VIOLÊNCIA COMO FORMA DE INSCRIÇÃO SUBJECTIVA NO SOCIAL

 

Silvane Maria MARCHESINI [1]

 

Para fazermos uma pontuação ao fanatismo e a violência, pensamos este tema como uma forma de inscrição subjetiva no social.

        

Jean-Pierre LEBRUN[2,], que há pouco nos abrilhantou com ciclo de palestras no Núcleo de Direito e Psicanálise do Programa de Pós-Graduação de Direito da Universidade Federal do Paraná, em texto titulado “RICHARD DURN ou A tragédia de um filho de ninguém” (2004), analisa o assassinato em massa ocorrido na cidade de Nanterre, ultrapassando o diagnóstico psiquiátrico. Aponta o caso DURN como paradigma de uma clinica do social, através da análise de seu diário intimo. Questiona se não devemos ler casos deste tipo, como ultima tentativa de um sujeito para se inscrever num social que não transmite mais o vazio necessário à inscrição singular?

 

Em 28 de março de 2002, DURN, 33 anos, suicidou-se, atirando-se do quarto andar do prédio da policia judiciária onde era interrogado. Dez dias antes, por ocasião de uma sessão do Conselho Municipal de Nanterre, ele havia cometido uma chacina, matado oito pessoas, todas eleitas deste mesmo Conselho e tinha ferido uma vintena de outros, dos quais quatorze gravemente. Segundo suas próprias propostas, a única pessoa que ele « tinha visado intencionalmente » era a prefeita, Jaqueline Fraysse, medica-cardiologista de profissão. Como dizia ele, tratava-se de acabar com a « mini-elite local ». Havia confessado aos policiais que não tendo nada a transmitir, nada a conquistar, ele queria matar, mais do que acabar na prisão, no hospital psiquiátrico, ou resultar num mendigo. Era absolutamente necessário para ele suprimir-se ao mesmo tempo.

 

DURN vivia com sua mãe e, não tinha jamais tido conhecimento de quem era seu pai, um homem de passagem do qual não viu a menor foto e do qual a mãe jamais lhe disse algo.

 

A mãe, contrariamente, buscava «apagar o pai da cabeça de seu filho». Richard era mestrando em história, inscrito no partido socialista, estava desempregado e nada fazia para mudar tal situação. Não suportava mais co-habitar com sua mãe. Obteve suas armas ao se inscrever num clube de tiro e, em 1998, quando ele fazia uma viagem a Israel com seu amigo Gaël, ele quis se recolher sobre a tumba de Baruch Goldstein, colono judeu que tinha matado 29 árabes em 1994. Deixou o partido socialista e tornou-se militante do partido dos verdes e tesoureiro da Liga de Direitos do Homem da cidade de Nanterre. Em 2001, manifestou-se como anti-mundialista. Além disso, ele tinha participado em vários comboios humanitários para a Ex-Iuguslavia.        

 

Apesar da mídia, dos políticos e do diagnóstico psiquiátrico terem classificado DURN como « paranóico e esquizofrênico » o psicanalista Lebrun (2004) buscou em alguns extratos do diário intimo de Richard DURN comunicado na imprensa francesa, “o que na psicose, concerne a nossa sociedade?”.

 

Extratos do diário DURN.

 

Em 9 fevereiro 1999. (...) Eu estou desempregado (...). Eu sou cada vez mais degringolado psiquicamente. (...) « Eu não vivi, eu não vivi nada a 30 anos » (...) Eu não existo mais para ninguém, (...) eu não tenho projeto dentro da minha vida e porque eu tenho medo de afrontar a vida, (...).  Eu estou farto disso de fazer uma coisa e seu contrario uma meia-hora mais tarde. (...) Eu estou farto de pesadelos de morte, de autodestruição. Eu me sinto vazio intelectualmente, afetivamente, culturalmente. (...) Eu me enojo por estar sempre calado (...). Ninguém me ouve. Ninguém me escuta. Eu não existo mais socialmente. (...) eu não faço senão coisas incoerentes dentro da minha vida de merda. (...). Eu estou farto de não ter a coragem de estourar os chumbos (...). Há meses, as idéias de massacre e de morte estão dentro da minha cabeça. Eu não quero mais ser submisso. Eu não quero mais carecer de audácia e me parar. Eu não quero mais estar dentro da dessocialização e da mediocridade, se não eu não posso mais estourar para valer mais isto não será todo sozinho. Porque eu não quero mais ser o ultimo e aquele que se faz currar. Então dentro da morte também. (...) Eu desejei viver. Eu desejo amor. (...)

