CARTA ACF

Nº 7 - Julho – Agosto - Setembro de 1997

 

 

A FELICIDADE

Filipe Pereirinha

 

"Ah! Como sabeis tão pouco acerca da felicidade do homem

vós que viveis no conforto e na bondade natural!

pois a felicidade e infelicidade são irmãs gémeas (…)"

 

Se é inegável que há desacordo e controvérsia em inúmeros aspectos da vida, tal não acontece no que diz respeito à felicidade. Senso comum, filosofia e psicanálise, por vezes tão divergentes e irredutíveis nas suas posições relativamente a outras matérias, dão-se aqui milagrosamente as mãos. O homem – afirmam em coro – deseja ser feliz. Ponto.

Abra-se, contudo, um novo parágrafo. Interrogue-se um elemento qualquer da trilogia acima referida. Por exemplo, um filósofo. Que tem ele a dizer-nos sobre a natureza e o conteúdo da felicidade? Se tomarmos como referência um texto mais ou menos recente do filósofo espanhol Fernando Savater sobre, precisamente, O Conteúdo da Felicidade, a resposta é a que segue: "Felicidade é aquilo que brilha onde eu não estou, ou ainda não estou ou já não estou". É caso para exclamar: estranho brilho, esse, que nos deixa às escuras! Também não é mais esclarecedora a frase que abre a conclusão, em apêndice, do texto mencionado: "Da felicidade, esse tema improvável, talvez só deva falar-se na primeira pessoa e, como é evidente, para a considerar perdida". Ora, não é isso o que faz, sem parar, o discurso corrente? Apetece dizer: de Aristóteles a Savater, foram necessários aproximadamente dois mil e quatrocentos anos para chegar a isto: ao óbvio.

Seja. Talvez em outras bandas tenhamos mais sorte. Repita-se a pergunta, desta vez ao fundador da psicanálise: o velho Freud. Que nos diz ele? Diz-nos que "até agora – nada consolador! – a nossa investigação sobre a felicidade não nos ensinou quase nada que já não pertença ao conhecimento comum. E mesmo que passemos dela para o problema de saber porque é tão difícil para o homem ser feliz – continua Freud – parece que não há maior perspectiva de aprender algo novo." Confissão de honestidade ou impotência, uma coisa é certa: encontramo-nos ainda ao nível do que salta à vista de toda a gente, isto é, do óbvio. E no entanto, como recorda Lacan em 1959, na introdução do Seminário dedicado à Ética da Psicanálise, "não escapa a Freud que a felicidade é (…) o que deve ser proposto como termo a toda a busca, por mais ética que seja". Resta, pois, uma pergunta legítima: será possível avançar, neste domínio, para além do senso comum?

 

O SUJEITO É FELIZ

 

Com esta surpreendente afirmação, proferida em 1974 por Lacan, somos levados a dar mais um passo. Um passo que introduz uma descontinuidade. Decididamente, não se trata de uma afirmação cujo sentido possa de imediato apreender-se. Ela vai ao arrepio do que é tido por manifesto e evidente. O que todos – salvo uma ou outra excepção que confirmam a regra – estariam dispostos a corroborar, não é a afirmação supracitada, como pretenderia Lacan, mas a oposta: o sujeito é infeliz. O que não está em contradição, aliás, ao menos aparentemente, com, digamos, uma leitura em diagonal do percurso freudiano. Dos Estudos Sobre a Histeria, escritos em 1895, ainda em colaboração com Breuer, até ao Mal-estar na Civilização, de 1930, existe um longo trajecto. Longo não apenas num sentido cronológico, mas também, e acima de tudo, epistemológico. Há novos conceitos que surgem, outros que ganham um alcance inusitado. Porém, sob o devir dos conceitos, algo permanece imutável: o sofrimento do sujeito. Se alguma coisa mudou entretanto, foi apenas o âmbito da queixa e não a sua intensidade; ou seja, o mal-estar é não apenas individual, mas também colectivo. E se quisermos manter a afirmação lacaniana de que o sujeito é feliz, somos confrontados inevitavelmente com uma dificuldade. Dificuldade expressa recentemente por Jean-Pierre Klotz, num artigo publicado na revista da Cause freudienne: "Se o sujeito é feliz – pergunta-se o autor – por que se queixa?"

