CARTA ACF

Nº 5 - Janeiro - Março de 1997

 

 

(Condensado da conferência apresentada na ULHT no dia 27 de Janeiro de 97)

 

A FUNÇÃO DO BELO PARA LACAN

João Peneda

 

Para Lacan, a beleza, o fenómeno estético é uma barreira, mas também o que mais aproxima o sujeito do real puro que é a Coisa, o Outro absoluto do sujeito: "la beauté, en tant qu'elle orne, ou plutôt, qu'elle a pour fonction de constituer le dernier barrage avant l'accès à la chose dernière, à la chose mortelle" (SVII:15). No caso da tragédia grega, que Lacan analisou no Seminário VII, "o efeito do belo" consiste na proximidade do herói trágico ao seu próprio limite, à realização do desejo puro, o que acarreta, no enredo da tragédia, uma fatalidade <ath>. Neste sentido, a função do belo permite figurar o real, o impossível, a própria fractura do sujeito. A beleza torna o desejo visível, imeroV enarghV, dá visibilidade ao desejo puro, ao desejo de morte. Em resumo, a beleza desconfina <alhqeia> o sujeito porque o expõe ao real, ao encontro falhado <tuch> (tragédia), sem o confrontar contudo com esse real, dado que se detém no limiar da "segunda-morte" (tragédia).

Por outro lado, o belo é uma barreira face ao desejo. No Banquete de Platão, a função do belo aparece aí comentada por Lacan como miragem de imortalidade, isto é, como defesa em relação à geração e corrupção do ser mortal: "tout le discours de Diotime articule la fonction de la beauté comme étant d'abord une illusion, un mirage fondamental, par quoi l'être périssable et fragile est soutenu dans sa quête de la pérennité." (SVIII:153). Deste modo, a beleza dissimula o desejo de morte com a miragem de imortalidade. A obra bela torna atraente a aproximação ao desejo puro, prefigura o tempo real, mas inscreve-se ainda no tempo imaginário. A falta do objecto no real, o significante na cadeia significante, põe-o no imaginário, aí o significante é tomado isoladamente e produz, por isso, a presença ilusória do objecto absoluto. Deste modo, do significante deduz-se a plenitude e a sua falta. Ser segundo o significante é desejar. Numa palavra, o significante afirma o impossível a atingir, a Coisa, o Outro absoluto do sujeito.