CARTA ACF

 

“O psicanalista só se autoriza de si mesmo”

 

 Igor Lobão

 

Lacan no seu artigo “Preposição de 9 de Julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, consigna no início do mesmo um princípio – “o psicanalista só se autoriza de si mesmo” (Lacan, 2001).

 

Deste aforismo lacaniano pode-se verter duas consequências intimamente relacionadas:

 

  1. na relação entre o psicanalista e a instituição que garante a sua efectivação e a forma como essa efectivação se processa;
  2. na relação do psicanalista com a sua prática.

 

Lacan, ao enunciar este princípio, pretendeu levar às últimas consequências a estrutura que o seu ensino sustentava e o que isso iria comportar, a saber, um corte com a forma pela qual a psicanálise estava instituída na altura, nomeadamente, com os critérios estabelecidos pela IPA. Poder-se-ia dizer que, em toda a extensão do seu questionamento sobre o estatuto da verdade da psicanálise, Lacan preferiu Freud à IPA, o que o conduziu à “excomunhão” da mesma.

 

Para todo o efeito, o psicanalista só pode ser considerado como tal por ter levado a sua análise até à sua conclusão lógica, por “tornar-se psicanalista da própria experiência” (Lacan, 2001).

 

Isto implica que, ao considerarmos o desejo na sua vertente de desejo de reconhecimento, o analista é aquele que não demanda reconhecimento nenhum, pela experiência própria de que o desejo, nos seus logros e caminhos rebuscados visando o reconhecimento, nunca o atinge (o que seria a sua própria morte).

 

Não existe reconciliação possível do sujeito com o seu desejo, ao contrário do que é postulado por diversas ortopedias terapêuticas. O analista é o sujeito que, para o ser, transpôs, através da sua análise, do registo do desejo de reconhecimento para o reconhecimento do desejo, o que implica um saber-fazer com o impossível que se inscreve na relação com o desejo. Desta forma, o único reconhecimento essencial para o analista é o reconhecimento que o efectiva como alguém que só se autoriza de si mesmo.

 

A questão coloca-se, agora, na forma pela qual se efectua o reconhecimento do psicanalista, ou seja, como se pode efectivar a transmissão da psicanálise.

 

 “Nenhum ensino fala do que é a psicanálise” (2001), sustenta Lacan.

 

Como formar então um psicanalista?

Será um saber que o autoriza?

 

É inelutável que é só um saber que pode autorizar o analista, mas não é um saber que se lhe possa ser ensinado. Lacan coloca este saber, que se constituiu na passagem de analisando para analista, em função do que ele nomeou de “verdade em estado nascente” (Lacan, 1954-1955), formulação realizada a partir do Menon de Platão, no Seminário 2, onde Lacan opõe o saber à verdade, pelo motivo de que “o saber, ao qual a verdade vem amarrar-se” e a partir da qual ele se institui “dá mostras de uma evidente propensão a desconhecer o seu próprio sentido”, o que consequentemente obriga a que “nenhuma espécie de verdade pode ser deslindada sob a forma de um saber generalizável e sempre verdadeiro” (Lacan, 1954-1955). Este saber que constitui-se na experiência da análise “não impede que a Escola garanta que um analista depende da sua formação” (Lacan, 2001), nomeadamente, sob a condição essencial de transferência de trabalho em cartéis e seminários de formação.

 

Torna-se agora necessária uma nova indagação sobre a natureza deste saber que autoriza o analista a autorizar-se de si mesmo. Se o que autoriza o analista é um saber adquirido na sua própria análise, de que lado surge (ou se constrói) este saber? Do lado do analista ou do analisando?

 

Por um lado, é o analisando que comporta um saber na sua fala, um saber do qual ele fala sem saber onde encontrar a verdade (do seu sintoma) e é por isso que o sujeito endereça a sua fala ao analista, que, por sua vez, constitui-se, nesse acto, como sujeito suposto saber essencial à transferência. O analista, por outro lado, nada sabe dos monolinguismos do analisando, nada sabe do saber suposto no saber do analisando e é por isso que o deve escutar. A operação do analista concretiza-se não a partir do que ele não sabe mas do que ele tem de saber, naquilo por onde se introduz a dimensão do inconsciente, ou seja, o facto de que o analista sabe que o analisando sabe sem o saber.

