O SEMINÁRIO ACF

2004-2005

 

José Martinho

 

 

Psicanalisar

 

 

Lição de 22 de Novembro 2004

 

ABDUÇÃO

 

Queria voltar hoje à questão da singularidade que psicanalisar supõe e implica.

Numa lição anterior, falei da singularidade como subjectividade e frisei que a medicina científica tentou expulsar a subjectividade do sintoma para o poder tratar objectivamente.

No ano passado, quando falei das consequências psíquicas e sociais da actual avaliação dos comportamentos, referi-me aos efeitos que o fascínio pela estatística do herói do Homem sem Qualidades de Musil teve sobre a sua alma e mundo. Mas o fascínio dos modernos pela metalinguagem matemática e a objectividade começou bem antes de Musil e de Bichat, com o surgimento da ciência no sentido moderno do termo. Não foi Galileu que disse que Deus criou ou escreveu o Universo em fórmulas matemáticas?

Ao tentar reduzir as almas e os corpos ao silêncio das pequenas letras da álgebra e ao cálculo, ao procurar em seguida explicar os fenómenos pelas leis da natureza e da vida, a ciência não só rejeitou a subjectividade como afastou do seu domínio o antigo conhecimento – mítico, religioso, filosófico, mas também prático, como na arte da guerra e da caça – por indícios, rastros e coincidências.

Este último só tomará um aspecto vagamente científico no século XX, com o desenvolvimento das ciências sociais e humanas, que Lacan preferiu designar de conjecturais.

 A psicanálise não é uma ciência da natureza e da vida, nem uma ciência social e humana. Só há ciência do universal, mas a psicanálise ocupa-se essencialmente do singular.[1] O problema que se pode levantar é de saber se o caso singular dá lugar a algum modo de conhecimento. 

 

Foi sobre isso que insistiu, no início do século XX, Charles Sanders Peirce. Num artigo intitulado Dedução, Indução e Hipótese, Peirce lembra que existem desde Aristóteles três modos de produzir conhecimento: a dedução, a indução e a abdução.[2] A dedução vai do universal ao particular, e a indução do particular ao universal. Esta dialéctica entre o universal e o particular, bem como as suas modalidades de conhecimento foram reconhecidas sem problema pela ciência moderna, positiva. Mas a abdução – que vai do singular ao singular – não.

Que diz Aristóteles nos seus Primeiros Analíticos? Estes estudam as proposições puras e modais, isto é, o que chamamos hoje a lógica das proposições e das modalidades (necessário, contingente, possível e impossível). É num capítulo consagrado aos silogismos modais que Aristóteles fala de um silogismo singular, cuja premissa maior é necessária, mas a menor apenas assertória ou provável. [3]  Podemos dizer que é este silogismo que constitui a abdução lógica.

 Como Aristóteles, Peirce coloca também a dedução, a indução e a abdução em forma de silogismo.[4]

Porém, o que me interessa aqui é que sublinhe que o método abdutivo na prática da ciência experimental dizer sobretudo respeito à formulação das hipóteses explicativas.

A ordem simbólica que reina na ciência faz muitas vezes esquecer a crise que força às novas hipóteses. Ora, a enunciação da hipótese é um acto e a fonte de todas as premissas do conhecimento, inclusivo dos axiomas e postulados lógico-matemáticos. Não esqueçamos que a hipótese parte dos indícios que surpreendem o observador, dos dados que contrariam o que já foi provado, ou dos acontecimentos que fazem problema numa certa conjectura. O interesse recai, pois, nos fenómenos e não na elaboração mental e a construção da teoria. Na hipótese, o indício do que está oculto ou permanece misterioso torna-se signo, ou melhor, é o signo que se reveste da sua qualidade primária de indício podendo fazer apelo ao conhecimento. O indício é, pois, certo, mas a pista a seguir ou o caminho que indica é apenas o mais provável.  

Que relação estabelecer entre aquilo que acabei de dizer e a psicanálise?

Em primeiro lugar e contrariamente ao que pensava Popper, Freud sempre se interessou pelo que podia refutar, falsificar a verdade anteriormente estabelecida. Foi o que aconteceu quando a hipótese do fantasma veio substituir a primeira noção do trauma sexual, ou quando dedicou todo um artigo a um caso de paranóia contrário à teoria analítica, ou, ainda, quando insistiu no que estava para além do princípio do prazer suposto governar a vida.

Apesar do esforço feito para distinguir as estruturas e os tipos clínicos, sempre houve da parte de Freud uma preocupação de fundo com o caso singular e o sintoma individual.[5]

Por outro lado, o método freudiano não se reduz à indução ou salto no desconhecido de certas interpretações, nem à dedução do que é construído no final como conclusão lógica, melhor, esclarecimento do que se passou na análise durante a continuação sustentada do princípio da fala. Há sempre um resto: um real rebelde a toda interpretação e construção, que a abdução pode abordar como nova possibilidade.

Esta nova possibilidade abre-se com o sintoma que Freud diz que se forma uma vez terminada a análise. Em termos lacanianos, podemos também evocar aqui a nodalidade do sintoma (e do sinthoma).

Em que consiste esta novidade? A dedução e a indução encontram uma garantia ao nível do Outro do significante, mas a abdução não. Esta última remete não só para o significante da falta no Outro, como para o que falta no Outro e não é um significante: o objecto (a). Se o desejo de saber pós-analítico joga com a falta de um significante no Outro como lugar do significante, é o sintoma como signo que se apresenta aqui como misto de significante (um) e objecto (a).

