OBSERVAÇÕES SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL[1]

1915

 

 

O principiante em psicanálise poderá temer as dificuldades que lhe irão estar reservadas quando interpretar as associações do paciente e lidar com o retorno do recalcado. Mas aprenderá a encarar estas dificuldades como insignificantes, logo que ficará convencido que as únicas dificuldades realmente sérias que têm de enfrentar residem no manejo da transferência.

 

Entre as diversas situações que podem surgir a este propósito, seleccionarei apenas uma, em parte porque é muito corrente, em parte pelas importantes consequências práticas que tem, mas também pelo seu interesse teórico. O que tenho em mente é o caso em que uma paciente demonstra, mediante indicações inequívocas, ou mesmo declarando-o abertamente, que se enamorou, como qualquer outra mortal, do médico que a está analisando. Esta situação tem aspectos trágicos e cómicos, mas também um lado sério. Ela é determinada por diversos e complexos factores; e é tão inevitável e difícil de esclarecer que a técnica analítica necessitava há muito de uma discussão sobre o assunto. Só que aqueles que riem das fraquezas alheias nem sempre estão livres delas; eu mesmo não estive até agora apressado em cumprir essa tarefa; deparei-me constantemente com a obrigação da discrição profissional, a qual não pode ser dispensada na vida real, mas que é inútil para o nosso conhecimento. Na medida em que as publicações psicanalíticas também fazem parte da vida real, ficámos perante uma contradição insolúvel. Acabei por desprezar recentemente a questão da discrição, para demonstrar como a referida situação transferêncial retardou o desenvolvimento da terapia psicanalítica durante a sua primeira década.

 

Para um leigo instruído (a pessoa civilizada ideal para a psicanálise), as coisas do amor não têm medida comum; são, por assim dizer, escritas numa página à parte, em que nenhum outro texto é tolerado. O leigo apenas vê dois desfechos possíveis quando uma paciente se apaixona pelo seu médico. Um, bastante raro, é que todas as circunstâncias levem a uma união legal e permanente entre eles; o outro, mais frequente, é que o médico e a paciente se separem e abandonem o trabalho que começaram e que devia levar ao restabelecimento dela, como se este trabalho tivesse sido repentinamente interrompido por um fenómeno elementar. Há ainda um terceiro desfecho concebível, que até pode parecer compatível com a continuação do tratamento: é que eles iniciem um relacionamento amoroso ilícito e que não se destine a durar para sempre. Mas este caminho não é admitido pela moral convencional e os códigos profissionais. Assim, o nosso leigo implorará ao analista que lhe assegure, tão inequivocamente quanto possível, que esta terceira alternativa está excluída.

 

É claro que um psicanalista tem de encarar as coisas de um ponto de vista diferente.

 

Tomemos o caso da segunda saída da situação que considerámos. Após a paciente se ter apaixonado pelo seu médico, eles separam-se e o tratamento é abandonado. Mas o estado da paciente pode obrigá-la a começar uma segunda tentativa de análise com um outro médico. O que acontece em seguida é que se irá também enamorar deste segundo médico; e, se romper com ele e recomeçar com um terceiro, o mesmo acontecerá e assim por diante. A repetição deste fenómeno é, como sabemos, um dos fundamentos da teoria psicanalítica. Ele pode ser avaliado a partir de dois pontos de vista: o do médico e o da paciente que dele necessita.

 

Para o médico, o fenómeno traz um esclarecimento valioso e um aviso útil contra qualquer tendência à contratransferência que possa estar presente na sua mente. Ele deve reconhecer que o enamoramento da paciente é induzido pela situação analítica e não pelos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não tem nenhum motivo para se orgulhar de uma tal “conquista”, como seria chamada fora da análise. É sempre bom lembrar isto. Para a paciente existem duas alternativas: abandonar o tratamento psicanalítico ou aceitar enamorar-se do seu médico como um destino inelutável.[2]

 

Não tenho dúvidas de que os parentes e amigos da paciente se decidirão enfaticamente pela primeira destas duas alternativas, assim como o analista optará pela segunda. Mas acho que temos aqui um caso em que a decisão não pode ser deixada ao terno - ou antes, egoísta e ciumento - cuidado dos parentes. Só o bem-estar da paciente devia constituir a pedra de toque; o amor dos parentes não é indispensável para a consecução de certos fins. Qualquer pessoa que, como Tolstoi, adopte esta atitude em relação ao problema, pode permanecer na posse imperturbada da sua esposa ou filha, mas terá de suportar que se mantenha a neurose e a interferência na capacidade de amar que esta acarreta. Afinal, a situação é semelhante à de um tratamento ginecológico. Mas o pai ou o marido ciumento está grandemente equivocado se pensa que a paciente deixará de se enamorar do médico se fizer outro tipo de tratamento que não a análise para combater a sua neurose. Pelo contrário, a única diferença será que um amor deste tipo, fadado a permanecer oculto e não analisado, nunca poderá ajudar ao restabelecimento da paciente como a análise o teria feito.

 

Tomei conhecimento que alguns médicos que praticam a análise preparam frequentemente as suas pacientes para o surgimento da transferência erótica ou até mesmo as instigam a “ir em frente e enamorar-se do médico, de modo a que o tratamento possa progredir”. Tenho dificuldade em imaginar uma técnica mais insensata. Assim procedendo, o analista priva o fenómeno da sua espontaneidade, que é tão convincente, e cria para si próprio obstáculos difíceis de superar no futuro.

 

À primeira vista, não parece que o facto da paciente se enamorar sob transferência traga qualquer vantagem ao tratamento. Por mais dócil que tenha sido até então, ela perde repentinamente toda a compreensão e interesse pela análise, não fala nem escuta mais nada que não diga respeito ao seu amor, e exige que este lhe seja retribuído. Abandona os seus sintomas ou deixa de lhes prestar atenção, declarando mesmo que está curada. Há uma completa mudança de cena. É como se, numa peça, a ficção fosse subitamente interrompida pela irrupção da realidade, como quando se grita “fogo” durante uma representação teatral. Nenhum médico que viva este fenómeno pela primeira vez achará fácil manter o controlo do tratamento analítico e livrar a paciente da ilusão de que este chegou realmente ao fim.

 

Uma pequena reflexão vai ajudar a orientarmo-nos. Primeiro e antes de mais, mantenho que tudo o que interfere na continuação do tratamento pode constituir a manifestação de uma resistência. Não há dúvida de que a irrupção de uma apaixonada exigência de amor é, em grande parte, um trabalho da resistência. Há muito que se tinham notado na paciente sinais de uma transferência afectuosa, e pôde-se ter certeza de que a docilidade dela, a sua aceitação das interpretações analíticas, a sua notável compreensão e o alto grau de inteligência que mostrava deviam ser atribuídos a esta atitude em relação ao médico. Agora, isto tudo faz parte do passado. Ela ficou sem a mínima compreensão interna (insight), parecendo ter sido absorvida totalmente pelo seu amor. Para mais, esta modificação ocorre habitualmente no momento preciso em que se está a tentar levá-la a admitir ou a recordar um fragmento particularmente aflitivo ou pesadamente recalcado da história da sua vida. Ela já estava enamorada há muito tempo, mas agora a resistência está começando a utilizar o seu amor a fim de estorvar a continuação do tratamento, desviar todo o seu interesse desse trabalho e colocar o analista numa posição canhestra.

 

Examinando a situação de perto, reconhece-se a influência de motivos que a complicam ainda mais, dos quais alguns se encontram vinculados ao enamoramento e outros são expressões específicas da resistência. Do primeiro tipo são os esforços da paciente para se certificar da sua capacidade irresistível de sedução, para destruir a autoridade do médico rebaixando-o ao nível do amante, e assim conquistar todas as outras vantagens prometidas pelo amor. Em relação à resistência, podemos suspeitar que faz ocasionalmente uso da declaração de amor da paciente como um meio para colocar à prova a autoridade do analista, de maneira que, se ele mostrar sinais de complacência, possa ser chamado à ordem. Acima de tudo, fica-se com a impressão de que a resistência age como um agent provocateur; que intensifica o estado amoroso da paciente e exagera a sua disposição à rendição sexual, a fim de justificar ainda mais enfaticamente o recalcamento e apontar para os perigos da licenciosidade. Como sabemos, estas motivações acessórias, que em casos mais simples podem não estar presentes, foram encaradas por Adler como o essencial de todo o processo.

 

Mas como é que o analista se deve comportar para não fracassar em tal situação, se estiver persuadido que o tratamento deve ser levado avante, apesar da transferência erótica que ele deve enfrentar com calma?

 

Ser-me-ia fácil enfatizar aqui os padrões universalmente aceites da moralidade e insistir que o analista não deve nunca, em quaisquer circunstâncias, aceitar ou retribuir os ternos sentimentos que lhe são oferecidos; que, inversamente, deve ponderar que chegou a sua vez de apresentar à mulher que o ama as exigências da moral social e a necessidade da renúncia, de a fazer abandonar os seus desejos, para, depois de ter dominado o lado animal do seu Eu, prosseguir o trabalho da análise.

 

Não atenderei, contudo, a estas expectativas, nem à primeira, nem à segunda. A primeira, porque não estou escrevendo para a clientela, mas sim para médicos defrontando-se com sérias dificuldades, e também porque, neste caso, posso fazer remontar a prescrição moral à sua fonte, que são as conveniências. Encontro-me aqui na feliz posição de poder substituir a proibição moral por considerações de técnica analítica, sem qualquer alteração no resultado.

 

Ainda mais decididamente, recuso-me a atender à segunda expectativa que mencionei. Instigar a paciente a suprimir ou a sublimar os seus desejos, no momento em que ela admitiu a transferência erótica, seria, não uma maneira analítica de lidar com eles, mas uma maneira insensata. Seria exactamente como se, após invocar mediante astutos encantamentos um espírito dos infernos, o mandássemos de volta para baixo, sem lhe haver feito uma única pergunta. Ter-se-ia, assim, trazido o recalcado à consciência apenas para, assustados, o recalcar mais uma vez. Não devemos iludir-nos sobre o êxito de qualquer procedimento deste tipo. Como sabemos, as paixões são pouco afectadas pelos discursos sublimes. A paciente apenas sentirá humilhação e não deixará de se vingar por causa desta.

 

Tão pouco posso advogar um caminho intermédio, que certas pessoas considerariam como especialmente engenhoso. Este consistiria em declarar que se retribuem os sentimentos amorosos da paciente, mas, ao mesmo tempo, evitando qualquer complementação física desta afeição, até que se possa orientar o relacionamento para canais mais calmos e elevá-lo a um nível mais alto. A minha objecção a este expediente é que o tratamento analítico se baseia no amor à verdade, residindo neste facto grande parte do seu efeito educativo e valor ético. É perigoso desviar-se deste fundamento. Todo aquele que se empenhou na técnica analítica não será mais capaz de fazer uso das mentiras e fingimentos que um médico normalmente acha inevitáveis; e se, com a melhor das intenções, tentar fazê-lo, é muito provável que se traia. Visto exigirmos a estrita sinceridade dos nossos pacientes, colocamos em perigo toda a nossa autoridade, se deixarmos que nos apanhem a desviarmo-nos da verdade. Além disso, a experiência de se deixar levar um pouco por sentimentos ternos em relação à paciente não é inteiramente sem perigo. O controlo sobre nós próprios não é tão completo que não possamos subitamente, um dia, ir mais além do que havíamos pretendido. Em minha opinião, portanto, não devemos abandonar a neutralidade para com a paciente que adquirimos pela análise da contratransferência.

 

Já deixei claro que a técnica analítica exige do médico que ele negue à paciente que anseia por amor a satisfação que esta exige. O tratamento deve ser levado a cabo na abstinência. Não se trata apenas de abstinência física, nem de privação de tudo o que a paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma possa tolerar isto. Inversamente, considero que a necessidade e o desejo da paciente devem persistir, a fim de poderem servir de forças que a incitem a trabalhar e mudar. Devemos cuidar de não tentar apaziguar estas forças por meio de substitutos; o que então poderíamos oferecer não seria mais que uma aparência, pois a condição da paciente é tal que, até que os seus recalcamentos serem removidos, ela é incapaz de alcançar uma satisfação real.

 

Admitamos que o princípio que o tratamento seja levado a cabo na abstinência se estenda muito para além do caso isolado que estamos aqui a considerar; e que necessite ser completamente debatido, a fim de podermos definir os limites da sua possível aplicação. Todavia, vou me manter tão próximo quanto possível da situação de que partimos. O que aconteceria se o médico se comportasse diferentemente e, supondo que ambas as partes fossem livres, se aproveitasse desta liberdade para retribuir o amor da paciente e acalmar a sua necessidade de afeição?

 

Se ele tivesse sido guiado pelo cálculo de que esta concordância da sua parte lhe garantiria o domínio sobre a paciente, o capacitaria a influenciá-la a realizar as tarefas exigidas pelo tratamento, a libertá-la duradoiramente da sua neurose, então a experiência mostrar-lhe-ia inevitavelmente que o seu cálculo estava errado. A paciente alcançaria o objectivo dela, mas ele nunca alcançaria o seu. O que aconteceria ao médico e à paciente seria apenas o que aconteceu, segundo uma divertida anedota, ao pastor e ao corretor de seguros. O corretor de seguros, livre-pensador, estava à beira da morte e os seus parentes insistiram em trazer um homem de deus para convertê-lo antes de morrer. A entrevista durou tanto tempo que aqueles que esperavam do lado de fora começaram a ter esperanças. Por fim, a porta do quarto do doente abriu-se. O livre-pensador não tinha sido convertido, mas o pastor foi embora com um seguro.

 

Se os avanços da paciente fossem retribuídos, isso constituiria um grande triunfo para ela, mas uma derrota completa para a análise. A paciente teria tido sucesso contra aquilo com que a análise luta, a repetição, em acto (acting out), na vida real, do que apenas devia ser recordado como material psíquico e elaborado mentalmente. No curso ulterior do relacionamento amoroso, ela acabaria por expressar todas as inibições e reacções patológicas da sua vida erótica sem que houvesse qualquer possibilidade de corrigi-las; o episódio penoso terminaria em remorso e num grande fortalecimento da sua propensão para o recalcamento. Na verdade, a relação amorosa destrói o consentimento da paciente à influência da análise. Uma combinação das duas seria, pois, impossível.

 

Portanto é tão desastroso para a análise que o anseio de amor da paciente seja satisfeito, quanto que seja eliminado. O caminho que o analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual não existe modelo na vida comum. Ele tem de tomar cuidado para não se afastar do amor transferêncial, repeli-lo ou torná-lo desagradável para a paciente; mas deve, de um modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuição. O analista deve manter o domínio do amor transferêncial, mas tratá-lo como algo irreal, que a análise deve atravessar para remontar às origens inconscientes desse amor, e poder trazer à luz o que na vida erótica da paciente se encontra profundamente oculto para a consciência e o controlo exercido por esta. Quanto mais claramente o analista permite que se perceba que ele está à prova de qualquer tentação, mais prontamente poderá extrair da situação o seu conteúdo analítico. A paciente, cujo recalcamento sexual ainda não foi removido, mas simplesmente empurrado para um segundo plano, sentir-se-á, então, bastante segura para permitir que venham à luz as suas pré-condições para amar, todas as fantasias que emergem dos seus desejos sexuais, todas as características pormenorizadas de seu estado amoroso. A partir daí, ela própria abrirá o caminho para as raízes infantis do seu amor.

 

É verdade que existe determinada classe de mulheres para quem esta tentativa de preservar a transferência erótica para os fins do trabalho analítico sem satisfazê-la não terá êxito. Trata-se de mulheres que não toleram outra coisa que as suas grandes paixões. São filhas da natureza que se recusam a aceitar que o psíquico venha no lugar do material, ou, nas palavras do poeta, que apenas são acessíveis à “lógica da sopa e ao argumento dos bolinhos”. [“Suppenlongik mit Knödelgründen”, de Die Wanderraten de Heine. (Transcrito erradamente por Freud: “Knödelargumenten”]. Com estas pessoas tem de se escolher entre retribuir o seu amor ou, então, acarretar para si toda a inimizade de uma mulher desprezada. Em nenhum dos casos se podem salvaguardar os interesses do tratamento. Tem de se bater em retirada, sem sucesso, e tudo o que se pode fazer é revolver na sua própria mente o problema de como é que uma capacidade de neurose se liga a tão obstinada necessidade de amor.

 

Muitos analistas estarão de acordo sobre o meio pelo qual outras mulheres, menos violentas no seu amor, podem ser gradualmente levadas a adoptar a atitude analítica. O que fazemos acima de tudo é acentuar, para a paciente, o elemento inequívoco da resistência nesse amor. Como se diz, o verdadeiro amor devia torná-la dócil e intensificar a sua prestação na solução dos seus problemas, simplesmente porque o homem de quem está enamorada espera isso dela. Neste caso, ela escolheria alegremente a estrada da conclusão do tratamento, a fim de adquirir valor aos olhos do médico e preparar-se para a vida real, onde este sentimento de amor poderia encontrar um lugar adequado. Mas em vez disso, dizemos nós, ela mostra um espírito teimoso e rebelde, abranda todo o interesse pelo tratamento e não sente claramente respeito pelas mais bem fundamentadas convicções do médico; expressa deste modo uma resistência através do disfarce de estar enamorada dele. Além disso, não se comove por colocar o médico numa situação difícil; se ele recusa o seu amor, como o dever e o entendimento da situação o compelem a fazer, ela pode representar o papel da mulher desprezada, e afastar-se dos esforços terapêuticos por vingança e ressentimento, exactamente como o seu amor ostensivo está fazendo.

 

Como segundo argumento contra a genuinidade desse amor, apresentamos o facto de ele não exibir uma só característica nova ou que tenha a sua origem na situação actual, mas compor-se inteiramente de repetições, cópias de reacções anteriores, inclusive infantis. Isto prova-se mediante uma análise pormenorizada do comportamento amoroso da paciente.

 

Quando se acrescenta a dose necessária de paciência a estes argumentos, é geralmente possível superar a difícil situação e continuar o trabalho com um amor que foi moderado ou transformado; o trabalho visa, então, desvendar a escolha infantil do objecto da paciente e as fantasias que se teceram em redor dele.

 

Gostaria agora de examinar estes argumentos com olhos críticos e levantar a questão de saber se, ao apresentá-los à paciente, estamos realmente dizendo a verdade, ou se não nos estamos valendo desesperadamente de encobrimentos e deturpações. Noutras palavras: podemos verdadeiramente dizer que o estado de enamoramento que se manifesta no tratamento analítico não é real?

 

Acho que dizemos a verdade, mas não toda a verdade, se não atendermos às consequências. Dos nossos dois argumentos, o primeiro é o mais forte. O papel desempenhado pela resistência no amor transferêncial é inquestionável e muito considerável. Mas a resistência não cria esse amor; ela encontra-o já pronto, à mão de semear, fazendo apenas uso dele e agravando as suas manifestações. Tão pouco a genuinidade do fenómeno deixa de ser provada pela resistência. O segundo argumento é muito mais fraco. É verdade que o amor consiste em novas reedições de antigas características e que ele repete reacções infantis. Mas este é o carácter essencial de todo o estado amoroso. Não existe estado deste tipo que não reproduza protótipos infantis. É precisamente desta determinação infantil que recebe o seu carácter compulsivo, beirando, como o faz, o patológico. O amor transferêncial possui talvez um grau menor de liberdade que o amor que surge na vida comum e é chamado “normal”; ele exibe a sua dependência do padrão infantil mais claramente e é menos adaptável e capaz de modificação; mas isto tudo não constitui o essencial.

 

Através de que outros sinais pode a genuinidade de um amor ser reconhecida? Pela sua eficácia, a sua utilidade a alcançar o objectivo? A este respeito, o amor transferêncial não parece ficar devendo nada a ninguém; tem-se a impressão de que, com ele, se pode obter qualquer coisa.

 

Resumamos, portanto. Não temos o direito de contestar que o estado amoroso que faz o seu aparecimento no tratamento analítico tenha o carácter de um amor verdadeiro. O parecer tão desprovido de normalidade é suficientemente explicado pelo facto de que estar enamorado na vida comum, fora da análise, é também mais semelhante aos fenómenos mentais anormais que aos normais. Não obstante, o amor transferêncial caracteriza-se por certos aspectos que lhe asseguram uma posição especial. Em primeiro lugar é provocado pela situação analítica; em segundo é grandemente intensificado pela resistência, que domina a situação; e, em terceiro, falta-lhe em alto grau de consideração pela realidade, é menos sensato, menos interessado nas consequências e mais egoísta na sua avaliação da pessoa amada do que estamos preparados para admitir no caso do amor normal. Contudo, não devemos esquecer que esses afastamentos da norma constituem precisamente aquilo que é essencial a respeito do estar enamorado.

 

É a primeira destas três características do amor transferêncial que constitui o factor decisivo da acção do analista. Foi ele que provocou este amor ao oferecer o tratamento analítico a fim de curar a neurose. Para o analista, trata-se da consequência inevitável de uma situação médica, tal como a exposição do corpo de um paciente ou a comunicação de um segredo vital. É-lhe, portanto, evidente que não deve tirar qualquer vantagem pessoal disso. A disposição da paciente não faz diferença; simplesmente lança toda a responsabilidade sobre o próprio analista. Na verdade, como ele deve saber, a paciente não se preparou para nenhum outro método de cura. Após todas as dificuldades terem sido superadas, ela confessará muitas vezes ter tido uma fantasia antecipatória na altura em que começou o tratamento, no sentido de que, se ela se comportasse bem, seria recompensada no final pela afeição do médico.

 

Para o médico, os motivos éticos unem-se aos técnicos para o impedir de dar o seu amor à paciente. O objectivo que tem de manter em vista é que a essa mulher, cuja capacidade de amor está prejudicada por fixações infantis, deve adquirir o pleno controlo de uma função que lhe é de tão inestimável importância; que ela não deve, porém, dissipá-la no tratamento, mas mantê-la pronta para o momento em que, após o tratamento, as exigências da vida real se fazem sentir. A análise não deve encenar a situação de uma corrida de cães em que o prémio seria uma grinalda de salsichas, mas que um humorista estragou ao atirar uma única salsicha para a pista; o resultado foi que os cães se atiraram à salsicha e esqueceram tudo sobre a corrida e a grinalda que os atraía para a vitória distante. Não quero dizer que é sempre fácil ao médico manter-se dentro dos limites prescritos pela ética e pela técnica. Aqueles que ainda são jovens e não estão ligados por fortes laços podem, em particular, achá-lo uma tarefa árdua. O amor sexual é indubitavelmente uma das mais importantes coisas da vida, e a satisfação mental e física no gozo do amor constitui um de seus pontos culminantes. À parte alguns excêntricos fanáticos, todos sabem isso e conduzem a sua vida desta maneira; só a ciência parece refinada demais para o admitir. Por outro lado, quando uma mulher solicita amor, rejeitá-la é um papel penoso para um homem desempenhar. Apesar da neurose e da resistência, existe um fascínio incomparável numa mulher de elevados princípios que confessa a sua paixão. Não são os desejos cruamente sensuais da paciente que constituem a maior tentação. Até é provável que estes repugnem e possam ser encarados como um fenómeno natural exigindo a tolerância do médico. Talvez sejam os mais subtis e misteriosos desejos que emanam de uma mulher que podem fazer com que um homem esqueça a sua técnica e missão médica no interesse de uma bela experiência.

 

E, no entanto, o analista não pode ceder. Por mais alto que preze o amor, tem de prezar ainda mais a oportunidade de ajudar a sua paciente a passar por um estádio decisivo da sua vida. Ela tem de aprender com ele a ir além do princípio do prazer, a abandonar uma satisfação imediata, mas que é socialmente inaceitável, a favor de uma outra mais distante, talvez inteiramente incerta, mas psicológica e socialmente irrepreensível. Para conseguir esta superação, ela deve ser conduzida através do período primevo de seu desenvolvimento mental e, nesse caminho, adquirir a parte adicional de liberdade mental que distingue a actividade mental consciente - no sentido sistemático - da inconsciente.

 

Assim, o psicoterapeuta analítico deve travar uma tripla batalha: na sua própria mente, contra as forças que procuram arrastá-lo para um nível abaixo da análise; fora desta, contra os opositores que contestam a importância da sexualidade e o impedem de fazer uso dela na técnica; e, dentro da análise, contra os pacientes que a princípio se comportam como opositores, mas depois sobrevalorizam a vida sexual que os domina tentando que o analista se torne cativo da sua paixão socialmente indomada.

 

O público leigo, sobre cuja atitude em relação à psicanálise falei no início, apossar-se-á sem dúvida deste debate sobre o amor transferêncial como mais uma oportunidade de dirigir a atenção do mundo para o sério perigo deste método terapêutico. O psicanalista sabe que trabalha com forças altamente explosivas e que precisa avançar com tanta cautela e escrúpulo quanto um químico. Mas em que momento é que os químicos foram proibidos de manejar as substâncias explosivas indispensáveis pelos seus efeitos? É digno de nota que a psicanálise tenha de conquistar para si própria todas as liberdades que foram há muito tempo concedidas a outras actividades médicas. Não sou favorável a abandonar os métodos inócuos de tratamento; em muitos casos, estes são suficientes. A sociedade humana tem de saber lidar com o furor sanandi como com qualquer outro fanatismo; mas acreditar que as neuroses podem ser vencidas pela administração de mezinhas inócuas é subestimar grosseiramente esses distúrbios, tanto quanto à sua origem, quanto à sua importância prática. Não; na clínica médica haverá sempre lugar para o ferrum e para o ignis, lado a lado com as medicinas; da mesma maneira, não seremos capazes de passar sem uma psicanálise devidamente orientada, que não tenha medo de manejar os mais perigosos impulsos mentais e de obter o domínio sobre estes em benefício do paciente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LISTA DOS TRABALHOS DE FREUD QUE TRATAM PRINCIPALMENTE DA TÉCNICA E TEORIA PSICANALÍTICA

 

A data ao início de cada título é a do ano durante o qual o trabalho foi provavelmente escrito. A data do final é a da publicação.

 

1888   Crítica de Der Hypnotismus, de Forel (1889a)

1888   Introdução à tradução de De la suggestion, de Bernheim (1888-9)

1890   ‘Tratamento Psíquico (ou Mental)’ (1890a)

1891   ‘Hipnose’ em Therapeutisches Lexikon, de Bum (1891d)

1892   Um Caso de Tratamento Bem Sucedido pelo Hipnotismo’ (1892-93b)

1895   Estudos sobre a Histeria, Parte IV (1895d)

1898   A Sexualidade na Etiologia das Neuroses’ (última parte) (1898a)

1899   A Interpretação dos Sonhos, Capítulo H (primeira parte) (1900a)

1901   Fragmento de uma Análise de um Caso de Histeria, Capítulo IV (1905e)

1903   O Procedimento Psicanalítico de Freud (1904a)

1904   Sobre a Psicoterapia (1905a)

1910   As Perspectivas Futuras da Terapia Psicanalítica (1910d)

1910   Psicanálise “Selvagem”’ (1910k)

1911   ‘O Manejo da Interpretação dos Sonhos na Psicanálise’ (1911e)

1912   A Dinâmica da Transferência (1912b)

1912   Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise (1912e)

1913   Sobre o Início do Tratamento (1913c)

1914   Fausse Reconnaissance (“déjà raconté”) no Tratamento Psicanalítico (1914a)

1914   Recordar, Repetir e Elaborar (1914g)

1914   Observações sobre o Amor transferêncial (1915a)

1917   Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Conferências XXVII e XXVIII (1916-17)

1918   Linhas de Avanço na Terapia Psicanalítica (1919a)

1920   Para Além do Princípio de Prazer, Capítulo III (1920g)

1923   Considerações sobre a Teoria e a Prática da Interpretação dos Sonhos (1923c)

1926   A Questão da Análise Leiga, Capítulo V (1926e)

1932   Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Conferência XXXIV (1933a)

1937   Análise Terminável e Interminável (1937c)

1937   Construções em Análise (1937d)

1938   Compêndio de Psicanálise, Capítulo VI (1940a).

 

 

 


 

 

 

 

CONSTRUÇÕES NA ANÁLISE [3]

1937

 

Sempre me pareceu algo grandemente a crédito de um bem conhecido e sábio homem de ciência o facto de ele ter tratado a psicanálise com justiça, numa época em que a maioria das pessoas não se sentia nesta obrigação. Porém, em determinada ocasião, expressou uma opinião sobre a técnica analítica que foi ao mesmo tempo depreciativa e injusta. Disse ele que, ao fornecermos interpretações a um paciente, tratamo-lo segundo o famoso princípio do Heads I win, tails you lose [caras ganho eu, coroas perdes tu]. Isto equivale a dizer que se o paciente concorda connosco, então a interpretação está certa, mas, se ele nos contradiz, apenas constitui um sinal da sua resistência, o que novamente demonstra que estamos certos. Deste modo, temos sempre razão contra o pobre e desamparado infeliz que analisamos, não importando modo como ele reage ao que lhe é apresentado. Dado que é realmente verdade que um “não” dos nossos pacientes não é suficiente para nos fazer abandonar uma interpretação como incorrecta, uma revelação como esta sobre a natureza da nossa técnica foi muito bem acolhida pelos opositores da análise. Por esta razão, vale a pena fornecer uma descrição pormenorizada do modo como estamos acostumados a avaliar o “sim” ou o “não” dos nossos pacientes durante o tratamento analítico, ou seja, a expressão do seu acordo ou da sua negação. No decorrer desta apologia, o analista praticante não irá aprender naturalmente nada que já não saiba.

 

O trabalho da análise convida o paciente a levantar o recalcamento (emprego aqui este termo no sentido mais amplo) que pesa sobre o seu desenvolvimento infantil e a substituí-lo por respostas que correspondam a uma condição psiquicamente mais madura. Tendo este objectivo em vista, o sujeito vai recordando certas experiências que esqueceu. Sabemos que os seus actuais sintomas e inibições são a consequência de um recalcamento deste tipo; eles constituem um substituto da coisa esquecida. Que espécie de material é que o paciente põe à nossa disposição para que o possamos colocar no caminho da recuperação das lembranças perdidas? Todo o tipo de material: fragmentos de recordações, sonhos, valiosíssimos em si, mas regra geral bastante deformados por todos os factores relacionados com a formação dos sonhos. Com a “associação livre”, aparecem ideias onde podemos descobrir alusões às representações recalcadas e afectos conexos, bem como reacções contra estes. Finalmente, há a repetição do material recalcado, que se pode traduzir em comportamentos dentro ou fora da situação analítica, por vezes bastante significativos, outras vezes triviais. A prática demonstrou ainda que a relação transferêncial com o analista favorece o retorno do recalcado. É toda esta matéria-prima - se assim podemos dizer - que se tem de reunir para chegar ao que se procura.

 

Andaríamos, deste modo, à procura de um quadro digno de confiança dos anos esquecidos do paciente, que seria, em todos os aspectos, completo. Sobre este ponto, devo recordar que o trabalho analítico se encontra dividido e é levado a cabo em dois lugares separados, que envolvem duas pessoas, a cada uma das quais é atribuída uma tarefa diferente. Por um momento, pode parecer estranho que um facto tão fundamental como este não tenha sido apontado há muito tempo, mas imediatamente se perceberá que, se nada foi sublinhado, era porque se tratava de algo bem conhecido e, por assim dizer, auto-evidente; é esta banalidade que coloco agora em relevo e examino para um propósito específico. Todos nós sabemos que a pessoa que está sendo analisada é levada a recordar algo que foi por ela experimentado e recalcado; ora, como os determinantes dinâmicos deste processo são muito interessantes, o que se passa do outro lado, isto é a função desempenhada pelo analista, foi deixada num segundo plano. Dado que o analista não experimentou nem recalcou nada do material considerado, a sua tarefa não pode ser recordar o passado. Em que consiste então? A encontrar a coisa esquecida a partir dos sinais disponíveis ou, mais correctamente, a construi-la. A oportunidade e o modo como se transmite esta construção a quem está sendo analisado, bem como as explicações que a acompanham, constituem o vínculo entre os dois participantes no trabalho da análise, o analista e o paciente. O trabalho de construção, ou, se preferirmos, de reconstrução, assemelha-se muito à escavação, por um arqueólogo, de uma morada destruída e soterrada, ou de algum edifício antigo. Os dois processos são semelhantes, exceptuando o facto que o analista trabalha em melhores condições e tem mais material à sua disposição para ajudá-lo, já que aquilo com que lida não está morto, mas vivo. Talvez haja também uma outra razão. Como o arqueólogo que ergue as paredes do prédio a partir dos alicerces que permaneceram de pé, determina o número e a posição das colunas pelas depressões no chão, e reconstrói as decorações e as pinturas murais a partir dos restos encontrados nos escombros, assim, também, procede o analista, quando extrai as suas inferências dos fragmentos de lembranças, das associações e do comportamento do sujeito em análise. Ambos possuem um direito indiscutível de reconstruir por meio da substituição e combinação dos restos que sobreviveram. Para mais, ambos estão sujeitos a muitas das mesmas dificuldades e fontes de erro. Um dos mais melindrosos problemas com que se defronta o arqueólogo é a determinação da idade dos seus achados, por exemplo, se um objecto aparece num certo nível do solo, resta decidir se ele pertence a esse nível ou se foi trazido para lá em consequência de alguma perturbação. É fácil imaginar as dúvidas correspondentes que surgem no caso das construções analíticas.

