CARTA ACF

Nº 3

 

ENCERRAMENTO DO SEMINÁRIO ACF

 DE BRAGANÇA DE 1995-1996

José Manuel R. Alves

 

Cada indivíduo, sendo ele subsidiário da operação significante sobre o seu próprio corpo, convive no seu mais distante âmago, com a conjunção dos poderes disjuntos de Eros e de Tanatos.

Tanatos, um princípio estruturante designado por pulsão de morte, constitui o fundamento último do mal-estar denunciado por Freud como impeditivo de uma sociedade hedonista, isto é, voltada para o equilíbrio homeostático que o princípio do prazer pressupõe no seu evitamento da dor.

As raízes desse mal-estar são estruturalmente inelimináveis, porque constituintes do ser; restará então encará-las de frente, no sentido da construção mais lúcida de uma teoria da Cultura, onde ainda alguns sustentam ingenuamente que o homem é naturalmente bom.

A proposta freudiana vai no sentido de um Mais além do princípio do prazer, onde o automatismo de repetição abre o horizonte do real inacessível da Coisa (das Ding).

Um ponto nuclear indispensável à compreensão das relações do sujeito à Coisa, segundo o pensamento freudiano, passa pelo estatuto reservado à função paterna. Inquire Lacan:"(...) o que é um Pai? - É o pai morto, responde Freud, mas ninguém o escuta, (...)" (Lacan, E. p. 812)

Nessa base, Freud conclui que a função paterna apenas se exerce através da acção do pai quando transcendente ao mundo e, para falar desse mistério concernente ao pai morto, cria um mito de que se conhecem três versões: a ascensão e o declínio do herói edipiano; o assassínio e repasto dos filhos do déspota da horda primitiva (Totem e tabu); e o retorno ao Deus uno e omnipotente (Moisés e o monoteísmo). Com efeito, não é o pai empírico nem um ente supremo, mas é o verdadeiro pai, o representante da lei, um "artifício procriador situado na linguagem pela função da fala ou da escrita"(Cf. Martinho, 1990, p. 104), que encontra a base da sua função simbólica na dimensão do significante designado por Lacan como Nome-do-Pai.

De todo o modo, nas várias versões do mito da função paterna, está sempre em causa a eficácia de um agente interditor, quer proibindo os filhos do "gozo da mãe", quer levando com a sua morte a chave do gozo e deixando assim os filhos na imposição do pacto e na esteira do desejo.

Por isso a grande lição do mito é a falta que permite desejar, a falta que a fala actualiza a cada momento e que faz parte do cerne da própria estrutura da linguagem.

Neste sentido, "o desejo do homem é o desejo do Outro", máxima lacaniana que podendo ser um ponto de partida ela é também um ponto de chegada.

 O desejo humano, porque é impossível de satisfazer plenamente, é equacionado por Lacan como desejo de nada, isto é, como um puro desejar, intransitivo e circunstanciado à impossibilidade de satisfação, na medida em que o objecto sempre falta.

É com a inscrição da linguagem num corpo biológico que o homem se funda como um ser desejante, na medida em que as palavras apenas podem representar a ausência de algo, isto é, a falta fundamental do objecto capaz de satisfazer o desejo.

Os objectos do mundo humano são apenas substitutivos do verdadeiro objecto que alimenta o desejo, objecto que é inatingível e do qual existe apenas uma miragem.

Nessa base, desejar, é "ter falta", ter falta de algo que por mais diversas que sejam as experiências de satisfação através de objectos substitutivos que a cultura mediatiza, o ser desejante permanece sempre na vertigem de um tudo que sempre falta.

Tudo que sempre falta, miragem de uma felicidade absoluta de que cada ser humano guarda apenas uma representação imaginária. Inerente ao desejo, e na base da presença inevitável dessa falta fundamental, ganha consistência uma negatividade radical que impede o sujeito de atingir o absoluto do prazer, o absoluto da felicidade.

Ora, essa negatividade constituinte caracteriza o desejo humano na base de dois vectores essenciais: (1) presença de uma falta irredutível que assinala a referência imaginária a um Bem Supremo; (2) imposição da lei da castração, interditora do acesso do sujeito ao objecto que o poderia satisfazer.

A lei interditora que promove a inacessibilidade à satisfação completa do desejo do sujeito é articulada por Freud como a "lei de proibição do incesto", na medida em que o representante do objecto fundamental, isto é, a mãe, ela é para sempre um objecto proibido, na base da interdição paterna.

A lei da castração, mais não é, em última instância, do que a submissão do sujeito à lei da linguagem, mediatizada pelo operador que Lacan designa por Nome-do­‑Pai.