 

Se o analista só se autoriza de si mesmo, o analisando, por sua vez, autoriza-se do analista, da autorização da associação livre, regra fundamental e motor do acto analítico.

 

Mas, se o analista se autoriza de si mesmo e o analisando se autoriza do analista, como se fundamenta e constitui a autorização que autoriza o analista a autorizar-se de si mesmo? Será que se pode perscrutar essa autorização no eu? Na identificação ao eu do seu analista?

 

A resposta poderá se entreabrir ao verificar-mos o que Lacan possa querer dizer com o si mesmo do seu aforisma.

 

Comecemos por partir pela noção de que o si mesmo encontra-se radicado no corpo mas, no entanto, não o devemos confundir com este, conforme nos ensinou Descartes ao diferenciar a res cogitans da res extensa.

 

Lacan opera, a partir do retorno a Freud, uma subversão do si mesmo tal como estava convencionado até à altura. Para Lacan o si mesmo só pode ser encontrado no final da análise.

 

Mas como distinguir o si mesmo que o sujeito encontrou num pretenso final de análise de um qualquer outro si mesmo? que não na consistência do eu, conforme postula a IPA.

 

A resposta de Lacan é peremptória: “o inconsciente escapa totalmente a este círculo de certezas no qual o homem se reconhece como eu” (Lacan, 1954-1955). Da mesma forma, essa resposta está presente em Freud ao afirmar que “nas suas relações com o id, portanto, o eu é paralisado pelas suas restrições ou cegado pelos seus erros, e o resultado disso, nas esferas dos eventos psíquicos, só pode ser comparado ao caminhar num país que não se conhece, sem dispor de um bom par de pernas” (Freud, 1937).

 

Tal torna bastante pertinente observar que efeitos de verdade presidem às teorizações da IPA, uma vez que “foi nos círculos dos didactas que se postulou e se professa a teoria que confere como finalidade à análise a identificação com o eu do analista. Ora, não importa em que grau suponhamos que um eu tenha conseguido igualar-se à realidade da qual supostamente deve tirar medida, a sujeição psicológica em que assim se alinha a conclusão da experiência é, se nos lerem direito, o que há de mais contrário à verdade que ela deve tornar patente: a saber, a estraneidade dos efeitos inconscientes (Lacan, 1966).  

 

Para situar o si mesmo que Lacan encontra no final lógico da análise, torna-se importante o retomar do artigo de Freud “Análise terminável e interminável”, nomeadamente, as postulações referentes à divisão entre o eu e a pulsão.

 

A Ego Psychology fundamentou, a partir desse artigo, que para se harmonizar o sujeito seria necessário um eu forte que domesticasse a pulsão. A pulsão a ser domesticada, sem dúvida que só ao eu caberá o lugar de mestre.

 

Este discurso encontra-se formulado pelo próprio Freud, ao afirmar no seu artigo que o sucesso de uma análise deve-se ao facto desta “ter fortalecido o ego do paciente. (…) Só em tais casos se pode falar de uma análise devidamente terminada”. Freud chega mesmo a falar no amansamento da pulsão, o que “equivale a dizer que a pulsão é colocada em harmonia com o eu (Freud, 1937). No entanto, na medida em que Freud é guiado pelo seu amor à verdade, procede ao sacrifício dos seus avanços teóricos tão só se demonstrem desconfirmados pela prática. É pela constatação das “pulsões serem excessivamente pressionantes – o que equivale a dizer recalcitrantes ao amansamento por parte do eu” que Freud é reconduzido a admitir que quando “a força da pulsão é excessiva, o eu maduro, apoiado pela análise, fracassa em sua missão, tal como o eu desamparado anteriormente fracassara” (1937).