 

O analista, como dissemos, trabalha em condições mais favoráveis do que o arqueólogo, já que dispõe de um material que não corresponde ao das escavações, tal como repetições de reacções datando da infância e tudo o que traz a transferência em conexão com essas repetições. Além disso, há que manter em mente que o escavador lida com objectos destruídos, dos quais grandes e importantes partes certamente se perderam, devido à violência mecânica, ao fogo ou ao saque. Mas, depois da descoberta, não há esforço que possa garantir que o que foi perdido consiga ser achado e unido aos restos que permaneceram. O único recurso é o da reconstrução, que frequentemente só pode atingir um certo grau de probabilidade. Não é isso que se passa com o objecto psíquico do sujeito do qual o analista busca a história. Aqui, defrontamo-nos geralmente com uma situação que apenas ocorre em circunstâncias raras com um objecto arqueológico, como as ruínas de Pompeia ou o túmulo de Tutankhamon. Todos os elementos essenciais permanecem preservados; mesmo o que parece completamente perdido se encontra presente, de alguma maneira e nalgum lugar, apenas foi enterrado e tornado inacessível. É de duvidar que uma estrutura psíquica possa ser totalmente destruída. Depende exclusivamente do trabalho analítico ser capaz de trazer à luz o que está oculto. Existem apenas dois factos que pesam contra a extraordinária vantagem de que assim desfruta o trabalho da análise, a saber, que os objectos psíquicos são incomparavelmente mais complexos que os objectos materiais, e que possuímos um conhecimento insuficiente do que esperamos encontrar, uma vez que a estrutura íntima do objecto psíquico ainda é misteriosa. A nossa comparação entre as duas formas de trabalho não pode ir além deste ponto; mas a principal diferença entre elas reside no facto que, para o arqueólogo, a reconstrução é o objectivo final dos seus esforços, ao passo que, para o analista, a construção constitui apenas um trabalho preliminar.

 

 

II

 

A construção não é, porém, um trabalho preliminar no sentido que o todo deve estar acabado antes que o trabalho seguinte possa começar, como é o caso com a construção de casas, onde todas as paredes devem ser erguidas e todas as janelas inseridas antes que a decoração interna das divisões possa ser feita. O analista sabe que as coisas acontecem de modo diferente na análise, pois os dois trabalhos são aí executados lado a lado, um deles um pouco à frente e o outro logo a seguir. O analista completa a construção com um fragmento e comunica-a ao sujeito de forma a agir sobre ele; assim, constrói constantemente, ainda que lide sempre da mesma maneira com o material, prosseguindo de modo alternado até ao fim. Se nas descrições da técnica analítica se fala tão pouco de “construções”, isso deve-se ao facto que se prefere falar das “interpretações” e dos seus efeitos. Mas acho que “construção” é um termo mais adequado para descrever o que se passa no conjunto. A interpretação incide sobre um fragmento isolado, tal como um lapso ou um acto falho. Há construção quando se preenche uma lacuna e se leva o sujeito a posicionar-se na sua história, aproximadamente como no seguinte exemplo: “Até os onze anos de idade você considerava ser o único e ilimitado possuidor da sua mãe; quando nasceu um outro bebé, teve uma grande desilusão. A sua mãe deixou-o durante algum tempo e, após ter reaparecido, nunca mais se dedicou exclusivamente a si. Os seus sentimentos para com ela tornaram-se ambivalentes, e o seu pai adquiriu uma nova significação…”; e assim por diante.

 

Neste artigo, a atenção está voltada exclusivamente para o trabalho preliminar das construções. Surge, então, a questão de saber que garantia temos, enquanto trabalhamos nessas construções, de que não estamos cometendo erros e arriscando o sucesso do tratamento pela apresentação de alguma construção incorrecta. Pode parecer impossível que se consiga dar uma resposta a esta questão para todos os casos; mas antes deste debate, podemos confiar numa informação confortante que nos é fornecida pela experiência analítica, uma vez que esta ensina que nenhum dano é causado se, ocasionalmente, cometemos um erro ou comunicamos ao paciente uma construção falsa como sendo a verdade histórica provável. É natural que haja aqui um desperdício de tempo, e que aquele que não faz mais do que apresentar ao paciente construções falsas não crie uma boa impressão, nem leve o tratamento muito longe; mas um erro isolado não pode causar prejuízo. O que realmente ocorre neste caso é que o paciente não é tocado pelo que foi dito, não diz “sim”, nem “não”. Isto pode significar que sua resposta foi adiada; porém, se nada mais se desenvolve, podemos concluir que houve um equívoco, e admitimo-lo para o paciente num momento oportuno, sem sacrificar a nossa autoridade. Esta oportunidade surge quando vem à luz um novo material que nos permita fazer uma melhor construção e corrigir deste modo o nosso erro. Abandona-se então a falsa construção como se ela nunca tivesse sido feita, e, na verdade, ficamos até frequentemente com a impressão - peço aqui emprestado as palavras a Polónio – que a isca da falsidade fisgou a carpa de verdade (cf. Hamlet). O perigo de desencaminharmos um paciente pela sugestão, persuadindo-o a aceitar uma coisa em que nós próprios acreditamos, mas que ele não deveria aceitar, foi enormemente exagerado. Um analista teria de se comportar muito incorrectamente antes que este infortúnio pudesse dominá-lo; acima de tudo, teria de se culpar por não permitir que os seus pacientes tenham a oportunidade de falar. Posso garantir, sem me gabar, que um tal abuso jamais ocorreu na minha prática clínica.

 

Decorre do que foi dito que não estamos de modo algum inclinados a negligenciar as indicações que podem ser inferidas a partir da reacção do paciente quando lhe comunicamos uma das nossas construções. O assunto merece ser examinado mais em pormenor, pois é verdade que não aceitamos o “não” de uma pessoa em análise apenas pelo seu valor nominal; pelas mesmas razões, não permitimos que o seu “sim” seja aceite. Mas não se justifica que nos acusem de deformamos invariavelmente as suas observações, transformando-as numa confirmação. Na realidade, as coisas não são tão simples, não sendo mesmo fácil para nós próprios chegar a uma conclusão.

 

Um simples “sim” do paciente não deixa de ser ambíguo. Na verdade, pode significar que reconhece que a construção que lhe foi apresentada está correcta, mas pode também não ter sentido nenhum ou, mesmo, ser “hipócrita”, uma vez que a resistência pode assentir a uma verdade que não foi descoberta. O “sim” não possui um valor em si, a menos que seja seguido por confirmações indirectas; após o “sim”, o paciente pode trazer novas lembranças que completem e ampliem a construção. Neste caso, consideramos que o “sim” correspondeu ao problema em causa.

 

O “não” de uma pessoa em análise é tão ambíguo quanto o “sim”, na verdade, de menor valia ainda. Só em poucos casos mostra ser a expressão de uma dissensão legítima. Muito mais frequentemente expressa apenas uma resistência que pode ser evocada pelo tema geral da construção; pode também surgir de algum outro factor da complexa situação analítica. Portanto, o “não” de um paciente pode ser compatível com uma construção sem provar que esta seja verdadeira. Uma vez que toda a construção incompleta abrange apenas um pequeno fragmento dos eventos esquecidos, podemos supor que o paciente não está discutindo o que lhe foi dito, mas fundamentando a sua contradição na parte que ainda não foi revelada. Regra geral, ele não dará o seu assentimento até que tenha sabido toda a verdade, a qual se estende por um campo bastante mais vasto. Desta maneira, a única interpretação segura do seu “não” é a que aponta para a incompletude. Não então há dúvida que a construção não disse tudo.

 

As elocuções directas do paciente depois que lhe ter sido oferecida uma construção fornecem muito poucas provas para saber se estivemos certos ou errados. É do maior interesse que existam formas indirectas de confirmação, que são sob todos os aspectos mais fidedignas. Uma delas é uma expressão utilizada com muito pouca variação pelas mais diversas pessoas: “Nunca pensei” (ou “nunca teria pensado”) “isso” (ou “nisso”). Ela pode ser traduzida, sem qualquer hesitação, por: “Sim, é nisso que pensa” [o inconsciente traiu-o afirmando a coisa através da sua negação]. Infelizmente, esta fórmula chega com mais frequência aos ouvidos do analista depois de interpretações isoladas, do que depois de uma longa construção. Uma confirmação igualmente valiosa está implícita (desta vez positivamente) quando o paciente faz uma associação que contém algo semelhante ou análogo ao conteúdo da construção. Em vez de extrair um exemplo de uma análise (o que seria fácil de achar, mas longo a relatar), prefiro falar de uma pequena experiência extra-analítica que apresenta uma situação semelhante de um modo notável, com um efeito quase cómico. Essa experiência está relacionada como um dos meus colegas que há muito tempo atrás me recebeu como consultor na sua clínica médica. Certo dia, ele trouxe a sua jovem esposa para me ver, pois ela esta estava criando-lhe problemas: recusava-se, sob toda a espécie de pretextos, a ter relações sexuais com ele; o que esperava de mim era que eu lhe expusesse as consequências do seu comportamento imprudente. Fui directamente ao assunto explicando que a sua recusa provavelmente traria resultados desafortunados para a saúde do seu marido, ou o deixaria exposto a tentações que podiam conduzir ao rompimento do matrimónio. Ele interrompeu então subitamente a minha observação dizendo: “O inglês a quem diagnosticou um tumor no cérebro também faleceu.” A princípio, a observação pareceu incompreensível; o “também” da sua frase era um mistério, pois não faláramos de ninguém que tivesse morrido. Pouco tempo depois, compreendi. Evidentemente, o homem estava pretendendo confirmar o que eu dissera; estava querendo dizer “Sim, tem toda a razão. O seu diagnóstico também foi confirmado no caso do outro paciente.” Era um excelente paralelo às confirmações indirectas que, na análise, obtemos a partir das associações. Não tentarei negar que, da parte do meu colega, havia também outros pensamentos que tinham a sua importância na determinação da sua observação.

 

Confirmações indirectas oriundas de associações que se ajustam ao conteúdo de uma construção – como o “também” da minha história - proporcionam uma base valiosa para julgar se a construção tem probabilidade de ser confirmada no decorrer da análise. É particularmente notável quando, por meio de um acto falho, uma confirmação desse tipo se insinua através de uma negação directa. Publiquei outrora, noutro lugar, um belo exemplo disso. O nome “Jauner” (familiar em Viena) surgira repetidamente nos sonhos de um de meus pacientes sem que uma explicação suficiente aparecesse nas suas associações. Finalmente interpretei, afirmando que, quando ele dizia “Jauner”, queria provavelmente dizer “Gauner” [velhaco ou patife], ao que ele prontamente replicou: “Isso parece-me demais “jewagt” [em vez de “gewagt”, ousado ou exagerado]”. Uma outra vez, quando sugeri a um paciente que considerava certos honorários muito altos, ele pretendeu negar a sugestão com as palavras: “Dez dólares não são nada para mim”; mas, em vez de dólares, inseriu uma moeda de menor valor e disse: “dez xelins”.

 

Se uma análise é dominada por poderosos factores que impõem uma reacção terapêutica negativa, tais como o sentimento de culpa, a necessidade masoquista de sofrer ou a repugnância a receber auxílio do analista, o comportamento do paciente, depois que lhe foi oferecida uma construção, permite-nos frequentemente, e com maior facilidade, chegar a uma conclusão. Se a construção é errada, não há mudança, mas, se é correcta ou fornece uma aproximação da verdade, o paciente reage com um inequívoco agravamento de seus sintomas e do seu estado geral.

 

Podemos resumir o assunto afirmando que não se justifica a crítica que negligenciamos ou subestimamos a importância da atitude assumida pelos que estão em análise com as nossas construções. Prestamos-lhes atenção e, com frequência, retiramos informações valiosas. Mas essas reacções do paciente raramente deixam de ser ambíguas, não nos dando oportunidade para um julgamento definitivo. Só o curso ulterior da análise nos capacita a decidir se as nossas construções são correctas ou inúteis. Não pretendemos que uma construção individual seja algo mais do que uma conjectura que aguarda exame, confirmação ou rejeição. Não reivindicamos nenhuma autoridade para ela, nem exigimos a concordância directa do paciente; não discutimos com ele, caso a princípio a negue. Em suma, conduzimo-nos segundo o modelo da conhecida personagem de uma das farsas de Nestroy - o criado que tem nos lábios uma única resposta para qualquer questão ou objecção: “Tudo se tornará claro no decorrer dos futuros desenvolvimentos.”

 

III

 

Como isso ocorre no processo da análise - o modo como a nossa conjectura se transforma numa convicção do paciente - mal vale a pena ser descrito. Tudo isso é familiar à experiência quotidiana do analista e fácil de compreender. Um único ponto exige investigação e explicação. O caminho que parte da construção do analista devia terminar na recordação do paciente, mas nem sempre conduz tão longe. Com bastante frequência, não conseguimos que o paciente recorde o que foi recalcado. Todavia, uma análise bem conduzida convence da verdade da construção <Überzeugung der Wahrheit der Konstruktion>, o que, do ponto de vista terapêutico, tem o mesmo efeito que uma recordação recapturada. O problema de saber as circunstâncias em que isso ocorre, e como é possível que o que parece ser um substituto incompleto produza um resultado tão completo, constitui assunto para uma investigação posterior.

 

Concluirei este breve artigo com algumas considerações que abrem uma perspectiva mais ampla. Fiquei impressionado pelo modo como, em certas análises, a comunicação de uma construção apropriada fez emergir nos pacientes um fenómeno surpreendente e, a princípio, incompreensível. Tiveram vivas recordações - que descreveram como “ultra-claras” -, mas o que recordaram não foi o acontecimento que era objecto da construção, e sim pormenores relativos a este. Por exemplo, recordaram, com anormal nitidez, os rostos das pessoas presentes, ou as salas em que podia ter acontecido, ou os móveis das salas, que naturalmente a construção não tinha possibilidade de conhecer. Isto ocorreu em sonhos e estados de vigília semelhantes a fantasias depois da construção ter sido apresentada. Tais recordações não conduziram a mais nada, parecendo, pois, plausível considerá-las como uma conciliação [com o analista]. Uma vez activado pela apresentação da construção, o retorno do recalcado esforçou-se para encaminhar os traços mnésicos até à consciência; Mas a resistência conseguiu, não deter esse movimento, mas a deslocá-lo para elementos adjacentes e com uma menor significação.

 

Estas recordações podiam ser alucinações, se a sua clareza se tivesse acrescentado à crença nos elementos concretos. A importância desta analogia pareceu maior quando observei que verdadeiras alucinações ocorriam ocasionalmente noutros pacientes que não eram psicóticos. A minha linha de pensamento progrediu da seguinte forma: talvez seja uma característica geral das alucinações – fenómeno ao qual não se prestou ainda atenção suficiente – que o que a criança viu ou ouviu numa época em que ainda não sabia falar, que experimentou e depois esqueceu, volte através delas e force o caminho até à consciência, provavelmente deformado e deslocado pelas forças que se opõem a esse retorno. Esta estreita relação entre alucinações e as formas específicas da psicose fez com que a nossa linha de pensamento pudesse ser levada mais além. Pode ser que os próprios delírios em que estas alucinações estão constantemente incorporadas sejam menos independentes do impulso que vem do inconsciente ou do retorno do recalcado do que geralmente presumimos. Regra geral, no mecanismo de um delírio acentuamos dois factores: o afastamento do mundo real e das suas forças motivadoras, de um lado, e a influência exercida pela realização de desejo sobre o conteúdo do delírio, do outro. Mas não poderá antes acontecer que o processo dinâmico seja que o retorno do recalcado se sirva do afastamento da realidade para forçar o seu conteúdo a entrar na consciência, enquanto que as resistências despertadas por esse processo e a tendência à realização de desejo partilham a responsabilidade pela deformação e o deslocamento do que é recordado? Afinal de contas é este o mecanismo familiar dos sonhos, que, desde tempos imemoriais, a intuição igualou à loucura.

 

Esta visão dos delírios não é, penso eu, inteiramente nova; não obstante, ela dá ênfase a um ponto de vista que geralmente não é trazido para o primeiro plano. A sua essência é que não há apenas método na loucura como o poeta já percebera, mas também um fragmento de verdade histórica, sendo plausível supor que a crença compulsiva que se liga aos delírios retire a sua força de fontes infantis desse tipo. Tudo o que posso dizer hoje em apoio desta teoria é que se trata de reminiscências, não de novas inscrições. Provavelmente, valeria a pena fazer uma tentativa para estudar os casos deste distúrbio com base nas hipóteses aqui apresentadas, e também efectuar o seu tratamento segundo essas mesmas linhas. Abandonar-se-ia o esforço inglório de tentar convencer o paciente do erro do seu delírio e da sua contradição com a realidade; pelo contrário, o reconhecimento do núcleo de verdade do delírio permitiria um campo comum sobre o qual o trabalho terapêutico poderia desenvolver-se. Esse trabalho consistiria em libertar o fragmento da verdade histórica das suas deformações e ligações com o presente, e conduzi-lo de volta para o passado a que pertence. A transposição do material do passado esquecido para o presente, ou para uma expectativa futura, é habitual nos neuróticos, não menos do que nos psicóticos. Com bastante frequência, quando um neurótico é levado por um estado de ansiedade a esperar algum acontecimento terrível, está simplesmente sob a influência de uma lembrança recalcada (que procura ingressar na consciência, mas que não se pode tornar consciente) de algo terrificante que aconteceu naquela ocasião. Acredito que adquiriríamos um significativo e valioso conhecimento a partir de um trabalho deste tipo com psicóticos, mesmo que não conduza a nenhum sucesso terapêutico.

 

Estou ciente que é de pouca utilidade tratar um assunto tão importante da maneira apressada que aqui empreguei. Contudo, não pude resistir à sedução de uma analogia. Os delírios dos pacientes parecem ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um tratamento analítico: tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade que estas, nas condições da psicose, não podem fazer mais do que substituir o fragmento de realidade que foi rejeitado para o passado remoto. Será a tarefa de cada investigação individual revelar as conexões íntimas entre o material do recalcamento actual e o do recalcamento originário. Tal como a nossa construção só é eficaz se recuperar um fragmento da experiência esquecida, também o delírio deve o seu poder de convicção ao elemento de verdade histórica que insere no lugar da realidade rejeitada. Desta maneira, a proposição que originalmente defendi para a histeria aplicar-se-ia também aos delírios, ou seja, que aqueles que lhes estão sujeitos sofrem das suas próprias reminiscências. Bem entendido que nunca pretendi, através desta breve fórmula, discutir a complexidade da causa da doença ou excluir o funcionamento de muitos outros factores.

 

Se considerarmos a humanidade como um todo e substituirmos o indivíduo humano isolado por esta, descobriremos que ela também desenvolveu delírios que são inacessíveis à crítica lógica e que contradizem a realidade. Se, apesar disso, esses delírios são capazes de exercer um poder extraordinário sobre os homens, a investigação conduz à mesma explicação que no caso do indivíduo. Eles devem esse seu poder ao fragmento de verdade histórica que trouxeram à tona a partir do recalcamento primordial do real.

 

 


 

 

 

ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL[4]

1937

 

I

 

A experiência ensinou-nos que a terapia psicanalítica - a superação dos sintomas, inibições e outras perturbações de um sujeito de carácter neurótico - é um assunto que consome bastante tempo. Daí que tenha havido desde o início várias tentativas para encurtar a duração das análises. Estes esforços não precisavam de ser justificados, pois podia-se alegar que se apoiavam nas mais fortes considerações da razão e da conveniência. Provavelmente havia também neles um traço do desprezo impaciente com que a ciência médica de dias anteriores encarou as neuroses, considerando-as importunas e causadoras de danos invisíveis. Mas agora que se é obrigado a reconhecer a existência das neuroses, alguns tentam livrar-se delas do modo mais rápido possível.

 

Uma tentativa particularmente enérgica foi feita neste sentido por Otto Rank, após a publicação do seu livro O Traumatismo do Nascimento (1924). Ele supôs que a verdadeira origem da neurose era o nascimento, uma vez que este envolvia a possibilidade da “fixação originária” da criança à mãe não ser superada ou persistir como “recalcado primordial.” Rank tinha a esperança que, se tratássemos este trauma primevo através de uma análise subsequente, ficaríamos livres de todas as neuroses. Um tal fragmento de trabalho analítico pouparia o resto, pois alguns meses seriam suficientes para realizar a tarefa. Não discutirei se o argumento de Rank era audaz e engenhoso, direi apenas que não suportou o exame crítico. Como produto da sua época, concebido na tensão entre a miséria do pós-guerra na Europa e a “prosperity” dos Estados Unidos, foi projectado para adaptar o ritmo da terapia analítica à pressa da vida americana. Não se ouviu falar muito do que Rank fez pelos doentes. Provavelmente, não fez mais do que faria um Corpo de Bombeiros que, chamado a socorrer uma casa que se incendiou devido a uma lâmpada de óleo  caída no chão, se contentasse em retirar a lâmpada do quarto em que o fogo começou. Não há dúvida é que, por este meio, se conseguiria uma considerável diminuição das actividades dos bombeiros. A teoria e a prática do experimento de Rank são hoje coisas do passado, como a prosperidade americana.

 

Antes mesmo da guerra, também adoptei uma maneira de acelerar o tratamento analítico. Seguia nessa época o caso de um jovem russo, um homem estragado pela opulência, que chegara a Viena num estado de completo desamparo, acompanhado por um médico particular e um assistente. Em poucos anos foi possível devolver-lhe uma grande parte da sua independência, despertar o seu interesse pela vida e proceder a um ajustamento das suas relações com as pessoas que eram mais importantes para ele. Mas o progresso interrompeu-se aí. Não pudemos ir mais longe no esclarecimento da neurose da sua infância, na qual se baseava a posterior. O paciente considerava a sua situação de então altamente confortável e não desejava dar qualquer passo em frente que o levasse para mais perto do fim do tratamento. Era um caso de tratamento que se inibia a si próprio; corria, pois, o perigo de fracassar em consequência do seu - parcial - sucesso. Neste dilema, recorri à medida heróica de fixar um limite de tempo para a sua análise. No início do ano, informei o paciente de que esse era o último ano do seu tratamento, não importando o que ele conseguisse no tempo que ainda lhe restava. A princípio, não acreditou em mim, mas, assim que se convenceu que eu falava a sério, a mudança desejada verificou-se. As suas resistências definharam e, nesses últimos meses do seu tratamento, foi capaz de reproduzir as lembranças e descobrir as conexões necessárias para a compreensão da sua neurose infantil e o domínio da actual. Quando me deixou, em meados do verão de 1914, suspeitando tão pouco quanto nós do que se ira passar, acreditei que a sua cura fora radical e permanente.

 

Comuniquei já que me enganara numa nota de rodapé acrescentada em 1923 à história clínica desse paciente. Quando no fim da guerra ele voltou a Viena, refugiado e pobre, tive de ajudá-lo a dominar uma parte da transferência que não tinha sido resolvida. Esta tarefa foi realizada em alguns meses, e pude terminar a minha nota de rodapé com a declaração que, “desde então, o paciente tem-se sentido normal e comportado de um modo não excepcional, apesar da guerra o ter despojado do seu lar, das suas posses e de todos os seus relacionamentos familiares.” Quinze anos passaram-se sem que tenha sido refutada a verdade deste veredicto, mas certas reservas tornaram-se necessárias. O paciente permaneceu em Viena, onde manteve um lugar na sociedade, ainda que humilde. Durante esse período, o seu bom estado de saúde foi interrompido várias vezes por crises que foram interpretadas como ramificações da antiga neurose. Graças à perícia de uma de minhas alunas, a Dra. Ruth Mack Brunswick, algumas consultas foram pondo momentaneamente fim a esses episódios críticos. Tenho esperança que a Dra. Mack Brunswick publique em breve o que se passou. Algumas das crises do paciente ainda estavam relacionadas com resíduos da transferência; quando isso acontecia, por efémeras que fossem, apresentavam um carácter declaradamente paranóico. Outras vezes, contudo, o material patogénico consistia em fragmentos da história infantil que não tinham vindo à luz enquanto eu o estava analisando, e que agora se desprendiam - a comparação é inevitável - como suturas depois de uma operação, ou pequenos fragmentos de osso necrosado. Considerei que a história do restabelecimento deste paciente era menos interessante do que a da sua doença.

 

Utilizei ainda a fixação de um limite de tempo noutros casos, levando também em conta as experiências de outros colegas. Mas só pode haver um veredicto sobre o valor desta chantagem: ela é eficaz desde que se acerte no tempo correcto; só que nunca se pode garantir a realização completa da tarefa. Pelo contrário, podemos estar certos que, embora uma parte do material se torne acessível sob a pressão da ameaça, uma outra parte será retida e, assim, ficará sepultada, perdida para os nossos esforços terapêuticos. Uma vez que o analista fixou um limite de tempo, não pode mais ampliá-lo; o paciente perderia toda a fé nele. A saída mais óbvia para o paciente seria continuar o tratamento com um outro analista, mas sabemos que esta mudança envolveria uma perda de tempo e o abandono dos frutos do trabalho já realizado. Tão pouco se pode estabelecer qualquer regra geral quanto ao momento oportuno para recorrermos a este artifício técnico; a decisão deveria ser deixada ao tacto do analista. Mas um erro de cálculo não pode ser rectificado. O ditado de que o leão só salta uma vez deve ser aplicado aqui.

 

II

 

A discussão do problema técnico de saber como acelerar o lento progresso de uma análise conduz a uma outra questão, mais profundamente interessante: existe algo que possamos chamar “fim da análise”; e existe alguma possibilidade de levar uma análise a este término? A julgar pela conversa comum dos analistas, parece que assim, pois, quando deploram ou desculpam as imperfeições de um colega, ouvimos frequentemente dizer: “a sua análise não terminou”, ou “ele nunca foi analisado até ao fim.”

 

Primeiro, há que decidir o que significa a expressão ambígua “fim da análise.” De um ponto de vista prático é fácil responder. Uma análise termina quando o analista e o paciente deixam de se encontrar para a sessão analítica. Isso acontece quando duas condições foram aproximadamente preenchidas: em primeiro lugar, que o paciente não sofra mais dos seus sintomas, tenha superado a sua ansiedade e inibições; em segundo, que o analista julgue que a maior parte do material recalcado se tornou consciente, e que foi explicada tanta coisa ininteligível, que foram vencidas tantas resistências internas, que já não há necessidade de temer mais uma repetição do processo patológico. No caso em que certas dificuldades externas impeçam este processo de alcançar o seu objectivo é melhor falar de uma análise incompleta, em vez de uma análise inacabada.

 

O outro significado do termo “fim da análise” é muito mais ambicioso. O que procuramos neste sentido é saber se o analista exerceu uma influência tão poderosa sobre o paciente que não se pode mais esperar uma mudança, caso a análise viesse a ser prosseguida. É como se a análise permitisse chegar a um nível de absoluta normalidade psíquica, capaz de permanecer estável para sempre; como se ela tivesse conseguido levantar todos os recalcamentos, preencher todas as lacunas da memória do paciente. O que podemos fazer primeiro é consultar a nossa experiência para indagar se estas coisas acontecem de facto, e, depois, voltar à nossa teoria, para descobrir se há uma possibilidade delas acontecerem.

 

Todo o analista já terá tratado de alguns casos que apresentaram esse gratificante desfecho. Conseguiu-se esclarecer o distúrbio neurótico do paciente, que nunca mais voltou, nem foi substituído por nenhuma outra perturbação. Houve também lugar para a compreensão interna (insight) dos determinantes do sucesso terapêutico. Constatou-se para mais que o ego do paciente não foi muito alterado e que pôde ultrapassar o trauma que esteve na origem da sua neurose. O problema é que a etiologia do distúrbio neurótico é mista.

 

Por um lado, há a força das pulsões, o facto de estas serem ou não recalcitrantes à sua dominação pelo ego; por outro lado, existem os efeitos dos traumas precoces (prematuros) que o ego imaturo foi incapaz de dominar. Regra geral, há uma combinação de ambos os factores, o constitucional e o acidental. Quanto mais forte for o factor constitucional, mais prontamente um trauma conduzirá a uma fixação que perturba o desenvolvimento; quanto mais forte for o trauma, mais os seus efeitos prejudiciais se tornarão manifestos, mesmo quando a situação pulsional é normal. O tratamento psíquico tem mais sucesso quando a etiologia é do tipo traumático. É quando um caso é predominantemente traumático que o tratamento realiza plenamente o que é capaz de fazer; graças ao fortalecimento do ego do paciente, ele consegue substituir, por uma solução correcta, a decisão inadequada que foi tomada precocemente na vida. Só neste caso podemos falar de tratamento terminado. Este elucidou tudo o que devia e não necessita prosseguir. Mas se o paciente que foi tratado desta maneira não adoece mais, ficamos no entanto sem saber se a sua imunidade é ou não devida a um destino bondoso que lhe poupou provações demasiadamente severas.

 

A força constitucional de uma pulsão e a alteração desfavorável do ego adquirida na luta defensiva contra ela, através do deslocamento e da condensação, são os factores que mais pesam na eficácia ou não do tratamento, e logo que  podem contribuir para que se torne interminável. Fica-se tentado a fazer do primeiro factor – a força da pulsão – o responsável pelo surgimento do segundo - a alteração do ego -, mas este último possui também a sua própria etiologia. Na verdade, temos de admitir que o nosso conhecimento destes assuntos ainda é insuficiente. Só agora é que se estão tornando matéria de estudo analítico. Neste campo, parece-me que o interesse dos analistas ainda está mal orientado. Em vez de indagar como se processa a cura pela análise (assunto que acho ter sido suficientemente elucidado), devia-se perguntar quais são os obstáculos que aparecem no caminho desta cura. Isso conduz-me a dois problemas que surgem directamente da clínica, como espero demonstrar pelos exemplos que se seguem. Certo homem que praticou a análise com grande sucesso chegou à conclusão de que as suas relações com os homens e as mulheres - com os homens que eram os seus rivais e com as mulheres que amava - não estavam livres de impedimentos neuróticos; por esta razão, resolveu submeter-se a uma análise com alguém que considerava superior a si. Esta iluminação crítica do seu próprio Eu teve um bom resultado. Casou-se com a mulher que amava e tornou-se amigo e mestre dos seus supostos rivais. Muitos anos se passaram dessa maneira, durante os quais as suas relações com o antigo analista permaneceram também desanuviadas. Mas um dia, sem qualquer razão externa atribuível, surgiram os problemas. O homem incompatibilizou-se com o seu analista e censurou-o por ter falhado ou não ter conduzido a sua análise até ao fim. O analista, dizia ele, devia ter sabido e levado em consideração o facto de uma relação transferêncial nunca poder ser puramente positiva; deveria ter prestado atenção à possibilidade de uma transferência negativa. O analista defendeu-se dizendo que, na época da análise, não havia sinal de transferência negativa. Mas, mesmo que tivesse falhado na observação de certos sinais muito débeis dela - o que não estava inteiramente excluído, considerando o horizonte limitado da análise naqueles primeiros dias -, ainda era duvidoso, achava o analista, se teria tido o poder de activar um assunto (ou, como dizemos, um “complexo”), simplesmente por este não estar activo no paciente naquela ocasião. Activá-lo teria certamente exigido um comportamento pouco amigável da parte do analista. Para mais, acrescentou, nem toda a boa relação entre um analista e o seu paciente, durante e após a análise, deve ser encarada como transferêncial; há também relações amistosas que se baseiam na realidade e que provam ser viáveis.

