CARTA ACF

Nº 18 - Abril - Maio - Junho de 2001

 

O QUE SE PODE ESPERAR DE UMA ANÁLISE?

João Peneda

 

"Onde Isso estava, deve advir o Eu."

Freud

 

"O que se espera é que a análise, por uma suposição, chegue a desfazer pela fala o que foi feito por ela."

Lacan

 

A psicanálise tem mais de 100 anos, mas os seus princípios, os meios e os fins persistem muitas vezes na obscuridade. Se é certo que a invenção freudiana nasceu com o convite à "associação livre verbal", também é verdade que Freud rapidamente se apercebeu que a fala do sujeito é tudo menos livre. Este foi o primeiro paradoxo com o qual teve de lidar: apesar da singularidade de cada indivíduo e das contingências da sua história, o discurso que o sujeito articula em análise obedece, não obstante, a uma necessidade inesperada, a uma certa matriz de sentido inconsciente. O dispositivo clínico freudiano é assim o palco onde se encena uma Outra intenção que transcende a consciência do sujeito.

A investigação psicanalítica começou por seguir a tipicidade dos sintomas tais como estes eram organizados pelo saber médico da época. Contudo, a originalidade da invenção de Freud consistiu em identificar e explicitar no próprio discurso dos seus pacientes as invariantes, os processos psíquicos que sobredeterminam e organizam os sintoma. Vemos assim surgir o "complexo de Édipo" e o "complexo de castração" como complexos nucleares do psiquismo humano. Um dos resultados foi a descoberta de que a identidade (sexual) do sujeito não é um mero efeito do real biológico, mas uma longa construção psíquica onde pontificam fenómenos como a identificação e a idealização. Mas o inventário do sentido inconsciente não se quedou por aqui, estendeu-se sim a outras invariantes psíquicas como os mecanismos de defesa (recalcamento, desmentido, rejeição), os casos ainda da tipicidade do simbolismo onírico (o trabalho do sonho e os sonhos típicos), a tipicidade do fantasma (cena de copulação, de sedução e de castração) e ainda as invariantes ao nível dos objectos erógenos. Em resumo, perante a singularidade de cada um dos seus pacientes e da queixa que apresentavam em análise, Freud é confrontado com mecanismos psíquicos comuns que explicam em última instância o aspecto típico do sintoma.

Ao contrário de outros saberes, a psicanálise é à partida um dispositivo que visa tratar o sintoma, isto é, alterar a relação do sujeito com o irredutível do seu sintoma. A invenção de Freud é portanto um saber com incidência sobre o real do sintoma e não apenas uma investigação teórica com efeitos especulativos. Para a psicanálise, o mal-estar do sujeito pode-se curar, porque é o resultado de um saber inconsciente. Este mal-estar que se pode desatar como um nó, vai além do que Freud designa como as três causas efectivas do sofrimento humano: o próprio corpo, o mundo exterior e o relacionamento com outrem. Assim, para lá das vicissitudes da vida de cada um, instala-se ainda um mal-estar que transcende o plano biológico e social. É esse mal-estar psíquico que análise pode tratar.

Neste quadro, a invenção de Freud trabalha com um condicionamento do sintoma distinto do regime de causalidade biológica e social. Como alternativa aos discursos científicos da época, o inventor da psicanálise chamou a nossa atenção para a causalidade psíquica. Segundo esta abordagem, o mal-estar de que sofre o sujeito tem como causa principal não a ordem biológica ou social, mas fundamentalmente certos "mecanismos psíquicos". Por isso, Freud falará de um "golpe" fatal no narcisismo humano: "o Eu não é senhor em sua própria casa", o indivíduo é "habitado por estranhos hóspedes". Por outras palavras, a psicanálise descobriu um conjunto de processos psíquicos que ocorrem no indivíduo e que não chegam contudo à sua consciência, não deixando por isso de produzir efeitos nefastos e gerando mal-estar.

Em contrapartida, no discurso psiquiátrico dos nossos dias verifica-se uma rejeição quase absoluta do registo do sentido, da causalidade psíquica e do seu correlato: o sujeito; tudo isto em favor de um condicionamento meramente físico-químico do humano. Por outro lado, a eficácia dos psico-fármacos mais recentes parece convidar a um desfecho rápido e químico para todos os sintomas, incluindo o mal-estar psíquico. Assim, o homem de hoje, pressionado pelas exigências da vida contemporânea, abdica de bom grado da sua condição de sentido, em favor de uma concepção cruamente biológica e social de si próprio. Deste modo, eliminamos da condição humana qualquer outra realidade que transcenda a fisiologia e o social. No fundo, reduzimos o humano a um corpo que é afectado por estímulos internos e externos, fazendo economia da chamada "realidade psíquica". Estamos perante uma rendição incondicional aos efeitos do discurso da ciência e da sua técnica.