É evidente que a pergunta faz sentido. Ela interpela, de um modo radical, o próprio cerne da afirmação lacaniana, trazendo à luz o paradoxo que a habita. De facto, como é visível desde os primeiros testemunhos clínicos de Freud, é sob a forma de uma queixa que o sujeito demanda o analista. É o mal-estar e a insatisfação que o movem e não a felicidade. Pois bem, apesar disso, Lacan insiste: o sujeito é feliz. E, provocador, acrescenta: "c’est même sa définition". O sujeito é feliz…por definição. O que está longe de ser imediatamente inteligível.

Tentemos, pois, a via negativa. Ao dizer que o sujeito é feliz, percebe-se facilmente que não se trata do indivíduo. A tal ponto que, servindo-me outra vez das palavras de Jean-Pierre Klotz, poderíamos dizer que "a felicidade do sujeito é a infelicidade do indivíduo". Eis uma possível formulação do que significa o tão apregoado ‘sujeito dividido’ em Lacan. No ponto mesmo em que o indivíduo sofre, o sujeito é feliz. Como acentua Jacques-Alain Miller, "quaisquer que sejam os seus infortúnios, ao nível do inconsciente ele é sempre feliz". Por conseguinte, o sujeito do inconsciente é feliz.

Vejamos, no seu todo, o parágrafo onde Lacan insere a dita frase. "Onde está, em tudo isso – pergunta-se Lacan – o que traz a felicidade, a boa sorte? Exactamente em toda a parte. O sujeito é feliz. É mesmo a sua definição, visto que ele só pode dever tudo à Sorte, à Fortuna dizendo de outro modo, e que toda a sorte lhe é boa para o que o mantém, ou seja, para que ele se repita." Poderíamos, evidentemente, ficar por aqui. Mas vamos insistir, lançando a pergunta…

 

DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE FELICIDADE?

 

Nisto de conceitos, o melhor é começar pelo princípio, quer dizer, pelo dicionário. É aí que o habitante da linguagem, o homem, vai depositando os sedimentos da sua experiência verbal. A palavra felicidade é um desses sedimentos. Ela indica, basicamente, a qualidade do que é feliz: um estado de contentamento, satisfação, bem-estar, ventura e por aí adiante. Não vamos aqui, naturalmente, esgotar o leque possível de sinónimos. De pouco serviria. Tomemos um deles, ao acaso, a título de hipótese, e exploremos as suas potencialidades.

Digamos, provisoriamente, o seguinte: felicidade é satisfação. Quando falamos de felicidade, falamos de satisfação. Desta ou daquela satisfação – pois ela admite um sem número de formas – e num grau maior ou menor. O que pode ir de um simples bem-estar até ao que seria uma satisfação absoluta, suprema, que alguns denominaram beatitude.

Com isso, infelizmente, o problema não fica resolvido. Somos coagidos a repetir a pergunta. De que falamos, no fim de contas, quando falamos de satisfação? Será de… prazer?

Admitamos, por agora, que sim. Aliás, uma tal suposição permite reabrir novamente o diálogo entre Freud e a filosofia, nomeadamente a filosofia antiga. É conhecido o interesse destes pensadores (falo de Aristóteles, de Epicuro, até mesmo dos estóicos…) pela questão do prazer. Vejamos um exemplo. Na Carta a Meneceu, Epicuro baseia no prazer os alicerces da felicidade. Ele é "o princípio e o fim da vida bem aventurada". Não um prazer desbragado, evidentemente, mas comedido. "Quando falamos do prazer como um fim – avisa Epicuro – não falamos dos prazeres dos dissolutos ou daqueles que têm o gozo por residência – como o imaginam algumas pessoas que ignoram a doutrina, não concordam com ela, ou são vítimas de uma falsa interpretação – mas de alcançar o estádio em que não se sofre do corpo e não se está perturbado da alma."

