OS COMPANHEIROS DO SUJEITO

(algumas notas sobre o filme Citizen Kane de O. Welles)

Filipe Pereirinha

Sobre este filme pouco ou nada há a acrescentar. Ele é, verdadeiramente, o filme de uma vida: não só porque “retrata” uma vida (a de Charles Foster Kane), mas porque se tornou, para muitos, no filme da sua vida.

Desde logo, o que nele desconcerta (e ao mesmo tempo encanta) é a desproporção evidente entre a forma excessiva (com um ritmo por vezes alucinante) e a relativa magreza de conteúdo. De facto, todo ele se resume numa investigação em torno de uma única palavra derradeira e enigmática pronunciada por C. F. Kane antes de morrer: Rosebud. No resto, ele é a história de um homem que ascende e cai (paródia, no fundo, de todos os “grandes homens” da história, e mais concretamente da história da América), provocando no espectador um misto de estranheza (na medida em que, diferentemente de nós, ele leva o seu desejo até alturas quase inalcançáveis) e, simultaneamente, de familiaridade (na medida em que, como dizia alguém recentemente desta personagem, após ver o filme: “afinal, ele é tão parecido connosco!”).

Mas quem é, no fundo, Charles F. Kane? Eis a pergunta que se mantém, do princípio ao fim, como o verdadeiro fio condutor deste filme. Já a resposta varia. Segundo as opiniões divergentes dos seus contemporâneos, ele oscila, no limite, entre “comunista”, e “fascista”. Ou então, segundo palavras do mesmo, ele é simplesmente um americano. Mas isso é apenas o princípio, pois, como vai ficando progressivamente mais claro, ao longo do filme, apesar de tudo o que ele comprou (sobretudo jornais e jornalistas) e de tudo o que foi acumulando no seu palácio de Xanadu (paródia de Kublai Khan) ao longo dos anos, apesar da mulher rica (sobrinha do presidente) com quem casou e da mulher pobre (que o amou pelo que ele não tinha e por quem ele perde a razão, a ponto de lhe comprar uma ópera), apesar, enfim,  de tudo o que ganhou e perdeu, ele é, e sempre foi, essencialmente, um homem só. É interessante, a este propósito, o que diz Kane a certa altura, após conhecer Susan, aquela que viria a ser a sua segunda mulher: “Estamos ambos sós”[1]

Mas até o homem só tem os seus “parceiros”, os seus objectos predilectos, as suas recordações de infância, os companheiros da sua solidão. É por isso que quando tudo o resto se esfuma e arde (uma das imagens finais é precisamente a do fumo que sai de uma chaminé e se eleva irremediavelmente no ar) o que resta são as “relíquias”, agora inertes, a que o sujeito se agarrara e onde depusera todo o seu ser. Quando morre, Kane deixa cair uma bola de vidro e pronuncia a enigmática palavra: Rosebud É em torno dela que vai desenrolar-se toda a inquirição (de resto, Inquirer é também o nome do primeiro jornal comprado por Kane) que faz mover a trama deste filme.

Mas o que é, afinal, Rosebud? Talvez o nome de uma mulher ou de um cavalo em que ele tenha apostado…São várias as hipóteses levantadas, mas nenhuma delas parece suficientemente satisfatória. Há até mesmo quem sugira: “Provavelmente até é uma coisa simples” (Rawlston)[2]. É desta “coisa simples” que se espera a revelação do que faz com que Charles Foster Kane não seja apenas mais um grande homem como tantos que o antecederam (Ford, Rockfeller…), mas um homem que, tendo sido amado, odiado, falado como todos os grandes homens, morre a chamar por Rosebud, apenas uma palavra que parece condensar tudo o que resta finalmente do que foi a sua vida.

