CARTA ACF

 

O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO ENTRE DESEJO E GOZO

Marcus André Vieira

 

(Conferência proferida em Bragança em 6/07/96)

 

1. Introdução

Propus-me retomar um texto fundador de Freud para um público interessado mas não necessariamente intimo com os conceitos psicanalíticos. Acontece que este texto necessitaria de toda uma série de conferências para ser abordado no nível que merece. Uma alternativa seria uma conferência de vulgarização, que Wittgenstein já definia como "uma conferência destinada o vos fazer crer que compreenderam algo que na verdade não compreendem", o que não constituiria uma boa solução pois tratar-se-ia de satisfazer uma curiosidade superficial que fecharia portas mais do que abri-las.

Quis ser mais ambicioso, mas o problema continuava e continua pois tenho que manter-me nesse equilíbrio entre faze-los pensar: "estou entendendo tudo o que ele está dizendo mas e daí? aonde ele quer chegar?" ou então "está muito complicado acho que sei o que ele quer dizer mas não entendo como ele está a fazê-lo". Vou anunciar então logo de saída onde quero chegar e como. Tentarei demonstrar que psicanálise tem algo a propor diante do mal-estar da civilização que pode constituir-se como uma verdadeira alternativa a caminhos já por demais trilhados. Entretanto, por ser este um caminho radicalmente diferente ele não é facilmente assimilável, tentarei então situá-lo não somente com ajuda do texto de Freud como também com algumas contribuições de Lacan especialmente a sua concepção de canalhice.

Farei apenas uma observação lateral que nos permitirá circunscrever o lugar deste texto na obra freudiana. Ele se constitui num momento de virada que Freud definirá em seu estudo autobiográfico assim: "meu interesse, apos ter feito um longo desvio pelas ciências naturais, medicina e psicoterapia, retornou aos problemas culturais que me haviam fascinado muito tempo antes, quando eu não passava de um jovem com idade apenas suficiente para pensar". Trata-se na verdade de um grande deslocamento ocorrido entre os anos 20 e 35, e que redefine o lugar da psicanálise em sua relação com a ciência. Freud sempre insistiu em inscrevê-la na linhagem das Naturwissenschafen que ocupavam um lugar análogo ao que hoje denominamos de ciências exatas. Efetivamente Freud foi um homem de seu tempo onde rigor e formalismo se encontravam do lado das ciências da natureza, mas a esta altura ele desvencilha-se desta problemática rompendo com o mecanicismo positivista e indicando as conseqüências dos avanços da psicanálise num outro nível. Isto lhe será possível graças a teorização da pulsão e especialmente da descoberta de um "mais-além" do princípio do prazer que, fundando conceitos num espaço mitológico, abre novas vias para a psicanálise, ainda rigorosa mas liberta de um empirismo exacerbado.


2. O texto

Entremos então no texto propriamente dito. Podemos resumir sua posição da seguinte forma: trata-se de uma avaliação da contribuição da psicanálise com relação a um ponto específico, o mal-estar da civilização. Freud constitui um diagnóstico contundente deste mal-estar ao mesmo tempo em que descreve os caminhos e os impasses encontrados pela humanidade para enfrenta-lo. Em seguida ele explicará este mal-estar à luz da psicanálise, mostrando o quanto esta pode contribuir para uma melhor compreensão de seus fundamentos. Mas há mais, parece-me que podemos dizer que Freud articula, de forma implícita, uma maneira de desfazer o nó deste mal-estar através da psicanálise. Esta última posição freudiana só se tornará clara através da leitura de Lacan, que tentarei explicitar aqui.

O que descrevi acima é uma simplificação redutora quase grosseira pois trata-se de um texto imensamente rico onde Freud aponta para inúmeros temas. Ele constitui, por exemplo, um esboço de teoria da relação do erotismo uretral com o fogo, de uma explicação psicanalítica da tendência ao asseio e à higiene, de uma teoria do comunismo, do anti-semitismo, de uma discussão sobre a sociedade americana e ainda um esboço de teoria sociológica e pedagógica a partir da psicanálise. Basta isto para que vocês compreendam que serei enormemente injusto com Freud tratando apenas de sua tese principal. Espero que vocês possam ir ao texto para desfrutar do estilo e da riqueza dos ditos freudianos.