 

Passo agora ao meu segundo exemplo, que levanta o mesmo problema. Uma mulher solteira, já não muito jovem, foi cerceada da vida desde a puberdade por uma incapacidade de caminhar, devido a severas dores que sentia nas pernas. O seu estado era de natureza histérica e desafiou muitos tipos de tratamento. Uma análise que durou três quartos do ano removeu o problema e devolveu à paciente, pessoa excelente e capaz, o seu direito a participar na vida. Mas nos anos que seguiram o restabelecimento, ela foi sistematicamente desafortunada. A sua família foi atingida por várias desgraças, perdas financeiras e, à medida que ficava mais velha, ela via desvanecer-se toda a esperança de felicidade no amor e no casamento. Mas a ex-inválida resistiu a tudo valentemente e constituiu um apoio para a família, em tempos bastante difíceis. Não consigo recordar se foi doze ou catorze anos após o fim da sua análise que, devido a hemorragias profusas, foi obrigada a submeter-se a um exame ginecológico. Encontrou-se um mioma que tornou aconselhável uma histerectomia completa. A partir desta operação, a mulher adoeceu uma vez mais. Enamorou-se do seu cirurgião e afundou-se em fantasias masoquistas sobre as temíveis alterações que produziria dentro de si - fantasias com que ocultava o seu romance -, mostrando-se simultaneamente inacessível a uma nova tentativa de análise. Ficou mal até o fim da vida. O tratamento analítico bem-sucedido tinha sido realizado há tanto tempo que já não se podia esperar muito mais dos seus efeitos. Foi um tratamento efectuado nos primeiros anos do meu trabalho como analista. Indubitavelmente, a segunda moléstia da paciente pode ter tido origem na mesma fonte da primeira, que fora superada com êxito; pode também ter sido uma manifestação diferente dos mesmos impulsos recalcados que tenha encontrado uma solução incompleta. Mas estou inclinado a pensar que, se não fosse o novo trauma, não teria havido uma nova irrupção da neurose.

 

Estes dois exemplos, intencionalmente seleccionados entre um grande número de outros semelhantes, bastarão para iniciar um exame dos tópicos que estamos considerando. Os cépticos, os optimistas e os ambiciosos assumirão, quanto a eles, pontos de vista inteiramente diferentes. Os primeiros dirão que está agora provado que mesmo um tratamento analítico bem-sucedido não protege o paciente de sofrer mais tarde de outra neurose, ou de uma neurose derivada da mesma raiz, o que equivale a dizer, de uma recorrência do seu antigo problema. Os outros considerarão que isso não está provado. Objectarão que os dois exemplos datam dos primeiros dias da análise, vinte e trinta anos atrás, respectivamente, e que, desde então, adquirimos uma compreensão interna mais profunda e um conhecimento mais amplo, e que a nossa técnica se modificou de acordo com as nossas novas descobertas. Hoje, dirão eles, podemos exigir e esperar que uma cura analítica se mostre permanente, ou, pelo menos, caso um paciente adoeça de novo, que a sua nova doença não mostre ser uma revivificação do seu primeiro distúrbio a manifestar-se sob novas formas. A nossa experiência, sustentarão, não nos obriga a restringir tão concretamente as exigências que podem ser feitas ao método terapêutico.

 

A minha razão para escolher esses dois exemplos foi precisamente o facto de residirem tão longe no passado. É óbvio que quanto mais recente for o desfecho bem-sucedido de uma análise, menos utilizável será para a nossa discussão, visto que não dispomos de meios para predizer qual será a história posterior do restabelecimento. As expectativas dos optimistas pressupõem claramente uma série de coisas que não são precisamente auto-evidentes. Presumem, de início, que há realmente uma possibilidade de se livrar de um conflito pulsional (ou, de modo mais correcto, de um conflito entre o ego e uma pulsão) definitivamente e para todo o sempre; em segundo, que, enquanto estamos tratando alguém por causa de um determinado conflito pulsional, podemos, por assim dizer, vaciná-lo contra a possibilidade de qualquer outro conflito deste tipo; e, em terceiro lugar, que temos o poder, para fins de profilaxia, de despertar um conflito patogénico dessa espécie que não se está revelando através de nenhuma indicação, e que é aconselhável fazê-lo. Coloco estas questões sem me propor responder-lhes agora. Talvez nem seja possível dar-lhes qualquer resposta certa.

 

Poder-se-á lançar alguma luz sobre o assunto mediante considerações teóricas. Um ponto pelo menos já se tornou claro: se quisermos atender às exigências mais rigorosas da terapia analítica, a nossa estrada não nos conduzirá a um encurtamento da sua duração, nem passará por ele.

 

III

 

Uma experiência analítica que se estende agora por diversas décadas, assim como a modificação efectuada na natureza e no modo da minha actuação, incentivam-me a tentar responder às questões que se apresentam. Em dias passados, ocupei-me de um número bastante grande de pacientes que, como era natural, desejavam ser tratados tão rapidamente quanto possível. Nos últimos anos, dediquei-me principalmente a análises didácticas, e só um número relativamente pequeno de casos graves permaneceram comigo em tratamento contínuo, interrompido por vezes por breves intervalos. Ora, com as análises didácticas, o objectivo terapêutico já não é o mesmo, pois não se trata mais de abreviar o tratamento, mas de exaurir as possibilidades de doença nos sujeitos e ocasionar uma alteração profunda da sua personalidade.

 

Dos três factores que reconhecemos como decisivos para o tratamento analítico - a influência dos traumas, a força constitucional das pulsões e as alterações do ego -, apenas nos interessa por enquanto o segundo, a força das pulsões. Um instante de reflexão levanta uma dúvida quanto a saber se o uso restritivo do adjectivo “constitucional” (ou “congénito”) é pertinente. Por mais que o factor constitucional seja importante à partida, não impede que possa haver uma transformação ou um reforço que interfira no decorrer da vida e tenha efeitos próprios. Devemos, assim, modificar a nossa fórmula e dizer “a força das pulsões no momento actual”, em vez da “força constitucional das pulsões”. A primeira das nossas perguntas era “se é possível que a terapia analítica livre de um modo permanente e definitivo o sujeito do conflito entre a pulsão e o ego?”. Para evitar toda a má compreensão é necessário que explique melhor o que entendo por livrar-se permanentemente de uma exigência pulsional. Não é fazer com que esta exigência desapareça, para que não se ouça mais falar dela. Em geral, isso é impossível e indesejável. O que quero dizer é outra coisa, que podia ser grosseiramente descrito como “domar” a pulsão. Significa isto que a pulsão seria colocada em completamente harmonia com o ego, ou que se tornaria acessível a todas as influências deste último, de forma a não buscar mais a sua satisfação de um modo independentemente? Se perguntarem por que métodos e meios este resultado se poderia obter não seria fácil dar uma resposta. Façamos aqui um apelo à Feiticeira metapsicológica: “So muss denn doch die Hexe dran!” <”Bem precisamos que a Feiticeira nos ajude”: Goethe, Fausto, verso 2365>. Sem a especulação ou teorização metapsicológica - quase disse o “fantasiar” -, não daremos nenhum passo em frente. Infelizmente, aqui como alhures, o que a Feiticeira revela não é muito claro nem minucioso. Temos apenas uma pista para começar - embora seja uma pista do mais alto valor - a antítese entre o processo primário e o secundário; é para esta antítese que me voltarei agora.

 

Se retomarmos a nossa primeira questão, descobriremos que a nova linha de abordagem conduz inevitavelmente a uma conclusão. A questão era de saber se é possível livrar-se de um modo permanente e definitivo de um conflito pulsional, isto é, “domar” a pulsão. Formulada nestes termos, a questão não faz menção alguma à força da pulsão, mas é precisamente desta que o resultado depende. Partamos da presunção que aquilo que a análise realiza para os neuróticos não é mais do que aquilo que as pessoas normais conseguem para si próprias sem o auxílio dela. Contudo, a experiência quotidiana ensina-nos que, numa pessoa normal, qualquer solução de um conflito pulsional só é válida para uma pulsão parcial, ou para uma relação específica entre a força da pulsão e a força do ego. Se a força deste diminui, quer pela doença, quer pela exaustão, ou por alguma causa semelhante, as pulsões que até então haviam sido controladas com êxito, podem renovar as suas exigências e esforçar-se para obter satisfações substitutivas através de maneiras anormais. Uma prova irrefutável desta afirmação é fornecida pelos nossos sonhos nocturnos; sabemos que eles reagem à atitude do sono assumida pelo ego com um despertar das exigências pulsionais.

 

Por duas vezes no curso do desenvolvimento individual, certas pulsões são consideravelmente reforçadas: na puberdade e, nas mulheres, na menopausa. De modo algum ficamos surpreendidos se uma pessoa, que antes não era neurótica, se torne nessas ocasiões. Quando as exigências das pulsões eram fracas, o ego conseguia domá-las, mas quando se tornam mais fortes, ele já não o pode mais fazer. Os recalcamentos comportam-se como represas contra a pressão da água. Os mesmos efeitos produzidos por estes dois reforços fisiológicos da pulsão podem ser ocasionados, de maneira irregular, por causas acidentais em qualquer outro período da vida. Estas modificações podem derivar de novos traumas, frustrações forçadas, ou da influência colateral e mútua das pulsões. O resultado é sempre o mesmo, e salienta o poder irresistível do factor quantitativo na causação da doença.

 

Podem-me dizer que devia estar envergonhado por não avançar nesta extensa exposição nada que não seja bem conhecido e evidente. Comportamo-nos sempre como se já soubéssemos tudo, mas a verdade é que a maioria dos nossos conceitos negligenciaram dar até agora ao ponto de vista económico a mesma importância que deram à perspectiva dinâmica e topográfica. A minha desculpa é de estar agora a chamar a atenção para esta negligência.

 

Antes de decidir responder à questão, tenho de considerar uma objecção cuja força reside no facto de estar provavelmente predisposto a seu favor. Dir-se-á que os nossos argumentos são todos deduzidos de processos aparentemente naturais entre o ego e as pulsões, e pressupõem que a terapia analítica nada pode realizar senão sob condições favoráveis e normais. Mas será realmente assim? Não é precisamente uma reivindicação da nossa teoria que a análise produz um estado que nunca surge espontaneamente no ego, e que esse estado recentemente criado constitui a diferença essencial entre uma pessoa que foi analisada e outra que não o foi? Mantenhamos em mente esta base da nossa reivindicação. Os recalcamentos que se efectuam desde a primeira infância são mecanismos de defesa que o ego imaturo e débil utiliza. Posteriormente, ele não leva a cabo novos recalcamentos, mas os antigos persistem, e os serviços deles continuam a ser utilizados pelo ego para o domínio das pulsões.

 

Livramo-nos dos novos conflitos através do que chamo “recalcamento secundário.” Podemos aplicar ao recalcamento infantil a afirmação que os recalcamentos dependem do poder relativo das forças envolvidas, e que não se podem manter contra um aumento da força das pulsões. A análise capacita o ego que atingiu uma maior maturidade a empreender uma revisão dos antigos mecanismos de defesa; alguns são deste modo demolidos, ao passo que outros são apenas identificados, ou reconstruídos com um material mais sólido. O grau de firmeza destas novas represas é bastante diferente do das anteriores; podemos confiar que não cederão tão facilmente ante uma subida da maré da força pulsional. A façanha da terapia analítica seria a subsequente correcção deste processo do recalcamento, correcção que poria fim à dominância do factor quantitativo.

 

A nossa teoria pôde chegar até aqui; não a vamos abandonar, excepto sob uma compulsão irresistível. O que tem a nossa experiência a dizer sobre isso? Talvez ainda não seja suficientemente ampla para chegarmos a uma firme conclusão. Ela confirma as nossas expectativas com bastante frequência, mas não sempre. Tem-se a impressão de que não se deve ficar surpreso se, no final, mostrar que a diferença entre uma pessoa que não foi analisada e o comportamento de uma pessoa após tê-lo sido não é tão radical como dizemos, esperamos e argumentamos. Se assim for, isso significará que a análise às vezes tem êxito na eliminação da influência de uma pulsão, mas não invariavelmente, ou que o efeito da análise se limita a aumentar o poder da resistência das inibições, de maneira que se mostrem à altura de exigências muito maiores do que antes da análise, ou se nenhuma análise se tivesse efectuado. Realmente não posso comprometer-me com uma decisão sobre este ponto, nem tampouco sei se actualmente é possível uma decisão.

 

Existe, contudo, um outro ângulo a partir do qual podemos abordar o problema da variabilidade do efeito de uma análise. Sabemos que o primeiro passo para chegar ao domínio intelectual do nosso meio ambiente é descobrir generalizações, regras e leis que tragam alguma ordem ao caos. Fazendo isso, simplificamos o mundo dos fenómenos, mas não podemos evitar falsificá-lo, especialmente se estivermos lidando com processos de desenvolvimento e mudança. Estivemos interessados em discernir uma alteração qualitativa e, assim procedendo, negligenciámos, inicialmente pelo menos, o factor quantitativo. No mundo real, as transições e os estágios intermediários são muito mais comuns do que estados opostos nitidamente diferenciados. Ao estudar o desenvolvimento e as mudanças, dirigimos a nossa atenção unicamente para o resultado; desprezamos prontamente o facto de que tais processos são geralmente mais ou menos incompletos, o que equivale a dizer que são apenas alterações parciais. Um arguto satirista da antiga Áustria, Johann Nestroy disse uma vez: “todo passo dado para a frente apenas tem metade do tamanho que parece no início.” É tentador atribuir uma validade geral a esse ditado malicioso. Há quase sempre manifestações residuais, uma pendência parcial, por exemplo, quando um mecenas generoso nos surpreende com algum traço isolado de avareza, ou quando uma pessoa que é sistematicamente muito bondosa se permite subitamente uma acção hostil. Estas “manifestações residuais” são valiosas para a pesquisa genética. Elas mostram que as louváveis e preciosas qualidades baseiam-se na compensação e na sobrecompensação, que, como era de esperar, não foram completamente bem-sucedidas. A nossa primeira descrição do desenvolvimento da libido foi que uma fase oral original cedia o lugar a uma fase anal-sádica, e que esta, por sua vez, era seguida de uma fase fálico-genital. A pesquisa posterior não contradisse esta opinião, mas corrigiu-a, acrescentando que essas substituições não se realizam de modo repentino, mas gradativamente, de maneira que partes da organização anterior persistem lado a lado da mais recente, e que mesmo no desenvolvimento normal a transformação nunca é completa e os restos das fixações libidinais anteriores ainda podem ser mantidos na configuração final. O mesmo pode ser visto em muitos outros campos. De todas as erróneas e supersticiosas crenças da humanidade que foram supostamente superadas, não existe uma só cujos resíduos não perdurem hoje entre nós, nos estratos inferiores dos povos civilizados, ou mesmo nos mais elevados estratos da cultura. O que um dia veio à vida aferra-se diabolicamente à existência. Por vezes, fica-se inclinado a duvidar se os dragões dos dias primevos estão realmente extintos.

 

Aplicando estas observações ao nosso problema, penso que a resposta à questão de como explicar os resultados variáveis da nossa terapia analítica, bem podia ser a de que nós também nos esforçamos por substituir os inseguros recalcamentos pelo controlo de um ego que seja digno de confiança, sem sempre alcançarmos o nosso objectivo de um modo completo. A transformação é conseguida, mas com frequência apenas parcialmente: partes dos antigos mecanismos permanecem intocadas pelo trabalho da análise. É difícil provar que é realmente assim, mas não temos outra maneira de ajuizar o que acontece, excepto pelo resultado que estou tentando explicar. Não obstante, as impressões que se recebem durante o trabalho de análise não contradizem esta pressuposição; na verdade, parecem confirmá-la. Mas não devemos tomar a clareza de nossa própria compreensão interna como a medida da convicção que produzimos no paciente. Seria possível dizer que à convicção dele pode faltar “profundidade”? Trata-se sempre da questão do tão facilmente desprezado factor quantitativo. Se for esta a resposta correcta à nossa questão, podemos dizer que a análise, ao reivindicar a cura das neuroses pelo controlo da pulsão, está sempre correcta na teoria, mas nem sempre na prática, e isso porque nem sempre consegue garantir, em grau suficiente, as fundações sobre as quais um controlo da pulsão se baseia. É fácil descobrir a causa deste fracasso parcial. No passado, o factor quantitativo da força pulsional opôs-se aos esforços defensivos do ego; por essa razão, pedimos auxílio à análise. Agora, o mesmo factor estabelece um limite à eficácia deste novo esforço. Se a força da pulsão é excessiva, o ego maduro, apoiado pela análise, fracassa na sua missão, tal como o ego desamparado anteriormente fracassara. O seu controlo sobre a pulsão é melhorado, mas permanece imperfeito, porque a transformação do mecanismo defensivo apenas é incompleta. Nada há de surpreendente nisso, visto que o poder dos instrumentos com que a análise opera não é ilimitado, mas restrito, e o resultado final depende sempre da força relativa dos agentes psíquicos que lutam entre si.

 

Sem dúvida que é desejável abreviar a duração do tratamento analítico, mas só podemos conseguir este objectivo terapêutico se aumentarmos o poder da análise de assistir ao ego. A influência hipnótica pareceu ser um instrumento excelente para esse fim, mas as razões pelas quais tivemos de abandoná-la são bem conhecidas. Ainda não foi encontrado um substituto para a hipnose. Desse ponto de vista, podemos compreender como um mestre da análise tal como Ferenczi veio a dedicar os últimos anos de sua vida a experimentos terapêuticos, os quais, infelizmente, se mostraram vãos.

 

IV

 

As duas outras questões - se enquanto estamos tratando determinado conflito pulsional podemos proteger o paciente dos futuros conflitos, e se é viável e conveniente, para fins profiláticos, despertar um conflito que não se manifesta? -, devem ser tratadas em conjunto, pois a primeira tarefa só pode ser levada a cabo na medida em que a segunda o é, ou seja, na medida em que um possível conflito futuro se transforma num conflito concreto e actual, ao qual a nossa influência é aplicada. Essa nova maneira de enunciar o problema é apenas uma ampliação da anterior. Ao passo que, no primeiro caso, considerámos como nos resguardávamos contra um retorno do mesmo conflito, agora consideramos como nos resguardamos contra a sua possível substituição por um outro conflito. Isto soa a uma proposição muito ambiciosa, mas tudo o que estamos tentando fazer é tornar claros os limites da eficácia da terapia analítica.

 

Por muito que a nossa ambição terapêutica seja tentada a empreender tais tarefas, a experiência rejeita categoricamente a noção. Se um conflito pulsional não está presentemente activo, se não está se manifestando, não podemos provocá-lo, mesmo pela análise. A advertência para deixarmos repousar os cães que dormem, que com tanta frequência ouvimos em relação aos nossos esforços por explorar o submundo psíquico, é peculiarmente despropositada quando aplicada às condições da vida mental, pois, se as pulsões estão provocando distúrbios, isso prova que os cães não estão dormindo, e, se eles realmente parecem estar adormecidos, não nos cabe despertá-los. Essa última afirmação, contudo, não parece ser inteiramente exacta e exige um debate mais pormenorizado. Consideremos os meios que temos à nossa disposição para transformar um conflito pulsional latente num manifesto. Só podemos fazer duas coisas: ocasionar situações em que o conflito se torna presentemente activo, ou contentar-nos em discuti-lo na análise e apontar para a possibilidade de o despertar. A primeira destas alternativas pode ser levada a cabo de duas maneiras: na realidade ou na transferência, em qualquer dos casos expondo o paciente a uma certa quantidade de sofrimento real, mediante a frustração e o recalcamento da libido. Ora, é verdade que já fazemos uso de uma técnica deste tipo no nosso procedimento analítico comum, a que afirma que a análise deve ser levada a cabo “num estado de abstinência”’? Mas esta é uma técnica que se utiliza para tratar um conflito já activo. Procuramos levar esse conflito a um ponto culminante, desenvolvê-lo até ao seu tom mais grave, a fim de aumentar a força pulsional disponível para o solucionar. A experiência analítica ensinou-nos que o melhor é sempre inimigo do bom e que, em todas as fases do restabelecimento do paciente, temos de lutar contra a sua inércia, que está pronta a se contentar com uma solução incompleta.

 

Se aquilo que visamos é o tratamento profilático dos conflitos pulsionais que não estão presentemente activos, mas são meramente potenciais, não é suficiente tentar regular sofrimentos que já estão presentes e que o paciente não pode evitar. Teríamos de decidir provocar-lhe novos sofrimentos, e isso, até hoje, deixámo-lo muito correctamente ao destino. Receberíamos admonições de todos os lados contra a presunção de emular o destino, se sujeitássemos as pobres criaturas humanas a experimentos tão cruéis. E que tipo de experimentos seriam estes? Poderíamos por exemplo, para fins de profilaxia, assumir a responsabilidade de destruir um casamento satisfatório, ou de fazer com que um paciente abandone um cargo do qual depende a sua subsistência? Afortunadamente, nunca nos encontrámos na posição de ter de considerar se estas intervenções na vida real do paciente são justificadas; não possuímos os plenos poderes que elas teriam tornado necessários, e o objecto da nossa experiência terapêutica certamente se recusaria a cooperar com isso. Na prática, tal procedimento está virtualmente excluído, mas existem objecções teóricas, pois o trabalho da análise progride melhor se as experiências patogénicas do paciente pertencerem ao passado, de modo que o seu ego possa situar-se a uma certa distância delas. Em estados de crise aguda, a análise é, para todos os fins e intuitos, inutilizável. Todo o interesse do ego é absorvido pela realidade penosa, e ele retrai-se da análise que está tentando ir além da superfície e revelar as influências do passado. Assim, criar um novo conflito só tornaria o trabalho de análise mais prolongado e mais difícil.

 

Objectar-se-á que estas observações são inteiramente desnecessárias. Ninguém pensa propositadamente conjurar novas situações de sofrimento, a fim de tornar possível que um conflito pulsional latente seja tratado. Como façanha profilática não haveria muito que se gabar. Sabemos, por exemplo, que um paciente que se restabeleceu de escarlatina está imune a um retorno da mesma doença, mas jamais ocorre a um médico pegar a escarlatina a uma pessoa sadia que tem possibilidades de adoecer e infectá-la com esta, a fim de a tornar imune à mesma. A medida protectora não deve produzir a mesma situação de perigo que é produzida pela própria doença, apenas algo muito mais leve, como é o caso da vacina contra a varíola e de muitos outros procedimentos semelhantes. Na profilaxia analítica contra conflitos pulsionais, os únicos métodos que entram em consideração são os dois que mencionamos: a produção artificial dos novos conflitos na transferência (conflitos a que, afinal de contas, falta o carácter de realidade) e o despertar de tais conflitos na imaginação do paciente, falando-lhe sobre eles e familiarizando-o com a sua possibilidade.

 

Não sei se podemos assegurar que o primeiro desses dois procedimentos mais brandos está inteiramente excluído na análise. Nenhuma experiência foi feita especificamente nessa direcção. Mas vêm-se logo as dificuldades, que não lançam uma luz muito promissora sobre este empreendimento. Em primeiro lugar, a escolha de tais situações para a transferência é muito limitada. Os pacientes não podem, eles próprios, trazer todos os seus conflitos para a transferência, nem tampouco está o analista capacitado a invocar todos os possíveis conflitos pulsionais a partir da situação transferêncial. Este pode torná-los ciumentos ou fazê-los experimentar desapontamentos no amor, mas não se exige nenhum intuito técnico para ocasionar isso. Seja como for, tais coisas acontecem por si mesmas na maioria das análises. Em segundo lugar, não devemos desprezar o facto de que todas as medidas desse tipo obrigariam o analista a comportar-se de maneira pouco amigável com o paciente, e isso teria um efeito prejudicial sobre a atitude afectuosa - a transferência positiva - que é o motivo mais forte para o paciente participar no trabalho conjunto da análise. Assim, de modo algum devemos esperar muito desse procedimento.

 

Isto deixa-nos apenas um método: o único que, com toda a probabilidade, foi originalmente considerado. Falamos ao paciente sobre as possibilidades de outros conflitos pulsionais e despertamos a sua expectativa de que tais conflitos possam ocorrer. O que esperamos é que essa informação e essa advertência tenham o efeito de activar nele um dos conflitos que indicámos, num grau modesto, mas suficiente para o tratamento. Dessa vez, porém, a experiência não fala com voz incerta. O resultado esperado não ocorre. O paciente recebe a nossa mensagem, mas não há reacção. Pode pensar consigo: “É muito interessante, mas não sinto nada disso.”’Aumentamos o seu conhecimento, mas nada alteramos nele. A situação é muito semelhante à que acontece quando as pessoas lêem trabalhos psicanalíticos. O leitor é estimulado apenas por aquelas passagens que sente que se aplicam a si próprio, isto é, dizem respeitam a conflitos que estão activos nele na ocasião. O resto deixa-o frio. Podemos ter experiências análogas, creio, quando damos uma educação sexual às crianças. Estou longe de sustentar que esta é prejudicial ou desnecessária, mas é claro que o efeito profilático de tal medida liberal tem sido grandemente sobrestimado. Após este tipo de esclarecimentos, as crianças ficam a conhecer algo que não sabiam antes, mas não fazem uso do novo saber com que foram presenteadas. Viemos a perceber que nem sequer têm grande pressa de sacrificar, ao novo conhecimento, as teorias sexuais que despontaram como o crescimento natural, e que construíram em harmonia e na dependência da sua organização libidinal imperfeita: teorias sobre o papel da cegonha, sobre a natureza do coito ou sobre o modo como nascem os bebés. Muito tempo depois de lhes terem dados estes esclarecimentos sexuais, elas comportam-se como os povos primitivos a quem se pregou o cristianismo, mas que continuam a adorar em segredo seus antigos ídolos.

V

 

Partimos da questão de saber como podemos abreviar a duração inconvenientemente longa do tratamento analítico e, ainda com essa questão em mente, passámos a considerar se é possível conseguir uma cura permanente ou impedir uma doença futura através do tratamento profilático. Assim procedendo, descobrimos que os factores decisivos para o sucesso dos nossos esforços terapêuticos são a influência da etiologia traumática, a força relativa das pulsões, que têm de ser controlados, e o que denominámos a “alteração do ego”. Apenas o segundo desses factores foi pormenorizadamente examinado por nós, e, em conexão com ele, tivemos ocasião de reconhecer a importância suprema do factor quantitativo e acentuar a reivindicação da abordagem metapsicológica para qualquer tentativa de explicação.

 

Sobre o terceiro factor, a alteração do ego, ainda não dissemos nada. Quando voltamos a nossa atenção para ele, a primeira impressão que temos é a de que há muito a perguntar e muito a responder aqui; o que temos para dizer mostrará ser bastante inadequado. Esta primeira impressão é confirmada quando se entra no problema. Como se pensa normalmente, a situação analítica é uma aliança com a pessoa que está em tratamento, a fim de submeter partes não controladas do seu id ou incluí-las na síntese do seu ego. O facto de uma cooperação deste tipo habitualmente fracassar no caso dos psicóticos, dá-nos uma primeira base sólida para um melhor juízo. Se quisermos efectuar um pacto desse tipo devia ser com um ego normal. Mas um ego normal é, como a normalidade em geral, uma ficção ideal. O ego anormal, inútil para os nossos fins, infelizmente não é ficção. Na verdade, toda a pessoa normal é apenas normal medianamente. O seu ego aproxima-se do ego do psicótico num lugar ou noutro e em maior ou menor extensão; é apenas o grau do seu afastamento de determinada extremidade da série, e da sua proximidade da outra, que fornece a medida provisória do que tão indefinidamente denominamos “alteração do ego”.

 

Se perguntarmos qual a fonte da grande variedade de tipos e graus de alteração do ego, não poderemos fugir à primeira alternativa óbvia, ou seja, se tais alterações são congénitas ou adquiridas. O segundo tipo seria o mais fácil de tratar. Se forem alterações adquiridas, terão certamente acontecido no decorrer do desenvolvimento, desde os primeiros anos de vida, pois o ego tem de tentar, desde o começo, desempenhar a sua tarefa de mediação entre o id e o mundo externo, sempre ao serviço do princípio de prazer e da protecção do id contra os perigos do mundo externo. Se, no decurso desses esforços, o ego aprende a adoptar uma atitude defensiva também para com seu próprio id, e a tratar as exigências pulsionais deste último como perigos externos, pelo menos em parte, é porque compreendeu que uma satisfação da pulsão conduziria a conflitos com o mundo externo. Posteriormente, sob a influência da educação, o ego acostuma-se a remover a cena da luta de fora para dentro e a dominar o perigo interno antes que este se tenha tornado externo; provavelmente tem razão para assim proceder. Durante essa luta em duas frentes - posteriormente haverá também uma terceira frente [o superego] -, o ego faz uso de diversos procedimentos para desempenhar a sua tarefa, que, para a expressar em termos gerais, consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer. Chamamos a esses procedimentos “mecanismos de defesa”. O nosso conhecimento destes ainda não é suficientemente completo. O livro de Anna Freud (1936) forneceu-nos uma primeira compreensão interna da sua multiplicidade e significação multilateral.

 

Foi a partir de um desses mecanismos, o recalcamento, que o estudo dos processos neuróticos se iniciou. Nunca houve qualquer dúvida de que o recalcamento não era o único mecanismo que o ego podia usar para os seus fins. Não obstante, o recalcamento é algo bastante peculiar, pois é mais nitidamente diferenciado dos outros mecanismos do que estes o são entre si. Gostaria de esclarecer essa relação com os demais mecanismos através de uma analogia, embora saiba que as analogias nunca nos levam muito longe. Imaginemos o que poderia ter acontecido a um livro, numa época em que os livros ainda não eram impressos em edições, mas redigidos à mão individualmente. Suponhamos que um livro desse tipo contivesse afirmações que, em épocas posteriores, fossem consideradas indesejáveis; por exemplo, segundo Robert Eisler (1929), os escritos de Flávio Josefo devem ter contido passagens sobre Jesus Cristo que foram ofensivas para o cristianismo posterior. Nos dias de hoje, o único mecanismo defensivo de que a censura oficial poderia valer-se seria o de confiscar e destruir todos os exemplares da edição. Naquela época, contudo, diversos métodos eram utilizados para tornar inócuo o livro. Uma das maneiras seria riscar de maneira cerrada as passagens ofensivas, de modo a ficarem ilegíveis. Neste caso, não poderiam ser transcritas, e o copista seguinte do livro produziria um texto inatacável, mas com lacunas em certas passagens, que deste modo poderia ser ininteligível. Outra maneira: se as autoridades não se satisfizessem com isso, mas desejassem ocultar também qualquer indicação de que o texto fora mutilado, seria, para elas, passar a deformar o texto. Palavras isoladas seriam deixadas de fora ou substituídas por outras, e novas frases seriam interpoladas. Melhor, toda a passagem seria apagada e colocada, no seu lugar, outras dizendo exactamente o oposto. O transcritor seguinte poderia, então, produzir um texto que não despertaria suspeita, mas que estaria falsificado. Ele não continha mais aquilo que o autor desejara dizer de verdade.

 

Se esta analogia não é levada mais longe é porque o recalcamento tem a mesma relação com os outros métodos de defesa, que a omissão com a deformação do texto; podemos descobrir, nas diferentes formas dessa falsificação, paralelos com a variedade das maneiras pelas quais o ego é alterado. Pode-se tentar levantar a objecção de que a analogia erra num ponto essencial, pois a deformação de um texto é obra de uma censura tendenciosa, da qual nenhuma contrapartida se pode encontrar no desenvolvimento do ego. Mas não é assim, pois um intuito tendencioso desse tipo é, em grande grau, representado pela força compulsiva do princípio do prazer. O aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção - isto é a verdade - deve ser sacrificada. No que se refere aos perigos externos, o indivíduo pode ajudar-se durante algum tempo através da fuga e evitando a situação de perigo, até ficar suficientemente forte, mais tarde, para afastar a ameaça alterando activamente a realidade. Mas não é possível fugir de si próprio; a fuga não constitui um auxílio contra perigos internos. Por essa razão, os mecanismos defensivos do ego estão condenados a falsificar a percepção interna e a dar somente uma representação imperfeita e deformada do nosso próprio id. Nas suas relações com o id, o ego é paralisado pelas suas restrições ou cegado pelos seus erros, e o resultado, na esfera dos eventos psíquicos, pode ser comparado ao caminhar num país que não se conhece, sem dispor de um bom par de pernas.

