A ENTREVISTA

 

De José Martinho pela Directora da Rádio Paris Lisboa (FM 90.4)

Antonieta Lopes da Costa

 

 

 

Programa Os cinco sentidos

 (27 de Outubro de 2003, pelas 13h10)

 

 

Antonieta Lopes da Costa: Falamos hoje do livro Ditos II, conferências psicanalíticas, do Professor José Martinho. Diz, na contra-capa, que os textos aqui reunidos prolongam os Ditos publicados pela Fim-de-Século em 1999. Diz também que a razão da série é a mesma: mais vale publicar obras incompletas do que passar a vida a refazê-las. Que comentário faz em relação a este livro? É um livro que tem com certeza muita utilidade neste início do ano lectivo?

 

José Martinho: Também. De facto, é o segundo volume de uma série que intitulei Ditos. Tratam-se de coisas que fui dizendo sobre a psicanálise ao longo dos anos, em aulas – e neste aspecto elas podem também ser úteis aos estudantes, em particular aos estudantes de psicologia – mas igualmente em conferências e encontros científicos nacionais e internacionais. Os lugares e as circunstâncias variaram, mas aquilo que procuro sempre é dizer melhor o que é e deve ser a psicanálise.

 

ALC: Professor José Martinho, como é que vai a psicanálise em Portugal? As pessoas já vão sabendo melhor do que se trata, se tem alguma utilidade que se reflicta na sociedade em geral, ou é ainda uma espécie de redoma fechada, a que só os entendidos como o senhor têm acesso?

 

JM: Bem, para muita gente, talvez ainda para a maior parte das pessoas em Portugal, a psicanálise continua a ser vista como uma espécie de medicina da alma, como é a psiquiatria e a psicoterapia. Depois, na urgência, pedem muitas vezes ao psicanalista tratamentos rápidos e baratos, a vida moderna obriga a isso.

 

ALC: Mas isso é uma contradição com a própria psicanálise, não é?

 

JM: Nós gostaríamos muito, enquanto psicanalistas, de poder satisfazer um tal pedido. Só que sabemos, por experiência própria, que este tipo de «curas» não respeita a complexidade do ser e do pensamento humanos. Verificamos que, para tal, é preciso tempo, e que cada um tem o seu tempo próprio. Neste sentido, o psicanalista acaba por circular um pouco nas margens de uma sociedade que procura quase exclusivamente a utilidade imediata. É também por esta razão que se tem muitas vezes a impressão que a psicanálise vive num gueto, ou que só os entendidos a entendem. No entanto, a psicanálise pode ser muito simples, não só a nível da clínica como da teoria. Basta que percebamos que aquilo de que ela se ocupa essencialmente é das coisas do amor. Parece pouco, mas só os tolos, dizia Freud, é que não sabem que o amor é o que há de mais importante na vida. Acrescento o seguinte: o amor tanto faz bem como mal. Como é um sentimento que encontra o seu fundamento humano na palavra, é pela palavra que a psicanálise procura resolver as vicissitudes do amor. E isto, uma vez mais, demora algum tempo.

 

ALC: Isto significa, Professor, que os casos dramáticos que lhe chegam por vezes às mãos têm a ver com desamor ou com o tal lado do amor que prejudica?

 

JM: Não tenha dúvida que o amor é uma das principais causas do sofrimento humano, tanto na infância, como na adolescência e na idade adulta. As pessoas sofrem de amor e por amor, ficam angustiadas com a perda do amor, e isso a tal ponto que o pior que lhes poderia acontecer é de se sentirem desamadas por toda a gente. De qualquer modo, em todas as histórias há sempre uma história de amor. A psicanálise acaba também por ser uma história de amor. Efectivamente, a psicanálise é um pequeno artifício de discurso, através do qual se procura resolver, graças a um novo amor, o amor analítico ou pelo analista, as outras histórias de amor.

 

ALC: Os seus alunos lêem os seus textos e sabem da publicação dos seus livros?

 

JM: Sim. Muitas vezes, por brincadeira, digo-lhes que é a única maneira de distinguirem a verdadeira psicanálise da psicanálise Coca-Cola que se vende por aí. Dado que sou professor dos meus alunos, eles entendem que é importante lerem o que escrevo, que isso não é independente do que digo nas aulas, ou no Seminário da Antena do Campo Freudiano, a Associação de psicanálise que fundei. Já agora, se me permite, aproveito para informar que acabámos de abrir uma Pós-Graduação em Psicanálise na Universidade Lusófona, que é a Universidade onde eu ensino. Os interessados por este curso pioneiro que se dirijam o mais rapidamente possível à Secretaria das Pós-Graduações e Mestrados, afim de proceder à sua candidatura enquanto há lugares.

 

ALC: Professor José Martinho, nos últimos tempos, até por tudo o que o nosso país atravessa, tem-se falado muito mais de saúde mental. Acha que isto é positivo?

 

JM: Sabe, a doença mental não existiu até ao século XVIII, ou seja, os seres humanos não admitiam a existência da doença mental como uma entidade à parte. E ainda hoje há muita gente que pensa que ela não existe, que as doenças são essencialmente físicas, e que é com uma acção directa sobre o corpo, sobre os neurónios ou as moléculas, que podemos resolver os problemas da mente e até da sociedade. É evidente que há muito caminho ainda por fazer e, por isso, é importante que se fale de «saúde mental», e que a categoria seja elaborada pelos especialistas, para que se discuta publicamente a natureza da doença mental e os métodos utilizados para a tratar.

 

ALC. Muito obrigada, Professor José Martinho. Teremos certamente outras oportunidades de o ouvir sobre a antena da RPL. Aconselhamos vivamente o seu livro. Foi um prazer estar à conversa consigo. Uma boa tarde.