NOTAS SOBRE DOGVILLE

João Peneda

Dogville é um filme (Dogma) que não nos deixa indiferentes. Faz sintoma ao ponto de desconcertar alguns. A história passa‑se numa pequena vila da América dos anos 30, isolada nas montanhas. Todo o filme é uma peça de teatro, num estúdio fechado, com nove actos e prólogo. Lars von Trier reduz os meios em favor da narrativa. A encenação é sóbria, por isso a palavra (o significante) e até da letra ganham um outro destaque. O filme começa de cima, com a câmara em voo picado. Mostra-nos o plano de Dogville com as marcas a assinalar as ruas e as casas, e os respectivos nomes. Tudo se organiza em torno do eixo principal (Elm St.).

Tom, escritor frustrado, ocupa-se da preservação do ideal comunitário (dictum). É uma espécie de pároco sem religião, um filósofo. Num tempo de recessão, exorta a sua gente e restituiu alguma dignidade a quem se limita a lutar pela sobrevivência. A certa altura este idealista está preocupado em criar uma boa ilustração para o seu discurso, uma ideia luminosa (Edison), para apresentar à assembleia. A "ilustração" acaba por lhe cair literalmente do céu, Grace (a graça). Foi o cão de Dogville que deu o sinal da presença de uma forasteira fugida de um tiroteio longínquo. Aliás, o cão ocupa o lugar-tenente (Dogville) desta comunidade alertando-os para os perigos. Quando Grace chega, esta roubou‑lhe o osso. Mau presságio. Este cão totémico tem o nome simbólico de Moisés: o homem das tábuas da lei, da aliança com Deus, do retorno à terra prometida.

O percurso de Grace é uma paródia à parábola bíblica do filho pródigo. Lars von Trier acrescenta algum refinamento. Uma mulher que por sua conta e risco abandona o mundo corrompido e persegue (to dog) outra forma de vida, abrigo. Busca em Dogville ser aceite por uma pequena comunidade, aparentemente distante dos vícios das grandes cidades. É também o amor de Tom que Grace parece encontrar. Aparentemente, um substituto paterno à altura. Compreensivo, nada "arrogante", cheio de princípios, mas com alguns pruridos. Contudo, essa mulher, apesar da sua boa vontade, começa a desequilibrar as forças e as cumplicidades desse remoto povoado.

Com a chegada de um grupo de gangsters e da vinda da polícia atrás de Grace, a atitude da população mudou radicalmente. Agora todos reclamam em troca um pagamento pelo facto de esconderem a fugitiva. É toda a perversidade humana e o seu carácter vil (dog) que vem à tona. Grace é usada e abusada. Todos se aproveitam da sua vulnerabilidade, fazem dela um objecto de uso, de exploração. Retorno (do recalcado) da escravatura. Até uma criança pede para ser batida para assim satisfazer o seu fantasma masoquista. Em seguida, denúncia com frieza Grace por maus-tratos. A pouco e pouco, ela é forçada a transformar-se na cadela de todos aqueles homens de Dogville. É humilhada até ao máximo da crueldade humana. A perversidade daquela gente faz de Grace o mais abjecto dos seres. Um Cristo no feminino, enviada à terra, martirizada e crucificada com uma coleira ao pescoço, presa a uma roda de ferro que arrasta pelas ruas de Dogville.

No último acto, dá-se um golpe face. Tom havia mentido e sempre tinha guardado o cartão com o contacto do chefe dos gangsters. Depois de reunir a sua assembleia, deliberam entregar a fugitiva a esse grupo de mal feitores. Depois de um suspeito dia de folga concedido a Grace, chega então a caravana de marginais. Para surpresa geral, o chefe é o próprio pai de Grace. É o retorno de uma espécie de horda primitiva. Inverte-se agora a relação senhor/escravo.

Grace tinha procurado escapar à alçada paterna, acusava o seu pai de ser "arrogante". Este faz-lhe ver contudo que a sua saída foi levada a cabo sob a tutela do mesmo significante, ela é igualmente "arrogante", mas de outro modo. Grace acabou por reencontrar a figura paterna de quem procurou distanciar-se, mas de quem nunca se libertou. Na fuga vem a cair nos braços daquele de que fugia. Não é afinal de contas diferente do seu pai, apenas o tentou contrariá-lo (arrogantemente). Mas era ainda o significante paterno que se fazia valer na sua fuga e pela qual ela pagou um preço elevado.