O inquérito que é levado a cabo acerca do significado enigmático desta palavra não é conclusivo. No entanto, ele vai deixando “pistas”. Há uma que é, se quisermos dizer as coisas assim, da ordem do real. Quando Kane, depois de perder a segunda mulher, é tomado por um ataque de fúria e destrói literalmente o quarto, partindo, rasgando e atirando ao chão tudo o que encontra no seu caminho, há um momento em que, detendo-se, dirige o seu olhar para uma estante, a um canto, que escapara à sua fúria. Aí, bem à vista, na prateleira do meio, há uma pequena bola de vidro com uma tempestade de neve no seu interior. Após um empurrão, a bola de vidro acaba por cair, rebolando até aos seus pés. Kane segue-lhe o movimento com os olhos. Tenta apanhá-la mas não consegue. Raymond apanha-a e dá-lha. Kane, olhando-a timidamente, sai para o corredor com ar abatido. É esta mesma bola que Kane deixa cair, quando morre, pronunciando a enigmática palavra: Rosebud.

Porém, há neste objecto, a bola de vidro, algo que remete para um outro registo a que poderíamos chamar imaginário. Com efeito, quando Kane se afasta pelo corredor, numa das cenas finais, ele vai agitando a bola de vidro e observando as tempestades de neve que ocorrem no seu interior. Esta imagem remete directamente para uma recordação de infância: quando Kane, ainda criança e pobre, deslizava na neve, aparentemente feliz, no seu velho trenó. É este velho trenó que vemos, numa das últimas cenas, ser atirado ao forno e arder, enquanto, apesar das letras esbatidas, se pode ler, inscrita nele, a palavra “Rosebud”. É com estas memórias de infância que Kane se vai afastando lentamente pelos corredores enquanto os criados o vão olhando e abrindo alas para ele passar. Os espelhos que o ladeiam reflectem e multiplicam a sua imagem inúmeras vezes e em longas perspectivas. Vêem-se milhares de imagens de Kane. Finalmente, revela-se o que foram todos os outros para ele: apenas imagens, reflexos de si mesmo (o que, de resto, Susan, a sua segunda mulher, não deixou, em momento oportuno, de lhe atirar à cara). Ou seja: companheiros da sua solidão.

Mas não é tudo. Há ainda um outro registo. Quando, no final, todos perguntam a Thompson o que ele tinha descoberto sobre Rosebud e ele responde: “Pouca coisa”, há um jornalista que o questiona: “Então, que tens andado a fazer?”. A resposta de Thompson é esclarecedora: “A brincar com um puzzle” (brincadeira que era realmente a preferida de Susan na infinita solidão do palácio de Xanadu). E ao comentário de uma rapariga que diz: “Se tivesses descoberto o significado de Rosebud, aposto que isso explicaria tudo”, ele replica com estas palavras: “Não creio. De qualquer modo, não muito. Charles Foster Kane foi um homem que teve tudo o que quis e perdeu-o. Talvez Rosebud fosse qualquer coisa que não conseguiu ter ou que perdeu, mas isso não explicaria nada. Não creio que uma palavra possa explicar a vida de um homem. Não – aposto que Rosebud é apenas a peça perdida de um puzzle.”[3]

O que é então Rosebud? Apenas uma palavra derradeira e sem sentido que marca um vazio. O nome da “coisa” que o sujeito perdeu irremediavelmente. Mas também o nome da causa que o fez coleccionar objectos para tentar encher esse vazio. “Se juntarmos tudo isto – os palácios, os quadros, as ninharias – que significado terá?”, perguntava, no final, um fotógrafo. Resposta de Thompson: “Charles Foster Kane”[4]


 

[1] Cf. Orson Welles e Herman J Mankiewicz, “O Mundo a seus Pés” (Citizen Kane), texto e notas de Lauro António (Colecção “Guiões”), Edição Centro de Estudos de Escrita Audiovisual/Famalicão, p. 72.

[2] Op. cit., p. 24.

[3]Cf. Op. cit., p. 119.

[4] Cf. Op. cit., p. 118.