De qualquer modo, o que a teoria analítica designa de causalidade psíquica não coincide simplesmente com o discurso tradicional da filosofia e da psicologia. O campo da psicanálise distingue-se dos demais a partir de dois pilares teóricos que traduzem a experiência clínica: a hipótese do inconsciente e o conceito de pulsão. São estes dois conceitos fundamentais que permitem compreender o sintoma enquanto mal-estar que está para além do princípio de prazer e de realidade. Freud dirá então que o sintoma é "rico em sentido", que abriga um sentido inconsciente que o próprio sujeito ignora. Mas o sintoma é também uma satisfação substitutiva, o parceiro do gozo. Estas são as duas faces do sintoma que obrigam o sujeito a pagar porventura um preço demasiado alto pelo gozo acéfalo que nele se abriga. Um outro aspecto paradoxal é ainda o facto do sujeito estar de tal maneira apegado ao seu sintoma que ele o toma pela própria realidade; o sujeito ama mais o seu sintoma que a si mesmo. Na clínica, é com esta resistência que a psicanálise lida a todo o momento.

Com Lacan, a psicanálise irá descobrir o papel decisivo da linguagem como aparelho fundamental da realidade psíquica; a esse respeito, o psicanalista francês entende a língua como "o aparelho do gozo". Em consequência, o inconsciente e a pulsão passam a ser os efeitos psíquicos do aparelho da linguagem sobre o corpo próprio do indivíduo. Se a noção de pulsão traduz a imposição constante de uma certa modalidade acéfala de satisfação, um gozo de que o sujeito está cativo; a hipótese do inconsciente reúne o conjunto das chaves significantes dessa satisfação, as cifras do gozo que o habita. O inconsciente corresponde assim a um saber que o sujeito desconhece, um saber fantasmático que o sujeito não sabe que sabe e que faz para ele as vezes da não relação ao Outro (Lacan). Por seu lado, a pulsão é a realização insistente desse saber sobre o corpo próprio, o gozar desse saber (fantasma) em torno de um objecto de eleição (objectos erógenos) segundo uma determinada matriz gramatical (activa/média/passiva). Definitivamente, o contributo da psicanálise foi ter destacado o modo como a pulsão e o inconsciente organizam no indivíduo o sentido e a sua satisfação, numa palavra, o gozo ("jouissance") que lhe dá consistência, mas que ao mesmo tempo não está isento de sofrimento. O mal-estar do sujeito é por isso o resultado de um gozo que escapa ao saber, que a fala do sujeito é incapaz de recobrir.

No dispositivo analítico, o que é propriamente analisável são as chamadas formações do inconsciente: os actos-falhos em geral e os sonhos, no fundo, fenómenos contraditórios, pois denunciam no indivíduo que os produz uma Outra intenção que lhe escapa. Este é o carácter paradoxal do objecto a analisar: uma produto de alguém que ao mesmo tempo lhe é alheio, uma espécie de saber do indivíduo sem sujeito. Certos esquecimentos, certos lapsos, certos sonhos embaraçantes estão carregados de um sentido, de um gozo cifrado que permanece porém opaco ao indivíduo onde ocorrem. Por isso, a psicanálise fala de um "Eu clivado", de um "sujeito dividido".

Por seu lado, a componente ética da análise passa por uma responsabilização do sujeito, não só pelo que diz com conhecimento de causa, mas particularmente pelo saber inconsciente que o determina e do qual ele "nada quer saber" (Freud). Ao contrário dos ideais terapêuticos de bem-estar que condicionam a psicologia e as psicoterapias em geral, a ética do acto analítico consiste em implicar o sujeito na desordem de que ele se queixa, visando obter o sujeito ético, aquele que assume o que lhe acontece e se responsabiliza pelo que faz e diz. Numa palavra, a ética da psicanálise exige do analista assim como do analisando "bem-dizer" até ao fim "o real" (Lacan) irredutível a cada um.

Em conclusão, o que se pode esperar de uma análise é encontrar um outro a quem endereçar finalmente o sintoma, um outro disposto a encarnar o objecto causa do desejo até fazer consistir um vazio lógico (Lacan). O que se pode esperar de uma análise é deste modo aclarar, "bem-dizer" esse gozo opaco ao próprio sujeito, isolar os significantes da sua história pessoal, "atravessar o fantasma", a matriz do seu gozo, e finalmente extrair o objecto do seu fascínio. Uma vez chegados à conclusão da análise, abre-se para cada sujeito uma relação diferente com o irredutível do seu sintoma, um resto de gozo ("plus-de-jouir" de Lacan) com o qual cada um tem de se haver. Em resumo, o que se pode esperar de uma análise, parafraseando o famoso aforismo de Freud, é que o "Eu" possa advir onde reina um gozo acéfalo. Mas se o gozo do ser vivo falante exclui o "Eu", obriga o sujeito ao exílio, por seu lado, a análise oferece a possibilidade de o repatriar, dado que permite operar uma mudança do estar sujeito ao gozo para finalmente chegar ser um sujeito responsável pelo seu ser de gozo.