CARTA ACF

Nº 9 - Janeiro – Fevereiro - Março de 1998

 

DO QUE RETORNA SEMPRE AO MESMO LUGAR

José Manuel R. Alves

 

Dois pressupostos estão na base da Ciência Moderna: a realidade é estruturada e retorna sempre ao mesmo lugar.

Este "retorno ao mesmo lugar" indica-nos, "à maneira de uma bússola, a estrela polar da relação do homem com o real" (Lacan).

Era já a observação feita do retorno ao mesmo lugar de determinado astro, que indicava ao agricultor quando convinha semear os seus trigos, do mesmo modo que este retorno tinha um papel importante na vida do pastor ou no itinerário da marinha mediterrânea. Mas é a história da Ciência que mostra como é esse retorno dos astros ao mesmo lugar que acabará por desembocar na estruturação da realidade pela Física.

Partindo dos trabalhos de Alexandre Koyré, Lacan situa, deste modo, o nascimento da Ciência Moderna no século XVII: leis fecundas desceram do céu à terra; mas da terra, a física galileana fez subir de novo estas leis ao céu, mostrando que os astros não são nada daquilo em que se acreditou inicialmente, que eles não são incorruptíveis, que eles estão submetidos às mesmas leis que o mundo terrestre.

As leis são do céu na medida em que exprimem o retorno ao mesmo lugar, dando conta da regularidade de movimentos eternos atribuída à harmonia e à glória do Criador. A sua descida à terra tornou-se fecunda porque o homem as depurou das representações imaginárias, ao descobrir a estrutura matemática que forma a sua essência.

De seguida, estas mesmas leis puderam subir ao céu e fazer falar o eterno silêncio dos espaços infinitos que assustava Pascal, ou seja, integrar em Universo um mesmo e único sistema de transformações.

Doravante, estas leis, escritas em linguagem matemática, passam a dar unidade aos fenómenos terrestres e celestes, desde a queda dos graves, estabelecida por Galileu, passando pelas leis de Kepler e a teoria da gravitação de Newton até à teoria da relatividade de Einstein.

O que está, em todos os casos, pressuposto, é que existe um saber inscrito no real, ou que a realidade é estruturada. No entanto, a lei física é a articulação de umas poucas letrinhas de álgebra. Depois de formuladas, estas leis deixam a impressão de que sempre foi assim, ou seja, mostram significantes funcionando no real, expurgados de significação imaginária, sem intenção.

Por um lado, no discurso da Ciência, o significante nada quer dizer; mas, por outro, o significante está lá, na natureza, organizado de acordo com leis. É por isso que a Ciência está sempre ligada à ideia que há um saber no real, que funciona independentemente da ideia que tenhamos dele.

O destino da Ciência está ligado a uma formalização sem sujeito, não a uma medição. Enquanto a medida pressupõe a redução da qualidade à quantidade, o número é apenas uma ordem simbólica inscriptível no real. O Um do número não se amarra com o Outro (sexual), como mostra a cadeia significante dos todos uns. Esta desexualização produzida pela Ciência Moderna será aquilo que acabará por pôr em realce que o real - aquele que resta à psicanálise - é o impossível, o que resiste a toda a apropriação.