Quanto a esta tese principal o texto se constrói através do questionamento do senso comum, do qual parte afim de problematizá-lo. Só então, após ter demonstrado o impasse destes valores e posições tradicionais quanto a sociedade e seus preceitos, é que Freud, num procedimento quase socrático, introduzirá a novidade da psicanálise. Esta concerne sobretudo o sentimento de culpa que funda o mal-estar. Neste sentido Freud é claramente anti-kantiano pois se colocará em oposição à moral e os preceitos do senso comum (encarnados segundo Freud sobretudo pelos valores judaico-cristãos) e que Kant colocava como os elementos próprios de uma ética da razão pura.

A tese forte de Freud neste sentido se resume da seguinte maneira: o mal-estar não vem da oposição entre a civilização (e suas exigências repressoras) e a pulsão (e suas exigências instintivas imperiosas), pois não se trata de uma oposição simples. A renúncia às demandas pulsionais implica ela mesmo uma certa satisfação, que funda, tanto quanto à renúncia, a sociedade.

Tentemos esclarecer esta questão. Para se entender o que significa esta tese fundamental de Freud temos que ter em mente algumas aquisições da psicanálise, sendo necessário um pequeno desvio.


3. Totem e tabu

Neste texto Freud fixa o ponto fundamental de nascimento da sociedade. Este nascimento deve ser entendido, aqui, não num plano histórico-evolucionista, como se tivesse realmente ocorrido na noite dos tempos, mas sim mítico-estrutural, como uma narrativa que condensa as leis básicas da subjetivação do homem com relação ao social.

Neste texto, Freud pôs em cena uma tribo primordial e postulou que, neste contexto, um macho dominante submetia todos seus filhos e usufruía das fêmeas com exclusividade. Freud supõe então que, em um dado momento, em vez de um dos filhos vencer o pai em um confronto individual e assumir seu lugar seguindo a lei da natureza, os irmãos decidem associar-se para matá-lo. Surge assim a primeira forma de contrato, assinalando o nascimento da primeira comunidade humana.

Ganharemos muito se considerarmos que Freud não estava buscando revolucionar a antropologia e sim, diante de uma novidade clínica que se apresentava em sua experiência quotidiana, buscava delimitar e transmitir uma configuração específica. Concentrou-se em transmitir uma certa forma mais do que delinear os conteúdos a partir dos quais esta forma se apresentava, uma vez que estes são tão variados quanto o eram seus pacientes. Com efeito, em vez de contar como cada um de seus pacientes se deparava, de uma maneira particular, com a figura do pai, Freud recorre à primeira mitologia fantástica de aparência universal em que pôde lançar mão, a da ciência antropológica de sua época, para transmitir o que observava. 

Podemos retomar este texto, a partir de Lacan, demonstrando, por exemplo, que esta epopéia freudiana veicula, dentre muitas coisas, um impasse lógico: uma vez o pai morto, ninguém mais pode ser Pai. Se a premissa de base rezava que «para se tornar Pai é preciso derrotá-lo em um combate singular» e se o pai está morto, como tornar-se Pai? Evidentemente, um dos filhos pode desfazer a aliança com os outros, por ser mais forte ou mais vil, tornando-se eventualmente um tirano, mas ele sempre estará em outra posição que não a do Pai primevo. Num outro extremo, um dos filhos pode ainda tornar-se um líder espiritual, amado por todos, mas igualmente carregará sempre consigo a sensação de impostura e de culpa fundamental que é inextinguível. Uma vez o pai morto, é impossível o acesso pleno ao outro sexo: a Mãe será proibida para sempre e que um filho apenas se tornará homem, a partir de uma identificação com o Pai defunto, o que, de certa forma, também mortifica o filho pois ele nunca será como o Pai teria sido. Como conseqüência desta mortificação, ele só poderá usufruir de uma mulher envolvido em uma espécie de tonalidade transgressiva, atribuída ao ato sexual, pois associado à posse da Mãe. Desta forma, o sexo e o amor não serão nunca plenos, mas sempre marcados por uma perda e culpa fundamentais. Não se trata de afirmar que, devido a um acidente histórico da evolução da espécie, todo homem é culpado, mas sim que todo homem é culpado e esta é a maneira que Freud encontrou para transmitir a articulação lógica desta condição humana.