 

Em 2 janeiro 2002. (...). Eu estou me afundando de mais em mais dentro da merda e agora eu sou verdadeiramente um mendigo. (...) Eu me chamo DURN Richard. Eu tenho mais de 33 anos e eu não sei nada fazer (...) de minha vida. Eu sou masturbador desde ao menos vinte anos. Eu não sei mais o que é o corpo de uma mulher. Eu não vivi jamais uma verdadeira história de amor. Eu me masturbo por solitude, por habito e nojo de mim mesmo, por vontade de esquecer o vazio de minha vida e sem duvida por prazer. (...) Eu perdi meus estudos e não tenho nenhuma profissão, pois, eu tenho medo de trabalhar e de tomar responsabilidades. (...) me ligar com as gentes sem procurar a me ligar a elas como uma criança perdida sem a presença de seus pais. (...) Eu não evoluí, não transpus as etapas de uma vida de homem...

          

Em 26 março 2002. Mamãe, a longo tempo que eu deveria estar morto. (...) Eu queria amar, (...) trabalhar (...). Eu queria ser livre. Mas eu tenho uma mentalidade de escravo e de fraco. Eu me sinto tão sujo. (...) eu não vivi jamais. Eu me masturbei, no sentido próprio, como no senso figurado. Eu estou na merda. Eu não tenho nem passado, nem futuro. Eu não sei viver o instante presente. (...) Mas, eu devo morrer ao menos em me sentindo livre (...). É por isso que eu devo matar as gentes. Uma vez dentro de minha vida, eu sentirei um orgasmo. Eu sentirei o sentimento de poder, de ser alguém. Viver é tomar as responsabilidades, é fazer as escolhas, (...) »[3]

 

O psicanalista Lebrun (2004) nos coloca a questão: podemos considerar essa matança como sintoma de uma psicose somente singular, não articulada ao coletivo, por efeito do que chamamos seguindo Lacan, uma foraclusão de Nome-do-Pai? Ou devemos nos perguntar, em que um tal evento teria a ver com nossa vida coletiva?”.

 Interessa ao campo do Direito, especialmente, a distinção apresentada neste texto, entre o crime do capitão LORTIE, estudado por Lacan e, o crime de DURN.

 

O crime do capitão LORTIE atesta do assassinato do pai, de poder, ou de governo. O crime de Richard DURN atesta uma vontade de se sair da mãe, do engolido psíquico, e um ressentimento em face de um mundo no qual a política perdeu sua legitimidade.

 

 

Distintamente de outros matadores em séries, DURN não matou os passantes, mas os representantes do poder. Neste delito, não era a figura do pai como fonte de autoridade que era visada transferencialmente, nem era visada à função simbólica de Estado. Contrariamente, neste ato delituoso o que se visava era a ausência de autoridade. DURN se situava fora do complexo paternal.

 

Por isto, o que seu ato coloca em questão é a «ausência de Estado» e a credibilidade dos «homens de Estado» que, de homens de poder, passaram a homens de prover.

 

No crime do capitão LORTIE, o governo de Québec tinha o rosto de um pai. Para DURN, o Conselho Municipal de Nanterre tinha o rosto da «prefeita».

 

A pós-modernidade implica, neste viés de pensamento, no reconhecimento da ausência de falha na figura social do Outro. Um coletivo auto-suficiente que promete, imaginariamente, a tudo prover.Lembramos, aqui, que este grande Outro, a cultura, é representado no sujeito, primeiramente, pela mãe.

 

Lebrun (2004) sustenta a tese de uma mutação inédita de regime simbólico implicando o fim de um laço social organizado pela presença, em todos os locais do sistema, de uma posição de exterioridade, de um lugar de exceção. Que seja, o Estado, o chefe, o pai, o rei, o presidente.

O que caracterizava a organização coletiva de ontem, era a permanência do reconhecimento coletivo, da legitimidade de um lugar diferente de autoridade, exterior ao conjunto.

 

Ocorre que o funcionamento coletivo emancipou-se da referência a uma posição de exterioridade, que era inscrita e operante pelo modelo religioso, incompleto e consistente. Assistimos, assim, ao que alguns chamaram « o ato de óbito de uma sociedade hierárquica ».[4]Estamos passando pelo fim de um regime simbólico e, construindo uma outra regulação simbólica da vida coletiva.Outro arranjo de laço social está se organizando segundo um regime que privilegia completude e inconsistência.  

