CARTA ACF

Nº 7 - Julho – Agosto - Setembro de 1997

 

(Condensado da Conferência apresentada na ULHT no dia 24 de Maio de 1997)

 

SÓCRATES: O SINTOMA NA CIVILIZAÇÃO

João Peneda

 

Sócrates é porventura o primeiro sintoma na cultura <Kultur> ocidental. A sua figura é de tal maneira paradigmática na história do pensamento que teve efeitos retroactivos sobre o estatuto dos pensadores que o precederam, aqueles que se ocupavam da natureza <fusiV>; estes ficaram com a designação de pré-socráticos. Na história da filosofia ocidental, atribui-se a Sócrates, a responsabilidade de, pela primeira vez, situar o enfoque do saber no sujeito. O discurso de Sócrates é, por isso, o primeiro a pôr o sujeito em questão, a introduzir a dimensão do "sujeito da enunciação", isto é, o acontecimento subjectivo responsável pelos enunciados. O próprio Sócrates é a encarnação da falta em ser do sujeito, um sintoma, um mal-estar na cultura.

Sócrates queixava-se de uma voz que lhe causava mal-estar: "É uma coisa que me acontece desde a infância <ek paidoV>: uma voz <fwnh> que me surge e quando vem, sempre me impede de fazer alguma coisa , mas nunca me incita a fazê-la." Apol. 31d. Nesta passagem, encontramos um bom indício de uma dimensão de Sócrates que persistentemente lhe escapa, por isso, atribuiu-lhe a natureza demoníaca, divina. Disso Sócrates não parece querer saber, aí ele submete-se, obedece: "E parece-me que o deus não atribui a sabedoria a Sócrates, mas que se serve do meu nome, fazendo de mim um exemplo, como se dissesse: «Entre vós, homens, o mais sábio é aquele que, como Sócrates, na verdade, reconhece ser a sua sabedoria de nenhum valor.»" Apol. 23a-b. Sócrates é um mero objecto, é usado pelo deus, a ponto de fantasiar ser fustigado por essa entidade anónima: "se calha a ter uma bengala a jeito e não fujo a sete pés, arrisco-me a que me chegue pela medida grande…" HM 292a. Para Sócrates, esse alter ego, o seu superego, representa uma exigência de justificação, um esclarecimento máximo que Sócrates tem para si próprio: "jamais me permitiria fazer de ânimo leve afirmações não comprovadas, como esta, e muito menos dar-me ares de saber aquilo que não sei" 298b. Esta instância não lhe dá tréguas, Sócrates não encontra maneira de a satisfazer. Nesse sentido, Lacan lembra que "o supereu é estrutural, não é efeito da civilização, mas «mal-estar (sintoma) na civilização»." A consequência do daimon socrático é o por isso o "desejo de saber <epiqumia tou eidenai>", uma exigência de um saber absoluto que a figura de Sócrates encarna. Aristóteles, a abrir a sua metafísica, consagrou o sintoma de Sócrates como princípio da condição humana, como princípio do discurso da filosofia: todos os homens <panteV anqrwpoi> desejam por natureza saber <tou eidenai oregontai fusei>. 980a1.

Para concluir, e à revelia do dilema de Socrático - a miragem de um saber absoluto, Lacan anuncia que "não há desejo de saber"; aqui Lacan demarca-se do próprio Freud, do "famoso Wissentrieb". Esta posição implica, ao contrário da posição de Sócrates, que "o homem já sabe tudo aquilo que tem a saber". Alain Juranville comenta falando da "consequência necessária da ideia de inconsciente: o saber está aí, suficiente, e não é porque qualquer coisa escapa ao saber (o saber ele mesmo) que o saber está em falta – o que conta é o modo como o homem se relaciona como o seu saber". Por isso, a psicanálise chama a nossa atenção para "um saber que não se sabe <savoir qui ne se sait pas>", para um dizer sem se saber o que se diz, para um dito que não se queria dizer. A psicanálise ensina-nos portanto que nos enganamos ao acreditarmos que o nosso saber pode escapar ao inconsciente: a um "saber que não se sabe". Édipo cumpriu o oráculo funesto precisamente ao procurar escapar a ele. Sócrates julga escapar a isso quando se refugiava na certeza da incerteza, no saber que não se sabe o suficiente, mas aí está o seu ponto cego, um saber que não se sabe, aí isso goza.

Não é portanto à sageza socrática que a psicanálise aspira. O que Sócrates não põe em causa é a certeza da incerteza e o carácter ilusório da plenitude de saber, do saber pleno <sofia>. O problema de Sócrates não é não saber o suficiente, esse é o seu sintoma, o mal-estar que ele instala na cultura. O problema de Sócrates é não admitir que já sabe o suficiente e que o que pede, o que deseja é o impossível: o saber pleno <sofia>. Por isso, o desejo não encontra na realidade objecto que o satisfaça. O objecto do desejo (objecto a de Lacan) não só está irremediavelmente perdido, como é a causa do próprio desejo. A Coisa é portanto a causa e o objecto do desejo, o vazio deixado pela Coisa. O que Sócrates procura estava nas nossas costas <opisqen hmwn>. Lacan aqui procura ferir o coração do pensamento platónico, ao afirmar que "a Schwärmerei de Platão", o seu devaneio, foi ter colocado nas nossas costas a ideia do Bem Supremo, e não aquilo que ele designa de vazio impenetrável. Termino dizendo que se o objecto do desejo falta, resta ao sujeito a sua metonímia, o objecto pulsional, o contorno do objecto em falta.