 

Os mecanismos de defesa servem para manter afastados os perigos. Não se pode discutir se são bem-sucedidos nisso, mas é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante o seu desenvolvimento. Mas é certo também que eles próprios podem se transformar em perigos. Às vezes, vê-se que o ego pagou um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ónus sobre a economia psíquica. Para mais, esses mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os difíceis anos do seu desenvolvimento. Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa não utiliza mais do que uma selecção deles, mas estes colam-se ao seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reacção do seu carácter, repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. Isso transforma-os em infantilidades; eles partilham aqui da sorte das instituições que tentam manter-se em vida depois da sua época de utilidade ter passado. “Vernunft wird Unsinn, Wohltat Plage” <a Razão torna-se sem sentido, o bem-fazer uma calamidade: Goethe, Fausto, verso 1976>, como se queixa o poeta. O ego do adulto, com a sua força aumentada, continua a defender-se contra perigos que não existem mais na realidade; na verdade, vê-se compelido a buscar na realidade situações que substituam aproximadamente o perigo original, de modo a poder justificar o facto de manter as suas formas habituais de reagir. Assim, podemos facilmente entender que os mecanismos de defensa ocasionam uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparando o caminho para o desencadeamento da neurose contra a qual lutam.

 

De momento não estamos interessados no papel patogénico dos mecanismos defensivos. Estamos tentando descobrir qual é a influência da alteração do ego que a eles corresponde nos nossos esforços terapêuticos. O material para responder a esta pergunta é fornecido no volume a que já me referi, da autoria de Anna Freud. O ponto essencial é que o paciente repete essas modalidades de reacção também durante o trabalho de análise, que as produz diante dos nossos olhos, por assim dizer. Na verdade, é apenas desta maneira que chegamos a conhecê-las. Isso não significa que tornem a análise impossível. Pelo contrário, constituem a metade da sua tarefa analítica. A outra metade, aquela que a análise primeiro enfrentou nos seus dias iniciais, é a revelação do que está escondido no id. Durante o tratamento, o nosso trabalho terapêutico está constantemente oscilando para trás e para frente, como um pêndulo, entre um fragmento de análise do id e um fragmento de análise do ego. Num dos casos, desejamos tornar consciente algo do id; no outro, queremos corrigir algo no ego. A dificuldade da questão é que os mecanismos de defesa dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo. O efeito terapêutico depende de tornar consciente o que está recalcado (no sentido amplo da palavra) no id. Preparamos o caminho para essa tomada de consciência mediante interpretações e construções, mas interpretamos apenas para nós próprios, não para o paciente, enquanto o ego se apega às suas defesas primitivas e não abandona as suas resistências. Ora, essas resistências, embora pertençam ao ego, são inconscientes e, em certo sentido, isoladas dentro do ego. O analista identifica-as mais facilmente do que o faz com o material oculto no id. Poder-se-ia supor que seria suficiente tratá-las como partes do id e, tornando-as conscientes, colocá-las em conexão com o restante do ego. Dessa maneira, suporíamos, que metade da tarefa da análise estaria realizada; não devemos contar com enfrentar uma resistência contra a revelação das resistências. Contudo, o que acontece é isso. Durante o trabalho sobre as resistências, o ego retrai-se - com maior ou menor grau de seriedade - de acordo com a situação analítica. Ele deixa de apoiar os nossos esforços para revelar o id; opõe-se a eles, desobedece à regra fundamental da análise, e não permite que surjam novos derivados do inconsciente. Não podemos esperar que o paciente possua uma forte convicção do poder curativo da análise. Pode ter trazido consigo uma certa confiança no seu analista, que será fortalecida até um ponto eficaz pelos factores de transferência positiva que nele serão despertados. Sob a influência de impulsos desagradáveis que sente em resultado da nova activação dos seus conflitos defensivos, as transferências negativas podem agora levar a melhor e anular completamente a situação analítica. O paciente passa a encarar o analista como um estranho que lhe está fazendo exigências desagradáveis, e comporta-se com ele exactamente como uma criança que não gosta de estranhos e não acredita em nada do que estes dizem. Se o analista tenta explicar uma das deformações efectuadas pelo paciente pela sua resistência, e corrigir esta, encontra a incompreensão e a inacessibilidade a argumentos bem fundados. Assim, percebemos que há uma resistência contra a revelação das resistências e que os mecanismos de defesa merecem realmente o nome que lhe demos, antes de terem sido examinados mais de perto. Constituem resistências não apenas à tomada de consciência dos conteúdos do id, mas também à análise como um todo, logo ao restabelecimento.

 

O efeito ocasionado no ego pelas defesas pode ser correctamente descrito como uma “alteração do ego”, se entendemos por esta o desvio relativo à ficção de um ego normal, que garantiria a lealdade inabalável ao trabalho da análise. É fácil, portanto, aceitar o facto, demonstrado pela experiência quotidiana, de que o resultado de um tratamento analítico depende essencialmente da força e profundidade da raiz das resistências que ocasionam a alteração do ego. Mais uma vez nos confrontamos com a importância do factor quantitativo e mais uma vez somos lembrados de que a análise só pode valer-se de quantidades de energia definidas e limitadas, que têm de ser medidas contra as forças hostis. Impõe-se, então, que a vitória, regra geral, está do lado dos grandes batalhões.

 

VI

 

A questão seguinte a que chegamos é a de saber se toda alteração do ego – no sentido em que falámos - é adquirida durante as lutas defensivas dos primeiros anos? Não pode haver dúvida na resposta. Não temos razão para duvidar da existência e importância das características distintivas, originais e inatas do ego. Isso certifica-se pelo acto singular de que cada pessoa faz uma selecção dos mecanismos possíveis de defesa, que ela apenas utiliza alguns deles, sempre os mesmos. Tal parece indicar que cada ego está dotado, desde o início, de disposições e tendências individuais, embora seja verdade que não podemos especificar a sua natureza ou aquilo que as determina. Para mais, sabemos que não devemos exagerar a diferença existente entre os caracteres herdados e adquiridos, transformando-a numa antítese; o que foi adquirido pelos nossos antepassados forma decerto uma parte importante do que herdámos. Quando falamos numa “herança arcaica” estamos geralmente pensando no id, e parecemos presumir que, no começo da vida do indivíduo, ainda não existe ego algum. Mas não desprezaremos o facto de que id e o ego são originalmente um só; tampouco implica qualquer sobrevalorização mística da hereditariedade; acharmos crível que, mesmo antes de o ego surgir, as linhas de desenvolvimento, tendências e reacções que posteriormente apresentará, já estão estabelecidas para ele. As peculiaridades psicológicas das famílias, raças e nações, inclusive na sua atitude para com a psicanálise, não permitem outra explicação. Na verdade é mais do que isso: a experiência analítica impôs a convicção de que mesmo conteúdos psíquicos específicos, tais como o simbolismo, não possuem outras fontes senão a transmissão hereditária; e pesquisas nos diversos campos da antropologia social tornam plausível supor que outros precipitados, igualmente especializados, deixados pelo primitivo desenvolvimento humano também estão presentes na herança arcaica.

 

Com o reconhecimento de que as propriedades do ego com que nos defrontamos sob a forma de resistências podem ser determinadas pela hereditariedade, ou adquiridas em lutas defensivas, a distinção topográfica entre o ego e o id perde muito de seu valor para a nossa investigação. Se avançarmos mais um passo na nossa experiência analítica, deparamo-nos com resistências de um outro tipo, que não podemos mais localizar, e que parecem depender de condições fundamentais do aparelho psíquico. Só posso fornecer alguns exemplos desse tipo de resistência, pois todo este campo de investigação ainda é desconcertantemente estranho e insuficientemente explorado. Deparamo-nos com pessoas, por exemplo, a quem estamos inclinados a atribuir uma especial “adesividade da libido” Os processos que o tratamento coloca em movimento nessas pessoas são muito mais lentos do que em outra, porque, aparentemente, elas não podem decidir-se a abandonar os investimentos libidinais de um determinado objecto e a deslocar o seu interesse para um outro, embora não possamos descobrir nenhuma razão especial para essa lealdade do investimento. Encontramos também o tipo oposto de pessoa, em quem a libido parece particularmente móvel; esta é levada prontamente a novos investimentos, sugeridos pela análise, abandonando os anteriores em troca deste. A diferença entre os dois tipos é comparável à sentida por um escultor, conforme ele trabalhe na pedra dura ou com gesso macio. Infelizmente, nesse segundo tipo, os resultados da análise são frequentemente pouco duráveis; os novos investimentos são logo abandonados, e temos a impressão, não de ter trabalhado em gesso, mas de ter escrito na água. Como diz o provérbio: “como vêm, assim vão.”

 

Num outro grupo de casos, ficamos surpreendidos por uma atitude dos nossos pacientes que só pode ser atribuída a um esgotamento da plasticidade, da capacidade de modificação e desenvolvimento ulterior, que comummente esperaríamos encontrar. Estamos preparados para encontrar na análise uma certa quantidade de inércia psíquica. Quando o trabalho da análise descerrou novos caminhos para um impulso pulsional, quase invariavelmente observamos que este não ingressa neles sem uma hesitação acentuada. Chamamos a esse comportamento, talvez não muito correctamente, “resistência do id.” Com os pacientes que tenho em mente, porém, todos os processos mentais, relacionamentos e distribuições de força são imutáveis, fixos e rígidos. Encontra-se a mesma coisa em pessoas muito idosas, onde é explicada como devida à força do hábito ou à exaustão da receptividade, uma espécie de entropia psíquica. Aqui, no entanto, referimo-nos a casos de pessoas ainda jovens. O nosso conhecimento teórico não parece adequado para fornecer uma explicação correcta de tais tipos. Provavelmente, estão relacionadas algumas características temporais, como certas alterações de ritmo de desenvolvimento na vida psíquica que ainda não apreciámos.

 

Num outro grupo ainda de casos, as características distintivas do ego, que devem ser consideradas como fontes de resistências ao tratamento analítico e obstáculos ao êxito terapêutico, podem ter raízes diferentes e mais profundas. Estamos lidando aqui com o que a investigação psíquica pode aprender: a acção das duas pulsões primárias, a sua distribuição, mistura e difusão - coisas que não podemos imaginar como confinadas a uma única província do aparelho psíquico, ao id, ao ego ou ao superego. Não há impressão mais forte do que a das resistências ao trabalho de análise que surgem de uma força que se defende por todos os meios possíveis contra o restabelecimento, que está absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento. Uma parte desta força já foi identificada por nós com indubitável justiça como sentimento de culpa e necessidade de punição, e localizada na relação do ego com o superego. Mas essa é apenas a parte dela que está psiquicamente presa ao superego, e assim se torna reconhecível; outras quantidades da mesma força, quer ligadas, quer livres, podem estar em acção noutros lugares não especificados. Se tomarmos em consideração o quadro total formado pelos fenómenos do masoquismo imanentes a tantas pessoas, a reacção terapêutica negativa e o sentimento de culpa encontrados em tantos neuróticos, não poderemos mais aderir à crença de que os eventos mentais são governados exclusivamente pelo princípio do prazer. Esses fenómenos constituem indicações inequívocas da presença de um poder na vida mental que chamamos pulsão agressiva ou de destruição, segundo os seus objectivos, e que fazemos remontar à pulsão de morte da matéria viva. Não se trata de uma antítese entre uma teoria pessimista da vida e uma outra optimista. Somente pela acção concorrente ou mutuamente oposta das duas pulsões primordiais - Eros e pulsão de morte -, e nunca por um ou outro sozinho, podemos explicar a rica multiplicidade dos fenómenos da existência.

 

Como partes dessas duas classes de pulsões se combinam para desempenhar as diversas funções vitais, em que condições tais combinações se afrouxam ou se rompem, a que distúrbios essas mudanças correspondem e com que sensações a escala perceptiva do princípio de prazer a elas responde - são problemas cuja elucidação seria a façanha mais gratificante da investigação psíquica. De momento, temos de nos curvar à superioridade das forças contra as quais vemos os nossos esforços redundar em nada. Mesmo exercer uma influência sobre o simples masoquismo constitui um ónus muito severo para os nossos poderes.

 

Ao estudar os fenómenos que testemunham da actividade da pulsão de destruição, não nos confinamos a observações sobre o material patológico. Numerosos factos da vida mental normal exigem uma explicação desse tipo, e, quanto mais penetrantes os nossos olhos se tornam, mais copiosamente esses factos nos impressionam. O assunto é novo e importante demais para que o trate como um tema lateral desse debate. Contentar-me-ei, portanto, em seleccionar alguns casos exemplificativos.

 

Aqui temos um exemplo. É bem sabido que em todos os períodos houve, como ainda há, pessoas que podem tomar como objectos sexuais membros do seu próprio sexo, bem como do sexo oposto, sem que uma das inclinações interfira na outra. Chamamos a estas pessoas “bissexuais” e aceitamos a sua existência sem muita surpresa. Viemos a saber que todo o ser humano é bissexual nesse sentido, que a sua libido se distribui, quer de maneira manifesta, quer de maneira latente, por objectos de ambos os sexos. Mas ficamos impressionados pelo ponto seguinte. Ao passo que na primeira classe de pessoas as duas tendências prosseguem juntas sem se chocarem, na segunda classe, mais numerosa, elas encontram-se num estado de conflito irreconciliável. A heterossexualidade de um homem não se conformará com nenhuma homossexualidade e vice-versa. Se a primeira é a mais forte, ela obtém êxito em manter a segunda latente e em afastá-la, pela força, da satisfação na realidade. Por outro lado, não existe maior perigo para a função heterossexual de um homem do que o de ser perturbada pela sua homossexualidade latente. Poderíamos tentar explicar isso dizendo que cada indivíduo só possui à sua disposição uma certa quantidade de libido, pela qual as duas inclinações rivais têm de lutar. Mas isto não é claro, por que as rivais nem sempre dividem a quantidade disponível de libido entre si, de acordo com a sua força relativa, mesmo se o podem fazer em certo número de casos. Somos forçados a concluir que a tendência a um conflito é algo de especial, recentemente adicionado à situação, sem consideração pela quantidade de libido. Uma tendência ao conflito desse tipo, a emergir independentemente, dificilmente pode ser atribuída a algo que não seja a intervenção de um elemento de agressividade livre.

 

Se reconhecermos o caso que estamos examinando como uma expressão da pulsão de destruição ou agressiva, surge imediatamente a questão de saber se essa concepção não deve ser estendida a outros exemplos de conflito, e, na verdade, de saber se tudo o que sabemos sobre o conflito psíquico não devia ser revisto a partir deste novo ângulo. Afinal de contas, presumimos que, no decurso do desenvolvimento do homem de um estado primitivo para um civilizado, a sua agressividade experimenta um grau bastante considerável de internalização ou se volta para o interior; se assim for, seus conflitos internos seriam o equivalente apropriado das lutas externas que então cessaram. Estou bem cônscio de que a teoria dualista, segundo a qual uma pulsão de morte, de destruição ou de agressão reivindica iguais direitos como sócia de Eros, tal como este se manifesta na libido, encontrou pouca simpatia, e na realidade não foi aceite, mesmo entre psicanalistas. Isso deixou-me ainda mais satisfeito quando, não há muito tempo, me deparei com essa teoria nos escritos de um dos maiores pensadores da antiga Grécia. Estou prontíssimo a ceder o prestígio da originalidade a favor desta confirmação, em especial porque nunca pode ficar certo, em vista da ampla extensão de minhas leituras nos primeiros anos, se aquilo que tomei por uma nova criação não constituía um efeito da criptoamnésia.

 

Empédocles de Acragas (Agrigento), nascido por volta de 495 a.C., é uma das maiores e mais notáveis figuras da história da civilização grega. A sua personalidade multifacetada actuou nas mais variadas direcções. Foi investigador e pensador, profeta e mágico, político, filantropo e médico com conhecimentos de ciências naturais. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte, na Malária e que os seus contemporâneos viram nele um deus. A sua mente parece ter unido os mais agudos contrastes. Era exacto e sóbrio nas suas pesquisas físicas e fisiológicas; contudo, não se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu as especulações cósmicas da audácia espantosamente imaginativa. Capelle compara-o ao Dr. Fausto, “a quem muitos segredos foram revelados.” Nascido numa época em que o reino da ciência ainda não estava dividido em tantas províncias, algumas das suas teorias impressionaram inevitavelmente pela mistura dos quatros elementos, a terra, o ar, o fogo e a água. Sustentava que toda a natureza era animada, e acreditava na transmigração das almas. Mas também incluiu no corpo teórico do conhecimento ideias modernas, como a evolução gradual das criaturas vivas, a sobrevivência dos mais aptos e o reconhecimento do papel desempenhado pelo encontro ocasional ou acaso (tmch) na evolução.

 

Mas a teoria de Empédocles que merece especialmente o nosso interesse é a que se aproxima muito da teoria psicanalítica das pulsões, ficaríamos mesmo tentados a sustentar que as duas são idênticas, se não fosse a diferença que a teoria do filósofo grego é uma fantasia cósmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar a validade biológica. Ao mesmo tempo, o acto de Empédocles atribuir ao universo a mesma natureza animada que aos organismos individuais despoja essa diferença de grande parte da sua importância.

 

O filósofo ensinou que dois princípios comandam os eventos da vida do universo e da mente, e que esses princípios estão perenemente em guerra um com o outro. Falou de um dualismo fundamental entre philia (jilia) e neikos (neikoz), o amor e a discórdia. Desses dois princípios - que ele concebeu como sendo “forças naturais operando como pulsões, de maneira algum como inteligências com um intuito consciente” -, um deles esforça-se por aglomerar as partículas dos quatro elementos numa só unidade, ao passo que o outro, ao contrário, procura desfazer todas essas fusões e separar umas das outras as partículas primitivas dos elementos. Empédocles imaginou o processo do universo como um alternar contínuo e incessante de períodos, nos quais uma ou outra das duas forças fundamentais leva a melhor, de maneira que em determinada ocasião o amor, e noutra a discórdia realizam completamente o seu intuito e dominam o universo, após o que o outro lado, vencido, se afirma e, por sua voz, derrota seu parceiro.

 

Os dois princípios fundamentais de Empédocles são, tanto no nome quanto na função, as nossas duas pulsões fundamentais, Eros e a pulsão de destruição, dos quais o primeiro se esforça por combinar o que existe em unidades cada vez maiores, ao passo que a segundo se esforça por dissolver essas combinações e destruir a organização a que deram origem. Não ficaremos surpresos, contudo, em descobrir que, no seu ressurgimento após dois milénios e meio, essa teoria se alterou nalgumas das suas características. À parte a restrição ao campo biofísico que se nos impõe, já não temos como substâncias básicas os quatro elementos de Empédocles: o que é vivo foi nitidamente diferenciado do que é inanimado, e não pensamos mais em termos de em mistura e separação de partículas de uma substância, mas na ligação e disseminação das componentes. Fornecemos ainda um certo tipo de fundamento ao princípio da discórdia, fazendo a nossa a pulsão de destruição remontar à pulsão de morte, ao que faz o que é vivo retornar a um estado inanimado. Isso não se destina a negar que uma pulsão análoga existiu anteriormente, nem a assegurara que passou a existir com o surgimento da vida. Ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo da verdade contida na teoria de Empédocles se apresentará à compreensão posterior.

 

VII

 

Em 1927, Ferenczi leu um instrutivo artigo sobre o problema da terminação das análises. Este finda com a confortadora garantia de que “a análise não é um processo sem fim, mas um processo que pode ter um fim próprio, se houver perícia e paciência suficientes por parte do analista.” O artigo no seu todo parece-me ser um aviso para não abreviar a análise, mas aprofundá-la. Ferenczi demonstra, ainda, que o êxito depende muito de o analista ter aprendido o suficiente com os seus próprios “erros e equívocos”, de ter levado a melhor sobre “os pontos fracos de sua própria personalidade.” Isto fornece um suplemento importante ao nosso tema. Entre os factores que influenciam as perspectivas do tratamento analítico e se somam às suas dificuldades da mesma maneira que as resistências, deve-se levar em conta não apenas a natureza do ego do paciente, mas também a individualidade do analista.

 

Não se pode discutir se os analistas, com as suas próprias personalidades, não estiveram invariavelmente à altura do padrão de normalidade psíquica para o qual desejam educar seus pacientes. Os opositores da análise quase sempre apontam esse facto com escárnio e o utilizam como argumento para demonstrar a inutilidade dos esforços analíticos. Poderíamos rejeitar essa crítica porque faz exigências injustificáveis. Os analistas são pessoas que aprenderam a praticar uma arte específica; a par disso, pode-se conceder-lhes que são seres humanos como quaisquer outros. Afinal de contas, ninguém sustenta que um médico será incapaz de tratar doenças internas se os seus próprios órgãos não forem sadios; ao contrário, pode-se argumentar que há certas vantagens no facto de um homem que foi ameaçado pela tuberculose, se especializar no tratamento de pessoas que sofrem dessa doença. Os casos, porém, não são absolutamente idênticos. Enquanto for capaz de praticar clínica, um médico que sofre de uma doença dos pulmões ou do coração não está em desvantagem para diagnosticar ou tratar queixas internas, ao passo que as condições especiais do trabalho analítico fazem realmente com que os próprios defeitos do analista interfiram no seu acto e avaliação correcta do estado de coisas do paciente, bem como na sua reacção a estas. É, portanto, razoável esperar que um analista tenha, como parte das suas qualificações, um grau considerável de normalidade e correcção mental. Além disso, deve ter algum tipo de superioridade, de maneira que, em certas situações, possa agir como modelo para o seu paciente e, em outras, como um mestre. Finalmente, não devemos esquecer que o relacionamento analítico se baseia no amor à verdade - isto é, no reconhecimento da realidade - e que isso exclui qualquer tipo de impostura ou engano.

 

Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com a nossa sincera simpatia pelas exigências muito rigorosas a que tem de atender no desempenho das suas actividades. Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas “profissões impossíveis” quanto às quais se pode de antemão estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são a arte de educar e de governar. Não podemos evidentemente exigir que o analista seja um ser perfeito antes da sua análise, noutras palavras, que só as pessoas de alta e rara perfeição possam ingressar na candidatura a analista. Mas onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações ideais que necessita a sua profissão? A resposta é: na análise de si mesmo, com a qual começa sua preparação para a futura actividade. Por razões práticas, esta análise só pode ser breve e incompleta. O importante é que se possa fazer um juízo sobre se o candidato pode ou não ser aceite para uma formação posterior. A análise didáctica terá alcançado o seu alvo se fornecer àquele que fica firmemente convencido da existência do inconsciente, a capacidade, quando o material recalcado surge, de perceber em si mesmo coisas que de uma outra maneira seriam inacreditáveis para ele. Mas só isso não basta para a formação do analista; contamos também com que os estímulos que recebeu da sua própria análise não cessem quando esta termina, com que os processos de remodelação do ego prossigam espontaneamente no indivíduo analisado, e com que o uso de todas as experiências subsequentes nesse recém-adquirido sentido. Quando tal acontece, qualifica o indivíduo analisado para ser, ele próprio, analista. Infelizmente, algo mais acontece também. Ao tentar descrevê-lo, apenas podemos apoiar-nos em impressões. Hostilidade, por um lado, e partidarismo, por outro, criam uma atmosfera desfavorável à investigação objectiva. Parece que certo número de analistas aprende a fazer uso de mecanismos de defesa que lhes permitem desviar de si próprios as implicações e as exigências da análise (provavelmente dirigindo-as para outras pessoas), de maneira que eles próprios permanecem como são e podem afastar-se da influência crítica e correctiva da análise. Tal acontecimento poderia justificar as palavras do escritor [Anatole France: La révolte des anges] que nos adverte que, quando um homem obtém poder, é difícil para ele não o utilizar mal. Às vezes, quando tentamos compreender isso, somos levados a traçar uma analogia desagradável com o efeito dos raios X nas pessoas que os manejam sem tomar precauções especiais. Não seria de surpreender que o efeito de uma preocupação constante com todo o material recalcado que luta pela liberdade na mente humana despertasse também no analista as exigências pulsionais que de outra maneira ele seria capaz de manter suprimidas. Também esses são “perigos da análise”, embora ameacem não o parceiro passivo, mas o parceiro activo da situação analítica, e não deveríamos negligenciar enfrentá-los. Não temos dúvida sobre o modo como isso deve ser feito. Todo o analista deveria periodicamente - com intervalos de aproximadamente cinco anos - submeter-se mais uma vez à análise, sem se sentir envergonhado por tomar essa medida. Isso significaria, portanto, que não seria apenas a análise terapêutica dos pacientes, mas a sua própria análise que se transformaria de tarefa terminável em interminável.

 

Nesse ponto, contudo, temos de nos resguardar contra uma concepção equivoca. Não estou pretendendo afirmar que a análise nunca tem fim. Qualquer que seja a nossa atitude teórica relativamente à questão, o término de uma análise é, penso eu, uma questão prática. Todo o analista experiente será capaz de recordar uma série de casos em que deu ao seu paciente um adeus definitivo, rebus bene gestis. Nos casos do que é conhecido como “análise de carácter”, há uma discrepância muito menor entre a teoria e a prática. Aqui não é fácil prever um término natural, ainda que se evitem quaisquer expectativas exageradas e não se estabeleçam para a análise tarefas excessivas. O nosso objectivo não será dissipar todas as peculiaridades do carácter humano em benefício de uma ‘normalidade’ esquemática, nem tampouco exigir que a pessoa que foi ‘completamente analisada’ não sinta paixões nem desenvolva conflitos internos. A missão da análise é garantir as melhores condições psicológicas possíveis para as funções do ego; com isso, ela cumpriu a sua tarefa.

 

VIII

 

Tanto nas análises terapêuticas, como nas análises de carácter, observamos que dois temas têm uma proeminência especial e fornecem ao analista uma quantidade inusitada de trabalho. Torna-se logo evidente que um princípio geral está aqui em acção. Os dois temas estão ligados à distinção entre os sexos; um deles é tão característico dos homens quanto o outro o é das mulheres. Apesar da dissemelhança do seu conteúdo, há uma correspondência óbvia entre eles. Algo que ambos os sexos possuem em comum foi forçado, pela diferença entre eles, a formas diferentes de expressão.

 

Os dois temas correspondentes são, na mulher, a inveja do pénis - um esforço positivo para possuir um órgão genital masculino - e, no homem, a luta contra a atitude passiva ou feminina em relação a um outro homem. O que é comum foi distinguido pela nomenclatura psicanalítica, em data precoce, como sendo a sua posição em relação ao complexo de castração. Alfred Adler preferiu o termo ‘protesto masculino’ para uso corrente. Ele ajusta-se perfeitamente ao caso dos homens, mas penso que, desde o início, “repúdio da feminilidade” teria sido a descrição mais correcta dessa notável característica da vida psíquica dos seres humanos.

 

Ao tentar introduzir esse factor na nossa teoria, não devemos desprezar o facto de que não pode, pela sua própria natureza, ocupar a mesma posição para ambos os sexos. Nos homens, o esforço para serem masculinos é desde o início conforme ao seu ego; a atitude passiva, uma vez que pressupõe uma aceitação da castração, é energicamente recalcada e a sua presença só é indicada por sobrecompensações excessivas. O esforço das mulheres para serem masculinas também é conforme ao ego durante um determinado período de tempo, a fase fálica por que passam antes que o desenvolvimento da feminilidade se estabeleça. Depois sucumbe ao processo do recalcamento, cujo desfecho, como tão frequentemente foi demonstrado, vai determinar o destino da feminilidade de uma mulher. Muita coisa depende de que uma parte suficiente do seu complexo de masculinidade escape ao recalcamento e exerça uma influência permanente no seu carácter. Normalmente, grandes partes deste complexo transformam-se e contribuem para a construção da sua feminilidade; o desejo apaziguado de um pénis é convertido no desejo de um bebé e de um marido, que possui um pénis; mas, quantas vezes se descobre que o desejo de masculinidade foi retido no inconsciente e que, a partir deste recalcamento, exerce uma influência perturbadora.

 

Como se verá pelo que disse, em ambos os casos foi a atitude própria ao sexo oposto que sucumbiu ao recalcamento. Já afirmei noutro lugar que foi Wilhelm Fliess que chamou a minha atenção para esse ponto. Fliess inclinava-se a encarar a guerra dos sexos como a verdadeira causa e a primeira força do recalcamento. Apenas repito o que disse então ao discordar da sua opinião, quando recuso conceber o recalcamento desta maneira, isto é, explicá-lo a partir de fundamentos biológicos em vez de psicológicos.

 

A importância destes dois temas - nas mulheres, o desejo de um pénis, e, nos homens, a luta contra a passividade - não escapou à observação de Ferenczi. No artigo lido em 1927, ele transformou num requisito que, em toda análise bem-sucedida, esses dois complexos tivessem de ser dominados. Falando por minha própria experiência, acho que Ferenczi estava pedindo muito. Em nenhum momento do trabalho analítico se sofre mais da sensação opressiva de que todos os nossos repetidos esforços foram em vão, e da suspeita de que estivemos pregando ao vento, quando tentamos persuadir uma mulher a abandonar o seu desejo de um pénis, com fundamento de que este é irrealizável, ou quando procuramos convencer um homem que uma atitude passiva para com os outros homens nem sempre significa castração, que ela é indispensável em muitos relacionamentos na vida. A sobrecompensação rebelde do homem produz uma das mais fortes resistências transferências; ele recusa a submeter-se a um substituto paterno, ou sentir-se em débito para com este, consequentemente recusa aceitar do médico o seu restabelecimento. Nenhuma transferência análoga pode surgir do desejo da mulher por um pénis, mas esse desejo é fonte de graves depressões nela, ou da convicção interna de que a análise não lhe será útil e de que nada pode ser feito para ajudá-la. Só podemos concordar que tem razão quando aprendemos que o seu motivo mais forte para procurar um tratamento foi a esperança de que, no fim, ainda podia obter o órgão masculino cuja falta lhe era tão penosa.

 

Mas também aprendemos com isso que não é importante a forma como a resistência aparece, na transferência ou não. A coisa decisiva permanece que a resistência impede a ocorrência de qualquer mudança – fica tudo como era. Frequentemente temos a impressão de que o desejo de um pénis e o protesto masculino penetraram através de todos os estratos do psiquismo e alcançaram o seu fundo, e que, assim, as nossas actividades encontram um fim. Isso é provavelmente verdadeiro, já que, para o campo psíquico, o campo biológico desempenha o papel de rocha subjacente. O repúdio da feminilidade pode não ser nada mais do que um factor biológico, fazendo parte do grande enigma do sexo. Seria difícil dizer se e quando temos êxito em dominar este factor num tratamento analítico. Só podemos consolar-nos com a certeza de que demos à pessoa analisada todo o incentivo possível para reexaminar e alterar a sua atitude para com ele.

 


 

[1] BEMERKUNGEN ÜBER DIE ÜBERTRAGUNGSLIEBE.

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1915 Int. Z. Psychoanl., 3, (1), 1-11.

1918 S. D. S. N., 4, 453-69. (1922, 2ª ed.)

1924 Technik und Metapsychol. 120-35.

1925 G. S., 6, 120-35.

1931 Neurosenlehre und Technik, 385-96.

1946 G. W., 10, 306-21.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Further Recommendations in the Technique of Psycho-Analysis: Observations on Transference-Love, 1924 C.P., 2, 377-91. (Trad. de Joan Riviere.)

[2] Sabemos – mas não falarei disso aqui – que a transferência pode acarretar sentimentos menos ternos.

[3] KONSTRUKTIONEN IN DER ANALYSE

 

(a) EDIÇÕES ALEMÃS

1937 Int. Z. Psychoanal., 23 (4), 459-69.

1950 G. W. 16, 43-56.

 

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

 

Constructions in Analysis’

 

1938 Int. J. Psycho-Anal., 19 (4), 377-87. (Trad. de James Strachey.)

1950 C. P., 5, 358-71.

 

[4] DIE ENDLICHE UND DIE UNENDLICHE ANALYSE

 

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1937   Int. Z. Psychoanal., 23 (2), 209-40.

