CARTA ACF

Nº 19 - Outubro – Novembro - Dezembro de 2001

 

A DIZ-FUNÇÃO DO SINTOMA

Filipe Pereirinha

 

O que se chama classicamente o ensino de Jacques Lacan consiste no desenvolvimento, até às suas últimas consequências, de uma hipótese fundamental: a de que o inconsciente está estruturado como uma linguagem. Quem o dizia era Jacques-Alain Miller, em 1984, numa conferência que teve lugar na Universidade Central da Venezuela, a convite da respectiva escola de Psicologia.

Esta hipótese serviu de base, desde os anos 50, à orientação lacaniana (tanto no que diz respeito ao retorno a Freud como à direcção da cura) cujo fio de Ariadne o próprio Miller procurou seguir, desde há vários anos, nos seus Cursos que decorrem anualmente em Paris.

O conceito fundamental em que assentou esta orientação (com a concomitante primazia dada ao simbólico) foi o conceito de significante.

Ora, sendo assim, não deixa de ser estranha (e interessante ao mesmo tempo) a proposta que Miller fez alguns anos mais tarde numa outra conferência, levada a cabo desta vez durante as VI Jornadas Anuais da EOL, que decorreram entre 31 de Outubro e 2 de Novembro de 1997 na cidade de Buenos Aires (cf. J.-A. Miller, “El Analista-Síntoma”, in El Psicoanalista y sus Síntomas, Paidos, 1998).

A proposta é a seguinte: dizer adeus ao significante para dar as boas vindas ao sintoma.

Além de constituir uma viragem e uma novidade relativamente ao modo como se encara tradicionalmente o ensino de Lacan (a que, de resto, Miller já nos fora habituando, segundo o seu estilo usual que consiste, no limite do que se sabe e do que se não sabe, em ler Lacan contra Lacan), esta proposta constitui para nós, igualmente, um motivo de interesse, na medida em que, desde há alguns anos, nos Seminários animados por José Martinho no Centro de Estudos de Psicanálise (Universidade Lusófona), se tem desenvolvido, nas suas várias articulações, a hipótese de que a psicanálise é, fundamentalmente, uma clínica do sintoma. Daí a interrogação subsequente – e  que dá título ao seminário deste ano (2001-2002): O que é um Sintoma psicanalítico?

Talvez a questão deva sofrer uma ligeira nuance: em vez de perguntar o que é (fórmula que repugna ao carácter múltiplo e singular do sintoma por demasiado essencialista e universalisante) devêssemos antes perguntar – segundo a proposta de Miller – como se usa, não apenas a palavra sintoma, ou mesmo a palavra uso, mas o próprio sintoma; isto é: como é que o analisante, por exemplo, graças a uma correcta direcção da cura por parte do analista, chega, no fim da análise, a saber-fazer com o seu sintoma alguma coisa mais do que estar simplesmente embaraçado ou atrapalhado com ele.

  aqui, sem dúvida, um avanço relativamente ao estruturalismo do primeiro Lacan (o Lacan clássico) e o abraçar de um certo pragmatismo. É neste sentido que deve entender-se o elogio feito por Miller aos romanos: eles eram, ao contrário dos gregos, espíritos eminentemente práticos; isto é: em vez do saber tout court, eles valorizavam sobretudo, e em primeiro lugar, o saber-fazer. É como se Miller, com a sua proposta, nos lançasse o desafio: sejamos os romanos do sintoma!

Pois bem. Mas como se usa, então, para começar, a palavra sintoma?

Antes de mais, quando dizemos sintoma queremos dizer falha de funcionamento: algo que não corre bem, ou que não corre como deveria correr; em síntese: uma disfunção. (É também neste sentido que vai a definição freudiana, nomeadamente no seu livro Inibição, Sintoma e Angústia, ao distinguir a inibição do sintoma pelo modo peculiar como cada um deles se liga à função: consistindo a primeira numa mera diminuição da função enquanto o sintoma traduziria uma modificação extraordinária da mesma ou uma função nova).

Mas esta aproximação ainda é provisória e insuficiente. Com efeito, (é o próprio Freud a reconhecê-lo no mesmo artigo) no sintoma não se trata meramente de um processo patológico mas igualmente de um signo do mesmo. Para que haja sintoma, não basta a existência de um mal (em si), mas é preciso ainda que esse mal faça signo (isto é, que diga algo para alguém); e antes de mais – é nisso que ele é propriamente um sintoma psicanalítico – que faça signo para o sujeito. É por isso que seria legítimo concluir: o sintoma psicanalítico é, antes de mais, uma diz-função; ou seja: um modo de isso (que não funciona como supostamente deveria) dizer algo para o sujeito. Mas dizer o quê? Que há aí uma falha ao nível da satisfação. Freud – no já citado artigo – resume tudo isto da seguinte maneira: o sintoma é um signo e um substituto de uma satisfação que não ocorreu.