Nota-se que há um claro antagonismo entre a concepção de prazer aqui exposta, fundada essencialmente na ‘medida’, na ‘moderação’, no logos – para dizê-lo numa palavra – e essa outra que é baseada no que ultrapassa os limites: o ‘descomedido’, o ‘imoderado’, o ‘excessivo’. Pelo menos alguns dos estóicos perceberam muito bem esta diferença. Também eles consideram que "os prazeres dos sábios são calmos, moderados (…) e discretos". Daí que Séneca, por exemplo, tenha aproximado as duas sabedorias, mostrando que afinal uma poderia ser a verdade da outra. "Sou pessoalmente de opinião – recorda-nos ele – (…) que Epicuro dá preceitos veneráveis, justos e que, observados de mais perto, se revelam até severos; ele reduz o prazer a algo de mínimo e exíguo, e a regra que atribuímos à virtude, concede-a ele ao prazer." E acrescenta ainda: "Que a virtude caminhe à frente, que leve a bandeira, nem por isso deixaremos de ter prazer, mas dominado e regulado."

Um prazer dominado e regulado pelo ‘logos’; eis a constante que subjaz à duas concepções anteriormente apresentadas. Poderíamos, sem dúvida, explorar um pouco mais esta vertente, alargando-a a outros pensadores. Talvez que a reflexão moral antiga pudesse sistematizar-se em torno da correlação prazer e logos —não sendo as várias concepções mais do que diferentes modalidades da mesma. É uma hipótese.

 

Mudemos, todavia, de rumo. Interessa-nos estabelecer aqui a ponte com Freud. Será que o ‘princípio de prazer’, tal como ele o enuncia, é redutível a essa correlação entre prazer e logos? Dizendo de outro modo: é o princípio de prazer um herdeiro directo da sabedoria antiga? À primeira vista parece que sim, pois descobre-se nele a mesma – será a mesma? – tendência ‘reguladora’ que havíamos notado no ‘prazer’ dos antigos. Como se vê nesta formulação: "o princípio de prazer é, pois, uma tendência que opera ao serviço de uma função cuja missão é libertar inteiramente o aparelho mental de excitações, manter constante nele a quantidade de excitação, ou mantê-la o mais baixa possível." Na realidade, porém, o que está aqui em causa é sobretudo um programa, uma tendência que visa anular ou reduzir a tensão a zero. E, neste sentido, como reconhece Freud no Mal-estar na Civilização, "não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias". De alguma forma, portanto, ‘o princípio de prazer’ já vai…"além do prazer". Há neste princípio um ‘para além do prazer’, que Jacques-Alain Miller sublinha deste modo: "o princípio de prazer em Freud não tem nada a ver com o princípio de prazer antigo (…), em Freud o prazer escapa à moderação e ao cálculo e não tem aliança com a razão." Ele é um projecto desmedido que tenta realizar-se por todos os meios. Primeiro, alucinatoriamente; depois, fazendo um ‘desvio’ pela realidade, devido à pressão interna de que não consegue libertar-se e que lhe provoca desprazer. E eis que entra em cena, neste momento, o ‘princípio de realidade’. Foi devido ao fracasso, "à deficiência do princípio de prazer que Freud se viu obrigado a inventar o princípio de realidade". Mas, tal como "Clausewitz dizia que a guerra era a continuação da política por outros meios, também se pode dizer que o princípio de realidade é a continuação do princípio de prazer através de outros meios". Esta introdução sucessiva de diversos princípios não é mais do que uma tentativa, fracassada, de obter um ‘grau zero’ de tensão. Mas, em vez da concretização do objectivo almejado, resta sempre uma quantidade ineliminável. É essa quantidade que põe em movimento os diversos sistemas do aparelho psíquico.