1950   G. W., 16, 59-99.

 

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Analysis Terminable and Interminable’

 

1937   Int. J. Psycho-Anal., 18 (4), 374-405. (Trad. de Joan Riviere.)

1950 C.P. 5, 316-57.

 

 

OBSERVAÇÕES SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL[1]

1915

 

 

O principiante em psicanálise poderá temer as dificuldades que lhe irão estar reservadas quando interpretar as associações do paciente e lidar com o retorno do recalcado. Mas aprenderá a encarar estas dificuldades como insignificantes, logo que ficará convencido que as únicas dificuldades realmente sérias que têm de enfrentar residem no manejo da transferência.

 

Entre as diversas situações que podem surgir a este propósito, seleccionarei apenas uma, em parte porque é muito corrente, em parte pelas importantes consequências práticas que tem, mas também pelo seu interesse teórico. O que tenho em mente é o caso em que uma paciente demonstra, mediante indicações inequívocas, ou mesmo declarando-o abertamente, que se enamorou, como qualquer outra mortal, do médico que a está analisando. Esta situação tem aspectos trágicos e cómicos, mas também um lado sério. Ela é determinada por diversos e complexos factores; e é tão inevitável e difícil de esclarecer que a técnica analítica necessitava há muito de uma discussão sobre o assunto. Só que aqueles que riem das fraquezas alheias nem sempre estão livres delas; eu mesmo não estive até agora apressado em cumprir essa tarefa; deparei-me constantemente com a obrigação da discrição profissional, a qual não pode ser dispensada na vida real, mas que é inútil para o nosso conhecimento. Na medida em que as publicações psicanalíticas também fazem parte da vida real, ficámos perante uma contradição insolúvel. Acabei por desprezar recentemente a questão da discrição, para demonstrar como a referida situação transferêncial retardou o desenvolvimento da terapia psicanalítica durante a sua primeira década.

 

Para um leigo instruído (a pessoa civilizada ideal para a psicanálise), as coisas do amor não têm medida comum; são, por assim dizer, escritas numa página à parte, em que nenhum outro texto é tolerado. O leigo apenas vê dois desfechos possíveis quando uma paciente se apaixona pelo seu médico. Um, bastante raro, é que todas as circunstâncias levem a uma união legal e permanente entre eles; o outro, mais frequente, é que o médico e a paciente se separem e abandonem o trabalho que começaram e que devia levar ao restabelecimento dela, como se este trabalho tivesse sido repentinamente interrompido por um fenómeno elementar. Há ainda um terceiro desfecho concebível, que até pode parecer compatível com a continuação do tratamento: é que eles iniciem um relacionamento amoroso ilícito e que não se destine a durar para sempre. Mas este caminho não é admitido pela moral convencional e os códigos profissionais. Assim, o nosso leigo implorará ao analista que lhe assegure, tão inequivocamente quanto possível, que esta terceira alternativa está excluída.

 

É claro que um psicanalista tem de encarar as coisas de um ponto de vista diferente.

 

Tomemos o caso da segunda saída da situação que considerámos. Após a paciente se ter apaixonado pelo seu médico, eles separam-se e o tratamento é abandonado. Mas o estado da paciente pode obrigá-la a começar uma segunda tentativa de análise com um outro médico. O que acontece em seguida é que se irá também enamorar deste segundo médico; e, se romper com ele e recomeçar com um terceiro, o mesmo acontecerá e assim por diante. A repetição deste fenómeno é, como sabemos, um dos fundamentos da teoria psicanalítica. Ele pode ser avaliado a partir de dois pontos de vista: o do médico e o da paciente que dele necessita.

 

Para o médico, o fenómeno traz um esclarecimento valioso e um aviso útil contra qualquer tendência à contratransferência que possa estar presente na sua mente. Ele deve reconhecer que o enamoramento da paciente é induzido pela situação analítica e não pelos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não tem nenhum motivo para se orgulhar de uma tal “conquista”, como seria chamada fora da análise. É sempre bom lembrar isto. Para a paciente existem duas alternativas: abandonar o tratamento psicanalítico ou aceitar enamorar-se do seu médico como um destino inelutável.[2]

 

Não tenho dúvidas de que os parentes e amigos da paciente se decidirão enfaticamente pela primeira destas duas alternativas, assim como o analista optará pela segunda. Mas acho que temos aqui um caso em que a decisão não pode ser deixada ao terno - ou antes, egoísta e ciumento - cuidado dos parentes. Só o bem-estar da paciente devia constituir a pedra de toque; o amor dos parentes não é indispensável para a consecução de certos fins. Qualquer pessoa que, como Tolstoi, adopte esta atitude em relação ao problema, pode permanecer na posse imperturbada da sua esposa ou filha, mas terá de suportar que se mantenha a neurose e a interferência na capacidade de amar que esta acarreta. Afinal, a situação é semelhante à de um tratamento ginecológico. Mas o pai ou o marido ciumento está grandemente equivocado se pensa que a paciente deixará de se enamorar do médico se fizer outro tipo de tratamento que não a análise para combater a sua neurose. Pelo contrário, a única diferença será que um amor deste tipo, fadado a permanecer oculto e não analisado, nunca poderá ajudar ao restabelecimento da paciente como a análise o teria feito.

 

Tomei conhecimento que alguns médicos que praticam a análise preparam frequentemente as suas pacientes para o surgimento da transferência erótica ou até mesmo as instigam a “ir em frente e enamorar-se do médico, de modo a que o tratamento possa progredir”. Tenho dificuldade em imaginar uma técnica mais insensata. Assim procedendo, o analista priva o fenómeno da sua espontaneidade, que é tão convincente, e cria para si próprio obstáculos difíceis de superar no futuro.

 

À primeira vista, não parece que o facto da paciente se enamorar sob transferência traga qualquer vantagem ao tratamento. Por mais dócil que tenha sido até então, ela perde repentinamente toda a compreensão e interesse pela análise, não fala nem escuta mais nada que não diga respeito ao seu amor, e exige que este lhe seja retribuído. Abandona os seus sintomas ou deixa de lhes prestar atenção, declarando mesmo que está curada. Há uma completa mudança de cena. É como se, numa peça, a ficção fosse subitamente interrompida pela irrupção da realidade, como quando se grita “fogo” durante uma representação teatral. Nenhum médico que viva este fenómeno pela primeira vez achará fácil manter o controlo do tratamento analítico e livrar a paciente da ilusão de que este chegou realmente ao fim.

 

Uma pequena reflexão vai ajudar a orientarmo-nos. Primeiro e antes de mais, mantenho que tudo o que interfere na continuação do tratamento pode constituir a manifestação de uma resistência. Não há dúvida de que a irrupção de uma apaixonada exigência de amor é, em grande parte, um trabalho da resistência. Há muito que se tinham notado na paciente sinais de uma transferência afectuosa, e pôde-se ter certeza de que a docilidade dela, a sua aceitação das interpretações analíticas, a sua notável compreensão e o alto grau de inteligência que mostrava deviam ser atribuídos a esta atitude em relação ao médico. Agora, isto tudo faz parte do passado. Ela ficou sem a mínima compreensão interna (insight), parecendo ter sido absorvida totalmente pelo seu amor. Para mais, esta modificação ocorre habitualmente no momento preciso em que se está a tentar levá-la a admitir ou a recordar um fragmento particularmente aflitivo ou pesadamente recalcado da história da sua vida. Ela já estava enamorada há muito tempo, mas agora a resistência está começando a utilizar o seu amor a fim de estorvar a continuação do tratamento, desviar todo o seu interesse desse trabalho e colocar o analista numa posição canhestra.

 

Examinando a situação de perto, reconhece-se a influência de motivos que a complicam ainda mais, dos quais alguns se encontram vinculados ao enamoramento e outros são expressões específicas da resistência. Do primeiro tipo são os esforços da paciente para se certificar da sua capacidade irresistível de sedução, para destruir a autoridade do médico rebaixando-o ao nível do amante, e assim conquistar todas as outras vantagens prometidas pelo amor. Em relação à resistência, podemos suspeitar que faz ocasionalmente uso da declaração de amor da paciente como um meio para colocar à prova a autoridade do analista, de maneira que, se ele mostrar sinais de complacência, possa ser chamado à ordem. Acima de tudo, fica-se com a impressão de que a resistência age como um agent provocateur; que intensifica o estado amoroso da paciente e exagera a sua disposição à rendição sexual, a fim de justificar ainda mais enfaticamente o recalcamento e apontar para os perigos da licenciosidade. Como sabemos, estas motivações acessórias, que em casos mais simples podem não estar presentes, foram encaradas por Adler como o essencial de todo o processo.

 

Mas como é que o analista se deve comportar para não fracassar em tal situação, se estiver persuadido que o tratamento deve ser levado avante, apesar da transferência erótica que ele deve enfrentar com calma?

 

Ser-me-ia fácil enfatizar aqui os padrões universalmente aceites da moralidade e insistir que o analista não deve nunca, em quaisquer circunstâncias, aceitar ou retribuir os ternos sentimentos que lhe são oferecidos; que, inversamente, deve ponderar que chegou a sua vez de apresentar à mulher que o ama as exigências da moral social e a necessidade da renúncia, de a fazer abandonar os seus desejos, para, depois de ter dominado o lado animal do seu Eu, prosseguir o trabalho da análise.

 

Não atenderei, contudo, a estas expectativas, nem à primeira, nem à segunda. A primeira, porque não estou escrevendo para a clientela, mas sim para médicos defrontando-se com sérias dificuldades, e também porque, neste caso, posso fazer remontar a prescrição moral à sua fonte, que são as conveniências. Encontro-me aqui na feliz posição de poder substituir a proibição moral por considerações de técnica analítica, sem qualquer alteração no resultado.

 

Ainda mais decididamente, recuso-me a atender à segunda expectativa que mencionei. Instigar a paciente a suprimir ou a sublimar os seus desejos, no momento em que ela admitiu a transferência erótica, seria, não uma maneira analítica de lidar com eles, mas uma maneira insensata. Seria exactamente como se, após invocar mediante astutos encantamentos um espírito dos infernos, o mandássemos de volta para baixo, sem lhe haver feito uma única pergunta. Ter-se-ia, assim, trazido o recalcado à consciência apenas para, assustados, o recalcar mais uma vez. Não devemos iludir-nos sobre o êxito de qualquer procedimento deste tipo. Como sabemos, as paixões são pouco afectadas pelos discursos sublimes. A paciente apenas sentirá humilhação e não deixará de se vingar por causa desta.

 

Tão pouco posso advogar um caminho intermédio, que certas pessoas considerariam como especialmente engenhoso. Este consistiria em declarar que se retribuem os sentimentos amorosos da paciente, mas, ao mesmo tempo, evitando qualquer complementação física desta afeição, até que se possa orientar o relacionamento para canais mais calmos e elevá-lo a um nível mais alto. A minha objecção a este expediente é que o tratamento analítico se baseia no amor à verdade, residindo neste facto grande parte do seu efeito educativo e valor ético. É perigoso desviar-se deste fundamento. Todo aquele que se empenhou na técnica analítica não será mais capaz de fazer uso das mentiras e fingimentos que um médico normalmente acha inevitáveis; e se, com a melhor das intenções, tentar fazê-lo, é muito provável que se traia. Visto exigirmos a estrita sinceridade dos nossos pacientes, colocamos em perigo toda a nossa autoridade, se deixarmos que nos apanhem a desviarmo-nos da verdade. Além disso, a experiência de se deixar levar um pouco por sentimentos ternos em relação à paciente não é inteiramente sem perigo. O controlo sobre nós próprios não é tão completo que não possamos subitamente, um dia, ir mais além do que havíamos pretendido. Em minha opinião, portanto, não devemos abandonar a neutralidade para com a paciente que adquirimos pela análise da contratransferência.

 

Já deixei claro que a técnica analítica exige do médico que ele negue à paciente que anseia por amor a satisfação que esta exige. O tratamento deve ser levado a cabo na abstinência. Não se trata apenas de abstinência física, nem de privação de tudo o que a paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma possa tolerar isto. Inversamente, considero que a necessidade e o desejo da paciente devem persistir, a fim de poderem servir de forças que a incitem a trabalhar e mudar. Devemos cuidar de não tentar apaziguar estas forças por meio de substitutos; o que então poderíamos oferecer não seria mais que uma aparência, pois a condição da paciente é tal que, até que os seus recalcamentos serem removidos, ela é incapaz de alcançar uma satisfação real.

 

Admitamos que o princípio que o tratamento seja levado a cabo na abstinência se estenda muito para além do caso isolado que estamos aqui a considerar; e que necessite ser completamente debatido, a fim de podermos definir os limites da sua possível aplicação. Todavia, vou me manter tão próximo quanto possível da situação de que partimos. O que aconteceria se o médico se comportasse diferentemente e, supondo que ambas as partes fossem livres, se aproveitasse desta liberdade para retribuir o amor da paciente e acalmar a sua necessidade de afeição?

 

Se ele tivesse sido guiado pelo cálculo de que esta concordância da sua parte lhe garantiria o domínio sobre a paciente, o capacitaria a influenciá-la a realizar as tarefas exigidas pelo tratamento, a libertá-la duradoiramente da sua neurose, então a experiência mostrar-lhe-ia inevitavelmente que o seu cálculo estava errado. A paciente alcançaria o objectivo dela, mas ele nunca alcançaria o seu. O que aconteceria ao médico e à paciente seria apenas o que aconteceu, segundo uma divertida anedota, ao pastor e ao corretor de seguros. O corretor de seguros, livre-pensador, estava à beira da morte e os seus parentes insistiram em trazer um homem de deus para convertê-lo antes de morrer. A entrevista durou tanto tempo que aqueles que esperavam do lado de fora começaram a ter esperanças. Por fim, a porta do quarto do doente abriu-se. O livre-pensador não tinha sido convertido, mas o pastor foi embora com um seguro.

 

Se os avanços da paciente fossem retribuídos, isso constituiria um grande triunfo para ela, mas uma derrota completa para a análise. A paciente teria tido sucesso contra aquilo com que a análise luta, a repetição, em acto (acting out), na vida real, do que apenas devia ser recordado como material psíquico e elaborado mentalmente. No curso ulterior do relacionamento amoroso, ela acabaria por expressar todas as inibições e reacções patológicas da sua vida erótica sem que houvesse qualquer possibilidade de corrigi-las; o episódio penoso terminaria em remorso e num grande fortalecimento da sua propensão para o recalcamento. Na verdade, a relação amorosa destrói o consentimento da paciente à influência da análise. Uma combinação das duas seria, pois, impossível.

 

Portanto é tão desastroso para a análise que o anseio de amor da paciente seja satisfeito, quanto que seja eliminado. O caminho que o analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual não existe modelo na vida comum. Ele tem de tomar cuidado para não se afastar do amor transferêncial, repeli-lo ou torná-lo desagradável para a paciente; mas deve, de um modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuição. O analista deve manter o domínio do amor transferêncial, mas tratá-lo como algo irreal, que a análise deve atravessar para remontar às origens inconscientes desse amor, e poder trazer à luz o que na vida erótica da paciente se encontra profundamente oculto para a consciência e o controlo exercido por esta. Quanto mais claramente o analista permite que se perceba que ele está à prova de qualquer tentação, mais prontamente poderá extrair da situação o seu conteúdo analítico. A paciente, cujo recalcamento sexual ainda não foi removido, mas simplesmente empurrado para um segundo plano, sentir-se-á, então, bastante segura para permitir que venham à luz as suas pré-condições para amar, todas as fantasias que emergem dos seus desejos sexuais, todas as características pormenorizadas de seu estado amoroso. A partir daí, ela própria abrirá o caminho para as raízes infantis do seu amor.

 

É verdade que existe determinada classe de mulheres para quem esta tentativa de preservar a transferência erótica para os fins do trabalho analítico sem satisfazê-la não terá êxito. Trata-se de mulheres que não toleram outra coisa que as suas grandes paixões. São filhas da natureza que se recusam a aceitar que o psíquico venha no lugar do material, ou, nas palavras do poeta, que apenas são acessíveis à “lógica da sopa e ao argumento dos bolinhos”. [“Suppenlongik mit Knödelgründen”, de Die Wanderraten de Heine. (Transcrito erradamente por Freud: “Knödelargumenten”]. Com estas pessoas tem de se escolher entre retribuir o seu amor ou, então, acarretar para si toda a inimizade de uma mulher desprezada. Em nenhum dos casos se podem salvaguardar os interesses do tratamento. Tem de se bater em retirada, sem sucesso, e tudo o que se pode fazer é revolver na sua própria mente o problema de como é que uma capacidade de neurose se liga a tão obstinada necessidade de amor.

 

Muitos analistas estarão de acordo sobre o meio pelo qual outras mulheres, menos violentas no seu amor, podem ser gradualmente levadas a adoptar a atitude analítica. O que fazemos acima de tudo é acentuar, para a paciente, o elemento inequívoco da resistência nesse amor. Como se diz, o verdadeiro amor devia torná-la dócil e intensificar a sua prestação na solução dos seus problemas, simplesmente porque o homem de quem está enamorada espera isso dela. Neste caso, ela escolheria alegremente a estrada da conclusão do tratamento, a fim de adquirir valor aos olhos do médico e preparar-se para a vida real, onde este sentimento de amor poderia encontrar um lugar adequado. Mas em vez disso, dizemos nós, ela mostra um espírito teimoso e rebelde, abranda todo o interesse pelo tratamento e não sente claramente respeito pelas mais bem fundamentadas convicções do médico; expressa deste modo uma resistência através do disfarce de estar enamorada dele. Além disso, não se comove por colocar o médico numa situação difícil; se ele recusa o seu amor, como o dever e o entendimento da situação o compelem a fazer, ela pode representar o papel da mulher desprezada, e afastar-se dos esforços terapêuticos por vingança e ressentimento, exactamente como o seu amor ostensivo está fazendo.

 

Como segundo argumento contra a genuinidade desse amor, apresentamos o facto de ele não exibir uma só característica nova ou que tenha a sua origem na situação actual, mas compor-se inteiramente de repetições, cópias de reacções anteriores, inclusive infantis. Isto prova-se mediante uma análise pormenorizada do comportamento amoroso da paciente.

 

Quando se acrescenta a dose necessária de paciência a estes argumentos, é geralmente possível superar a difícil situação e continuar o trabalho com um amor que foi moderado ou transformado; o trabalho visa, então, desvendar a escolha infantil do objecto da paciente e as fantasias que se teceram em redor dele.

 

Gostaria agora de examinar estes argumentos com olhos críticos e levantar a questão de saber se, ao apresentá-los à paciente, estamos realmente dizendo a verdade, ou se não nos estamos valendo desesperadamente de encobrimentos e deturpações. Noutras palavras: podemos verdadeiramente dizer que o estado de enamoramento que se manifesta no tratamento analítico não é real?

 

Acho que dizemos a verdade, mas não toda a verdade, se não atendermos às consequências. Dos nossos dois argumentos, o primeiro é o mais forte. O papel desempenhado pela resistência no amor transferêncial é inquestionável e muito considerável. Mas a resistência não cria esse amor; ela encontra-o já pronto, à mão de semear, fazendo apenas uso dele e agravando as suas manifestações. Tão pouco a genuinidade do fenómeno deixa de ser provada pela resistência. O segundo argumento é muito mais fraco. É verdade que o amor consiste em novas reedições de antigas características e que ele repete reacções infantis. Mas este é o carácter essencial de todo o estado amoroso. Não existe estado deste tipo que não reproduza protótipos infantis. É precisamente desta determinação infantil que recebe o seu carácter compulsivo, beirando, como o faz, o patológico. O amor transferêncial possui talvez um grau menor de liberdade que o amor que surge na vida comum e é chamado “normal”; ele exibe a sua dependência do padrão infantil mais claramente e é menos adaptável e capaz de modificação; mas isto tudo não constitui o essencial.

 

Através de que outros sinais pode a genuinidade de um amor ser reconhecida? Pela sua eficácia, a sua utilidade a alcançar o objectivo? A este respeito, o amor transferêncial não parece ficar devendo nada a ninguém; tem-se a impressão de que, com ele, se pode obter qualquer coisa.

 

Resumamos, portanto. Não temos o direito de contestar que o estado amoroso que faz o seu aparecimento no tratamento analítico tenha o carácter de um amor verdadeiro. O parecer tão desprovido de normalidade é suficientemente explicado pelo facto de que estar enamorado na vida comum, fora da análise, é também mais semelhante aos fenómenos mentais anormais que aos normais. Não obstante, o amor transferêncial caracteriza-se por certos aspectos que lhe asseguram uma posição especial. Em primeiro lugar é provocado pela situação analítica; em segundo é grandemente intensificado pela resistência, que domina a situação; e, em terceiro, falta-lhe em alto grau de consideração pela realidade, é menos sensato, menos interessado nas consequências e mais egoísta na sua avaliação da pessoa amada do que estamos preparados para admitir no caso do amor normal. Contudo, não devemos esquecer que esses afastamentos da norma constituem precisamente aquilo que é essencial a respeito do estar enamorado.

 

É a primeira destas três características do amor transferêncial que constitui o factor decisivo da acção do analista. Foi ele que provocou este amor ao oferecer o tratamento analítico a fim de curar a neurose. Para o analista, trata-se da consequência inevitável de uma situação médica, tal como a exposição do corpo de um paciente ou a comunicação de um segredo vital. É-lhe, portanto, evidente que não deve tirar qualquer vantagem pessoal disso. A disposição da paciente não faz diferença; simplesmente lança toda a responsabilidade sobre o próprio analista. Na verdade, como ele deve saber, a paciente não se preparou para nenhum outro método de cura. Após todas as dificuldades terem sido superadas, ela confessará muitas vezes ter tido uma fantasia antecipatória na altura em que começou o tratamento, no sentido de que, se ela se comportasse bem, seria recompensada no final pela afeição do médico.

 

Para o médico, os motivos éticos unem-se aos técnicos para o impedir de dar o seu amor à paciente. O objectivo que tem de manter em vista é que a essa mulher, cuja capacidade de amor está prejudicada por fixações infantis, deve adquirir o pleno controlo de uma função que lhe é de tão inestimável importância; que ela não deve, porém, dissipá-la no tratamento, mas mantê-la pronta para o momento em que, após o tratamento, as exigências da vida real se fazem sentir. A análise não deve encenar a situação de uma corrida de cães em que o prémio seria uma grinalda de salsichas, mas que um humorista estragou ao atirar uma única salsicha para a pista; o resultado foi que os cães se atiraram à salsicha e esqueceram tudo sobre a corrida e a grinalda que os atraía para a vitória distante. Não quero dizer que é sempre fácil ao médico manter-se dentro dos limites prescritos pela ética e pela técnica. Aqueles que ainda são jovens e não estão ligados por fortes laços podem, em particular, achá-lo uma tarefa árdua. O amor sexual é indubitavelmente uma das mais importantes coisas da vida, e a satisfação mental e física no gozo do amor constitui um de seus pontos culminantes. À parte alguns excêntricos fanáticos, todos sabem isso e conduzem a sua vida desta maneira; só a ciência parece refinada demais para o admitir. Por outro lado, quando uma mulher solicita amor, rejeitá-la é um papel penoso para um homem desempenhar. Apesar da neurose e da resistência, existe um fascínio incomparável numa mulher de elevados princípios que confessa a sua paixão. Não são os desejos cruamente sensuais da paciente que constituem a maior tentação. Até é provável que estes repugnem e possam ser encarados como um fenómeno natural exigindo a tolerância do médico. Talvez sejam os mais subtis e misteriosos desejos que emanam de uma mulher que podem fazer com que um homem esqueça a sua técnica e missão médica no interesse de uma bela experiência.

 

E, no entanto, o analista não pode ceder. Por mais alto que preze o amor, tem de prezar ainda mais a oportunidade de ajudar a sua paciente a passar por um estádio decisivo da sua vida. Ela tem de aprender com ele a ir além do princípio do prazer, a abandonar uma satisfação imediata, mas que é socialmente inaceitável, a favor de uma outra mais distante, talvez inteiramente incerta, mas psicológica e socialmente irrepreensível. Para conseguir esta superação, ela deve ser conduzida através do período primevo de seu desenvolvimento mental e, nesse caminho, adquirir a parte adicional de liberdade mental que distingue a actividade mental consciente - no sentido sistemático - da inconsciente.

 

Assim, o psicoterapeuta analítico deve travar uma tripla batalha: na sua própria mente, contra as forças que procuram arrastá-lo para um nível abaixo da análise; fora desta, contra os opositores que contestam a importância da sexualidade e o impedem de fazer uso dela na técnica; e, dentro da análise, contra os pacientes que a princípio se comportam como opositores, mas depois sobrevalorizam a vida sexual que os domina tentando que o analista se torne cativo da sua paixão socialmente indomada.

 

O público leigo, sobre cuja atitude em relação à psicanálise falei no início, apossar-se-á sem dúvida deste debate sobre o amor transferêncial como mais uma oportunidade de dirigir a atenção do mundo para o sério perigo deste método terapêutico. O psicanalista sabe que trabalha com forças altamente explosivas e que precisa avançar com tanta cautela e escrúpulo quanto um químico. Mas em que momento é que os químicos foram proibidos de manejar as substâncias explosivas indispensáveis pelos seus efeitos? É digno de nota que a psicanálise tenha de conquistar para si própria todas as liberdades que foram há muito tempo concedidas a outras actividades médicas. Não sou favorável a abandonar os métodos inócuos de tratamento; em muitos casos, estes são suficientes. A sociedade humana tem de saber lidar com o furor sanandi como com qualquer outro fanatismo; mas acreditar que as neuroses podem ser vencidas pela administração de mezinhas inócuas é subestimar grosseiramente esses distúrbios, tanto quanto à sua origem, quanto à sua importância prática. Não; na clínica médica haverá sempre lugar para o ferrum e para o ignis, lado a lado com as medicinas; da mesma maneira, não seremos capazes de passar sem uma psicanálise devidamente orientada, que não tenha medo de manejar os mais perigosos impulsos mentais e de obter o domínio sobre estes em benefício do paciente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LISTA DOS TRABALHOS DE FREUD QUE TRATAM PRINCIPALMENTE DA TÉCNICA E TEORIA PSICANALÍTICA

 

A data ao início de cada título é a do ano durante o qual o trabalho foi provavelmente escrito. A data do final é a da publicação.

 

1888   Crítica de Der Hypnotismus, de Forel (1889a)

1888   Introdução à tradução de De la suggestion, de Bernheim (1888-9)

1890   ‘Tratamento Psíquico (ou Mental)’ (1890a)

1891   ‘Hipnose’ em Therapeutisches Lexikon, de Bum (1891d)

1892   Um Caso de Tratamento Bem Sucedido pelo Hipnotismo’ (1892-93b)

1895   Estudos sobre a Histeria, Parte IV (1895d)

1898   A Sexualidade na Etiologia das Neuroses’ (última parte) (1898a)

1899   A Interpretação dos Sonhos, Capítulo H (primeira parte) (1900a)

1901   Fragmento de uma Análise de um Caso de Histeria, Capítulo IV (1905e)

1903   O Procedimento Psicanalítico de Freud (1904a)

1904   Sobre a Psicoterapia (1905a)

1910   As Perspectivas Futuras da Terapia Psicanalítica (1910d)

1910   Psicanálise “Selvagem”’ (1910k)

1911   ‘O Manejo da Interpretação dos Sonhos na Psicanálise’ (1911e)

1912   A Dinâmica da Transferência (1912b)

1912   Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise (1912e)

1913   Sobre o Início do Tratamento (1913c)

1914   Fausse Reconnaissance (“déjà raconté”) no Tratamento Psicanalítico (1914a)

1914   Recordar, Repetir e Elaborar (1914g)

1914   Observações sobre o Amor transferêncial (1915a)

1917   Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Conferências XXVII e XXVIII (1916-17)

1918   Linhas de Avanço na Terapia Psicanalítica (1919a)

1920   Para Além do Princípio de Prazer, Capítulo III (1920g)

1923   Considerações sobre a Teoria e a Prática da Interpretação dos Sonhos (1923c)

1926   A Questão da Análise Leiga, Capítulo V (1926e)

1932   Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Conferência XXXIV (1933a)

1937   Análise Terminável e Interminável (1937c)

1937   Construções em Análise (1937d)

1938   Compêndio de Psicanálise, Capítulo VI (1940a).

 

 

 


 

 

 

 

CONSTRUÇÕES NA ANÁLISE [3]

1937

 

Sempre me pareceu algo grandemente a crédito de um bem conhecido e sábio homem de ciência o facto de ele ter tratado a psicanálise com justiça, numa época em que a maioria das pessoas não se sentia nesta obrigação. Porém, em determinada ocasião, expressou uma opinião sobre a técnica analítica que foi ao mesmo tempo depreciativa e injusta. Disse ele que, ao fornecermos interpretações a um paciente, tratamo-lo segundo o famoso princípio do Heads I win, tails you lose [caras ganho eu, coroas perdes tu]. Isto equivale a dizer que se o paciente concorda connosco, então a interpretação está certa, mas, se ele nos contradiz, apenas constitui um sinal da sua resistência, o que novamente demonstra que estamos certos. Deste modo, temos sempre razão contra o pobre e desamparado infeliz que analisamos, não importando modo como ele reage ao que lhe é apresentado. Dado que é realmente verdade que um “não” dos nossos pacientes não é suficiente para nos fazer abandonar uma interpretação como incorrecta, uma revelação como esta sobre a natureza da nossa técnica foi muito bem acolhida pelos opositores da análise. Por esta razão, vale a pena fornecer uma descrição pormenorizada do modo como estamos acostumados a avaliar o “sim” ou o “não” dos nossos pacientes durante o tratamento analítico, ou seja, a expressão do seu acordo ou da sua negação. No decorrer desta apologia, o analista praticante não irá aprender naturalmente nada que já não saiba.

 

O trabalho da análise convida o paciente a levantar o recalcamento (emprego aqui este termo no sentido mais amplo) que pesa sobre o seu desenvolvimento infantil e a substituí-lo por respostas que correspondam a uma condição psiquicamente mais madura. Tendo este objectivo em vista, o sujeito vai recordando certas experiências que esqueceu. Sabemos que os seus actuais sintomas e inibições são a consequência de um recalcamento deste tipo; eles constituem um substituto da coisa esquecida. Que espécie de material é que o paciente põe à nossa disposição para que o possamos colocar no caminho da recuperação das lembranças perdidas? Todo o tipo de material: fragmentos de recordações, sonhos, valiosíssimos em si, mas regra geral bastante deformados por todos os factores relacionados com a formação dos sonhos. Com a “associação livre”, aparecem ideias onde podemos descobrir alusões às representações recalcadas e afectos conexos, bem como reacções contra estes. Finalmente, há a repetição do material recalcado, que se pode traduzir em comportamentos dentro ou fora da situação analítica, por vezes bastante significativos, outras vezes triviais. A prática demonstrou ainda que a relação transferêncial com o analista favorece o retorno do recalcado. É toda esta matéria-prima - se assim podemos dizer - que se tem de reunir para chegar ao que se procura.

 

Andaríamos, deste modo, à procura de um quadro digno de confiança dos anos esquecidos do paciente, que seria, em todos os aspectos, completo. Sobre este ponto, devo recordar que o trabalho analítico se encontra dividido e é levado a cabo em dois lugares separados, que envolvem duas pessoas, a cada uma das quais é atribuída uma tarefa diferente. Por um momento, pode parecer estranho que um facto tão fundamental como este não tenha sido apontado há muito tempo, mas imediatamente se perceberá que, se nada foi sublinhado, era porque se tratava de algo bem conhecido e, por assim dizer, auto-evidente; é esta banalidade que coloco agora em relevo e examino para um propósito específico. Todos nós sabemos que a pessoa que está sendo analisada é levada a recordar algo que foi por ela experimentado e recalcado; ora, como os determinantes dinâmicos deste processo são muito interessantes, o que se passa do outro lado, isto é a função desempenhada pelo analista, foi deixada num segundo plano. Dado que o analista não experimentou nem recalcou nada do material considerado, a sua tarefa não pode ser recordar o passado. Em que consiste então? A encontrar a coisa esquecida a partir dos sinais disponíveis ou, mais correctamente, a construi-la. A oportunidade e o modo como se transmite esta construção a quem está sendo analisado, bem como as explicações que a acompanham, constituem o vínculo entre os dois participantes no trabalho da análise, o analista e o paciente. O trabalho de construção, ou, se preferirmos, de reconstrução, assemelha-se muito à escavação, por um arqueólogo, de uma morada destruída e soterrada, ou de algum edifício antigo. Os dois processos são semelhantes, exceptuando o facto que o analista trabalha em melhores condições e tem mais material à sua disposição para ajudá-lo, já que aquilo com que lida não está morto, mas vivo. Talvez haja também uma outra razão. Como o arqueólogo que ergue as paredes do prédio a partir dos alicerces que permaneceram de pé, determina o número e a posição das colunas pelas depressões no chão, e reconstrói as decorações e as pinturas murais a partir dos restos encontrados nos escombros, assim, também, procede o analista, quando extrai as suas inferências dos fragmentos de lembranças, das associações e do comportamento do sujeito em análise. Ambos possuem um direito indiscutível de reconstruir por meio da substituição e combinação dos restos que sobreviveram. Para mais, ambos estão sujeitos a muitas das mesmas dificuldades e fontes de erro. Um dos mais melindrosos problemas com que se defronta o arqueólogo é a determinação da idade dos seus achados, por exemplo, se um objecto aparece num certo nível do solo, resta decidir se ele pertence a esse nível ou se foi trazido para lá em consequência de alguma perturbação. É fácil imaginar as dúvidas correspondentes que surgem no caso das construções analíticas.