Mas se ele é um substituto, não será igualmente um modo de satisfação (ainda que parcial) da pulsão? E, nessa medida, não seria igualmente (ou até mais) apropriado dizer: o sintoma é um modo de funcionamento? É esta, pelo menos, a proposta de Miller.

Com este modo de ver as coisas introduz-se um corte relativamente ao sintoma, instaurando duas modalidades do mesmo, as quais correspondem basicamente a dois momentos no ensino de Lacan: o primeiro correspondendo aos desenvolvimentos teóricos e clínicos da hipótese fundamental do inconsciente estruturado como uma linguagem e em que o sintoma é concebido, genericamente, como emergência da verdade; o segundo correspondendo aos anos finais do seu ensino (nomeadamente os anos 70) e em que o sintoma passa a ser concebido, igualmente, como modalidade de gozo. Simplificando: sintoma-verdade (primeiro Lacan) e sintoma-gozo (segundo Lacan).

No primeiro caso, o sintoma faria parte da série das formações do inconsciente (como, por exemplo, o sonho, o lapso, o acto falhado…), apresentando-se como uma vontade de dizer (inconsciente), isto é, como uma mensagem endereçada ao Outro (ou, em última análise, ao próprio sujeito através desse Outro) e contendo um sentido que o analista-intérprete ajudaria a decifrar. O resultado disto seria, do ponto de vista clínico, que o sujeito em análise acabaria por receber do Outro (neste caso o analista) a sua própria mensagem, sob forma invertida: isto é, vindo, finalmente, a reconhecer-se como o verdadeiro destinatário da carta furtada do seu sintoma.

Mas será que o sintoma é apenas mais uma formação do inconsciente? É verdade que ele comunga de algumas características das demais formações do inconsciente. No entanto, se tomarmos como referência uma dessas formações do inconsciente (por exemplo, o lapso), verificamos imediatamente que uma tal redução não é possível.

Todos estamos recordados do famoso lapso que Freud apresenta na sua Psicopatologia da Vida Quotidiana. Certo dia, conta ele, o presidente da Câmara de Deputados austríaca, abriu a Sessão, dizendo: Meus senhores (…)a sessão está encerrada. Ora, o que é interessante para nós, é o que se  segue: apercebendo-se do riso geral que o seu dito provocou na assembleia, ele rapidamente o corrigiu. Por conseguinte, o tempo da abertura do inconsciente que o lapso representou foi apenas da ordem do instante.

Mas é aqui, precisamente, que as águas se separam. O sintoma, ao invés do lapso, não se vai embora facilmente. Em vez disso, ele dura, repete, volta sempre – como os planetas – ao mesmo lugar. Como dirá Lacan numa conferência de 1975, o sintoma, isso resiste.

Resiste, diríamos, porque não há aí apenas uma vontade de dizer, mas igualmente – como sugere Miller – uma vontade de gozo. Isto significa igualmente que o sintoma não é apenas uma formação do inconsciente, mas também um meio (ainda que paradoxal) da pulsão se satisfazer. E, deste ponto de vista, o sintoma não reenvia, antes de mais, para um sentido que o analista-intérprete ajudaria a decifrar, mas para um real (do gozo) cuja consistência lógica o analista-sintoma (segundo a expressão de Miller) ajuda o sujeito a construir ao longo de uma análise.

Voltemos, contudo, ao princípio: se isso funciona (apesar de tudo aquilo que o sujeito parece crer, na medida em que se queixa do seu mal-estar), como é possível que a análise, por sua vez, funcione, isto é, que seja possível?

Tomando como referência esta e outras conferências de Miller, poderíamos, em jeito de conclusão, relevar dois operadores clínicos: a crença e o amor. A primeira significa que é preciso (na entrada de uma análise) que o sujeito acredite que isso diz-funciona (isto é: não apenas falha, mas quer dizer algo) e que (no fim de uma análise) o sujeito acredite que isso, apesar de tudo, funciona (e, como tal, não há que livrar-se do que funciona, mas há que saber-fazer com isso).

Quanto ao amor, Lacan dizia que ele é (enquanto amor de transferência) o que permite ao gozo (do sintoma) condescender ao desejo; por exemplo, o desejo de saber o que o destino (inconsciente) nos reserva.

Mas, para isso, cabe a cada um dar o primeiro passo…