Para complicar ainda mais as coisas, em 1920, Freud introduz uma nova suspeita em relação à predominância do princípio de prazer. Como pode facilmente observar-se na seguinte passagem: "os factos que nos levaram a acreditar na dominância do princípio de prazer na vida mental encontram também expressão na hipótese de que o aparelho mental se esforça por manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível, ou, pelo menos, por mantê-la constante. (…) Deve, porém, fazer-se notar que, falando em sentido restrito, é incorrecto falar da dominância do princípio de prazer sobre o curso dos processos mentais. Se tal dominância existisse, a imensa maioria dos nossos processos mentais seria acompanhada de prazer ou conduziria ao prazer, ao passo que a experiência universal contradiz, por completo, semelhante conclusão". Como se vê por esta passagem, começa aqui a delinear-se um "mais além do princípio de prazer". Ou, se quisermos continuar a apostar hiperbolicamente – à maneira de Descartes – na dominância de um tal princípio, será apenas naquele sentido de que fala Baudelaire na introdução d’ "Os Paraísos Artificiais", quer dizer, no privilégio sui generis de que goza o ser humano "de poder tirar prazeres novos e subtis mesmo da dor, da catástrofe e da fatalidade". Quanto a Freud, como designa ele este "prazer no desprazer"? "É óbvio – diz-nos – que grande parte do que é revivido sob a compulsão à repetição deve causar desprazer ao ego, visto trazer à luz actividades das moções pulsionais recalcadas. Isso, porém, constitui desprazer de um género que já considerámos e que não contradiz o princípio de prazer: desprazer para um sistema e, simultaneamente, satisfação para outro." ‘Compulsão à repetição’, portanto. Mas esta compulsão à repetição (ilustrada por Freud numa série de exemplos) vai mais além: "ela recorda do passado experiências que não incluem qualquer possibilidade de prazer, e que não puderam nunca, nem mesmo há muito tempo, ter dado satisfação a moções pulsionais que entretanto foram recalcadas". A que satisfaz então esse "eterno retorno do mesmo", essa repetição, se a hipótese, inicialmente colocada, do princípio de prazer, começa a ruir? A não ser que haja algo mais primitivo e fundamental que o princípio de prazer. Freud começa a acreditar que sim e dá-lhe um nome: trata-se da já referida ‘compulsão à repetição — "algo que parece mais primitivo, mais elementar, mais pulsional que o princípio de prazer".

Inverteu-se por completo o cenário. O princípio de prazer cedeu o lugar a outro senhor; esse outro senhor a que Freud chamará, de ora em diante, ‘pulsão de morte’. E em vez de dominar, "o princípio de prazer parece servir, na realidade, as pulsões de morte." Lacan, por seu lado, ao introduzir o conceito de gozo, vem pôr alguma ordem nisto. "O nome de gozo traduz fundamentalmente o que resiste à moderação do princípio de prazer." E qual é, então, o papel que sobra para este último? O de ser um limite. Um barreira. "Como é isso em Freud – pergunta-se Lacan no seminário da Ética da Psicanálise? – Desde antes das formulações extremas do Mais Além do Princípio de Prazer, é claro que a primeira formulação do princípio de prazer, ou do menor padecer, comporta evidentemente um para além, mas que é feito justamente para nos manter aquém ". Aquém do gozo, naturalmente.

 

O DESEJO, NÃO O GOZO

 

O sujeito goza. É o que pode concluir-se. Relembremos o que dizia Lacan no parágrafo de onde retirámos a frase ‘o sujeito é feliz’. Ele é feliz – dizia então Lacan – porque "toda a sorte lhe é boa para o que o mantém, ou seja, para que ele se repita." O sujeito repete-se. Nesta medida, ele goza. E, enquanto goza, é feliz. É feliz tanto na ‘felicidade’ – passe a expressão – como na infelicidade, no bem como no mal, no prazer e na dor. "O espantoso não é ele ser feliz, sem suspeitar o que o reduz a isso, sua dependência da estrutura — é ele adquirir a ideia de beatitude, uma ideia que vai suficientemente longe para que dela se sinta exilado." Para alimentar a miragem de uma tal beatitude, quer dizer, a possibilidade de uma satisfação completa, de um gozo absoluto e sem limites, o sujeito embrenha-se em todo o tipo de satisfações substitutivas, de que fazem parte o sofrimento e a infelicidade, preferindo viver no reino da impotência imaginária a confrontar-se com o impossível. Já Freud, em Mais Além do Princípio de Prazer, o havia reconhecido: "a pulsão recalcada nunca cessa de lutar por uma satisfação completa, que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação. Nenhum substituto, ou formação reactiva, ou sublimação, chegará para remover a tensão persistente da pulsão recalcada; e é a diferença de quantidade entre o prazer de satisfação que é exigido e o que é efectivamente conseguido, que constitui o factor impulsionador(…)". Mas, na psicanálise, como sublinha Lacan, "trata-se de elevar a impotência (a que dá razão do fantasma) à impossibilidade lógica (a que incarna o real)". E a pergunta não é, afinal de contas, se o homem é feliz ou infeliz, mas antes : "agiste conforme o desejo que te habita?" Eis a pergunta a que cada sujeito é convidado a responder.