 

O analista, como dissemos, trabalha em condições mais favoráveis do que o arqueólogo, já que dispõe de um material que não corresponde ao das escavações, tal como repetições de reacções datando da infância e tudo o que traz a transferência em conexão com essas repetições. Além disso, há que manter em mente que o escavador lida com objectos destruídos, dos quais grandes e importantes partes certamente se perderam, devido à violência mecânica, ao fogo ou ao saque. Mas, depois da descoberta, não há esforço que possa garantir que o que foi perdido consiga ser achado e unido aos restos que permaneceram. O único recurso é o da reconstrução, que frequentemente só pode atingir um certo grau de probabilidade. Não é isso que se passa com o objecto psíquico do sujeito do qual o analista busca a história. Aqui, defrontamo-nos geralmente com uma situação que apenas ocorre em circunstâncias raras com um objecto arqueológico, como as ruínas de Pompeia ou o túmulo de Tutankhamon. Todos os elementos essenciais permanecem preservados; mesmo o que parece completamente perdido se encontra presente, de alguma maneira e nalgum lugar, apenas foi enterrado e tornado inacessível. É de duvidar que uma estrutura psíquica possa ser totalmente destruída. Depende exclusivamente do trabalho analítico ser capaz de trazer à luz o que está oculto. Existem apenas dois factos que pesam contra a extraordinária vantagem de que assim desfruta o trabalho da análise, a saber, que os objectos psíquicos são incomparavelmente mais complexos que os objectos materiais, e que possuímos um conhecimento insuficiente do que esperamos encontrar, uma vez que a estrutura íntima do objecto psíquico ainda é misteriosa. A nossa comparação entre as duas formas de trabalho não pode ir além deste ponto; mas a principal diferença entre elas reside no facto que, para o arqueólogo, a reconstrução é o objectivo final dos seus esforços, ao passo que, para o analista, a construção constitui apenas um trabalho preliminar.

 

 

II

 

A construção não é, porém, um trabalho preliminar no sentido que o todo deve estar acabado antes que o trabalho seguinte possa começar, como é o caso com a construção de casas, onde todas as paredes devem ser erguidas e todas as janelas inseridas antes que a decoração interna das divisões possa ser feita. O analista sabe que as coisas acontecem de modo diferente na análise, pois os dois trabalhos são aí executados lado a lado, um deles um pouco à frente e o outro logo a seguir. O analista completa a construção com um fragmento e comunica-a ao sujeito de forma a agir sobre ele; assim, constrói constantemente, ainda que lide sempre da mesma maneira com o material, prosseguindo de modo alternado até ao fim. Se nas descrições da técnica analítica se fala tão pouco de “construções”, isso deve-se ao facto que se prefere falar das “interpretações” e dos seus efeitos. Mas acho que “construção” é um termo mais adequado para descrever o que se passa no conjunto. A interpretação incide sobre um fragmento isolado, tal como um lapso ou um acto falho. Há construção quando se preenche uma lacuna e se leva o sujeito a posicionar-se na sua história, aproximadamente como no seguinte exemplo: “Até os onze anos de idade você considerava ser o único e ilimitado possuidor da sua mãe; quando nasceu um outro bebé, teve uma grande desilusão. A sua mãe deixou-o durante algum tempo e, após ter reaparecido, nunca mais se dedicou exclusivamente a si. Os seus sentimentos para com ela tornaram-se ambivalentes, e o seu pai adquiriu uma nova significação…”; e assim por diante.

 

Neste artigo, a atenção está voltada exclusivamente para o trabalho preliminar das construções. Surge, então, a questão de saber que garantia temos, enquanto trabalhamos nessas construções, de que não estamos cometendo erros e arriscando o sucesso do tratamento pela apresentação de alguma construção incorrecta. Pode parecer impossível que se consiga dar uma resposta a esta questão para todos os casos; mas antes deste debate, podemos confiar numa informação confortante que nos é fornecida pela experiência analítica, uma vez que esta ensina que nenhum dano é causado se, ocasionalmente, cometemos um erro ou comunicamos ao paciente uma construção falsa como sendo a verdade histórica provável. É natural que haja aqui um desperdício de tempo, e que aquele que não faz mais do que apresentar ao paciente construções falsas não crie uma boa impressão, nem leve o tratamento muito longe; mas um erro isolado não pode causar prejuízo. O que realmente ocorre neste caso é que o paciente não é tocado pelo que foi dito, não diz “sim”, nem “não”. Isto pode significar que sua resposta foi adiada; porém, se nada mais se desenvolve, podemos concluir que houve um equívoco, e admitimo-lo para o paciente num momento oportuno, sem sacrificar a nossa autoridade. Esta oportunidade surge quando vem à luz um novo material que nos permita fazer uma melhor construção e corrigir deste modo o nosso erro. Abandona-se então a falsa construção como se ela nunca tivesse sido feita, e, na verdade, ficamos até frequentemente com a impressão - peço aqui emprestado as palavras a Polónio – que a isca da falsidade fisgou a carpa de verdade (cf. Hamlet). O perigo de desencaminharmos um paciente pela sugestão, persuadindo-o a aceitar uma coisa em que nós próprios acreditamos, mas que ele não deveria aceitar, foi enormemente exagerado. Um analista teria de se comportar muito incorrectamente antes que este infortúnio pudesse dominá-lo; acima de tudo, teria de se culpar por não permitir que os seus pacientes tenham a oportunidade de falar. Posso garantir, sem me gabar, que um tal abuso jamais ocorreu na minha prática clínica.

 

Decorre do que foi dito que não estamos de modo algum inclinados a negligenciar as indicações que podem ser inferidas a partir da reacção do paciente quando lhe comunicamos uma das nossas construções. O assunto merece ser examinado mais em pormenor, pois é verdade que não aceitamos o “não” de uma pessoa em análise apenas pelo seu valor nominal; pelas mesmas razões, não permitimos que o seu “sim” seja aceite. Mas não se justifica que nos acusem de deformamos invariavelmente as suas observações, transformando-as numa confirmação. Na realidade, as coisas não são tão simples, não sendo mesmo fácil para nós próprios chegar a uma conclusão.

 

Um simples “sim” do paciente não deixa de ser ambíguo. Na verdade, pode significar que reconhece que a construção que lhe foi apresentada está correcta, mas pode também não ter sentido nenhum ou, mesmo, ser “hipócrita”, uma vez que a resistência pode assentir a uma verdade que não foi descoberta. O “sim” não possui um valor em si, a menos que seja seguido por confirmações indirectas; após o “sim”, o paciente pode trazer novas lembranças que completem e ampliem a construção. Neste caso, consideramos que o “sim” correspondeu ao problema em causa.

 

O “não” de uma pessoa em análise é tão ambíguo quanto o “sim”, na verdade, de menor valia ainda. Só em poucos casos mostra ser a expressão de uma dissensão legítima. Muito mais frequentemente expressa apenas uma resistência que pode ser evocada pelo tema geral da construção; pode também surgir de algum outro factor da complexa situação analítica. Portanto, o “não” de um paciente pode ser compatível com uma construção sem provar que esta seja verdadeira. Uma vez que toda a construção incompleta abrange apenas um pequeno fragmento dos eventos esquecidos, podemos supor que o paciente não está discutindo o que lhe foi dito, mas fundamentando a sua contradição na parte que ainda não foi revelada. Regra geral, ele não dará o seu assentimento até que tenha sabido toda a verdade, a qual se estende por um campo bastante mais vasto. Desta maneira, a única interpretação segura do seu “não” é a que aponta para a incompletude. Não então há dúvida que a construção não disse tudo.

 

As elocuções directas do paciente depois que lhe ter sido oferecida uma construção fornecem muito poucas provas para saber se estivemos certos ou errados. É do maior interesse que existam formas indirectas de confirmação, que são sob todos os aspectos mais fidedignas. Uma delas é uma expressão utilizada com muito pouca variação pelas mais diversas pessoas: “Nunca pensei” (ou “nunca teria pensado”) “isso” (ou “nisso”). Ela pode ser traduzida, sem qualquer hesitação, por: “Sim, é nisso que pensa” [o inconsciente traiu-o afirmando a coisa através da sua negação]. Infelizmente, esta fórmula chega com mais frequência aos ouvidos do analista depois de interpretações isoladas, do que depois de uma longa construção. Uma confirmação igualmente valiosa está implícita (desta vez positivamente) quando o paciente faz uma associação que contém algo semelhante ou análogo ao conteúdo da construção. Em vez de extrair um exemplo de uma análise (o que seria fácil de achar, mas longo a relatar), prefiro falar de uma pequena experiência extra-analítica que apresenta uma situação semelhante de um modo notável, com um efeito quase cómico. Essa experiência está relacionada como um dos meus colegas que há muito tempo atrás me recebeu como consultor na sua clínica médica. Certo dia, ele trouxe a sua jovem esposa para me ver, pois ela esta estava criando-lhe problemas: recusava-se, sob toda a espécie de pretextos, a ter relações sexuais com ele; o que esperava de mim era que eu lhe expusesse as consequências do seu comportamento imprudente. Fui directamente ao assunto explicando que a sua recusa provavelmente traria resultados desafortunados para a saúde do seu marido, ou o deixaria exposto a tentações que podiam conduzir ao rompimento do matrimónio. Ele interrompeu então subitamente a minha observação dizendo: “O inglês a quem diagnosticou um tumor no cérebro também faleceu.” A princípio, a observação pareceu incompreensível; o “também” da sua frase era um mistério, pois não faláramos de ninguém que tivesse morrido. Pouco tempo depois, compreendi. Evidentemente, o homem estava pretendendo confirmar o que eu dissera; estava querendo dizer “Sim, tem toda a razão. O seu diagnóstico também foi confirmado no caso do outro paciente.” Era um excelente paralelo às confirmações indirectas que, na análise, obtemos a partir das associações. Não tentarei negar que, da parte do meu colega, havia também outros pensamentos que tinham a sua importância na determinação da sua observação.

 

Confirmações indirectas oriundas de associações que se ajustam ao conteúdo de uma construção – como o “também” da minha história - proporcionam uma base valiosa para julgar se a construção tem probabilidade de ser confirmada no decorrer da análise. É particularmente notável quando, por meio de um acto falho, uma confirmação desse tipo se insinua através de uma negação directa. Publiquei outrora, noutro lugar, um belo exemplo disso. O nome “Jauner” (familiar em Viena) surgira repetidamente nos sonhos de um de meus pacientes sem que uma explicação suficiente aparecesse nas suas associações. Finalmente interpretei, afirmando que, quando ele dizia “Jauner”, queria provavelmente dizer “Gauner” [velhaco ou patife], ao que ele prontamente replicou: “Isso parece-me demais “jewagt” [em vez de “gewagt”, ousado ou exagerado]”. Uma outra vez, quando sugeri a um paciente que considerava certos honorários muito altos, ele pretendeu negar a sugestão com as palavras: “Dez dólares não são nada para mim”; mas, em vez de dólares, inseriu uma moeda de menor valor e disse: “dez xelins”.

 

Se uma análise é dominada por poderosos factores que impõem uma reacção terapêutica negativa, tais como o sentimento de culpa, a necessidade masoquista de sofrer ou a repugnância a receber auxílio do analista, o comportamento do paciente, depois que lhe foi oferecida uma construção, permite-nos frequentemente, e com maior facilidade, chegar a uma conclusão. Se a construção é errada, não há mudança, mas, se é correcta ou fornece uma aproximação da verdade, o paciente reage com um inequívoco agravamento de seus sintomas e do seu estado geral.

 

Podemos resumir o assunto afirmando que não se justifica a crítica que negligenciamos ou subestimamos a importância da atitude assumida pelos que estão em análise com as nossas construções. Prestamos-lhes atenção e, com frequência, retiramos informações valiosas. Mas essas reacções do paciente raramente deixam de ser ambíguas, não nos dando oportunidade para um julgamento definitivo. Só o curso ulterior da análise nos capacita a decidir se as nossas construções são correctas ou inúteis. Não pretendemos que uma construção individual seja algo mais do que uma conjectura que aguarda exame, confirmação ou rejeição. Não reivindicamos nenhuma autoridade para ela, nem exigimos a concordância directa do paciente; não discutimos com ele, caso a princípio a negue. Em suma, conduzimo-nos segundo o modelo da conhecida personagem de uma das farsas de Nestroy - o criado que tem nos lábios uma única resposta para qualquer questão ou objecção: “Tudo se tornará claro no decorrer dos futuros desenvolvimentos.”

 

III

 

Como isso ocorre no processo da análise - o modo como a nossa conjectura se transforma numa convicção do paciente - mal vale a pena ser descrito. Tudo isso é familiar à experiência quotidiana do analista e fácil de compreender. Um único ponto exige investigação e explicação. O caminho que parte da construção do analista devia terminar na recordação do paciente, mas nem sempre conduz tão longe. Com bastante frequência, não conseguimos que o paciente recorde o que foi recalcado. Todavia, uma análise bem conduzida convence da verdade da construção <Überzeugung der Wahrheit der Konstruktion>, o que, do ponto de vista terapêutico, tem o mesmo efeito que uma recordação recapturada. O problema de saber as circunstâncias em que isso ocorre, e como é possível que o que parece ser um substituto incompleto produza um resultado tão completo, constitui assunto para uma investigação posterior.

 

Concluirei este breve artigo com algumas considerações que abrem uma perspectiva mais ampla. Fiquei impressionado pelo modo como, em certas análises, a comunicação de uma construção apropriada fez emergir nos pacientes um fenómeno surpreendente e, a princípio, incompreensível. Tiveram vivas recordações - que descreveram como “ultra-claras” -, mas o que recordaram não foi o acontecimento que era objecto da construção, e sim pormenores relativos a este. Por exemplo, recordaram, com anormal nitidez, os rostos das pessoas presentes, ou as salas em que podia ter acontecido, ou os móveis das salas, que naturalmente a construção não tinha possibilidade de conhecer. Isto ocorreu em sonhos e estados de vigília semelhantes a fantasias depois da construção ter sido apresentada. Tais recordações não conduziram a mais nada, parecendo, pois, plausível considerá-las como uma conciliação [com o analista]. Uma vez activado pela apresentação da construção, o retorno do recalcado esforçou-se para encaminhar os traços mnésicos até à consciência; Mas a resistência conseguiu, não deter esse movimento, mas a deslocá-lo para elementos adjacentes e com uma menor significação.

 

Estas recordações podiam ser alucinações, se a sua clareza se tivesse acrescentado à crença nos elementos concretos. A importância desta analogia pareceu maior quando observei que verdadeiras alucinações ocorriam ocasionalmente noutros pacientes que não eram psicóticos. A minha linha de pensamento progrediu da seguinte forma: talvez seja uma característica geral das alucinações – fenómeno ao qual não se prestou ainda atenção suficiente – que o que a criança viu ou ouviu numa época em que ainda não sabia falar, que experimentou e depois esqueceu, volte através delas e force o caminho até à consciência, provavelmente deformado e deslocado pelas forças que se opõem a esse retorno. Esta estreita relação entre alucinações e as formas específicas da psicose fez com que a nossa linha de pensamento pudesse ser levada mais além. Pode ser que os próprios delírios em que estas alucinações estão constantemente incorporadas sejam menos independentes do impulso que vem do inconsciente ou do retorno do recalcado do que geralmente presumimos. Regra geral, no mecanismo de um delírio acentuamos dois factores: o afastamento do mundo real e das suas forças motivadoras, de um lado, e a influência exercida pela realização de desejo sobre o conteúdo do delírio, do outro. Mas não poderá antes acontecer que o processo dinâmico seja que o retorno do recalcado se sirva do afastamento da realidade para forçar o seu conteúdo a entrar na consciência, enquanto que as resistências despertadas por esse processo e a tendência à realização de desejo partilham a responsabilidade pela deformação e o deslocamento do que é recordado? Afinal de contas é este o mecanismo familiar dos sonhos, que, desde tempos imemoriais, a intuição igualou à loucura.

 

Esta visão dos delírios não é, penso eu, inteiramente nova; não obstante, ela dá ênfase a um ponto de vista que geralmente não é trazido para o primeiro plano. A sua essência é que não há apenas método na loucura como o poeta já percebera, mas também um fragmento de verdade histórica, sendo plausível supor que a crença compulsiva que se liga aos delírios retire a sua força de fontes infantis desse tipo. Tudo o que posso dizer hoje em apoio desta teoria é que se trata de reminiscências, não de novas inscrições. Provavelmente, valeria a pena fazer uma tentativa para estudar os casos deste distúrbio com base nas hipóteses aqui apresentadas, e também efectuar o seu tratamento segundo essas mesmas linhas. Abandonar-se-ia o esforço inglório de tentar convencer o paciente do erro do seu delírio e da sua contradição com a realidade; pelo contrário, o reconhecimento do núcleo de verdade do delírio permitiria um campo comum sobre o qual o trabalho terapêutico poderia desenvolver-se. Esse trabalho consistiria em libertar o fragmento da verdade histórica das suas deformações e ligações com o presente, e conduzi-lo de volta para o passado a que pertence. A transposição do material do passado esquecido para o presente, ou para uma expectativa futura, é habitual nos neuróticos, não menos do que nos psicóticos. Com bastante frequência, quando um neurótico é levado por um estado de ansiedade a esperar algum acontecimento terrível, está simplesmente sob a influência de uma lembrança recalcada (que procura ingressar na consciência, mas que não se pode tornar consciente) de algo terrificante que aconteceu naquela ocasião. Acredito que adquiriríamos um significativo e valioso conhecimento a partir de um trabalho deste tipo com psicóticos, mesmo que não conduza a nenhum sucesso terapêutico.

 

Estou ciente que é de pouca utilidade tratar um assunto tão importante da maneira apressada que aqui empreguei. Contudo, não pude resistir à sedução de uma analogia. Os delírios dos pacientes parecem ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um tratamento analítico: tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade que estas, nas condições da psicose, não podem fazer mais do que substituir o fragmento de realidade que foi rejeitado para o passado remoto. Será a tarefa de cada investigação individual revelar as conexões íntimas entre o material do recalcamento actual e o do recalcamento originário. Tal como a nossa construção só é eficaz se recuperar um fragmento da experiência esquecida, também o delírio deve o seu poder de convicção ao elemento de verdade histórica que insere no lugar da realidade rejeitada. Desta maneira, a proposição que originalmente defendi para a histeria aplicar-se-ia também aos delírios, ou seja, que aqueles que lhes estão sujeitos sofrem das suas próprias reminiscências. Bem entendido que nunca pretendi, através desta breve fórmula, discutir a complexidade da causa da doença ou excluir o funcionamento de muitos outros factores.

 

Se considerarmos a humanidade como um todo e substituirmos o indivíduo humano isolado por esta, descobriremos que ela também desenvolveu delírios que são inacessíveis à crítica lógica e que contradizem a realidade. Se, apesar disso, esses delírios são capazes de exercer um poder extraordinário sobre os homens, a investigação conduz à mesma explicação que no caso do indivíduo. Eles devem esse seu poder ao fragmento de verdade histórica que trouxeram à tona a partir do recalcamento primordial do real.

 

 


 

 

 

ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL[4]

1937

 

I

 

A experiência ensinou-nos que a terapia psicanalítica - a superação dos sintomas, inibições e outras perturbações de um sujeito de carácter neurótico - é um assunto que consome bastante tempo. Daí que tenha havido desde o início várias tentativas para encurtar a duração das análises. Estes esforços não precisavam de ser justificados, pois podia-se alegar que se apoiavam nas mais fortes considerações da razão e da conveniência. Provavelmente havia também neles um traço do desprezo impaciente com que a ciência médica de dias anteriores encarou as neuroses, considerando-as importunas e causadoras de danos invisíveis. Mas agora que se é obrigado a reconhecer a existência das neuroses, alguns tentam livrar-se delas do modo mais rápido possível.

 

Uma tentativa particularmente enérgica foi feita neste sentido por Otto Rank, após a publicação do seu livro O Traumatismo do Nascimento (1924). Ele supôs que a verdadeira origem da neurose era o nascimento, uma vez que este envolvia a possibilidade da “fixação originária” da criança à mãe não ser superada ou persistir como “recalcado primordial.” Rank tinha a esperança que, se tratássemos este trauma primevo através de uma análise subsequente, ficaríamos livres de todas as neuroses. Um tal fragmento de trabalho analítico pouparia o resto, pois alguns meses seriam suficientes para realizar a tarefa. Não discutirei se o argumento de Rank era audaz e engenhoso, direi apenas que não suportou o exame crítico. Como produto da sua época, concebido na tensão entre a miséria do pós-guerra na Europa e a “prosperity” dos Estados Unidos, foi projectado para adaptar o ritmo da terapia analítica à pressa da vida americana. Não se ouviu falar muito do que Rank fez pelos doentes. Provavelmente, não fez mais do que faria um Corpo de Bombeiros que, chamado a socorrer uma casa que se incendiou devido a uma lâmpada de óleo  caída no chão, se contentasse em retirar a lâmpada do quarto em que o fogo começou. Não há dúvida é que, por este meio, se conseguiria uma considerável diminuição das actividades dos bombeiros. A teoria e a prática do experimento de Rank são hoje coisas do passado, como a prosperidade americana.

 

Antes mesmo da guerra, também adoptei uma maneira de acelerar o tratamento analítico. Seguia nessa época o caso de um jovem russo, um homem estragado pela opulência, que chegara a Viena num estado de completo desamparo, acompanhado por um médico particular e um assistente. Em poucos anos foi possível devolver-lhe uma grande parte da sua independência, despertar o seu interesse pela vida e proceder a um ajustamento das suas relações com as pessoas que eram mais importantes para ele. Mas o progresso interrompeu-se aí. Não pudemos ir mais longe no esclarecimento da neurose da sua infância, na qual se baseava a posterior. O paciente considerava a sua situação de então altamente confortável e não desejava dar qualquer passo em frente que o levasse para mais perto do fim do tratamento. Era um caso de tratamento que se inibia a si próprio; corria, pois, o perigo de fracassar em consequência do seu - parcial - sucesso. Neste dilema, recorri à medida heróica de fixar um limite de tempo para a sua análise. No início do ano, informei o paciente de que esse era o último ano do seu tratamento, não importando o que ele conseguisse no tempo que ainda lhe restava. A princípio, não acreditou em mim, mas, assim que se convenceu que eu falava a sério, a mudança desejada verificou-se. As suas resistências definharam e, nesses últimos meses do seu tratamento, foi capaz de reproduzir as lembranças e descobrir as conexões necessárias para a compreensão da sua neurose infantil e o domínio da actual. Quando me deixou, em meados do verão de 1914, suspeitando tão pouco quanto nós do que se ira passar, acreditei que a sua cura fora radical e permanente.

 

Comuniquei já que me enganara numa nota de rodapé acrescentada em 1923 à história clínica desse paciente. Quando no fim da guerra ele voltou a Viena, refugiado e pobre, tive de ajudá-lo a dominar uma parte da transferência que não tinha sido resolvida. Esta tarefa foi realizada em alguns meses, e pude terminar a minha nota de rodapé com a declaração que, “desde então, o paciente tem-se sentido normal e comportado de um modo não excepcional, apesar da guerra o ter despojado do seu lar, das suas posses e de todos os seus relacionamentos familiares.” Quinze anos passaram-se sem que tenha sido refutada a verdade deste veredicto, mas certas reservas tornaram-se necessárias. O paciente permaneceu em Viena, onde manteve um lugar na sociedade, ainda que humilde. Durante esse período, o seu bom estado de saúde foi interrompido várias vezes por crises que foram interpretadas como ramificações da antiga neurose. Graças à perícia de uma de minhas alunas, a Dra. Ruth Mack Brunswick, algumas consultas foram pondo momentaneamente fim a esses episódios críticos. Tenho esperança que a Dra. Mack Brunswick publique em breve o que se passou. Algumas das crises do paciente ainda estavam relacionadas com resíduos da transferência; quando isso acontecia, por efémeras que fossem, apresentavam um carácter declaradamente paranóico. Outras vezes, contudo, o material patogénico consistia em fragmentos da história infantil que não tinham vindo à luz enquanto eu o estava analisando, e que agora se desprendiam - a comparação é inevitável - como suturas depois de uma operação, ou pequenos fragmentos de osso necrosado. Considerei que a história do restabelecimento deste paciente era menos interessante do que a da sua doença.

 

Utilizei ainda a fixação de um limite de tempo noutros casos, levando também em conta as experiências de outros colegas. Mas só pode haver um veredicto sobre o valor desta chantagem: ela é eficaz desde que se acerte no tempo correcto; só que nunca se pode garantir a realização completa da tarefa. Pelo contrário, podemos estar certos que, embora uma parte do material se torne acessível sob a pressão da ameaça, uma outra parte será retida e, assim, ficará sepultada, perdida para os nossos esforços terapêuticos. Uma vez que o analista fixou um limite de tempo, não pode mais ampliá-lo; o paciente perderia toda a fé nele. A saída mais óbvia para o paciente seria continuar o tratamento com um outro analista, mas sabemos que esta mudança envolveria uma perda de tempo e o abandono dos frutos do trabalho já realizado. Tão pouco se pode estabelecer qualquer regra geral quanto ao momento oportuno para recorrermos a este artifício técnico; a decisão deveria ser deixada ao tacto do analista. Mas um erro de cálculo não pode ser rectificado. O ditado de que o leão só salta uma vez deve ser aplicado aqui.

 

II

 

A discussão do problema técnico de saber como acelerar o lento progresso de uma análise conduz a uma outra questão, mais profundamente interessante: existe algo que possamos chamar “fim da análise”; e existe alguma possibilidade de levar uma análise a este término? A julgar pela conversa comum dos analistas, parece que assim, pois, quando deploram ou desculpam as imperfeições de um colega, ouvimos frequentemente dizer: “a sua análise não terminou”, ou “ele nunca foi analisado até ao fim.”

 

Primeiro, há que decidir o que significa a expressão ambígua “fim da análise.” De um ponto de vista prático é fácil responder. Uma análise termina quando o analista e o paciente deixam de se encontrar para a sessão analítica. Isso acontece quando duas condições foram aproximadamente preenchidas: em primeiro lugar, que o paciente não sofra mais dos seus sintomas, tenha superado a sua ansiedade e inibições; em segundo, que o analista julgue que a maior parte do material recalcado se tornou consciente, e que foi explicada tanta coisa ininteligível, que foram vencidas tantas resistências internas, que já não há necessidade de temer mais uma repetição do processo patológico. No caso em que certas dificuldades externas impeçam este processo de alcançar o seu objectivo é melhor falar de uma análise incompleta, em vez de uma análise inacabada.

 

O outro significado do termo “fim da análise” é muito mais ambicioso. O que procuramos neste sentido é saber se o analista exerceu uma influência tão poderosa sobre o paciente que não se pode mais esperar uma mudança, caso a análise viesse a ser prosseguida. É como se a análise permitisse chegar a um nível de absoluta normalidade psíquica, capaz de permanecer estável para sempre; como se ela tivesse conseguido levantar todos os recalcamentos, preencher todas as lacunas da memória do paciente. O que podemos fazer primeiro é consultar a nossa experiência para indagar se estas coisas acontecem de facto, e, depois, voltar à nossa teoria, para descobrir se há uma possibilidade delas acontecerem.

 

Todo o analista já terá tratado de alguns casos que apresentaram esse gratificante desfecho. Conseguiu-se esclarecer o distúrbio neurótico do paciente, que nunca mais voltou, nem foi substituído por nenhuma outra perturbação. Houve também lugar para a compreensão interna (insight) dos determinantes do sucesso terapêutico. Constatou-se para mais que o ego do paciente não foi muito alterado e que pôde ultrapassar o trauma que esteve na origem da sua neurose. O problema é que a etiologia do distúrbio neurótico é mista.

 

Por um lado, há a força das pulsões, o facto de estas serem ou não recalcitrantes à sua dominação pelo ego; por outro lado, existem os efeitos dos traumas precoces (prematuros) que o ego imaturo foi incapaz de dominar. Regra geral, há uma combinação de ambos os factores, o constitucional e o acidental. Quanto mais forte for o factor constitucional, mais prontamente um trauma conduzirá a uma fixação que perturba o desenvolvimento; quanto mais forte for o trauma, mais os seus efeitos prejudiciais se tornarão manifestos, mesmo quando a situação pulsional é normal. O tratamento psíquico tem mais sucesso quando a etiologia é do tipo traumático. É quando um caso é predominantemente traumático que o tratamento realiza plenamente o que é capaz de fazer; graças ao fortalecimento do ego do paciente, ele consegue substituir, por uma solução correcta, a decisão inadequada que foi tomada precocemente na vida. Só neste caso podemos falar de tratamento terminado. Este elucidou tudo o que devia e não necessita prosseguir. Mas se o paciente que foi tratado desta maneira não adoece mais, ficamos no entanto sem saber se a sua imunidade é ou não devida a um destino bondoso que lhe poupou provações demasiadamente severas.

 

A força constitucional de uma pulsão e a alteração desfavorável do ego adquirida na luta defensiva contra ela, através do deslocamento e da condensação, são os factores que mais pesam na eficácia ou não do tratamento, e logo que  podem contribuir para que se torne interminável. Fica-se tentado a fazer do primeiro factor – a força da pulsão – o responsável pelo surgimento do segundo - a alteração do ego -, mas este último possui também a sua própria etiologia. Na verdade, temos de admitir que o nosso conhecimento destes assuntos ainda é insuficiente. Só agora é que se estão tornando matéria de estudo analítico. Neste campo, parece-me que o interesse dos analistas ainda está mal orientado. Em vez de indagar como se processa a cura pela análise (assunto que acho ter sido suficientemente elucidado), devia-se perguntar quais são os obstáculos que aparecem no caminho desta cura. Isso conduz-me a dois problemas que surgem directamente da clínica, como espero demonstrar pelos exemplos que se seguem. Certo homem que praticou a análise com grande sucesso chegou à conclusão de que as suas relações com os homens e as mulheres - com os homens que eram os seus rivais e com as mulheres que amava - não estavam livres de impedimentos neuróticos; por esta razão, resolveu submeter-se a uma análise com alguém que considerava superior a si. Esta iluminação crítica do seu próprio Eu teve um bom resultado. Casou-se com a mulher que amava e tornou-se amigo e mestre dos seus supostos rivais. Muitos anos se passaram dessa maneira, durante os quais as suas relações com o antigo analista permaneceram também desanuviadas. Mas um dia, sem qualquer razão externa atribuível, surgiram os problemas. O homem incompatibilizou-se com o seu analista e censurou-o por ter falhado ou não ter conduzido a sua análise até ao fim. O analista, dizia ele, devia ter sabido e levado em consideração o facto de uma relação transferêncial nunca poder ser puramente positiva; deveria ter prestado atenção à possibilidade de uma transferência negativa. O analista defendeu-se dizendo que, na época da análise, não havia sinal de transferência negativa. Mas, mesmo que tivesse falhado na observação de certos sinais muito débeis dela - o que não estava inteiramente excluído, considerando o horizonte limitado da análise naqueles primeiros dias -, ainda era duvidoso, achava o analista, se teria tido o poder de activar um assunto (ou, como dizemos, um “complexo”), simplesmente por este não estar activo no paciente naquela ocasião. Activá-lo teria certamente exigido um comportamento pouco amigável da parte do analista. Para mais, acrescentou, nem toda a boa relação entre um analista e o seu paciente, durante e após a análise, deve ser encarada como transferêncial; há também relações amistosas que se baseiam na realidade e que provam ser viáveis.

