“As Horas” do “Admirável Mundo Novo”

 Ana Paula da Costa Gomes

 

            O objetivo desta apresentação é fazer uma leitura do filme dirigido por Stephen Daldry, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham “As Horas”. É preciso destacar inicialmente que como qualquer leitura de uma obra, esta apresentação também está fadada ao reducionismo que toda interpretação gera ao lidar com a grandeza de uma criação. Assim, peço licença a vocês, e de alguma forma desculpas a Stephen Daldry e Michael Cunningham por recortar a grandiosidade de seus trabalhos, alertando que há muito mais a se dizer sobre este filme para além do que apresentarei aqui.

            O filme conta a história de um dia na vida de três mulheres em três datas diferentes, tendo como mote “Mrs. Dalloway”, obra da escritora Virginia Woolf, uma das personagens do filme. As outras duas são Laura Brown que vive em Los Angeles na década de 50 e Clarissa Vaughan que vive em Nova York no ano de 2001. “Mrs. Dalloway” é o livro que se apresenta como fio condutor do filme, pois mostra Virginia sob os impasses de sua criação, Laura Brown leitora cativa do livro e Clarissa Vaughan apelidada por seu amigo e amante, o poeta Richard, como a própria “Mrs. Dalloway”.

            Uma primeira abordagem do filme nos faz pensar que iremos tratar da condição da Mulher, do feminino nos diferentes tempos que são apresentados. Não há como negar que há especificidades nestes tempos, como por exemplo a questão da inseminação artificial e a parceria conjugal de homossexuais, temas de debate constante neste “admirável mundo novo” . Porém, o que nos chama a atenção é justamente o que se repete na condição do feminino para Virginia, Laura e Clarissa, independente do tempo em que cada uma vive.

            O que se repete no filme?

            Primeiro: as três preparam uma festa, uma recepção e estão às voltas com os afazeres domésticos, sendo a figura dos ovos que se quebram bastante ilustrativa daquilo que da vida doméstica se parte, que rui. (Esta interpretação dos ovos é uma dica de Marco Antonio Coutinho no livro “ Sexo e Discurso em Freud e Lacan”, num capítulo onde ele analisa o conto “Amor” da minha querida Clarice Lispector)

            Segundo: as flores que encobrem o desacerto, o desencontro das suas condições de mulher. Ou como diz Richard sobre e para Clarissa : “você sempre dando festas para encobrir o silêncio.”

            Terceiro: as três sendo chamadas à cama por seus maridos e amantes para que adormeçam, entorpeçam e recubram o real de suas condições.

            O que une estas três mulheres é assim a tentativa de no decorrer das horas de um dia, em seus encontros e desencontros, tarefas e desejos, encobrir o real do feminino, aquilo que é inominável, impossível.

            Sabemos que Freud ao longo de sua obra não cessou de se perguntar “o que quer uma mulher?” Pergunta que até o final de suas elaborações teve apenas como resposta a lógica fálica para lhe dar contorno. No texto das Novas Conferências Introdutórias de 1932 “Feminilidade”, Freud dá três saídas para o complexo de Édipo feminino: a repressão da sexualidade, o complexo de masculinidade e a maternidade como equação simbólica pênis = filho. Especialmente sobre esta última saída quero me deter, pois o filme é exemplar para demonstrar o quanto a maternidade não responde, pelo menos não totalmente, à questão do feminino, mesmo tendo sido vista por Freud como sua melhor solução.

            Virginia não tem filhos. “.... vendo os filhos de sua irmã como se fossem uma lagoa na qual ela pode mergulhar ou não.” (Cunningham, M, 1999, pág. 96)

            Laura mesmo mãe de Richie e grávida de uma menina não deixa de pensar na idéia de suicídio. Além disso, os filhos não são motivo suficiente para que mantenha seu casamento, abandonando a família em busca de outra solução, encontrada no meio dos livros, recurso que ainda casada buscava para manter uma certa sanidade.

            Clarissa tem uma filha fruto de uma inseminação artificial, mas que numa conversa com a mesma deixa escapar, ao preço de um constrangimento e tentativa de conserto, que apenas quando está com Richard sente-se viva, como se este pudesse lhe dar um reconhecimento identificatório, ainda que ao preço de um peso muito grande por carregar o apelido de “Mrs Dalloway”. Diz Clarissa: “Quando estou com ele sinto que estou vivendo. Quando não estou, a verdade é que tudo parece banal.”

            Há algo que também chama a atenção no filme, envolvendo ainda a questão da maternidade, tendo a figura de Laura Brown como intermediária para se pensar neste mistério. Kitti, a vizinha por quem Laura mantém estreitos laços afetivos, diz-lhe: “ uma mulher só é mulher quando se torna mãe. Você é uma mulher de sorte !” Kitti não sabe contudo o preço que Laura paga por isso.