 

A vida coletiva não se sustenta mais em uma ordem pré-estabelecida que transmite as regras. Agora a ordem deve emergir dos membros.

 

A dificuldade está em encontrar pontos de conciliações para tantas opiniões singulares e diferentes. Dentro de um tal regime o gozo privado é que prevalece, porém, não como manifestação de uma singularidade reconhecida.

 

Entretanto, Lebrun (2004) nos indica que tal mutação de regime simbólico não implica, necessariamente, em anomia, ou seja, em « ausência de Estado ». Mas, nos alerta quanto, a ilusão democrática de libertação total de toda hierarquia.

 

Com a tragédia DURN somos levados a perceber que o lugar da exterioridade é que determina a estruturação lógica que organiza tanto a subjetividade, quanto a vida coletiva. Aponta a necessidade de um coletivo organizado não somente com regras que valem para todos, mas também, abrigando o singular, ou seja, dando lugar para o sujeito.  

 

Nos encontramos numa cultura onipotente, de ciência e de mercado, portanto, sem falha, necessária, no grande Outro, na cultura, subestimando o reconhecimento da subjetividade.

 

A tragédia de Richard DURN nos deixa entender  que sem referencias anteriores, o que prevalece é o gozo de cada um.

 

O conceito de real construído por Lacan designa a falha, o hiato, o que não faz relação. Indica que não há simetria, paridade, igualdade.

 

Portanto, podemos dizer com Lacan que o mundo pós-moderno incita coletivamente a uma «psicose social »[5]. Um social onipotente, sem castração e, portanto, sem perda solidária de gozo absoluto. Um social sem referencia a um terceiro fundador.

 

A partir disto é preciso, então, distinguir a violência de um sujeito contra a referencia de autoridade paterna e, o crime que põe em causa a ausência absoluta de referencial paterno.

 

Na segunda hipótese, de ausência absoluta de referencial paterno, a violência e o assassinato se apresentam como únicas possibilidades que restam ao proto-sujeito para ex-istir. A única possibilidade que lhe resta é fazer um buraco no real, para produzir uma falha no Outro social.

         

Um regime simbólico necessita do vazio e da transcendência, para que os transmissores sociais conduzam a humanização. Ainda assim, o sujeito precisa consentir a uma perda de gozo necessária a sua inscrição coletiva e subjetiva singular.

 

A matança de Nanterre nos convoca, então, a perceber a última tentativa de um sujeito para inscrever sua marca, num social que não apresenta um vazio necessário ao reconhecimento subjetivo.

 

Por isto, educadores, trabalhadores sociais, e também, analistas, precisam reajustar os seus posicionamentos psíquicos, buscando preservação da subjetividade nesta mudança de regime simbólico. Observar as relações em termos de lugar e de gozo, suplementando a lógica da incompletude. Isto para que cada um, na atualidade possa encontrar sua própria via nos caminhos da vida.

 

Problemas surgem tanto na posição de «não dispensar o pai», com na posição de «não se servir do pai».Dai a importância radical da formula da sexuação apresentada por Lacan “se dispensar do nome-do-pai à condição de se servi dele”.

 

Portanto, a vida coletiva e, a sociedade civil organizada, seja em termos de Estado, de família e, também, de instituições psicanalíticas, deve manter a preocupação de preservação da subjetividade. Deve criar condições para que seus membros possam falar em seus “nome próprio”. Isto implica construir hierarquias de um modo novo e, considerar novas formas de decisão iterativas, reversíveis, produzidas por uma rede de atores, preparados e engajados em objetivos institucionais éticos.

 

Uma instituição re-hierarquizada, construída numa perspectiva de igualdade para todos, porém, apoiada na contraposição do princípio da igualidade singular.

 

Uma democracia delegativa sustentada na democracia dialógica, para buscar soluções aos excessos da tecnociência.

 Uma lógica formalista/intuicionista, produzindo retórica que considere sentido no “nonsense”, dos valores íntimos de cada homem na sua historicidade.

 

Uma hermenêutica privada como terceira via à hermenêutica clássica e ao relativismo, para compreensão e busca de soluções aos excessos do fanatismo e da violência.