Na senda de Nietzsche, para além do bem e do mal, Lars von Trier recria e denuncia a moral dos fracos, dos humildes (a força do fraco). A paradoxal arrogância do servil. Com Freud aprendemos que por detrás da capa da bondade, da submissão se pode ocultar um supereu feroz, cruel, inumano. A graça (Grace) pode esconder a maldição. O gozo masoquista pode-se reverter no seu contrário (sadismo). A violência contida, dirigida contra o próprio eu pode-se direccionar reforçadamente contra o outro.

Conciliados e cúmplices, pai e filha, sob os auspícios de um poder discricionário, deliberam sobre a lição a dar àquela gente. Para o chefe dos gangsters bastaria uma morte simbólica, a do cão de Dogville, para assim os assustar o suficiente. Contudo, a vingança, servida no feminino (Medeia por exemplo), exige outro requinte. Detentora do poder absoluto, Grace pondera. Em imaginação, coloca-se no lugar dos seus carrascos, reconhece que porventura procederia do mesmo modo, mas conclui que aquela gente não merece viver. Diz que são apenas "cães que seguem a sua natureza." O anjo da guarda de Dogville transforma‑se num anjo exterminador. A graça torna-se uma desgraça brutal (doggish). É lançado fogo sobre Dogville, como aconteceu a Sodoma e Gomorra. É a vingança (retorno) do Deus do Velho Testamento (God will), sob a forma actualizada de um chefe de gangsters (Dies Irae, "Stabat mater" de Pergolesi).

Aos olhos de Grace, Tom merece uma punição exemplar. Ele revelou ser um embuste, cínico, hipócrita sem limites. É o pior dos cães, pois fazia-se passar por outra pessoa, mas acabou, reforçado pelos seus ideais, por se tornar no mais desprezível dos seres. Até perante a eminência da sua execução sumária, pelas mãos da própria Grace, Edison ainda sonha com a sua obra, o seu livro, com uma ideia luminosa. Coloca ainda Grace no lugar do objecto da sua suposta arte. As contas saíram-lhe furadas, a realidade da "ilustração" que procurou abateu-o sem piedade, como se de um cão se tratasse. O autor de Dogville, com a sua obra, não deixou de correr também esse risco. Um tiro na cabeça de Tom para finalmente quebrar o ciclo obstinado (dogged) dos seus pensamentos incertos. Grace consegue assim bater o pai em "arrogância" e crueldade.

Dogville é a ilustração de um mundo de canalhas, um mundo de cães e de cadelas. Um mundo onde reina o interesse mesquinho, vital, onde já não há ética, nem vergonha. A verdade inquestionável (dogma) dos novos tempos. Não há lugar à contestação, à diferença, ao outro. Claustrofóbico como o estúdio de Dogville, este mundo de cão é perturbador, aí impera uma forma única de sentido, de gozo: a lei da força (gangsters) e a força da lei (polícia). Morde-se e/ou se é mordido. Um mundo feito de cumplicidades, de uma fidelidade canina, interesseira. É sufocante pensar que não existe outra forma humana de vida.

Este filme não pode ser mais desconcertante para o público (feminino). O amor é uma miragem, o erotismo não existe, o que há da parte do outro é uma violação permanente, fruto de um olhar masculino perverso. O Outro sexo está reduzido à condição de mero objecto de satisfação sexual (canina). O filme é a anulação do feminino, é o seu esbatimento no gozo fálico (paterno). Um mundo de um gozo único, generalizado. A própria Grace (graça), sem alternativa, se converte de bom grado a este regime de gangsters. Não há salvação, não haverá para a mulher e também para o homem outra forma de ser. Eis a intenção perversa do realizador. Confrontarmo-nos, angustiar-nos com a tirania de um dogworld a que todos se submetem e que não deixa lugar para um "gozo Outro" (Lacan).