Desta forma percebemos que o importante para Freud é indicar que o assassinato do pai da horda primitiva funda ao mesmo tempo a Lei e a proibição. A partir deste ponto temos a constituição por Freud de um mito que será retomado por Lacan em seu sétimo seminário a partir do conceito de Das Ding, a Coisa. Trata-se do Outro em sua alteridade radical, antes que venha a ser "lido" pelos sentidos da linguagem e da cultura. Um outro "real", que é proibido enquanto tal ao ser falante, pois uma vez na linguagem o sujeito só poderá atingi-lo por intermédio desta mesma linguagem, filtrado por esta. Assimilando a Coisa à Mãe, como Outro primordial, vemos que Lacan indica que o gozo da Coisa como tal é impossível para aquele que fala.

Das Ding é tão inacessível quanto o pai da horda, pois estes já estão mortos no momento em que se vem a ser na cultura. Este mito permite-nos apreender de modo exemplar a incidência da leitura lacaniana. O ponto de surgimento da civilização será assimilado à instauração da ordem simbólica. Passa-se assim do pai da horda (que pode ser aproximado da Coisa materna) ao pai simbólico (representante da Lei, ele também submetido a ela). 

Mas convém lembrar que este mesmo mito indica que o pecado e a Lei andam juntos. A Lei que impossibilita (ocupar o lugar do pai da horda, na versão freudiana, ou possuir a mãe-Coisa na versão lacaniana) é a reedição do pecado (assassinato ou incesto fundamentais). Este movimento duplo, já assinalado por São Paulo parece-nos fundamental para uma leitura consistente de Freud, estando no fundamento de diversas oposições essenciais tais como a oposição entre pulsão de vida e pulsão de morte. Encontramos aí a articulação de dois princípios fundamentais (união e dispersão) que não existem separadamente e que guiam a constituição do sujeito e da civilização.

 

4. De volta ao mal-estar com Lacan

Podemos então voltar ao texto de Freud Fundamenta-se a sociedade em um movimento duplo: a lei é o outro lado da transgressão, a lei funda a transgressão. Trata-se de uma oposição que não é uma. Entendemos então que Freud não estabelece uma balança entre a civilização da lei pura (democracia absoluta) e a selvageria absoluta. A civilização e pulsão não estão em oposição simples, donde se conclui que quando Freud se refere à renúncia pulsional ele indica outra coisa que a domesticação do animal no homem. Aqui devemos dar toda ênfase à metáfora energética de Freud: na própria renúncia há satisfação, quando se renuncia à satisfação, ela se dá por outras vias.

Da mesma forma Lacan dá conta do paradoxo do supereu, um dado de observação, pois quanto mais se é virtuoso, mais se introduz o sentimento de culpa. A renúncia implica em uma satisfação. Esta alimenta o sentimento de culpa. A auto-flagelação é um exemplo claro de como pode-se obter esta satisfação paradoxal, entre prazer e dor, na própria renúncia à satisfação.

O mal-estar não vem de exigências contrárias a pulsão, mas do fato que nessas exigências a satisfação do supereu está presente. Para situar esta satisfação paradoxal da pulsão Lacan cria o conceito de gozo.

Lacan formaliza os mitos freudianos deixando nítidas suas indicações estruturais, lógicas. Ao mesmo tempo introduz novas maneiras de designar a mesma Coisa com categorias tais como: desejo, gozo, das Ding, etc.

Retomaremos então o "movimento duplo" acima, a oposição dialética que não é uma oposição simples, com um binômio lacaniano, o do desejo e do gozo.

O gozo, como já vimos, deve ser entendido como diferente do prazer. O gozo puro corresponde à morte, pois o homem define-se como um ser habitado pela falta, por um desejo que o movimenta. Estabelece-se aqui uma balança entre desejo e gozo que reproduz àquela da Lei e da transgressão. Todo desejo inclui algum gozo (mesmo a renúncia já é uma satisfação), por outro lado, toda satisfação é marcada pela falta, não sendo jamais absoluta.