 

Se para Lacan a educação exige não recusar de se servir do pai, concluímos, sem dispensar referencia aos Provérbios Bíblicos de Salomão:

                                                   

“Quem poupa a vara odeia seu filho

aquele que o ama aplica a disciplina.” (Provérbios de Salomão 13.24)

 

“Escuta, meu filho, a disciplina do teu pai,

não desprezes a instrução de tua mãe,

pois será formoso diadema em tua cabeça,

e colar em teu pescoço.” (Provérbios de Salomão, prólogo, 8.)

 

 

 

Referencias Bibliográficas

 

LEBRUN, Jean-Pierre. RICHARD DURN ou la tragédie d’un enfant de Personne. 2004. (Não publicado no Brasil)

FREUD, S. A dinâmica da transferência. Rio de Janeiro: Imago, 1987, 2ª ed., v. XII. (Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud).

FREUD, S. Criminosos em conseqüência de um sentimento de culpa. Rio de Janeiro: Imago, 1987, 2ª ed., v. XIV. (Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud).

LACAN, J. «A metáfora do sujeito». In Escritos, Tradução de: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

 

 

 

 

                                                                                                                       

 

 


 

[1] Silvane Maria MARCHESINI , Advogada – OAB – 33. 731 ,  Psicóloga – CRP 08/11. 582,  Pós-Graduada e Mestra em Psicanálise.

 

[2] Psychiatre et Psychanalyste, Namur, Belgique.

 

[3]Extraits du journal de Richard Durn, Le Monde, 10 avril 2002

[4] P. Rosanvallon, I. Thery, etc...:  France : Les révolutions invisibles, Calmann-Levy, 1998.

[5]J. Lacan, Ecrits, Seuil, 1966, p. 576.

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O discurso do sujeito e o sujeito no discurso:

conceitos fundamentais articulando a Lei-do-Nome-do-Pai e a lei jurídica.

 

SILVANE MARIA MARCHESINI

     

Desde Galileu a ciência se definiu como o “conhecimento das leis que regem os processos naturais”. Posteriormente, surgiram múltiplas abordagens que têm como ponto comum, retirar a análise da realidade humana da antiga dominação das ciências, ditas divinas, baseadas na Revelação. Nos finais do século XVIII, surgiu uma pluralidade de campos de conhecimentos, que, podem ser agrupados em três ramos: as ciências formais (lógicas e matemáticas), as ciências naturais (física, biologia) e as ciências humanas (história, sociologia, psicologia, antropologia, lingüística e psicanálise).

 

As ciências formais descobrem seu objeto ao construí-lo e, as ciências da natureza referem-se a um objeto externo que corresponde a dados empíricos. Ambas são dotadas de um componente formal e experimental

 

O terceiro ramo que é o das ciências humanas se distingue por buscar compreender os comportamentos individuais e coletivos a partir de três categorias: a subjetividade, o simbólico e a significação. No debate sobre o cérebro e o pensamento, as ciências humanas seguem duas abordagens distintas.

Uma delas estuda o homem a partir dos processos físico-químicos, biológicos ou cognitivos (o homem como maquina); a outra, ao contrário, reivindica essas categorias como estruturas universais e, se subdivide em linhas de pensamentos a respeito da complexidade humana que, levam em consideração o corpo biológico e o comportamento subjetivo. Linhas que consideram a intencionalidade ou vivência (fenomenologia), e, por outro lado, linhas que constroem uma teoria interpretativa dos processos simbólicos (psicanálise, neo-antropologia), postulando mecanismos inconscientes que funcionam à revelia dos sujeitos. Num estudo mais aprofundado podemos observar que os pilares dos pensamentos da história da ciência se diferenciam, porém, essa divisão nunca é totalmente impermeável. É sempre perpassada pelo desvio que caracteriza o processo irracional no discurso.

A partir dessa constatação, para pensarmos a problemática do “discurso do sujeito e o sujeito no discurso” articulando conceitos fundamentais a respeito da Lei-do-Nome-do-Pai (Psicanálise) e da lei jurídica, sugerimos resgatar a distinção entre o “sentido e o “sem sentido, como valor constitutivo na construção da realidade humana, das ilusões e, dos desejos. Resgatar as dimensões simbólicas da subjetividade, do outro, da política, da ética.

Afastar a indiferença com relação ao que aparece de singular do subjetivo no discurso, pois, o homem é uma construção bio-psico-social e espiritual. Uma construção que emerge na experiência da linguagem. Emerge na construção do simbólico entre o imaginário e o real. Isso é o que distingue o humano do inhumano, o amor e o ódio.