 

Tal pode ser ilustrado pelo confronto, da mesma índole, que ocorre entre a natureza e o homem (cultura). Conforme nos é demonstrado pelos factos históricos, é um confronto em que o homem, apesar do seu aparente domínio, é vergado em sua impotência (mais não seja no acto da sua própria morte), podendo sucumbir sem qualquer possibilidade de previsibilidade a um “tsunami pulsional”.

 

Desse aparente domínio atribuído ao eu, Lacan retira um resto, um resto indomável e não simbolizável que consignou de objecto a.

 

Lacan vai concretizar um deslocamento do si mesmo fundamentado no eu para esse resto, operando uma cisão, a partir da descoberta inaugural do inconsciente por Freud, entre a verdade vinculada ao saber do consciente e os efeitos de verdade inconscientes.

 

A análise revela e promove essa cisão – a experiência da decálage entre o que se quer dizer e o que é dito, decálage que em si é o próprio desejo, aquilo que jamais poderemos dizer, na medida em que “é o que não conseguimos dizer dentro do que falamos” (Miller, 1997).

 

Para Lacan, é nesse resto causa do desejo que se pode desvelar o si mesmo, nesse resto condensador do gozo do ser falante.

 

A passagem de psicanalisante a psicanalista tem uma porta cuja dobradiça é o resto que constitui a divisão entre eles, porque essa divisão não é outra senão a do sujeito, da qual esse resto é a causa. Nessa reviravolta em que o sujeito vê soçobrar a segurança que extraía da fantasia em que se constitui, para cada um, a sua janela para o real, o que se percebe é que a apreensão do desejo não é outra senão a de um des-ser. Nesse des-ser revela-se o inessencial do sujeito suposto saber, donde o futuro psicanalista entrega-se no seu αγαλμα[1] da essência do desejo”. (Lacan, 2001)

 

Ora, conceber-se o final da análise pela identificação ao eu do analista é colocar a análise ao serviço do Discurso do Mestre, ¨ ¯ ©. O inconsciente apesar de se efectivar no Discurso do Mestre, ao qual o eu está identificado como “escravo” do desejo de reconhecimento (na obrigação problemática de ser um com a sua identidade), é da ordem do “não reconhecido” (Lacan, 1954-1955), é um discurso sem mestre, © // ¨, motivo pelo qual, o final da análise só poderá ter lugar a partir da proposta de uma clínica do inconsciente, mais precisamente, do gozo do inconsciente.

 

Para Lacan, a conclusão lógica da análise será assinalada não por uma identificação, mas pelo seu viés, ou seja, na desidentificação do sujeito, através da travessia do fantasma, aos significantes-mestres que organizavam o eu, colocando o analisando face à destituição do suporte que lhe era garantido pelo fantasma e, consequentemente, à separação do objecto a da figura do analista. Desligado da captação do objecto a, o analisando passa a analista quando se autoriza a fazer de si mesmo o objecto da fantasia de um outro.

 

O analisando no final da análise depara, pois, com o S(%): é aí que ele encontra a hiância, o furo na estrutura da linguagem, que tanto poderemos chamar de Urverdrängt (o recalcamento original), ou Verworfen (o foracluido), quanto de trauma primordial ou de Real como impossível” (Conté, 1992).

 

Para concluir, resta uma última observação sobre o “autorizar” do princípio lacaniano – o psicanalista só se autoriza de si mesmo. O que é colocado em jogo é o lugar do autor(iza), daquele que se responsabiliza pela sua autoria, o autor do si mesmo que advém lá onde o isso estava (Wo Es War).

 

Talvez seja por Lacan constatar que, por um lado, o psicanalista só se autoriza de si mesmo e, por outro, do facto de nenhum ensino falar do que é a psicanálise, que ele é “forçado” a admitir que cada analista, para o ser, tem de reinventar a psicanálise.

 

BIBLIOGRAFIA

Conte, C. (1992). O Real e o Sexual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Freud, S. (1937). Análise terminável e interminável. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lacan, J. (1954-1955). Seminário 2 – O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, J. (1966). A situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956 in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, J. (2001). Preposição de 9 de Outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola in Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Miller, J-A. (1997). Lacan Elucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.