992, p. (101-2).

[7] Seminário VII.

[8] "L'interprétation opère par l'équivocité signifiante et vise l'objet." LACAN, Jacques, "L'étourdit" in Scilicet, nº 4, Paris, Seuil, 1973,

[9] Noção introduzida pela primeira vez por Lacan na última sessão do Seminário X.