 

Passo agora ao meu segundo exemplo, que levanta o mesmo problema. Uma mulher solteira, já não muito jovem, foi cerceada da vida desde a puberdade por uma incapacidade de caminhar, devido a severas dores que sentia nas pernas. O seu estado era de natureza histérica e desafiou muitos tipos de tratamento. Uma análise que durou três quartos do ano removeu o problema e devolveu à paciente, pessoa excelente e capaz, o seu direito a participar na vida. Mas nos anos que seguiram o restabelecimento, ela foi sistematicamente desafortunada. A sua família foi atingida por várias desgraças, perdas financeiras e, à medida que ficava mais velha, ela via desvanecer-se toda a esperança de felicidade no amor e no casamento. Mas a ex-inválida resistiu a tudo valentemente e constituiu um apoio para a família, em tempos bastante difíceis. Não consigo recordar se foi doze ou catorze anos após o fim da sua análise que, devido a hemorragias profusas, foi obrigada a submeter-se a um exame ginecológico. Encontrou-se um mioma que tornou aconselhável uma histerectomia completa. A partir desta operação, a mulher adoeceu uma vez mais. Enamorou-se do seu cirurgião e afundou-se em fantasias masoquistas sobre as temíveis alterações que produziria dentro de si - fantasias com que ocultava o seu romance -, mostrando-se simultaneamente inacessível a uma nova tentativa de análise. Ficou mal até o fim da vida. O tratamento analítico bem-sucedido tinha sido realizado há tanto tempo que já não se podia esperar muito mais dos seus efeitos. Foi um tratamento efectuado nos primeiros anos do meu trabalho como analista. Indubitavelmente, a segunda moléstia da paciente pode ter tido origem na mesma fonte da primeira, que fora superada com êxito; pode também ter sido uma manifestação diferente dos mesmos impulsos recalcados que tenha encontrado uma solução incompleta. Mas estou inclinado a pensar que, se não fosse o novo trauma, não teria havido uma nova irrupção da neurose.

 

Estes dois exemplos, intencionalmente seleccionados entre um grande número de outros semelhantes, bastarão para iniciar um exame dos tópicos que estamos considerando. Os cépticos, os optimistas e os ambiciosos assumirão, quanto a eles, pontos de vista inteiramente diferentes. Os primeiros dirão que está agora provado que mesmo um tratamento analítico bem-sucedido não protege o paciente de sofrer mais tarde de outra neurose, ou de uma neurose derivada da mesma raiz, o que equivale a dizer, de uma recorrência do seu antigo problema. Os outros considerarão que isso não está provado. Objectarão que os dois exemplos datam dos primeiros dias da análise, vinte e trinta anos atrás, respectivamente, e que, desde então, adquirimos uma compreensão interna mais profunda e um conhecimento mais amplo, e que a nossa técnica se modificou de acordo com as nossas novas descobertas. Hoje, dirão eles, podemos exigir e esperar que uma cura analítica se mostre permanente, ou, pelo menos, caso um paciente adoeça de novo, que a sua nova doença não mostre ser uma revivificação do seu primeiro distúrbio a manifestar-se sob novas formas. A nossa experiência, sustentarão, não nos obriga a restringir tão concretamente as exigências que podem ser feitas ao método terapêutico.

 

A minha razão para escolher esses dois exemplos foi precisamente o facto de residirem tão longe no passado. É óbvio que quanto mais recente for o desfecho bem-sucedido de uma análise, menos utilizável será para a nossa discussão, visto que não dispomos de meios para predizer qual será a história posterior do restabelecimento. As expectativas dos optimistas pressupõem claramente uma série de coisas que não são precisamente auto-evidentes. Presumem, de início, que há realmente uma possibilidade de se livrar de um conflito pulsional (ou, de modo mais correcto, de um conflito entre o ego e uma pulsão) definitivamente e para todo o sempre; em segundo, que, enquanto estamos tratando alguém por causa de um determinado conflito pulsional, podemos, por assim dizer, vaciná-lo contra a possibilidade de qualquer outro conflito deste tipo; e, em terceiro lugar, que temos o poder, para fins de profilaxia, de despertar um conflito patogénico dessa espécie que não se está revelando através de nenhuma indicação, e que é aconselhável fazê-lo. Coloco estas questões sem me propor responder-lhes agora. Talvez nem seja possível dar-lhes qualquer resposta certa.

 

Poder-se-á lançar alguma luz sobre o assunto mediante considerações teóricas. Um ponto pelo menos já se tornou claro: se quisermos atender às exigências mais rigorosas da terapia analítica, a nossa estrada não nos conduzirá a um encurtamento da sua duração, nem passará por ele.

 

III

 

Uma experiência analítica que se estende agora por diversas décadas, assim como a modificação efectuada na natureza e no modo da minha actuação, incentivam-me a tentar responder às questões que se apresentam. Em dias passados, ocupei-me de um número bastante grande de pacientes que, como era natural, desejavam ser tratados tão rapidamente quanto possível. Nos últimos anos, dediquei-me principalmente a análises didácticas, e só um número relativamente pequeno de casos graves permaneceram comigo em tratamento contínuo, interrompido por vezes por breves intervalos. Ora, com as análises didácticas, o objectivo terapêutico já não é o mesmo, pois não se trata mais de abreviar o tratamento, mas de exaurir as possibilidades de doença nos sujeitos e ocasionar uma alteração profunda da sua personalidade.

 

Dos três factores que reconhecemos como decisivos para o tratamento analítico - a influência dos traumas, a força constitucional das pulsões e as alterações do ego -, apenas nos interessa por enquanto o segundo, a força das pulsões. Um instante de reflexão levanta uma dúvida quanto a saber se o uso restritivo do adjectivo “constitucional” (ou “congénito”) é pertinente. Por mais que o factor constitucional seja importante à partida, não impede que possa haver uma transformação ou um reforço que interfira no decorrer da vida e tenha efeitos próprios. Devemos, assim, modificar a nossa fórmula e dizer “a força das pulsões no momento actual”, em vez da “força constitucional das pulsões”. A primeira das nossas perguntas era “se é possível que a terapia analítica livre de um modo permanente e definitivo o sujeito do conflito entre a pulsão e o ego?”. Para evitar toda a má compreensão é necessário que explique melhor o que entendo por livrar-se permanentemente de uma exigência pulsional. Não é fazer com que esta exigência desapareça, para que não se ouça mais falar dela. Em geral, isso é impossível e indesejável. O que quero dizer é outra coisa, que podia ser grosseiramente descrito como “domar” a pulsão. Significa isto que a pulsão seria colocada em completamente harmonia com o ego, ou que se tornaria acessível a todas as influências deste último, de forma a não buscar mais a sua satisfação de um modo independentemente? Se perguntarem por que métodos e meios este resultado se poderia obter não seria fácil dar uma resposta. Façamos aqui um apelo à Feiticeira metapsicológica: “So muss denn doch die Hexe dran!” <”Bem precisamos que a Feiticeira nos ajude”: Goethe, Fausto, verso 2365>. Sem a especulação ou teorização metapsicológica - quase disse o “fantasiar” -, não daremos nenhum passo em frente. Infelizmente, aqui como alhures, o que a Feiticeira revela não é muito claro nem minucioso. Temos apenas uma pista para começar - embora seja uma pista do mais alto valor - a antítese entre o processo primário e o secundário; é para esta antítese que me voltarei agora.

 

Se retomarmos a nossa primeira questão, descobriremos que a nova linha de abordagem conduz inevitavelmente a uma conclusão. A questão era de saber se é possível livrar-se de um modo permanente e definitivo de um conflito pulsional, isto é, “domar” a pulsão. Formulada nestes termos, a questão não faz menção alguma à força da pulsão, mas é precisamente desta que o resultado depende. Partamos da presunção que aquilo que a análise realiza para os neuróticos não é mais do que aquilo que as pessoas normais conseguem para si próprias sem o auxílio dela. Contudo, a experiência quotidiana ensina-nos que, numa pessoa normal, qualquer solução de um conflito pulsional só é válida para uma pulsão parcial, ou para uma relação específica entre a força da pulsão e a força do ego. Se a força deste diminui, quer pela doença, quer pela exaustão, ou por alguma causa semelhante, as pulsões que até então haviam sido controladas com êxito, podem renovar as suas exigências e esforçar-se para obter satisfações substitutivas através de maneiras anormais. Uma prova irrefutável desta afirmação é fornecida pelos nossos sonhos nocturnos; sabemos que eles reagem à atitude do sono assumida pelo ego com um despertar das exigências pulsionais.

 

Por duas vezes no curso do desenvolvimento individual, certas pulsões são consideravelmente reforçadas: na puberdade e, nas mulheres, na menopausa. De modo algum ficamos surpreendidos se uma pessoa, que antes não era neurótica, se torne nessas ocasiões. Quando as exigências das pulsões eram fracas, o ego conseguia domá-las, mas quando se tornam mais fortes, ele já não o pode mais fazer. Os recalcamentos comportam-se como represas contra a pressão da água. Os mesmos efeitos produzidos por estes dois reforços fisiológicos da pulsão podem ser ocasionados, de maneira irregular, por causas acidentais em qualquer outro período da vida. Estas modificações podem derivar de novos traumas, frustrações forçadas, ou da influência colateral e mútua das pulsões. O resultado é sempre o mesmo, e salienta o poder irresistível do factor quantitativo na causação da doença.

 

Podem-me dizer que devia estar envergonhado por não avançar nesta extensa exposição nada que não seja bem conhecido e evidente. Comportamo-nos sempre como se já soubéssemos tudo, mas a verdade é que a maioria dos nossos conceitos negligenciaram dar até agora ao ponto de vista económico a mesma importância que deram à perspectiva dinâmica e topográfica. A minha desculpa é de estar agora a chamar a atenção para esta negligência.

 

Antes de decidir responder à questão, tenho de considerar uma objecção cuja força reside no facto de estar provavelmente predisposto a seu favor. Dir-se-á que os nossos argumentos são todos deduzidos de processos aparentemente naturais entre o ego e as pulsões, e pressupõem que a terapia analítica nada pode realizar senão sob condições favoráveis e normais. Mas será realmente assim? Não é precisamente uma reivindicação da nossa teoria que a análise produz um estado que nunca surge espontaneamente no ego, e que esse estado recentemente criado constitui a diferença essencial entre uma pessoa que foi analisada e outra que não o foi? Mantenhamos em mente esta base da nossa reivindicação. Os recalcamentos que se efectuam desde a primeira infância são mecanismos de defesa que o ego imaturo e débil utiliza. Posteriormente, ele não leva a cabo novos recalcamentos, mas os antigos persistem, e os serviços deles continuam a ser utilizados pelo ego para o domínio das pulsões.

 

Livramo-nos dos novos conflitos através do que chamo “recalcamento secundário.” Podemos aplicar ao recalcamento infantil a afirmação que os recalcamentos dependem do poder relativo das forças envolvidas, e que não se podem manter contra um aumento da força das pulsões. A análise capacita o ego que atingiu uma maior maturidade a empreender uma revisão dos antigos mecanismos de defesa; alguns são deste modo demolidos, ao passo que outros são apenas identificados, ou reconstruídos com um material mais sólido. O grau de firmeza destas novas represas é bastante diferente do das anteriores; podemos confiar que não cederão tão facilmente ante uma subida da maré da força pulsional. A façanha da terapia analítica seria a subsequente correcção deste processo do recalcamento, correcção que poria fim à dominância do factor quantitativo.

 

A nossa teoria pôde chegar até aqui; não a vamos abandonar, excepto sob uma compulsão irresistível. O que tem a nossa experiência a dizer sobre isso? Talvez ainda não seja suficientemente ampla para chegarmos a uma firme conclusão. Ela confirma as nossas expectativas com bastante frequência, mas não sempre. Tem-se a impressão de que não se deve ficar surpreso se, no final, mostrar que a diferença entre uma pessoa que não foi analisada e o comportamento de uma pessoa após tê-lo sido não é tão radical como dizemos, esperamos e argumentamos. Se assim for, isso significará que a análise às vezes tem êxito na eliminação da influência de uma pulsão, mas não invariavelmente, ou que o efeito da análise se limita a aumentar o poder da resistência das inibições, de maneira que se mostrem à altura de exigências muito maiores do que antes da análise, ou se nenhuma análise se tivesse efectuado. Realmente não posso comprometer-me com uma decisão sobre este ponto, nem tampouco sei se actualmente é possível uma decisão.

 

Existe, contudo, um outro ângulo a partir do qual podemos abordar o problema da variabilidade do efeito de uma análise. Sabemos que o primeiro passo para chegar ao domínio intelectual do nosso meio ambiente é descobrir generalizações, regras e leis que tragam alguma ordem ao caos. Fazendo isso, simplificamos o mundo dos fenómenos, mas não podemos evitar falsificá-lo, especialmente se estivermos lidando com processos de desenvolvimento e mudança. Estivemos interessados em discernir uma alteração qualitativa e, assim procedendo, negligenciámos, inicialmente pelo menos, o factor quantitativo. No mundo real, as transições e os estágios intermediários são muito mais comuns do que estados opostos nitidamente diferenciados. Ao estudar o desenvolvimento e as mudanças, dirigimos a nossa atenção unicamente para o resultado; desprezamos prontamente o facto de que tais processos são geralmente mais ou menos incompletos, o que equivale a dizer que são apenas alterações parciais. Um arguto satirista da antiga Áustria, Johann Nestroy disse uma vez: “todo passo dado para a frente apenas tem metade do tamanho que parece no início.” É tentador atribuir uma validade geral a esse ditado malicioso. Há quase sempre manifestações residuais, uma pendência parcial, por exemplo, quando um mecenas generoso nos surpreende com algum traço isolado de avareza, ou quando uma pessoa que é sistematicamente muito bondosa se permite subitamente uma acção hostil. Estas “manifestações residuais” são valiosas para a pesquisa genética. Elas mostram que as louváveis e preciosas qualidades baseiam-se na compensação e na sobrecompensação, que, como era de esperar, não foram completamente bem-sucedidas. A nossa primeira descrição do desenvolvimento da libido foi que uma fase oral original cedia o lugar a uma fase anal-sádica, e que esta, por sua vez, era seguida de uma fase fálico-genital. A pesquisa posterior não contradisse esta opinião, mas corrigiu-a, acrescentando que essas substituições não se realizam de modo repentino, mas gradativamente, de maneira que partes da organização anterior persistem lado a lado da mais recente, e que mesmo no desenvolvimento normal a transformação nunca é completa e os restos das fixações libidinais anteriores ainda podem ser mantidos na configuração final. O mesmo pode ser visto em muitos outros campos. De todas as erróneas e supersticiosas crenças da humanidade que foram supostamente superadas, não existe uma só cujos resíduos não perdurem hoje entre nós, nos estratos inferiores dos povos civilizados, ou mesmo nos mais elevados estratos da cultura. O que um dia veio à vida aferra-se diabolicamente à existência. Por vezes, fica-se inclinado a duvidar se os dragões dos dias primevos estão realmente extintos.

 

Aplicando estas observações ao nosso problema, penso que a resposta à questão de como explicar os resultados variáveis da nossa terapia analítica, bem podia ser a de que nós também nos esforçamos por substituir os inseguros recalcamentos pelo controlo de um ego que seja digno de confiança, sem sempre alcançarmos o nosso objectivo de um modo completo. A transformação é conseguida, mas com frequência apenas parcialmente: partes dos antigos mecanismos permanecem intocadas pelo trabalho da análise. É difícil provar que é realmente assim, mas não temos outra maneira de ajuizar o que acontece, excepto pelo resultado que estou tentando explicar. Não obstante, as impressões que se recebem durante o trabalho de análise não contradizem esta pressuposição; na verdade, parecem confirmá-la. Mas não devemos tomar a clareza de nossa própria compreensão interna como a medida da convicção que produzimos no paciente. Seria possível dizer que à convicção dele pode faltar “profundidade”? Trata-se sempre da questão do tão facilmente desprezado factor quantitativo. Se for esta a resposta correcta à nossa questão, podemos dizer que a análise, ao reivindicar a cura das neuroses pelo controlo da pulsão, está sempre correcta na teoria, mas nem sempre na prática, e isso porque nem sempre consegue garantir, em grau suficiente, as fundações sobre as quais um controlo da pulsão se baseia. É fácil descobrir a causa deste fracasso parcial. No passado, o factor quantitativo da força pulsional opôs-se aos esforços defensivos do ego; por essa razão, pedimos auxílio à análise. Agora, o mesmo factor estabelece um limite à eficácia deste novo esforço. Se a força da pulsão é excessiva, o ego maduro, apoiado pela análise, fracassa na sua missão, tal como o ego desamparado anteriormente fracassara. O seu controlo sobre a pulsão é melhorado, mas permanece imperfeito, porque a transformação do mecanismo defensivo apenas é incompleta. Nada há de surpreendente nisso, visto que o poder dos instrumentos com que a análise opera não é ilimitado, mas restrito, e o resultado final depende sempre da força relativa dos agentes psíquicos que lutam entre si.

 

Sem dúvida que é desejável abreviar a duração do tratamento analítico, mas só podemos conseguir este objectivo terapêutico se aumentarmos o poder da análise de assistir ao ego. A influência hipnótica pareceu ser um instrumento excelente para esse fim, mas as razões pelas quais tivemos de abandoná-la são bem conhecidas. Ainda não foi encontrado um substituto para a hipnose. Desse ponto de vista, podemos compreender como um mestre da análise tal como Ferenczi veio a dedicar os últimos anos de sua vida a experimentos terapêuticos, os quais, infelizmente, se mostraram vãos.

 

IV

 

As duas outras questões - se enquanto estamos tratando determinado conflito pulsional podemos proteger o paciente dos futuros conflitos, e se é viável e conveniente, para fins profiláticos, despertar um conflito que não se manifesta? -, devem ser tratadas em conjunto, pois a primeira tarefa só pode ser levada a cabo na medida em que a segunda o é, ou seja, na medida em que um possível conflito futuro se transforma num conflito concreto e actual, ao qual a nossa influência é aplicada. Essa nova maneira de enunciar o problema é apenas uma ampliação da anterior. Ao passo que, no primeiro caso, considerámos como nos resguardávamos contra um retorno do mesmo conflito, agora consideramos como nos resguardamos contra a sua possível substituição por um outro conflito. Isto soa a uma proposição muito ambiciosa, mas tudo o que estamos tentando fazer é tornar claros os limites da eficácia da terapia analítica.

 

Por muito que a nossa ambição terapêutica seja tentada a empreender tais tarefas, a experiência rejeita categoricamente a noção. Se um conflito pulsional não está presentemente activo, se não está se manifestando, não podemos provocá-lo, mesmo pela análise. A advertência para deixarmos repousar os cães que dormem, que com tanta frequência ouvimos em relação aos nossos esforços por explorar o submundo psíquico, é peculiarmente despropositada quando aplicada às condições da vida mental, pois, se as pulsões estão provocando distúrbios, isso prova que os cães não estão dormindo, e, se eles realmente parecem estar adormecidos, não nos cabe despertá-los. Essa última afirmação, contudo, não parece ser inteiramente exacta e exige um debate mais pormenorizado. Consideremos os meios que temos à nossa disposição para transformar um conflito pulsional latente num manifesto. Só podemos fazer duas coisas: ocasionar situações em que o conflito se torna presentemente activo, ou contentar-nos em discuti-lo na análise e apontar para a possibilidade de o despertar. A primeira destas alternativas pode ser levada a cabo de duas maneiras: na realidade ou na transferência, em qualquer dos casos expondo o paciente a uma certa quantidade de sofrimento real, mediante a frustração e o recalcamento da libido. Ora, é verdade que já fazemos uso de uma técnica deste tipo no nosso procedimento analítico comum, a que afirma que a análise deve ser levada a cabo “num estado de abstinência”’? Mas esta é uma técnica que se utiliza para tratar um conflito já activo. Procuramos levar esse conflito a um ponto culminante, desenvolvê-lo até ao seu tom mais grave, a fim de aumentar a força pulsional disponível para o solucionar. A experiência analítica ensinou-nos que o melhor é sempre inimigo do bom e que, em todas as fases do restabelecimento do paciente, temos de lutar contra a sua inércia, que está pronta a se contentar com uma solução incompleta.

 

Se aquilo que visamos é o tratamento profilático dos conflitos pulsionais que não estão presentemente activos, mas são meramente potenciais, não é suficiente tentar regular sofrimentos que já estão presentes e que o paciente não pode evitar. Teríamos de decidir provocar-lhe novos sofrimentos, e isso, até hoje, deixámo-lo muito correctamente ao destino. Receberíamos admonições de todos os lados contra a presunção de emular o destino, se sujeitássemos as pobres criaturas humanas a experimentos tão cruéis. E que tipo de experimentos seriam estes? Poderíamos por exemplo, para fins de profilaxia, assumir a responsabilidade de destruir um casamento satisfatório, ou de fazer com que um paciente abandone um cargo do qual depende a sua subsistência? Afortunadamente, nunca nos encontrámos na posição de ter de considerar se estas intervenções na vida real do paciente são justificadas; não possuímos os plenos poderes que elas teriam tornado necessários, e o objecto da nossa experiência terapêutica certamente se recusaria a cooperar com isso. Na prática, tal procedimento está virtualmente excluído, mas existem objecções teóricas, pois o trabalho da análise progride melhor se as experiências patogénicas do paciente pertencerem ao passado, de modo que o seu ego possa situar-se a uma certa distância delas. Em estados de crise aguda, a análise é, para todos os fins e intuitos, inutilizável. Todo o interesse do ego é absorvido pela realidade penosa, e ele retrai-se da análise que está tentando ir além da superfície e revelar as influências do passado. Assim, criar um novo conflito só tornaria o trabalho de análise mais prolongado e mais difícil.

 

Objectar-se-á que estas observações são inteiramente desnecessárias. Ninguém pensa propositadamente conjurar novas situações de sofrimento, a fim de tornar possível que um conflito pulsional latente seja tratado. Como façanha profilática não haveria muito que se gabar. Sabemos, por exemplo, que um paciente que se restabeleceu de escarlatina está imune a um retorno da mesma doença, mas jamais ocorre a um médico pegar a escarlatina a uma pessoa sadia que tem possibilidades de adoecer e infectá-la com esta, a fim de a tornar imune à mesma. A medida protectora não deve produzir a mesma situação de perigo que é produzida pela própria doença, apenas algo muito mais leve, como é o caso da vacina contra a varíola e de muitos outros procedimentos semelhantes. Na profilaxia analítica contra conflitos pulsionais, os únicos métodos que entram em consideração são os dois que mencionamos: a produção artificial dos novos conflitos na transferência (conflitos a que, afinal de contas, falta o carácter de realidade) e o despertar de tais conflitos na imaginação do paciente, falando-lhe sobre eles e familiarizando-o com a sua possibilidade.

 

Não sei se podemos assegurar que o primeiro desses dois procedimentos mais brandos está inteiramente excluído na análise. Nenhuma experiência foi feita especificamente nessa direcção. Mas vêm-se logo as dificuldades, que não lançam uma luz muito promissora sobre este empreendimento. Em primeiro lugar, a escolha de tais situações para a transferência é muito limitada. Os pacientes não podem, eles próprios, trazer todos os seus conflitos para a transferência, nem tampouco está o analista capacitado a invocar todos os possíveis conflitos pulsionais a partir da situação transferêncial. Este pode torná-los ciumentos ou fazê-los experimentar desapontamentos no amor, mas não se exige nenhum intuito técnico para ocasionar isso. Seja como for, tais coisas acontecem por si mesmas na maioria das análises. Em segundo lugar, não devemos desprezar o facto de que todas as medidas desse tipo obrigariam o analista a comportar-se de maneira pouco amigável com o paciente, e isso teria um efeito prejudicial sobre a atitude afectuosa - a transferência positiva - que é o motivo mais forte para o paciente participar no trabalho conjunto da análise. Assim, de modo algum devemos esperar muito desse procedimento.

 

Isto deixa-nos apenas um método: o único que, com toda a probabilidade, foi originalmente considerado. Falamos ao paciente sobre as possibilidades de outros conflitos pulsionais e despertamos a sua expectativa de que tais conflitos possam ocorrer. O que esperamos é que essa informação e essa advertência tenham o efeito de activar nele um dos conflitos que indicámos, num grau modesto, mas suficiente para o tratamento. Dessa vez, porém, a experiência não fala com voz incerta. O resultado esperado não ocorre. O paciente recebe a nossa mensagem, mas não há reacção. Pode pensar consigo: “É muito interessante, mas não sinto nada disso.”’Aumentamos o seu conhecimento, mas nada alteramos nele. A situação é muito semelhante à que acontece quando as pessoas lêem trabalhos psicanalíticos. O leitor é estimulado apenas por aquelas passagens que sente que se aplicam a si próprio, isto é, dizem respeitam a conflitos que estão activos nele na ocasião. O resto deixa-o frio. Podemos ter experiências análogas, creio, quando damos uma educação sexual às crianças. Estou longe de sustentar que esta é prejudicial ou desnecessária, mas é claro que o efeito profilático de tal medida liberal tem sido grandemente sobrestimado. Após este tipo de esclarecimentos, as crianças ficam a conhecer algo que não sabiam antes, mas não fazem uso do novo saber com que foram presenteadas. Viemos a perceber que nem sequer têm grande pressa de sacrificar, ao novo conhecimento, as teorias sexuais que despontaram como o crescimento natural, e que construíram em harmonia e na dependência da sua organização libidinal imperfeita: teorias sobre o papel da cegonha, sobre a natureza do coito ou sobre o modo como nascem os bebés. Muito tempo depois de lhes terem dados estes esclarecimentos sexuais, elas comportam-se como os povos primitivos a quem se pregou o cristianismo, mas que continuam a adorar em segredo seus antigos ídolos.

V

 

Partimos da questão de saber como podemos abreviar a duração inconvenientemente longa do tratamento analítico e, ainda com essa questão em mente, passámos a considerar se é possível conseguir uma cura permanente ou impedir uma doença futura através do tratamento profilático. Assim procedendo, descobrimos que os factores decisivos para o sucesso dos nossos esforços terapêuticos são a influência da etiologia traumática, a força relativa das pulsões, que têm de ser controlados, e o que denominámos a “alteração do ego”. Apenas o segundo desses factores foi pormenorizadamente examinado por nós, e, em conexão com ele, tivemos ocasião de reconhecer a importância suprema do factor quantitativo e acentuar a reivindicação da abordagem metapsicológica para qualquer tentativa de explicação.

 

Sobre o terceiro factor, a alteração do ego, ainda não dissemos nada. Quando voltamos a nossa atenção para ele, a primeira impressão que temos é a de que há muito a perguntar e muito a responder aqui; o que temos para dizer mostrará ser bastante inadequado. Esta primeira impressão é confirmada quando se entra no problema. Como se pensa normalmente, a situação analítica é uma aliança com a pessoa que está em tratamento, a fim de submeter partes não controladas do seu id ou incluí-las na síntese do seu ego. O facto de uma cooperação deste tipo habitualmente fracassar no caso dos psicóticos, dá-nos uma primeira base sólida para um melhor juízo. Se quisermos efectuar um pacto desse tipo devia ser com um ego normal. Mas um ego normal é, como a normalidade em geral, uma ficção ideal. O ego anormal, inútil para os nossos fins, infelizmente não é ficção. Na verdade, toda a pessoa normal é apenas normal medianamente. O seu ego aproxima-se do ego do psicótico num lugar ou noutro e em maior ou menor extensão; é apenas o grau do seu afastamento de determinada extremidade da série, e da sua proximidade da outra, que fornece a medida provisória do que tão indefinidamente denominamos “alteração do ego”.

 

Se perguntarmos qual a fonte da grande variedade de tipos e graus de alteração do ego, não poderemos fugir à primeira alternativa óbvia, ou seja, se tais alterações são congénitas ou adquiridas. O segundo tipo seria o mais fácil de tratar. Se forem alterações adquiridas, terão certamente acontecido no decorrer do desenvolvimento, desde os primeiros anos de vida, pois o ego tem de tentar, desde o começo, desempenhar a sua tarefa de mediação entre o id e o mundo externo, sempre ao serviço do princípio de prazer e da protecção do id contra os perigos do mundo externo. Se, no decurso desses esforços, o ego aprende a adoptar uma atitude defensiva também para com seu próprio id, e a tratar as exigências pulsionais deste último como perigos externos, pelo menos em parte, é porque compreendeu que uma satisfação da pulsão conduziria a conflitos com o mundo externo. Posteriormente, sob a influência da educação, o ego acostuma-se a remover a cena da luta de fora para dentro e a dominar o perigo interno antes que este se tenha tornado externo; provavelmente tem razão para assim proceder. Durante essa luta em duas frentes - posteriormente haverá também uma terceira frente [o superego] -, o ego faz uso de diversos procedimentos para desempenhar a sua tarefa, que, para a expressar em termos gerais, consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer. Chamamos a esses procedimentos “mecanismos de defesa”. O nosso conhecimento destes ainda não é suficientemente completo. O livro de Anna Freud (1936) forneceu-nos uma primeira compreensão interna da sua multiplicidade e significação multilateral.

 

Foi a partir de um desses mecanismos, o recalcamento, que o estudo dos processos neuróticos se iniciou. Nunca houve qualquer dúvida de que o recalcamento não era o único mecanismo que o ego podia usar para os seus fins. Não obstante, o recalcamento é algo bastante peculiar, pois é mais nitidamente diferenciado dos outros mecanismos do que estes o são entre si. Gostaria de esclarecer essa relação com os demais mecanismos através de uma analogia, embora saiba que as analogias nunca nos levam muito longe. Imaginemos o que poderia ter acontecido a um livro, numa época em que os livros ainda não eram impressos em edições, mas redigidos à mão individualmente. Suponhamos que um livro desse tipo contivesse afirmações que, em épocas posteriores, fossem consideradas indesejáveis; por exemplo, segundo Robert Eisler (1929), os escritos de Flávio Josefo devem ter contido passagens sobre Jesus Cristo que foram ofensivas para o cristianismo posterior. Nos dias de hoje, o único mecanismo defensivo de que a censura oficial poderia valer-se seria o de confiscar e destruir todos os exemplares da edição. Naquela época, contudo, diversos métodos eram utilizados para tornar inócuo o livro. Uma das maneiras seria riscar de maneira cerrada as passagens ofensivas, de modo a ficarem ilegíveis. Neste caso, não poderiam ser transcritas, e o copista seguinte do livro produziria um texto inatacável, mas com lacunas em certas passagens, que deste modo poderia ser ininteligível. Outra maneira: se as autoridades não se satisfizessem com isso, mas desejassem ocultar também qualquer indicação de que o texto fora mutilado, seria, para elas, passar a deformar o texto. Palavras isoladas seriam deixadas de fora ou substituídas por outras, e novas frases seriam interpoladas. Melhor, toda a passagem seria apagada e colocada, no seu lugar, outras dizendo exactamente o oposto. O transcritor seguinte poderia, então, produzir um texto que não despertaria suspeita, mas que estaria falsificado. Ele não continha mais aquilo que o autor desejara dizer de verdade.

 

Se esta analogia não é levada mais longe é porque o recalcamento tem a mesma relação com os outros métodos de defesa, que a omissão com a deformação do texto; podemos descobrir, nas diferentes formas dessa falsificação, paralelos com a variedade das maneiras pelas quais o ego é alterado. Pode-se tentar levantar a objecção de que a analogia erra num ponto essencial, pois a deformação de um texto é obra de uma censura tendenciosa, da qual nenhuma contrapartida se pode encontrar no desenvolvimento do ego. Mas não é assim, pois um intuito tendencioso desse tipo é, em grande grau, representado pela força compulsiva do princípio do prazer. O aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção - isto é a verdade - deve ser sacrificada. No que se refere aos perigos externos, o indivíduo pode ajudar-se durante algum tempo através da fuga e evitando a situação de perigo, até ficar suficientemente forte, mais tarde, para afastar a ameaça alterando activamente a realidade. Mas não é possível fugir de si próprio; a fuga não constitui um auxílio contra perigos internos. Por essa razão, os mecanismos defensivos do ego estão condenados a falsificar a percepção interna e a dar somente uma representação imperfeita e deformada do nosso próprio id. Nas suas relações com o id, o ego é paralisado pelas suas restrições ou cegado pelos seus erros, e o resultado, na esfera dos eventos psíquicos, pode ser comparado ao caminhar num país que não se conhece, sem dispor de um bom par de pernas.