Perceber o “sem sentido”, ou seja, os “pontos de fuga” do simbólico é o que nos permite falar de humanismo num estilo diferente da modernidade.

Indubitavelmente, isso exige um trabalho de incorporação das determinações inconscientes que fazem parte da estrutura discursiva, no discurso da razão consciente. As intenções contidas nas lacunas do sentido é que podem proteger a subjetividade da uniformidade da comunicação.

Não basta pensar para ser. O ser está justamente lá onde ele não pensa. Quando pensa não é. Está petrificado no significante.

Para que emerja o ser humano do campo real é preciso que o corpo biológico seja atravessado pelo simbólico, pela força do amor, que ocorre no instante onde foge o pensar.

É o desejo no olhar de outro humano que faz com que surja o “ser”.

Não há condição de “ser”, a não ser pela via do “amor”.

É o afeto que agregado à letra, funda o inconsciente e constrói a cadeia significante. Campo da palavra.

O sujeito, portanto, surge como “efeito de significante”.

O sujeito circula na hiância, isto é, nas lacunas entres os significantes. “O significante remete o sujeito sempre a outro significante”.

O ser natural – humano – individuo que se transforma em sujeito de direito, é uma experiência de linguagem, mas, nunca está todo ele na linguagem. E, é justamente em decorrência dessa incompletude humana, dessa impossibilidade de nos dizermos em plenitude, é que nos mantemos desejantes. O desejo em relação ao que não possuímos, simbolicamente, é condição psíquica de significação.

Portanto, um mundo sem angustia moral, sem duvidas, sem impossibilidades, é um mundo sem significação, que abandona a fantasia, e a metáfora. É um espaço de dissolução do sujeito.

Sendo o sujeito um sujeito de desejo, não podemos esquecer que desejo e afeto são coisas que se realizam com o outro humano. O Outro precisa ser reproduzido simbolicamente e, em suficientes condições, para que o sujeito exista na linguagem. Por isso, não podemos negar nossas próprias impotências. Para admitirmos o Outro, temos que admitir nossa própria castração, nossa própria limitação. 

A posmodernidade agrava a crise simbólica das condições estabelecidas na modernidade, para a subjetividade. Acentua o “não lugar” dos excluídos. Destrói o campo simbólico do Outro, do diferente.

Não inclui o terceiro, (ordem masculina que possibilita representação psíquica da tríade Pai-Mãe-Filho) o Outro, na lógica inconsciente discursiva.

É a pulsão de morte, o ódio primordial de indiferença ao Outro, primeiro tempo da constituição subjetiva, atuando em grande escala na civilização e impedindo maturidade cultural. Ódio distante da culpa, distante do reconhecimento de nossa falta constitutiva em ser. Impossibilidade de reconhecimento das diferenças de gênero, de limitações, de finitudes, tão necessárias a sujeição.

A ilusão não em relação ao Outro, mas, produzida pelo excesso de imagem, de signos sem sentido temporal, sem significação inconsciente. Um imaginário que se vincula ao real sem intermediação do simbólico, esse cada vez mais empobrecido pela ampliação da razão desafetada, artificial. Uma razão resultada de representações desvinculadas de carga de afetos valorativos, desvinculada de virtudes afetadas. Toda representação simbólica está ligada a uma carga de afeto. O que varia é sua intensidade.

Posmodernamente, verificamos uma democracia frívola e sedutora que não conduz à construção de subjetividade, nem na família, nem no social. A política de uma ética que não respeita o singular.

A comunicação ocupando o lugar da reflexão. Um consenso degenerativo do vínculo social. Uma civilização aparentemente sem resíduos e que, paradoxalmente, transforma as significações em resíduos de acontecimentos.

O discurso sendo transformado em resíduos. Numa avareza simbólica, ainda que, excessiva.

Por isso, o discurso jurídico de regulamentação dos direito e deveres do sujeito das relações jurídicas, sem considerar singularidades e, grande parcela dos discursos sociais, vem se tornando cada vez mais, um discurso do sujeito. “Do sujeito triturado pelos simulacros dos signos puros, desprovidos de significação”.

Montagens artificiais “sem sentido”.

Para que o discurso jurídico se torne “um discurso de direitos e deveres de “sujeitos incluídos no discurso” é preciso refocar o objeto do pensamento jurídico e,  escutar o “sem sentido” no discurso dos sujeitos, sem montagens artificiais. È preciso ampliar o inconsciente para que esse não se reduza, também, a simulacros.