Desta forma, o desejo para Lacan não será disto ou daquilo, mas terá ênfase intransitiva. Lacan o distingue da Demanda, esta sim vontade disto ou daquilo. A demanda é o desejo nomeado, o desejo é aquilo na Demanda que não se satisfaz com o que foi ali nomeado.

Neste sentido, Freud retomará no texto as formas mais usuais de se lidar com esta balança, buscando fugir do mal-estar pela escolha de um de seus pratos. A religião (cristã e hindu) e o ascetismo como tentativa de se escapar do gozo e de se manter unicamente no desejo, a intoxicação como uma tentativa de acesso direto ao gozo e, finalmente, a sublimação, como via paradoxal de se contornar o gozo, obtendo porém, neste processo um gozo parcial que relança o desejo. Trata-se da única, dentre as abordadas por Freud que se mantém em sintonia com a dialética em questão, mas, segundo Freud, ela peca por não ser "corporal" o bastante.

5. Canalhice

Podemos finalmente abordar a questão que nos movia. Existiria, a partir dessas considerações, uma orientação ética específica da psicanálise? Como entender esta ética? Freud, ao final do texto, mostra-se pessimista, afirmando ter tentado ali unicamente circunscrever a estrutura da civilização sem propor alternativas ao seu mal-estar. De fato, ele nos permite compreender a inviabilidade de uma sociedade totalmente hedonista assim como de uma sociedade da Lei pura (pois quanto mais Lei, mais pecado).

Lacan, no entanto, extrai algumas conseqüências a mais deste texto de Freud e permite-nos desenvolver uma via que era apenas insinuada por Freud. A máxima lacaniana "só pode ser culpado de ter-se cedido sobre seu desejo" nos ensina que não renunciar ao desejo é diferente de não renunciar à demanda. Não renunciar ao desejo intransitivo que nos habita conjuga-se como encontrar-nos com nossa essência desejante para além do limite de nossas determinações. Não se trata nem do hedonismo, nem do pessimismo, nem do pragmatismo, mas de esvaziar o peso das determinações de uma vida. Trata-se, ao menos em parte, de uma ética da autonomia que pode se enunciar da seguinte forma: "não ceder sobre a tentação de existir como um real".

‘Existe um além das vontades, um além das demandas e de seus mandos’, isto é o que a psicanálise demonstra e que lhe permite formalizar um lugar para o desejo a partir da delimitação de seus circuitos. Ele é indestrutível e silencioso justamente por se dar apenas como um rastro, sulco deduzido das demandas. Dar-lhe autonomia como um além das demandas é o que a psicanálise propicia. Isso corresponde à abrir-se à contingência radical do real.

Essa posição "autónoma" pode ser melhor sentida em oposição à canalhice, destacada por Lacan e desenvolvida por J. C. Milner (Les noms indistincts). O canalha deve ser distinguido do Sábio que propõe o fim do desejo, sua suspensão num momento idealizado de fusão com a Coisa, seja ela a cara-metade, o Soberano Bem, ou o Saber Absoluto. O canalha não propõe o fim da história mas sim a negação da existência do desejo. "O desejo não existe, só existem as demandas", esta é sua máxima, ou ainda, "o sujeito não existe, só existem comportamentos", ou "o singular não existe, só existem o geral e o particular". Assentam-se sobre esta posição subjetiva, e na impressão de perda que ela pode acarretar, a tristeza e a depressão tão presentes nestes tempos de pós-modernidade. Não renunciar ao desejo pode ainda ser lido como não renunciar às demandas, o que constitui um outro caminho da canalhice. Este é o caminho trilhado pelos yuppies, que se aferram às suas demandas na luta pelo sucesso e constituindo suas neuroses de fracasso em caso de frustração.