A lei da castração, isomorfa da lei da linguagem, excinde o sujeito e impede a felicidade absoluta, isto é, o acesso ao objecto total, designado por Lacan pela "a Coisa" (das Ding).

Das Ding é um conceito extraído do texto freudiano "Projeto de uma psicologia para neuróticos" (1895) e "A Denegação" (1925), sendo redefinido por Lacan nos seguintes termos: "A Coisa, o que do real primordial…  padece do significante". (Lacan, S.VII, 142)

Das Ding é o produto da operação da linguagem sobre o real do vivente, restando ao sujeito apenas um furo em torno do qual o seu psiquismo é estruturado.

Porém, das Ding situa-se num nível distinto das coisas (die Sache), isto é, os bens particulares e diversos, os objectos substitutivos que só parcialmente satisfazem o desejo. 

Recordemos que é a linguagem que guia a errância indefinida do nosso desejo face à nostalgia criada pela miragem desse absoluto - a Coisa. Na verdade, sujeito desejante e objecto desejado, ambos estão enredados na estrutura da linguagem, pelo que o desejo é no fundo a experiência da falta, experiência que consiste pois no desvio do significante na direcção de um novo significante.

Tal desvio nada mais é que a tentativa estruturalmente lograda da recuperação metonímica do objecto perdido, isto é, "a Coisa", esse objecto total que da ordem do real é ainda mais originário que a ordem dos significantes.

Partindo do real inominável, desse real impossível, o sujeito apenas o poderá saber enquanto tiver acedido à ordem dos significantes, constituindo a Coisa como se de recordações de uma plenitude se tratasse.

É assim que o aprisionamento do sujeito pelos significantes o faz girar em torno do vazio que a miragem da Coisa virtualiza.  A Coisa é inominável, ela está para lá da rede dos significantes, no entanto, todo o aparelho psíquico do ser-falante se constitui em torno do vazio que ela representa, e tende a buscá-la metonimicamente através da itinerância errante do desejo. 

A errância do desejo volta o sujeito para os objetos substitutivos disponíveis no mundo natural (die Sache) regulados pelo princípio do prazer, situando-se como bons ou maus a partir do horizonte ético de "a Coisa" (das Ding), ainda que esta, que não pode ser considerada nem boa nem má em si, esteja para lá de tais juízos atributivos.

Portanto, é em relação ao real inacessível, onde a razão ordena parar, onde das Ding padece do significante, que o simbólico se organiza e correlativamente o sujeito se estrutura como ser desejante. A Coisa, estando do lado do real, é inominável, está fora da rede dos significantes; por isso, ela apenas poderá ser abordável como conceito, sem estatuto ontológico, embora, ético.

No sentido de nos permitir a apreensão de das Ding como conceito, Lacan apoia-se no artigo de Heidegger do mesmo nome (Heidegger, 1954, 157-175), onde é utilizado o vaso para representar o vazio através das paredes que delimitam o seu buraco central.

Questionemo-nos: será possível apreender esse furo, esse vazio sem as paredes que o delimitam?

Na verdade, o ser desejante e falante, na sua relação a das Ding, compara-se ao oleiro primordial que terá fabricado um vaso, cuja principal significação é a ideia do vazio contido entre as suas paredes, ideia que o terá guiado no seu trabalho.

Trata-se, portanto, tal como no caso do oleiro, de um vazio que, na sua impossibilidade de ser integrável nas representações do sujeito, se encontra no âmago dessas mesmas representações enquanto nostalgia da plenitude, enquanto algo perdido para sempre, o que enuncia a incompletude, o inacabamento, mas também a abertura, constituintes do ser-falante.

O oleiro, porém, fabrica um vaso e não um vazio, ainda que o vazio venha a existir após a fabricação efectiva desse mesmo vaso e sem que o oleiro o haja manipulado directamente.

Tal como o vazio só existe com o vaso sem lhe pertencer materialmente, também das Ding está no desejo e na fala do sujeito sem porém lhe pré-existir nem pertencer. Das Ding apenas pode ser pensada como um vazio, já que não tem existência no mundo das coisas e objectos da cultura; ela não é um objecto primordial mas antes algo que se deduz da própria estrutura do desejo; é um vazio, um oco que intrinsecamente está no âmago do desejo, um vazio concordante com a própria estrutura da palavra, da linguagem, isto é, do grande Outro (A).

Daí que face à operação da linguagem sobre um corpo no sentido de este vir-a-ser-falante, tal como nós o entendemos, o desejo do homem seja o desejo do Outro".