No Seminário Causa e consentimento e, posteriormente, num artigo intitulado Como se inventam novos conceitos em Psicanálise (cf. Virtualia on-line, nº3), J.A Miller remete ainda o problema para o tema da causalidade psíquica em Freud e Lacan. Como sabemos, o inventor da psicanálise fundou esta causalidade no inconsciente e na pulsão, mas, para o segundo, é a linguagem que constitui o inconsciente e a pulsão, por conseguinte, que está na origem da causalidade psíquica.

 Miller explica que, na psicanálise, existe uma relação descontínua entre a causa e o efeito, porque entre os dois se encontra o recalcamento (primordial e secundário).[6]

Assim, a causa do sintoma enquanto formação do inconsciente e modalidade de satisfação pulsional permanece oculta para o sujeito. O mesmo se passa com o gozo e a angústia lacaniana. Após ter falado do vazio da Coisa no Seminário VII, o Seminário X diz que a angústia como causa originária é rastro (trace) de vazio. De facto, podemos encontrar sujeitos angustiados, mas não a causa da sua angústia. É porque a causa se retirou que é impossível conhecer e psicanalisar a angústia. 

 A fixação e o recalcamento impedem o sujeito de recuar e progredir na busca da causa do seu sintoma. Daí resulta a insondável decisão do ser de que fala Lacan, indecisão bem patente na dúvida obsessiva que priva o sujeito do consentimento.

 Na análise, a abdução situa-se também entre o efeito e a causa ausente (o objecto perdido). Convém, então, distinguir a causa e a determinação efectiva do fenómeno. Fazendo-o, podemos dizer que a análise conduz à cadeia significante que determina a formação psíquica em questão (sonho, lapso, etc.), sem que haja necessidade de procurar uma causa mais remota (biológica, social ou outra).

 Sendo a única operação capaz de inovar, a abdução é o que permite analisar para além do que se repete. Ela contrasta com a dedução, que deriva sempre de princípios anteriormente aceites, e com a indução, que apenas pode comprovar a validade do particular de onde partiu.

 O melhor exemplo freudiano da abdução é provavelmente o Witz. O dito espirituoso mostra, por excelência, a emergência do novo ou o momento da criação e da invenção.[7]

 O interesse do chiste não concerne só a inovação no discurso como laço social, mas também o psicanalisar levado até às suas últimas consequências. J.A Miller sublinhou-o a propósito da semelhança de estrutura entre o Witz freudiano e o passe lacaniano, o momento após a análise onde a tragédia vira comédia. Reencontramos neste despertar do riso o que dissemos há dois anos sobre a paródia e a singularidade do estilo. 

 

                                              

 

 


 


[1] É Lacan que falará da psicanálise como uma ciência do singular, uma «ciência» do pas-tout, que não é a negação simples do universal, mas a afirmação do universal que não é todo universal, isto é, do universal singular.

[2] Podemos acrescentar a estes a analogia, operação que vai de um todo já conhecido a um todo ainda desconhecido.

[3] Aristóteles, Organon, III – Premiers Analytiques, Vrin, Paris, 1971, cap. I, 11, p.52.

[4] Eis o curioso exemplo de Peirce:

Dedução:
Regra: Todas as judias desta casa são brancas

Caso: Estas judias são desta casa

Resultado: Estas judias são brancas                                                

 Indução:

Caso: Estas judias são desta casa

Resultado: Estas judias são brancas

Regra: Todas as judias desta casa são brancas

Abdução (ou hipótese):

Regra: Todas as judias desta casa são brancas

Resultado: Estas judias são brancas

Caso: Estas judias são desta casa

 

O silogismo da abdução é o seguinte:

Regra: todos os X são B (afirmação da necessidade)

Resultado: A é B (não é uma conclusão, mas um indício)

Caso singular: A é um X (provável mas não necessário)

 [5] As estruturas respeitam as modalidades da negação (censura por preclusão, denegação e desmentido), e o tipo clínico é função dos fantasmas originários (cena primitiva, sedução, castração).

 [6] Existem três tempos do recalcamento : 1) o recalcamento primordial como fixação ao gozo e exclusão do resto; 2) o recalcamento propriamente dito; 3) e o retorno do recalcado. Os dois primeiros tempos produzem o desdobramento da causa (fixação ao objecto de gozo e recalcamento da representação intolerável do que atrai). O terceiro tempo leva ao sintoma (formação de compromisso). É o segundo tempo, o esquecimento, que introduz na procura da causa a retroacção ou processo retrospectivo da memória.

 [7] O leitor pode reportar-se ao comentário que fiz do chiste Familionário em Gozo (Fim-de-Século, Lisboa, 2000). Lembro, apenas, que se trata do Witz de um pobre judeu vendedor de cautelas em Hamburgo Hirsch-Hyacinthe, que, ao falar com alguém sobre o Barão Salomon de Rothschild, disse que este o tinha tratado de modo bastante familionário, isto é, familiarmente, tanto quanto o pode um milionário. Freud explica este singular chiste como uma espécie lapso calculado – criação expressa do neologismo familionário –, mas que, na realidade, é um acto conseguido, pois envia a mensagem desejada pelo sujeito da enunciação para além do vocabulário e senso comum. O que interessa aqui Freud é o modo como o espírito cria o novo a partir dos jogos de linguagem do inconsciente, para obter um suplemento de gozo. Diga-se que isso só é possível porque o Outro como lugar do código não é completo, falta-lhe não só um significante (no caso, familionário), mas também a réstia de gozo que beneficia quem cria o chiste e ri com ele.