Da dissimetria entre desejo e demanda, evidenciada pela psicanálise, vive este mote: ‘Não existe desejo, só demandas’, que se declina em: não há nada além daquilo em que se pode eventualmente deitar mão; nada a esperar e nada de espera porque tudo está aí, sob os olhos; nada de hierarquia a não ser a estabelecida pela contabilidade do gozo. Este é o lema contemporâneo em vias de constituir o sintoma social dominante. Seus arautos foram o cálculo utilitarista e o caso da burguesia de Marx. Seus signos contemporâneos exibem-se na alegria dos advogados (tudo é causa a ganhar), na prepotência dos economistas (toda fome é monetarizável), mas também na depressão asténica da morte do desejo. Esta apatia angustiada é a mãe da toxicomania generalizada que invade o comum dos homens, ruborizado com sua normalidade em extinção. Reduzidos ao registro da demanda, todos os objetos, todos de consumo, têm que ser excepcionais, ao menos enquanto duram, pois nenhuma média, solidária do significante e de sua Lei estabiliza o objeto do desejo.

A própria psicanálise facilita a canalhice. Uma vez que a associação livre leva à separação do desejo e da demanda, a maior canalha introduz-se neste campo com facilidade. O desejo, fugidio por excelência, perde-se na sua fixação numa grande demanda negativa: "frustrar todas as demandas". Este é o analista que ignora todo o sofrimento, fechando-se numa ataraxia obsessiva e terminando por se guiar por seus próprios preconceitos. Estamos bem distantes do ponto onde nos conduz a análise. Que exista um mais além das demandas e que este mais além seja singular é sua máxima.

A psicanálise promove os circuitos em vez dos objetos e, a partir daí, delimita um parceiro original para o homem, um objeto sem nome e sem corpo; que faz, porém, gozar ao incorporar-se nos itinerários significantes de uma fala. Indica-se aqui o lugar atópico da psicanálise, que lhe dá um vislumbre atípico da condição humana. Indica-se também como lhe é difícil constituir uma comunidade a partir de sua novidade, pois pode somente transmitir a experiência do trajeto de uma análise, narrativa das peripécias sujeito-objeto necessariamente escrita na solidão de uma fala e inscrita no singular de uma vida.

Podemos perceber então, por um lado, que a psicanálise não pode ser triste e, por outro, que ela só pode se dar como uma ética. Explica-se assim a fórmula lacaniana "o sujeito é feliz". Ele é feliz porque, assentado nesta abertura à contingência, todo encontro satisfaz, restando a tarefa, para o indivíduo habitado por este sujeito, dar conseqüências em sua vida desta autonomia com relação ao desejo que descobriu em sua análise.

O mal-estar na civilização entRe desejo e gozo (Resumo).

Meu objectivo constituiu-se em destacar do Mal-estar na civilização os elementos que vêm inaugurar uma discussão sobre a ética da psicanálise tal como esta foi circunscrita por Lacan. Tratava-se, ao mesmo tempo, de introduzir o texto, assim como suas teses principais, a um público interessado porém pouco familiarizado com o instrumental teórico freudiano. Apostava que a leitura lacaniana torna possível um acesso em profundidade ao texto de Freud, atraindo pela sua clareza e rigor.

Tratou-se então de situar inicialmente o texto a partir do deslocamento das Naturwissenschafen às Gegenwissenschafen, das ciências (exatas) da natureza às ciências (humanas) do espírito. Com efeito o Mal-estar na civilização é explicitamente situado por Freud numa abertura da psicanálise às "questões culturais", ponto onde ela desvencilha-se do cientificismo mecanicista de seus primórdios. Isto será possível graças à teorização da pulsão e da descoberta de um mais além do princípio do prazer que, fundando conceitos num espaço mitológico, abre novas vias para a psicanálise, ainda rigorosa mas livre de um empirismo exacerbado.

A tese fundamental do texto pode ser assim resumida: o mal-estar não vem da oposição entre a civilização (e suas exigências repressoras) e a pulsão (e suas exigências instintivas imperiosas) pois não se trata de uma oposição simples. A renúncia às demandas pulsionais implica ela mesmo em uma certa satisfação, que tanto quanto a renúncia, funda a sociedade.

Para uma melhor compreensão desta tese assim como de seu alcance tornou-se necessário um pequeno desvio por Totem e Tabu. O assassinato do pai da horda primitiva funda ao mesmo tempo a Lei e a proibição. A partir deste ponto temos a constituição por Freud de um mito que será traduzido por Lacan como: Das Ding é proibida enquanto tal ao ser falante, ou ainda, o gozo é impossível para aquele que fala. Este mito permite-nos apreender de modo exemplar a incidência da leitura lacaniana. O ponto de surgimento da civilização será assimilado à instauração da ordem simbólica sendo retomado a partir de operadores lingüísticos. 

