CARTA ACF

Nº 8 - Outubro – Novembro - Dezembro de 1997

 

LIBIDO: O MITO DA LÂMINA

José Manuel R. Alves

 

Para esclarecer o que é a libido, Lacan, num dado momento do seu ensino, recorre à criação do mito dito da "lâmina" (lamelle).

É nestes termos que precisa o problema: "a libido não é nenhuma coisa de fugaz, de fluido, ela não se reparte, nem se acumula, como um magnetismo, nos centros de focalização que lhe oferece o sujeito; a libido deve ser concebida como um órgão, nos dois sentidos do termo, orgão-parte do organismo e orgão-instrumento".

Considerar a libido com um órgão, mesmo em referência à significação do falo, obriga a tomar algumas precauções. Com efeito, diz Lacan, trata-se de um "órgão inapreensível", ou de um "falso órgão", mas "essencial para compreender a natureza da pulsão".

Como órgão, a libido é irreal. "Irreal, previne Lacan, não é de modo algum imaginário. O irreal define-se por se articular ao real de um modo que nos escapa, e é justamente isso que exige que a sua representação seja mítica, como a fazemos".

O mito que Lacan vai construir será ainda, como em Freud, apadrinhado pelo que diz Aristófanes sobre a natureza do amor (Eros) no Banquete de Platão.

O mito do Andrógino conta que os seres humanos começaram por ser esféricos, completos e perfeitos, mas que, por isso mesmo, desafiavam a própria natureza divina. Perante os excessos desmedidos do homem, os deuses resolvem intervir com a sua acção reguladora, infligindo a cada um desses seres um corte e subsequente separação em duas metades. A partir dessa intervenção, cada uma das metades busca pateticamente o seu complemento na outra metade perdida.

Lacan propõe que se coloque a "lâmina" no lugar desse ser inicialmente esférico, perfeito e completo. Para acentuar o lado cómico, a lâmina poderá ser chamada homelete (hommelette); esta "vão ver, é mais fácil de animar do que o homem primordial, em cuja cabeça sempre é preciso que metamos um homúnculo para o fazer funcionar".

A animação da lâmina começa com o romper da placenta: "de cada vez que se rompem as membranas do ovo de onde vai sair o feto prestes a tornar-se um recém-nascido, imaginem por um instante que algo daí levanta voo, que se pode fazer com um ovo tão bem como um homem, isto é, uma homolete".

Animada a lâmina, resta agora estabelecer as principais características do estranho órgão.

Seria "algo de extra-plano, diz Lacan, que se desloca como a ameba. Simplesmente, é um pouco mais complicado. Mas isso passa por toda a parte. E como (...) tem relação com o que o ser sexuado perde na sexualidade, é, como a ameba em relação aos seres sexuados, imortal. Porque sobrevive a qualquer divisão, porque subsiste a qualquer intervenção cissípara. E isso corre".

Uma tal definição traduz, sem dúvida, uma presença assaz incomodativa. Com efeito, admitir a lâmina como algo que nos escapa, que corre e se multiplica por cissiparidade, como sendo eterna e dotada de uma viscosidade envolvente, não é nada tranquilizador. Bastará apenas supor, como sugere Lacan, que isso nos venha envolver o rosto enquanto dormimos tranquilamente: "vejo mal como não entraríamos em luta com um ser capaz dessas propriedades. Mas não seria uma luta cómoda".

A lâmina tem também uma borda, que se insere e delimita os orifícios do corpo que são as «zonas erógenas»

Qual o valor deste mito? Ele consiste no facto de pôr em realce a perda a que está condenado o ser vivo, quando submetido à reprodução sexuada.

Em referência ao "puro instinto de vida, quer dizer, de vida imortal, de vida irrepreensível, de vida que não tem necessidade, ela, de nenhum órgão, de vida simplificada e indestrutível", a lâmina é "o que é justamente subtraído ao ser vivo pelo facto de ele ser submetido ao ciclo da reprodução sexuada".

É esta submissão do ser vivo às exigências da reprodução sexuada, que, num primeiro tempo, vai dar conta do objecto perdido que causa o desejo.

Isso, porque os objectos efectivos do desejo são apenas os substitutos desta perda vital. Por exemplo, o elemento da organização mamífera que é o seio, não se perde unicamente com o desmame, pois conjuga-se já com a perda dessa parte de si mesmo que a placenta representa no momento do nascimento.

O objecto perdido não poderá, no entanto, ser considerado como o dado mais originário do ser humano; ele não é um ponto inicial que determina tudo o resto. O sujeito apenas sabe do objecto perdido, porque a sua falta é sobredeterminada pela fala, já que é a linguagem que permite evocar ou designar o objecto como "perdido". Dito de outro modo, a dimensão do objecto perdido é sempre correlativa da criação do sujeito pelo significante, na medida em que "o sujeito, in initio, começa no lugar do Outro".

É o desejo que liga o sujeito do inconsciente (estruturado como uma linguagem) à pulsão dita "oral", "anal", etc.; como é ele que o liga ao que Lacan chama a "pulsão escópica" e a "pulsão invocante", pulsões cujos objectos (olhar e voz) em nada participam de uma realidade material concreta.

Equacionados deste modo os termos, convirá agora que clarifiquemos convenientemente o estatuto da falta no jogo libidinal do desejo, o que fazemos com base num comentário de Lacan: por assim dizer, há uma primeira falta, que deriva da acção do Simbólico, porque é um efeito do significante sobre a realidade do ser vivo; mas há também uma outra, imposta pelo Real, porque relacionada com o facto que a reprodução sexuada acarreta a morte do indivíduo da espécie.

Face a estas duas faltas, a solução que o mito de Aristófanes veicula é "patética, e enganadora", porque diz que é a outra metade sexual que se procura no amor. Ele admite como pressuposto que essa metade existe, e que será capaz de restabelecer a unidade original de perfeição, felicidade e completude perdida. A resposta que advém da experiência analítica é bem diferente, deixando o ser humano numa incompletude estrutural.

A esta representação mítica do mistério do amor, a experiência analítica substitui a procura, pelo sujeito, não do complemento sexual, mas da falta, ou da parte para sempre perdida dele mesmo.

Mais ainda: a pulsão sexual não é só parcial relativamente ao objectivo da reprodução da espécie, ela é também "pulsão de morte", pois representa "a parte da morte no vivo sexuado".

Em síntese, diremos que a falta mais determinante é a que advém da constituição do sujeito no campo do Outro, falta que depois vem recobrir a outra que, embora anterior biologicamente, apenas ganha sentido desse modo. Mas porque as duas faltas se recobrem, parece-nos topologicamente mais correcto sustentar que se trata de dois níveis de uma mesma e única falta.

"Explico assim, afirma Lacan, a afinidade essencial de toda a pulsão com a zona da morte, e concilio as duas faces da pulsão - que, ao mesmo tempo, presentifica a sexualidade no inconsciente e representa, na sua essência, a morte".

Relativamente ao resto, a sexualidade fica entregue ao "aleatório". Fica entregue às explicações que dão ao sujeito, entregue à velha de quem se precisa, pois não é uma fábula vã, diz Lacan, que Daphnis tenha de aprender à sua custa tudo aquilo que se faz para fazer amor.

Chegados a este ponto, abre-se, necessariamente, um novo patamar, no qual "as vias do que é preciso fazer como homem ou como mulher são inteiramente abandonadas ao drama, ao roteiro que se coloca no campo do Outro - o que é propriamente o Édipo".