            Por outro lado, Laura ao saber na cena final do filme que Clarissa optou pela inseminação artificial pergunta-lhe: “Queria um filho tanto assim ?”, e perante a resposta afirmativa de Clarissa, Laura diz: “ Você tem sorte”. O que nos faz depreender desta fala que a maternidade não foi uma escolha consentida para Laura. Diz Laura ainda neste embate com Clarissa sobre o abandono de seus filhos: “ Seria ótimo dizer que me arrependi. Seria fácil. O que significa se arrepender quando não se tem escolha. É o que se pode agüentar. Ninguém vai me perdoar. Era a morte. Eu escolhi a vida.”

            Estas relações de Laura/Kitty e Laura/Clarissa evidenciam outro aspecto importante na condição do feminino: a relação das mulheres com a outra. Na relação com a outra, estas mulheres buscam uma possibilidade de identificação. Falemos, então, dos três personagens e suas relações com a outra mulher.

            Virginia com sua irmã. O beijo que Virginia dá em Vanessa aparenta ser uma tentativa de sugar a sua vida. Além da expectativa que Virginia tem com sua visita, à espera que ela reconheça sua melhora. “Vanessa será seu espelho, como sempre foi.” (Cunningham, M, 1999, pág. 95).

            Laura e sua vizinha Kitty. Para Laura, Kitty é a mulher que pode tudo. Kitty, por sua vez, vê em Laura a mulher de sorte por poder ser mãe.

            Clarissa e Sally são casadas, mas é com Richard com quem Clarissa se sente viva. Enfim, o que podemos perceber é que também na relação com a outra, estas mulheres não conseguem encontrar uma resposta para o impasse da feminilidade, impasse freudiano até seu texto final “Análise Terminável e Interminável”. Impasse do final de análise para homens e mulheres.

            Lacan ao tentar responder sobre este impasse tratará do feminino a partir das fórmulas quânticas da sexuação, onde diz que não há grupo de mulheres e que elas não estão totalmente submetidas à lógica fálica. Elas se constituem uma a uma.

            Interrogar o feminino exige que se leve em consideração um não-interpretável, um impossível de se saber. O término da análise consiste assim menos em apreender e localizar a feminilidade do que reconhecer o impossível de se saber.

            Serge André aponta em seu célebre livro “O que quer uma mulher?” que Lacan em seus seminários finais indica a poesia como a dimensão do que poderia ser a interpretação psicanalítica. Pergunta Lacan: “Como pode o poeta realizar esse esforço de fazer com que um sentido esteja ausente?” (André, S. 1986, pág. 288). Ou seja, como pode o poeta criar sem sentido, criar com o non-sense?

            Na análise mais do que procurar um significante novo que adviria no lugar do furo deixado no inconsciente pela falta do significante do Outro, do Outro sexo, do feminino, o analista deveria responder por uma “palavra vazia” modelada sobre a poesia que é efeito de sentido, mas também furo.

            Freud dizia em seu texto sobre a Gradiva de Jensen que “os poetas e romancistas detêm o conhecimento da alma, são nossos mestres, pois beberam em fontes que nós, homens comuns, ainda não tornamos acessíveis à ciência” (FREUD, S. ,1907. Pág 51)

            Retornemos ao filme. Lembremos que Virginia é e era uma escritora pela imortalidade de sua obra. Laura refugia-se numa biblioteca após o abandono da família. Clarissa é uma editora. Podemos pensar que a criação literária, a poesia porta a dimensão do não-sentido, da falta de um significante, mas também porta o novo, o ainda não dito. E que a escolha literária não foi qualquer na vida destas mulheres.

            A feminilidade aponta, então, para a possibilidade da criação, da singularização. Do um a um. Do um a um freudiano, aprendido como disse Lacan no seminário 17 pelas bocas luminosas de suas histéricas.

            E, assim, como cada caso é um caso, termino este trabalho dedicando-o a este que habita meu corpo, habita no meu corpo, meu filho. Mateus.

   

 

Bibliografia:

André, S – O que quer uma mulher?, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1987.

Cunningham, M. – As Horas, São Paulo: Companhia das Letras, 1999

Freud, S. – Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen (1907), vol.IX, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1980.

________  -   Feminilidade(1932), vol.XXII, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro : Imago, 1980.

________ - Análise Terminável e Intermináve l(1939), vol. XXIII, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1980.

Lacan, J – O Seminário, Livro XX – Mais ainda (1972-1973), Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988.

Mannoni, M. Elas não sabem o que dizem, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1999.

 

Obs.: As falas apresentadas no texto foram retiradas da versão em DVD do filme As horas, tradução para o português. Foram utilizadas também informações retiradas dos Extras do filme.