 

Os mecanismos de defesa servem para manter afastados os perigos. Não se pode discutir se são bem-sucedidos nisso, mas é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante o seu desenvolvimento. Mas é certo também que eles próprios podem se transformar em perigos. Às vezes, vê-se que o ego pagou um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ónus sobre a economia psíquica. Para mais, esses mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os difíceis anos do seu desenvolvimento. Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa não utiliza mais do que uma selecção deles, mas estes colam-se ao seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reacção do seu carácter, repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. Isso transforma-os em infantilidades; eles partilham aqui da sorte das instituições que tentam manter-se em vida depois da sua época de utilidade ter passado. “Vernunft wird Unsinn, Wohltat Plage” <a Razão torna-se sem sentido, o bem-fazer uma calamidade: Goethe, Fausto, verso 1976>, como se queixa o poeta. O ego do adulto, com a sua força aumentada, continua a defender-se contra perigos que não existem mais na realidade; na verdade, vê-se compelido a buscar na realidade situações que substituam aproximadamente o perigo original, de modo a poder justificar o facto de manter as suas formas habituais de reagir. Assim, podemos facilmente entender que os mecanismos de defensa ocasionam uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparando o caminho para o desencadeamento da neurose contra a qual lutam.

 

De momento não estamos interessados no papel patogénico dos mecanismos defensivos. Estamos tentando descobrir qual é a influência da alteração do ego que a eles corresponde nos nossos esforços terapêuticos. O material para responder a esta pergunta é fornecido no volume a que já me referi, da autoria de Anna Freud. O ponto essencial é que o paciente repete essas modalidades de reacção também durante o trabalho de análise, que as produz diante dos nossos olhos, por assim dizer. Na verdade, é apenas desta maneira que chegamos a conhecê-las. Isso não significa que tornem a análise impossível. Pelo contrário, constituem a metade da sua tarefa analítica. A outra metade, aquela que a análise primeiro enfrentou nos seus dias iniciais, é a revelação do que está escondido no id. Durante o tratamento, o nosso trabalho terapêutico está constantemente oscilando para trás e para frente, como um pêndulo, entre um fragmento de análise do id e um fragmento de análise do ego. Num dos casos, desejamos tornar consciente algo do id; no outro, queremos corrigir algo no ego. A dificuldade da questão é que os mecanismos de defesa dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo. O efeito terapêutico depende de tornar consciente o que está recalcado (no sentido amplo da palavra) no id. Preparamos o caminho para essa tomada de consciência mediante interpretações e construções, mas interpretamos apenas para nós próprios, não para o paciente, enquanto o ego se apega às suas defesas primitivas e não abandona as suas resistências. Ora, essas resistências, embora pertençam ao ego, são inconscientes e, em certo sentido, isoladas dentro do ego. O analista identifica-as mais facilmente do que o faz com o material oculto no id. Poder-se-ia supor que seria suficiente tratá-las como partes do id e, tornando-as conscientes, colocá-las em conexão com o restante do ego. Dessa maneira, suporíamos, que metade da tarefa da análise estaria realizada; não devemos contar com enfrentar uma resistência contra a revelação das resistências. Contudo, o que acontece é isso. Durante o trabalho sobre as resistências, o ego retrai-se - com maior ou menor grau de seriedade - de acordo com a situação analítica. Ele deixa de apoiar os nossos esforços para revelar o id; opõe-se a eles, desobedece à regra fundamental da análise, e não permite que surjam novos derivados do inconsciente. Não podemos esperar que o paciente possua uma forte convicção do poder curativo da análise. Pode ter trazido consigo uma certa confiança no seu analista, que será fortalecida até um ponto eficaz pelos factores de transferência positiva que nele serão despertados. Sob a influência de impulsos desagradáveis que sente em resultado da nova activação dos seus conflitos defensivos, as transferências negativas podem agora levar a melhor e anular completamente a situação analítica. O paciente passa a encarar o analista como um estranho que lhe está fazendo exigências desagradáveis, e comporta-se com ele exactamente como uma criança que não gosta de estranhos e não acredita em nada do que estes dizem. Se o analista tenta explicar uma das deformações efectuadas pelo paciente pela sua resistência, e corrigir esta, encontra a incompreensão e a inacessibilidade a argumentos bem fundados. Assim, percebemos que há uma resistência contra a revelação das resistências e que os mecanismos de defesa merecem realmente o nome que lhe demos, antes de terem sido examinados mais de perto. Constituem resistências não apenas à tomada de consciência dos conteúdos do id, mas também à análise como um todo, logo ao restabelecimento.

 

O efeito ocasionado no ego pelas defesas pode ser correctamente descrito como uma “alteração do ego”, se entendemos por esta o desvio relativo à ficção de um ego normal, que garantiria a lealdade inabalável ao trabalho da análise. É fácil, portanto, aceitar o facto, demonstrado pela experiência quotidiana, de que o resultado de um tratamento analítico depende essencialmente da força e profundidade da raiz das resistências que ocasionam a alteração do ego. Mais uma vez nos confrontamos com a importância do factor quantitativo e mais uma vez somos lembrados de que a análise só pode valer-se de quantidades de energia definidas e limitadas, que têm de ser medidas contra as forças hostis. Impõe-se, então, que a vitória, regra geral, está do lado dos grandes batalhões.

 

VI

 

A questão seguinte a que chegamos é a de saber se toda alteração do ego – no sentido em que falámos - é adquirida durante as lutas defensivas dos primeiros anos? Não pode haver dúvida na resposta. Não temos razão para duvidar da existência e importância das características distintivas, originais e inatas do ego. Isso certifica-se pelo acto singular de que cada pessoa faz uma selecção dos mecanismos possíveis de defesa, que ela apenas utiliza alguns deles, sempre os mesmos. Tal parece indicar que cada ego está dotado, desde o início, de disposições e tendências individuais, embora seja verdade que não podemos especificar a sua natureza ou aquilo que as determina. Para mais, sabemos que não devemos exagerar a diferença existente entre os caracteres herdados e adquiridos, transformando-a numa antítese; o que foi adquirido pelos nossos antepassados forma decerto uma parte importante do que herdámos. Quando falamos numa “herança arcaica” estamos geralmente pensando no id, e parecemos presumir que, no começo da vida do indivíduo, ainda não existe ego algum. Mas não desprezaremos o facto de que id e o ego são originalmente um só; tampouco implica qualquer sobrevalorização mística da hereditariedade; acharmos crível que, mesmo antes de o ego surgir, as linhas de desenvolvimento, tendências e reacções que posteriormente apresentará, já estão estabelecidas para ele. As peculiaridades psicológicas das famílias, raças e nações, inclusive na sua atitude para com a psicanálise, não permitem outra explicação. Na verdade é mais do que isso: a experiência analítica impôs a convicção de que mesmo conteúdos psíquicos específicos, tais como o simbolismo, não possuem outras fontes senão a transmissão hereditária; e pesquisas nos diversos campos da antropologia social tornam plausível supor que outros precipitados, igualmente especializados, deixados pelo primitivo desenvolvimento humano também estão presentes na herança arcaica.

 

Com o reconhecimento de que as propriedades do ego com que nos defrontamos sob a forma de resistências podem ser determinadas pela hereditariedade, ou adquiridas em lutas defensivas, a distinção topográfica entre o ego e o id perde muito de seu valor para a nossa investigação. Se avançarmos mais um passo na nossa experiência analítica, deparamo-nos com resistências de um outro tipo, que não podemos mais localizar, e que parecem depender de condições fundamentais do aparelho psíquico. Só posso fornecer alguns exemplos desse tipo de resistência, pois todo este campo de investigação ainda é desconcertantemente estranho e insuficientemente explorado. Deparamo-nos com pessoas, por exemplo, a quem estamos inclinados a atribuir uma especial “adesividade da libido” Os processos que o tratamento coloca em movimento nessas pessoas são muito mais lentos do que em outra, porque, aparentemente, elas não podem decidir-se a abandonar os investimentos libidinais de um determinado objecto e a deslocar o seu interesse para um outro, embora não possamos descobrir nenhuma razão especial para essa lealdade do investimento. Encontramos também o tipo oposto de pessoa, em quem a libido parece particularmente móvel; esta é levada prontamente a novos investimentos, sugeridos pela análise, abandonando os anteriores em troca deste. A diferença entre os dois tipos é comparável à sentida por um escultor, conforme ele trabalhe na pedra dura ou com gesso macio. Infelizmente, nesse segundo tipo, os resultados da análise são frequentemente pouco duráveis; os novos investimentos são logo abandonados, e temos a impressão, não de ter trabalhado em gesso, mas de ter escrito na água. Como diz o provérbio: “como vêm, assim vão.”

 

Num outro grupo de casos, ficamos surpreendidos por uma atitude dos nossos pacientes que só pode ser atribuída a um esgotamento da plasticidade, da capacidade de modificação e desenvolvimento ulterior, que comummente esperaríamos encontrar. Estamos preparados para encontrar na análise uma certa quantidade de inércia psíquica. Quando o trabalho da análise descerrou novos caminhos para um impulso pulsional, quase invariavelmente observamos que este não ingressa neles sem uma hesitação acentuada. Chamamos a esse comportamento, talvez não muito correctamente, “resistência do id.” Com os pacientes que tenho em mente, porém, todos os processos mentais, relacionamentos e distribuições de força são imutáveis, fixos e rígidos. Encontra-se a mesma coisa em pessoas muito idosas, onde é explicada como devida à força do hábito ou à exaustão da receptividade, uma espécie de entropia psíquica. Aqui, no entanto, referimo-nos a casos de pessoas ainda jovens. O nosso conhecimento teórico não parece adequado para fornecer uma explicação correcta de tais tipos. Provavelmente, estão relacionadas algumas características temporais, como certas alterações de ritmo de desenvolvimento na vida psíquica que ainda não apreciámos.

 

Num outro grupo ainda de casos, as características distintivas do ego, que devem ser consideradas como fontes de resistências ao tratamento analítico e obstáculos ao êxito terapêutico, podem ter raízes diferentes e mais profundas. Estamos lidando aqui com o que a investigação psíquica pode aprender: a acção das duas pulsões primárias, a sua distribuição, mistura e difusão - coisas que não podemos imaginar como confinadas a uma única província do aparelho psíquico, ao id, ao ego ou ao superego. Não há impressão mais forte do que a das resistências ao trabalho de análise que surgem de uma força que se defende por todos os meios possíveis contra o restabelecimento, que está absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento. Uma parte desta força já foi identificada por nós com indubitável justiça como sentimento de culpa e necessidade de punição, e localizada na relação do ego com o superego. Mas essa é apenas a parte dela que está psiquicamente presa ao superego, e assim se torna reconhecível; outras quantidades da mesma força, quer ligadas, quer livres, podem estar em acção noutros lugares não especificados. Se tomarmos em consideração o quadro total formado pelos fenómenos do masoquismo imanentes a tantas pessoas, a reacção terapêutica negativa e o sentimento de culpa encontrados em tantos neuróticos, não poderemos mais aderir à crença de que os eventos mentais são governados exclusivamente pelo princípio do prazer. Esses fenómenos constituem indicações inequívocas da presença de um poder na vida mental que chamamos pulsão agressiva ou de destruição, segundo os seus objectivos, e que fazemos remontar à pulsão de morte da matéria viva. Não se trata de uma antítese entre uma teoria pessimista da vida e uma outra optimista. Somente pela acção concorrente ou mutuamente oposta das duas pulsões primordiais - Eros e pulsão de morte -, e nunca por um ou outro sozinho, podemos explicar a rica multiplicidade dos fenómenos da existência.

 

Como partes dessas duas classes de pulsões se combinam para desempenhar as diversas funções vitais, em que condições tais combinações se afrouxam ou se rompem, a que distúrbios essas mudanças correspondem e com que sensações a escala perceptiva do princípio de prazer a elas responde - são problemas cuja elucidação seria a façanha mais gratificante da investigação psíquica. De momento, temos de nos curvar à superioridade das forças contra as quais vemos os nossos esforços redundar em nada. Mesmo exercer uma influência sobre o simples masoquismo constitui um ónus muito severo para os nossos poderes.

 

Ao estudar os fenómenos que testemunham da actividade da pulsão de destruição, não nos confinamos a observações sobre o material patológico. Numerosos factos da vida mental normal exigem uma explicação desse tipo, e, quanto mais penetrantes os nossos olhos se tornam, mais copiosamente esses factos nos impressionam. O assunto é novo e importante demais para que o trate como um tema lateral desse debate. Contentar-me-ei, portanto, em seleccionar alguns casos exemplificativos.

 

Aqui temos um exemplo. É bem sabido que em todos os períodos houve, como ainda há, pessoas que podem tomar como objectos sexuais membros do seu próprio sexo, bem como do sexo oposto, sem que uma das inclinações interfira na outra. Chamamos a estas pessoas “bissexuais” e aceitamos a sua existência sem muita surpresa. Viemos a saber que todo o ser humano é bissexual nesse sentido, que a sua libido se distribui, quer de maneira manifesta, quer de maneira latente, por objectos de ambos os sexos. Mas ficamos impressionados pelo ponto seguinte. Ao passo que na primeira classe de pessoas as duas tendências prosseguem juntas sem se chocarem, na segunda classe, mais numerosa, elas encontram-se num estado de conflito irreconciliável. A heterossexualidade de um homem não se conformará com nenhuma homossexualidade e vice-versa. Se a primeira é a mais forte, ela obtém êxito em manter a segunda latente e em afastá-la, pela força, da satisfação na realidade. Por outro lado, não existe maior perigo para a função heterossexual de um homem do que o de ser perturbada pela sua homossexualidade latente. Poderíamos tentar explicar isso dizendo que cada indivíduo só possui à sua disposição uma certa quantidade de libido, pela qual as duas inclinações rivais têm de lutar. Mas isto não é claro, por que as rivais nem sempre dividem a quantidade disponível de libido entre si, de acordo com a sua força relativa, mesmo se o podem fazer em certo número de casos. Somos forçados a concluir que a tendência a um conflito é algo de especial, recentemente adicionado à situação, sem consideração pela quantidade de libido. Uma tendência ao conflito desse tipo, a emergir independentemente, dificilmente pode ser atribuída a algo que não seja a intervenção de um elemento de agressividade livre.

 

Se reconhecermos o caso que estamos examinando como uma expressão da pulsão de destruição ou agressiva, surge imediatamente a questão de saber se essa concepção não deve ser estendida a outros exemplos de conflito, e, na verdade, de saber se tudo o que sabemos sobre o conflito psíquico não devia ser revisto a partir deste novo ângulo. Afinal de contas, presumimos que, no decurso do desenvolvimento do homem de um estado primitivo para um civilizado, a sua agressividade experimenta um grau bastante considerável de internalização ou se volta para o interior; se assim for, seus conflitos internos seriam o equivalente apropriado das lutas externas que então cessaram. Estou bem cônscio de que a teoria dualista, segundo a qual uma pulsão de morte, de destruição ou de agressão reivindica iguais direitos como sócia de Eros, tal como este se manifesta na libido, encontrou pouca simpatia, e na realidade não foi aceite, mesmo entre psicanalistas. Isso deixou-me ainda mais satisfeito quando, não há muito tempo, me deparei com essa teoria nos escritos de um dos maiores pensadores da antiga Grécia. Estou prontíssimo a ceder o prestígio da originalidade a favor desta confirmação, em especial porque nunca pode ficar certo, em vista da ampla extensão de minhas leituras nos primeiros anos, se aquilo que tomei por uma nova criação não constituía um efeito da criptoamnésia.

 

Empédocles de Acragas (Agrigento), nascido por volta de 495 a.C., é uma das maiores e mais notáveis figuras da história da civilização grega. A sua personalidade multifacetada actuou nas mais variadas direcções. Foi investigador e pensador, profeta e mágico, político, filantropo e médico com conhecimentos de ciências naturais. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte, na Malária e que os seus contemporâneos viram nele um deus. A sua mente parece ter unido os mais agudos contrastes. Era exacto e sóbrio nas suas pesquisas físicas e fisiológicas; contudo, não se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu as especulações cósmicas da audácia espantosamente imaginativa. Capelle compara-o ao Dr. Fausto, “a quem muitos segredos foram revelados.” Nascido numa época em que o reino da ciência ainda não estava dividido em tantas províncias, algumas das suas teorias impressionaram inevitavelmente pela mistura dos quatros elementos, a terra, o ar, o fogo e a água. Sustentava que toda a natureza era animada, e acreditava na transmigração das almas. Mas também incluiu no corpo teórico do conhecimento ideias modernas, como a evolução gradual das criaturas vivas, a sobrevivência dos mais aptos e o reconhecimento do papel desempenhado pelo encontro ocasional ou acaso (tmch) na evolução.

 

Mas a teoria de Empédocles que merece especialmente o nosso interesse é a que se aproxima muito da teoria psicanalítica das pulsões, ficaríamos mesmo tentados a sustentar que as duas são idênticas, se não fosse a diferença que a teoria do filósofo grego é uma fantasia cósmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar a validade biológica. Ao mesmo tempo, o acto de Empédocles atribuir ao universo a mesma natureza animada que aos organismos individuais despoja essa diferença de grande parte da sua importância.

 

O filósofo ensinou que dois princípios comandam os eventos da vida do universo e da mente, e que esses princípios estão perenemente em guerra um com o outro. Falou de um dualismo fundamental entre philia (jilia) e neikos (neikoz), o amor e a discórdia. Desses dois princípios - que ele concebeu como sendo “forças naturais operando como pulsões, de maneira algum como inteligências com um intuito consciente” -, um deles esforça-se por aglomerar as partículas dos quatro elementos numa só unidade, ao passo que o outro, ao contrário, procura desfazer todas essas fusões e separar umas das outras as partículas primitivas dos elementos. Empédocles imaginou o processo do universo como um alternar contínuo e incessante de períodos, nos quais uma ou outra das duas forças fundamentais leva a melhor, de maneira que em determinada ocasião o amor, e noutra a discórdia realizam completamente o seu intuito e dominam o universo, após o que o outro lado, vencido, se afirma e, por sua voz, derrota seu parceiro.

 

Os dois princípios fundamentais de Empédocles são, tanto no nome quanto na função, as nossas duas pulsões fundamentais, Eros e a pulsão de destruição, dos quais o primeiro se esforça por combinar o que existe em unidades cada vez maiores, ao passo que a segundo se esforça por dissolver essas combinações e destruir a organização a que deram origem. Não ficaremos surpresos, contudo, em descobrir que, no seu ressurgimento após dois milénios e meio, essa teoria se alterou nalgumas das suas características. À parte a restrição ao campo biofísico que se nos impõe, já não temos como substâncias básicas os quatro elementos de Empédocles: o que é vivo foi nitidamente diferenciado do que é inanimado, e não pensamos mais em termos de em mistura e separação de partículas de uma substância, mas na ligação e disseminação das componentes. Fornecemos ainda um certo tipo de fundamento ao princípio da discórdia, fazendo a nossa a pulsão de destruição remontar à pulsão de morte, ao que faz o que é vivo retornar a um estado inanimado. Isso não se destina a negar que uma pulsão análoga existiu anteriormente, nem a assegurara que passou a existir com o surgimento da vida. Ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo da verdade contida na teoria de Empédocles se apresentará à compreensão posterior.

 

VII

 

Em 1927, Ferenczi leu um instrutivo artigo sobre o problema da terminação das análises. Este finda com a confortadora garantia de que “a análise não é um processo sem fim, mas um processo que pode ter um fim próprio, se houver perícia e paciência suficientes por parte do analista.” O artigo no seu todo parece-me ser um aviso para não abreviar a análise, mas aprofundá-la. Ferenczi demonstra, ainda, que o êxito depende muito de o analista ter aprendido o suficiente com os seus próprios “erros e equívocos”, de ter levado a melhor sobre “os pontos fracos de sua própria personalidade.” Isto fornece um suplemento importante ao nosso tema. Entre os factores que influenciam as perspectivas do tratamento analítico e se somam às suas dificuldades da mesma maneira que as resistências, deve-se levar em conta não apenas a natureza do ego do paciente, mas também a individualidade do analista.

 

Não se pode discutir se os analistas, com as suas próprias personalidades, não estiveram invariavelmente à altura do padrão de normalidade psíquica para o qual desejam educar seus pacientes. Os opositores da análise quase sempre apontam esse facto com escárnio e o utilizam como argumento para demonstrar a inutilidade dos esforços analíticos. Poderíamos rejeitar essa crítica porque faz exigências injustificáveis. Os analistas são pessoas que aprenderam a praticar uma arte específica; a par disso, pode-se conceder-lhes que são seres humanos como quaisquer outros. Afinal de contas, ninguém sustenta que um médico será incapaz de tratar doenças internas se os seus próprios órgãos não forem sadios; ao contrário, pode-se argumentar que há certas vantagens no facto de um homem que foi ameaçado pela tuberculose, se especializar no tratamento de pessoas que sofrem dessa doença. Os casos, porém, não são absolutamente idênticos. Enquanto for capaz de praticar clínica, um médico que sofre de uma doença dos pulmões ou do coração não está em desvantagem para diagnosticar ou tratar queixas internas, ao passo que as condições especiais do trabalho analítico fazem realmente com que os próprios defeitos do analista interfiram no seu acto e avaliação correcta do estado de coisas do paciente, bem como na sua reacção a estas. É, portanto, razoável esperar que um analista tenha, como parte das suas qualificações, um grau considerável de normalidade e correcção mental. Além disso, deve ter algum tipo de superioridade, de maneira que, em certas situações, possa agir como modelo para o seu paciente e, em outras, como um mestre. Finalmente, não devemos esquecer que o relacionamento analítico se baseia no amor à verdade - isto é, no reconhecimento da realidade - e que isso exclui qualquer tipo de impostura ou engano.

 

Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com a nossa sincera simpatia pelas exigências muito rigorosas a que tem de atender no desempenho das suas actividades. Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas “profissões impossíveis” quanto às quais se pode de antemão estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são a arte de educar e de governar. Não podemos evidentemente exigir que o analista seja um ser perfeito antes da sua análise, noutras palavras, que só as pessoas de alta e rara perfeição possam ingressar na candidatura a analista. Mas onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações ideais que necessita a sua profissão? A resposta é: na análise de si mesmo, com a qual começa sua preparação para a futura actividade. Por razões práticas, esta análise só pode ser breve e incompleta. O importante é que se possa fazer um juízo sobre se o candidato pode ou não ser aceite para uma formação posterior. A análise didáctica terá alcançado o seu alvo se fornecer àquele que fica firmemente convencido da existência do inconsciente, a capacidade, quando o material recalcado surge, de perceber em si mesmo coisas que de uma outra maneira seriam inacreditáveis para ele. Mas só isso não basta para a formação do analista; contamos também com que os estímulos que recebeu da sua própria análise não cessem quando esta termina, com que os processos de remodelação do ego prossigam espontaneamente no indivíduo analisado, e com que o uso de todas as experiências subsequentes nesse recém-adquirido sentido. Quando tal acontece, qualifica o indivíduo analisado para ser, ele próprio, analista. Infelizmente, algo mais acontece também. Ao tentar descrevê-lo, apenas podemos apoiar-nos em impressões. Hostilidade, por um lado, e partidarismo, por outro, criam uma atmosfera desfavorável à investigação objectiva. Parece que certo número de analistas aprende a fazer uso de mecanismos de defesa que lhes permitem desviar de si próprios as implicações e as exigências da análise (provavelmente dirigindo-as para outras pessoas), de maneira que eles próprios permanecem como são e podem afastar-se da influência crítica e correctiva da análise. Tal acontecimento poderia justificar as palavras do escritor [Anatole France: La révolte des anges] que nos adverte que, quando um homem obtém poder, é difícil para ele não o utilizar mal. Às vezes, quando tentamos compreender isso, somos levados a traçar uma analogia desagradável com o efeito dos raios X nas pessoas que os manejam sem tomar precauções especiais. Não seria de surpreender que o efeito de uma preocupação constante com todo o material recalcado que luta pela liberdade na mente humana despertasse também no analista as exigências pulsionais que de outra maneira ele seria capaz de manter suprimidas. Também esses são “perigos da análise”, embora ameacem não o parceiro passivo, mas o parceiro activo da situação analítica, e não deveríamos negligenciar enfrentá-los. Não temos dúvida sobre o modo como isso deve ser feito. Todo o analista deveria periodicamente - com intervalos de aproximadamente cinco anos - submeter-se mais uma vez à análise, sem se sentir envergonhado por tomar essa medida. Isso significaria, portanto, que não seria apenas a análise terapêutica dos pacientes, mas a sua própria análise que se transformaria de tarefa terminável em interminável.

 

Nesse ponto, contudo, temos de nos resguardar contra uma concepção equivoca. Não estou pretendendo afirmar que a análise nunca tem fim. Qualquer que seja a nossa atitude teórica relativamente à questão, o término de uma análise é, penso eu, uma questão prática. Todo o analista experiente será capaz de recordar uma série de casos em que deu ao seu paciente um adeus definitivo, rebus bene gestis. Nos casos do que é conhecido como “análise de carácter”, há uma discrepância muito menor entre a teoria e a prática. Aqui não é fácil prever um término natural, ainda que se evitem quaisquer expectativas exageradas e não se estabeleçam para a análise tarefas excessivas. O nosso objectivo não será dissipar todas as peculiaridades do carácter humano em benefício de uma ‘normalidade’ esquemática, nem tampouco exigir que a pessoa que foi ‘completamente analisada’ não sinta paixões nem desenvolva conflitos internos. A missão da análise é garantir as melhores condições psicológicas possíveis para as funções do ego; com isso, ela cumpriu a sua tarefa.

 

VIII

 

Tanto nas análises terapêuticas, como nas análises de carácter, observamos que dois temas têm uma proeminência especial e fornecem ao analista uma quantidade inusitada de trabalho. Torna-se logo evidente que um princípio geral está aqui em acção. Os dois temas estão ligados à distinção entre os sexos; um deles é tão característico dos homens quanto o outro o é das mulheres. Apesar da dissemelhança do seu conteúdo, há uma correspondência óbvia entre eles. Algo que ambos os sexos possuem em comum foi forçado, pela diferença entre eles, a formas diferentes de expressão.

 

Os dois temas correspondentes são, na mulher, a inveja do pénis - um esforço positivo para possuir um órgão genital masculino - e, no homem, a luta contra a atitude passiva ou feminina em relação a um outro homem. O que é comum foi distinguido pela nomenclatura psicanalítica, em data precoce, como sendo a sua posição em relação ao complexo de castração. Alfred Adler preferiu o termo ‘protesto masculino’ para uso corrente. Ele ajusta-se perfeitamente ao caso dos homens, mas penso que, desde o início, “repúdio da feminilidade” teria sido a descrição mais correcta dessa notável característica da vida psíquica dos seres humanos.

 

Ao tentar introduzir esse factor na nossa teoria, não devemos desprezar o facto de que não pode, pela sua própria natureza, ocupar a mesma posição para ambos os sexos. Nos homens, o esforço para serem masculinos é desde o início conforme ao seu ego; a atitude passiva, uma vez que pressupõe uma aceitação da castração, é energicamente recalcada e a sua presença só é indicada por sobrecompensações excessivas. O esforço das mulheres para serem masculinas também é conforme ao ego durante um determinado período de tempo, a fase fálica por que passam antes que o desenvolvimento da feminilidade se estabeleça. Depois sucumbe ao processo do recalcamento, cujo desfecho, como tão frequentemente foi demonstrado, vai determinar o destino da feminilidade de uma mulher. Muita coisa depende de que uma parte suficiente do seu complexo de masculinidade escape ao recalcamento e exerça uma influência permanente no seu carácter. Normalmente, grandes partes deste complexo transformam-se e contribuem para a construção da sua feminilidade; o desejo apaziguado de um pénis é convertido no desejo de um bebé e de um marido, que possui um pénis; mas, quantas vezes se descobre que o desejo de masculinidade foi retido no inconsciente e que, a partir deste recalcamento, exerce uma influência perturbadora.

 

Como se verá pelo que disse, em ambos os casos foi a atitude própria ao sexo oposto que sucumbiu ao recalcamento. Já afirmei noutro lugar que foi Wilhelm Fliess que chamou a minha atenção para esse ponto. Fliess inclinava-se a encarar a guerra dos sexos como a verdadeira causa e a primeira força do recalcamento. Apenas repito o que disse então ao discordar da sua opinião, quando recuso conceber o recalcamento desta maneira, isto é, explicá-lo a partir de fundamentos biológicos em vez de psicológicos.

 

A importância destes dois temas - nas mulheres, o desejo de um pénis, e, nos homens, a luta contra a passividade - não escapou à observação de Ferenczi. No artigo lido em 1927, ele transformou num requisito que, em toda análise bem-sucedida, esses dois complexos tivessem de ser dominados. Falando por minha própria experiência, acho que Ferenczi estava pedindo muito. Em nenhum momento do trabalho analítico se sofre mais da sensação opressiva de que todos os nossos repetidos esforços foram em vão, e da suspeita de que estivemos pregando ao vento, quando tentamos persuadir uma mulher a abandonar o seu desejo de um pénis, com fundamento de que este é irrealizável, ou quando procuramos convencer um homem que uma atitude passiva para com os outros homens nem sempre significa castração, que ela é indispensável em muitos relacionamentos na vida. A sobrecompensação rebelde do homem produz uma das mais fortes resistências transferências; ele recusa a submeter-se a um substituto paterno, ou sentir-se em débito para com este, consequentemente recusa aceitar do médico o seu restabelecimento. Nenhuma transferência análoga pode surgir do desejo da mulher por um pénis, mas esse desejo é fonte de graves depressões nela, ou da convicção interna de que a análise não lhe será útil e de que nada pode ser feito para ajudá-la. Só podemos concordar que tem razão quando aprendemos que o seu motivo mais forte para procurar um tratamento foi a esperança de que, no fim, ainda podia obter o órgão masculino cuja falta lhe era tão penosa.

 

Mas também aprendemos com isso que não é importante a forma como a resistência aparece, na transferência ou não. A coisa decisiva permanece que a resistência impede a ocorrência de qualquer mudança – fica tudo como era. Frequentemente temos a impressão de que o desejo de um pénis e o protesto masculino penetraram através de todos os estratos do psiquismo e alcançaram o seu fundo, e que, assim, as nossas actividades encontram um fim. Isso é provavelmente verdadeiro, já que, para o campo psíquico, o campo biológico desempenha o papel de rocha subjacente. O repúdio da feminilidade pode não ser nada mais do que um factor biológico, fazendo parte do grande enigma do sexo. Seria difícil dizer se e quando temos êxito em dominar este factor num tratamento analítico. Só podemos consolar-nos com a certeza de que demos à pessoa analisada todo o incentivo possível para reexaminar e alterar a sua atitude para com ele.

 


 

[1] BEMERKUNGEN ÜBER DIE ÜBERTRAGUNGSLIEBE.

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1915 Int. Z. Psychoanl., 3, (1), 1-11.

1918 S. D. S. N., 4, 453-69. (1922, 2ª ed.)

1924 Technik und Metapsychol. 120-35.

1925 G. S., 6, 120-35.

1931 Neurosenlehre und Technik, 385-96.

1946 G. W., 10, 306-21.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Further Recommendations in the Technique of Psycho-Analysis: Observations on Transference-Love, 1924 C.P., 2, 377-91. (Trad. de Joan Riviere.)

[2] Sabemos – mas não falarei disso aqui – que a transferência pode acarretar sentimentos menos ternos.

[3] KONSTRUKTIONEN IN DER ANALYSE

 

(a) EDIÇÕES ALEMÃS

1937 Int. Z. Psychoanal., 23 (4), 459-69.

1950 G. W. 16, 43-56.

 

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

 

Constructions in Analysis’

 

1938 Int. J. Psycho-Anal., 19 (4), 377-87. (Trad. de James Strachey.)

1950 C. P., 5, 358-71.

 

[4] DIE ENDLICHE UND DIE UNENDLICHE ANALYSE

 

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1937   Int. Z. Psychoanal., 23 (2), 209-40.

1950   G. W., 16, 59-99.

 

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Analysis Terminable and Interminable’

 

1937   Int. J. Psycho-Anal., 18 (4), 374-405. (Trad. de Joan Riviere.)

1950 C.P. 5, 316-57.