CARTA ACF

Nº 17 - Janeiro – Fevereiro - Março de 2001

 

O MITO DE FREUD

Luís Barreiros

 

Propõe-se, no presente texto, uma  leitura mitológica lévi-straussiana de Totem e Tabu. Tal será feito recorrendo à fórmula canónica dos mitos. O mito será encarado como conceito técnico operativo tanto em psicanálise quanto em ciências sociais. 

Segundo Lévi-Strauss, se se proceder à ordenação de “uma série completa de variantes sob a forma de um grupo de permutações, pode-se esperar descobrir a lei do grupo” (Lévi-Strauss 1958: 263). Isto é, teriamos que considerar um conjunto finito de sintagmas na narração de Freud, em Totem e Tabu, e reduzi-los uns aos outros por forma a encontrar as suas formas irredutiveis. São eles a pressuposta horda primitiva e a morte do pai, o totemismo enquanto instituição social e o complexo de Édipo. Para efeitos de simplificação da nossa demonstração suspendemos a religião, a magia, o animismo, a sociedade e a moral, em nossa opinião, componentes do domínio totémico. 

Adianta Lévi-Strauss, relativamente à fórmula canónica dos mitos que nesta “dois termos a e b sendo dados simultâneamente do mesmo modo que duas funções, x e y, destes termos [se pode afirmar] que existe uma relação de equivalência entre duas situações, definidas respectivamente por uma inversão de termos e de relações, sob duas condições: 1º que um dos termos seja substituido pelo seu contrário (a e a-1); 2º que uma inversão correlativa se produza entre o valor de função e o valor de termo de dois elementos (y e a)” (Lévi-Strauss 1958: 263). De um modo geral: Fx (a) : Fy (b) :: Fx (b) : Fa-1 (y)[1]

Passemos, agora, à demonstração pretendida. De acordo com Freud, Pai = Totem. Isto é, o totem seria uma espécie de pai disfarçado ou invertido. Logo, pai = (a) e totem = (a-1). O pai (argumento) determinaria, ainda, os valores de um domínio ou função constituidos pelo ciúme – ao açambarcar para si as mulheres da horda, fá-lo-ia em função dos ciúmes que tinha dos filhos. Ou seja: Fciúme (Pai) : Fy (b) :: Fx (b) : Ftotem (y). E que argumento (y) actualizaria os valores possiveis do domínio totémico? Pela narração de Freud, deduzimos que seja a exogamia, com proibição de relações sexuais dentro do grupo social de origem evitando, deste modo, o ciúme entre irmãos. Falta-nos a figura mediadora ou argumento (b). Segundo Freud, teria ocorrido uma primeira oposição entre o pai açambarcador de mulheres e os filhos da horda. São os filhos quem se opõe ao pai, matando-o: Fy (b) = Fmorte (filhos). Mas são também os mesmos filhos quem venera a figura do pai no totem e que terão que se haver com o ciúme reinante, uma vez ter sido destituida a autoridade da figura paterna: Fx (b) = Fciúme (filhos). Os filhos constituem, portanto, a figura mediadora ou argumento (b). A isto opor-se-á o último membro da equação, com a consequente criação da sociedade (totemismo). Eis o novo aspecto da fórmula canónica: Fciúme (pai) : Fmorte (filhos) :: Fciúme (filhos) : Ftotem (exogamia). Note-se que, de acordo com a fórmula mítica, o último membro da “equação” deveria conter como argumento aquele que fôra domínio no segundo membro da primeira oposição. Assim, a morte deveria aparecer juntamente com a exogamia. Mas julgamos estar justificados a fazê-lo uma vez Freud ter começado por ligar entre si duas proibições fundamentais no totemismo: proibição de contrair relações com mulheres do mesmo grupo social (exogamia) e proibição de matar o totem. Logo: Fciúme (pai) : Fmorte (filhos) :: Fciúme (filhos) : Ftotem (exogamia, morte). Tendo a horda primitiva sido deduzida do complexo de Édipo, devemos agora acrescentar este à nossa fórmula dos mitos: pai : filhos :: filhos : totem (Pai) :: filho : pai. No entanto, da segunda para a terceira oposição parece haver uma incongruência na figura mediadora responsável pela passagem do totemismo ao complexo de Édipo: o totem e o filho. Como explicar isto? Gostaríamos de lançar a hipótese de a disposição destes dois elementos na fórmula poder “prever” o denominado “retorno do totemismo” ilustrado nos casos de Herbert Graff (o pequeno Hans) e um outro, fornecido por Ferenczi a Freud, “Arpad, o pequeno homem-galo” (cf. Roudinesco 2000: 744; cf. Freud 1999: 133-136). Julgamos tratar-se, apesar disto, de uma questão a ser investigada com mais pormenor.

O complexo de Édipo formaria portanto, em nossa opinião, uma sociedade metonimizada [Fa-1 (y)] constituida por oposições, simetrias e inversões descritas na aplicação da fórmula dos mitos.

A questão a que o mito de Totem e Tabu procuraria responder seria, então: “como pode o exterior tornar-se interior?” De outro modo, “como pode a culpa colectiva tornar-se culpa individual?”, “como podem coexistir muitos (conspiração dos irmãos) num só (complexo de Édipo)”?

A fórmula canónica traduziria, em conclusão, uma operatividade comum aos processos míticos, intelectuais e psicodinâmicos.

 

[1] Ler (:) opõe-se; e (::) tal como. Os argumentos a e b actualizam os valores dos domínios x e y da respectiva função F.

 

Bibliografia:

Freud, Sigmund, 1999 (1911/13) Totem e Tabu, Imago.

Lévi-Strauss, Claude, s/d (1958) Antropologia Estrutural, Ed. Tempo Brasileiro.

Roudinesco, E., 2000 (1997) Dicionário de Psicanálise, Editorial Inquérito.