Percebe-se que o pecado e a Lei andam juntos. Este movimento duplo parece-nos fundamental para um leitura consistente de Freud estando no fundamento de diversas oposições essenciais tais como a oposição entre pulsão de vida e pulsão de morte. Encontramos aí a articulação de dois princípios fundamentais (união e dispersão) que não existem separadamente e que guiam a constituição do sujeito e da civilização. Podemos então voltar ao texto de Freud para mostrar como se explica o paradoxo do supereu - "quanto mais virtuoso mais culpado". A renúncia implica em uma satisfação. Esta funda o sentimento de culpa. A auto-flagelação é o exemplo mais claro desta satisfação que Lacan denominará gozo e que constitui o contraponto do sentimento de culpa, a angústia. No limiar do gozo, próximo ao limite do simbólico, a angústia assinala esta vizinhança do real. Furtar-se à Coisa, entretanto, conduz-nos à experiência da falta-a-ser, da falta como condição inerente do fale-ser, como já nos mostrava Heidegger com o seu ser-em-dívida (Schuldigsein) e que funda o sentimento de culpa.

Podemos finalmente abordar a questão que nos movia. Existiria uma orientação ética específica da psicanálise? Como entender esta ética? Freud se mostra pessimista afirmando tentar unicamente circunscrever a estrutura da civilização sem propor alternativas ao seu mal-estar. Ele permite-nos compreender a inviabilidade de uma sociedade totalmente hedonista assim como de uma sociedade da Lei pura (Sade é a verdade de Kant). Entretanto Lacan permite-nos desenvolver uma via que era apenas insinuada por Freud. A máxima lacaniana "só pode ser culpado de ter-se cedido sobre seu desejo" nos ensina que não renunciar ao desejo é diferente de não renunciar à demanda. Não renunciar ao desejo intransitivo que nos habita conjuga-se como encontrar-nos com nossa essência desejante para além do limite de nossas determinações. Isso corresponde à abrir-se à contingência radical do real.

Essa posição autónoma pode ser melhor sentida em oposição à canalhice, destacada por Lacan e desenvolvida por J. C. Milner. O canalha deve ser distinguido do Sábio que propõe o fim do desejo, sua suspensão num momento idealizado de fusão com a Coisa, seja ela a cara metade, o Soberano Bem, ou Saber absoluto. O canalha não propõe o fim da história mas sim a negação da existência do desejo. "O desejo não existe, só existem as demandas", esta é sua máxima, ou ainda, "o sujeito não existe só existem comportamentos", ou "o singular não existe só existem o geral e o particular". Assentam-se sobre esta posição subjetiva, e na impressão de perda que ela pode acarretar, a tristeza e a depressão tão presentes nestes tempos de pós-modernidade. Não renunciar sobre o desejo pode ainda ser lido como não renunciar sobre as demandas, o que constitui um outro caminho da canalhice. Este é o caminho trilhado pelos yuppies aferrando-se às suas demandas na luta pelo sucesso e constituindo suas neuroses de fracasso em caso de frustração.

Uma vez que a associação livre leva à separação do desejo e da demanda a máxima canalha se introduzirá no campo psicanalítico com facilidade. O desejo, fugidio por excelência, perde-se na sua fixação numa grande demanda negativa: frustrar todas as demandas. É o constituirá a caricatura do analista frio e distante que ignora todo sofrimento, fechando-se numa ataraxia obsessiva e terminando por guiar-se por seus próprios preconceitos. Estamos bem distantes do ponto onde nos conduz a análise. Que exista um mais além das demandas e que este mais além seja singular é sua máxima. Podemos perceber então, por um lado que a psicanálise não pode ser triste e, por outro, que ela só pode se dar como uma ética. Explica-se assim a fórmula lacaniana "o sujeito é feliz". Ele é feliz porque, assentado nesta abertura à contingência, todo encontro é real e satisfaz.