É na angustia do verdadeiro “sem sentido” que se encontra o sujeito e, se amplia significações.

Um sujeito que tenha emergido do real como dividido entre significantes, é um sujeito que se constituiu na experiência do laço amoroso. É um sujeito que possui um clichê amoroso infantil e, que tem possibilidades de circular no campo simbólico e falar. É um sujeito que tem condições de encontrar significações no desfiladeiro dos significantes, através da transferência amorosa de pensamentos com o Outro, altero.

O sujeito no discurso é aquele que tem condições de construir um dizer e tirar conseqüências de seu dito. É aquele que tem condições de saber e assumir as responsabilidades de suas verdades. Tem condições de se questionar sobre seu ser e sobre o ser do Outro. O sujeito no discurso manifesta-se atualizando a sua estruturante constitutiva infantil, neurótica, perversa ou psicótica. É sabido que as estruturas psíquicas se fundam na primeira infância e se reafirmam na adolescência. Fatores genéticos e culturais estabelecem o fenótipo dos indivíduos e, determinam o comportamento subjetivo. Psicopatias, comportamentos anti-sociais, e diversidades psicopatológicas, decorrem de referenciais infantis primevos.

O superego, instância psíquica que, ousamos denominar de código de ética inconsciente que a criança constrói ao elaborar o complexo de Édipo (Lei do Nome-do-Pai – representante psíquico da Lei da proibição do incesto), recebe grande influência da lei jurídica a qual funciona como um dos principais determinantes externos de sua formação, pois, o próprio pai também está submetido a essa regra.

Portanto, se faz imprescindível uma ampla revisão crítica jurídica para procurarmos desenvolver novos critérios de identificação das singularidades subjetivas, com aprimoramento da teoria da personalidade jurídica, aos moldes da criação da Classificação das Penas, atenuantes e agravantes, as quais, recordemos, surgiram na época da Revolução Francesa, quando o saber Psiquiátrico passou a ser considerado na legislação Penal, conforme nos informa pesquisa elaborada por Michel Foucault.

Diante da complexidade de tal temática, ressaltamos que a verdade do sujeito digno só aparece na dialética amorosa do discurso.

Dessa forma, para que surja um novo sujeito de direito é preciso aborda-lo na transferência de pensamentos virtuosos. Abordá-lo numa dimensão da subjetividade, do simbólico e, principalmente, da significação.     

Assim sendo, para prospectarmos uma nova ética, o Direito necessita passar a estudar a pragmática da comunicação humana, e tentar regulamentar o comportamento, a partir da consideração da categoria do vazio (falta-a-ser) na estruturante constitutiva do sujeito e, da consideração do aspecto analógico da linguagem.

Ou seja, um Direito que passe a considerar os conteúdos expressos na comunicação não-verbal.

Trata-se de uma tradução mais adequada das determinações inconscientes que, semanticamente, sustentam as relações humanas, para o dígito da comunicação jurídica.  

A título ilustrativo: lembramos que uma lágrima pode ser de dor ou de júbilo.

O punho fechado pode assinalar agressão ou contenção.

E suma, precisamos trabalhar pela desconstrução/construção de um discurso do sujeito sempre renovado pelo aparecimento da singularidade subjetiva (formações inconscientes) no discurso. Trabalhar por um discurso juspsicanalítico que estabeleça mediações epistemológicas com outros campos de saber, resgatando de modo novo a criatividade, a sacralidade do ser, do Outro do desejo constitutivo da própria identidade.

Ver, ser visto e, ver-se visto no olhar do Outro, numa semiótica resultada de sublimação. Uma semiótica amadurecida e responsável pela perpetuidade da espécie humana digna.

Um saber que redirecione a subjetividade e a civilização. Um saber sustentado pela “escuta analítica” do sujeito de desejo, com intervenções mediadoras e organizadoras da subjetividade.

Um estatuto subjetivo sempre provisório mediando os conflitos do desejo humano. Mediando simbolicamente os conflitos de ódio em amor, intra o ser e o Outro. O reconhecimento simbólico amoroso da identidade do Outro.

O sujeito psíquico como produto da linguagem sublimada.

Problematizar o poder do “sentido” e do “sem sentido”, do simbólico, como ponto de encontro das identidades.

Transformar os “não lugares” simbólicos em “lugares” de significação subjetiva singular. Produzir na intimidade dos que falam. A intra-subjetividade histórica da humanidade a partir de referencias de significação. 

                                                                                                                                                       

 

REFERÊNCIAS

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