CARTA ACF

Nº 15 - Abril – Maio - Junho de 2000

 

SOBRE UMA ÉTICA DO BEM DIZER

José Manuel R.Alves

 

Na esteira do pensamento de Freud e Lacan, poderemos sustentar que o que mais profundamente habita o distante âmago da acção humana é o desejo, isto é, esse núcleo absolutamente irredutível, que circunscreve a abordagem ética até ao nível a que o psicanalista deverá entendê-la, isto é, um "não ceder sobre o seu desejo"

A função do desejo sustenta-se numa relação fundamental com a morte (primeira ou segunda morte) - limite último do ser -, o que confere ao desejo um carácter indestrutível e inapagável, durante a vida, e mesmo para lá desta, de cada ser-falante (parlêtre). Esta omnipresença do desejo, em última instância, caracteriza toda a realidade da condição humana e não só a do herói trágico, de que Sófocles tão sublimemente dá conta nas suas principais tragédias, de que destacamos Antígona.

É que o objecto que poderia completar o sujeito, no sentido de lhe proporcionar a satisfação total, é um objecto que, mediante o acesso do indivíduo à ordem simbólica, lhe é revelado como desde sempre perdido, objecto que, em última instância, radica no Real da Coisa (das Ding), cuja inacessibilidade é articulada por Freud como a lei de proibição do incesto, mas que, segundo Lacan, essa inacessibilidade radica no acesso à própria linguagem. Se a tradição ética coloca, no lugar desse objecto perdido do desejo, o que foi definido por Soberano Bem e se, ao seguirmos Freud e Lacan, concluimos que  o mesmo não existe, que o mesmo apenas tem consistência de imaginário, resulta que a felcidade plena, entendida como orientação para esse Soberano Bem, é estruturalmente inatingível.

Em substituição do Soberano Bem, constatamos a existência de uma falta estrutural de todo o ser-falante, de um furo, de um vazio, designado por das Ding, isto é, a Coisa freudiana, redefinida por Lacan como o que do Real primordial padece do significante [i]. É assim que a Psicanálise nos confronta com uma dimensão da Ética algo mais radical, resultante do que é a descoberta freudiana do inconsciente, desse vazio inapreensível, polarizado por das Ding, e do desejo indestrutível que habita no mais distante de cada sujeito e que reclama satisfação imperiosa, a partir do objecto absoluto para sempre perdido, tal como a operação da linguagem sobre o Real do vivente o determina em cada ser falante.

A solução talvez radique em cercar o campo de das Ding, recorrendo a formas várias de nos aproximarmos da sua essência central de vazio, o que, dito de outro modo, nada mais são do que formas de nos aproximarmos do campo radical do desejo, que, no seu limite, tal como nos é revelado pela Psicanálise,é desejo de morte.

O que Lacan indicia, posteriormente ao seu Seminário da Ética da Psicanálise, conduz à formulação de uma "Ética do bem dizer", concedendo às palavras, a partir da relação do sujeito com o campo do Outro, a possibilidade de cercar esse impossível estrutural da Coisa, isto é, cercar esse vazio central, esse ex nihilo engendrante, que se constitui como fonte e origem de toda a criação significante.  "Daí se engendra uma ética, consistindo em domesticar, em colonizar esse lugar do gozo do Outro, esvasiando-o de toda a boa ou má vontade. Essa ética consiste num bem-dizer (e não um dizer o bem), quer dizer uma arte de cercar esse Nada, de girar em volta, segundo uma outra lei diferente da do Supereu, uma lei que funda o desejo ligando-se a ele"[ii].

As fórmulas de Lacan revelam-nos que "o desejo é a sua insatisfação" ao passo que, na análise, "o desejo é a sua interpretação", de tal modo que, considerado no campo da fala e da linguagem, o desejo jamais pode ser inteiramente dito, sendo "o que não conseguimos dizer dentro do que falamos". Nessa base, "o desejo aponta para uma impotência da palavra e, mais além, para uma impossibilidade"[iii].

Ora, essa "impotência da palavra" para dizer o desejo, requer que se defina o desejo como "décalage entre o que se quer dizer e o que é dito", afirma Miller, tal como "mostra a experiência do sujeito na análise", sendo, nessa base, o final da análise proposto por Lacan como o acesso a um "bem dizer"[iv].

Perante a impossibilidade estrutural de dizer o desejo, resta então um "bem dizer" capaz de o cercar pelo infinito da palavra. Esse "bem dizer", segundo Miller, é um saber fazer com a metonímia. "É dizer, levando em conta que o desejo não pode ser dito directamente, mas que é dito sempre entre as palavras. É saber dizer de lado, por alusão, é ter um domínio do alusivo e saber dizer a verdade pela metade". Desse modo o "essencial está entre as palavras e não nas palavras"[v]

Já desde o Seminário VII, que há uma insistência de Lacan em vincular a Ética ao exercício pleno da palavra, em relacioná-la intrinsecamente com a linguagem que habita o próprio sujeito. A bem conhecida posição de Lacan consiste em enunciar que não há Outro do Outro, o que equivale à não existência de Metalinguagem; daí, resulta como consequência imediata que as garantias da palavra terão que ser buscadas num discorrer centrado nela própria, ainda que numa progressão infinita, mas sempre dentro da referência única da linguagem e sem possibilidade de transpor os seus limites. Por outro lado, tal como vimos mais acima, a concepção de Verdade, veiculada por Lacan, confronta-nos com o impossível de a dizer toda, na medida em que as palavras faltam. É que, como diz Abelhauser, as palavras têm como principal característica o serem forçosamente dubitativas, não definitivas e de convocarem outras em seu socorro, resultando, como inevitável, um empenhamento radical do sujeito que as enuncia, "já que este último não se pode esconder por detrás de outra garantia senão a da sua própria subjectividade"[vi].

Estamos perante uma condição estrutural da própria linguagem que, constituindo a referência única e última a ter em conta, confronta o sujeito com uma manifestação do "impossível", já que mais não seja, como diz o mesmo autor, "impossível-de-dizer". Na verdade, continuando com Abelhauser, "o exercício da palavra coloca o sujeito face a uma escolha, que é a escolha ética por excelência : deixar o impossível, renunciar a dizer o indizível, e falar da chuva e do bom tempo ou, pelo contrário, confrontar-se com o impossível, colar-se a este, procurando dar consistência ao que quer expressar, procurando 'as palavras para o dizer', mesmo que estas não existam. É esta última posição, na qual não se recua diante do Real, que a palavra cobre e descobre, que conduz [...] ao que Lacan qualifica como ética do bem-dizer: dizer o que há para dizer, mesmo quando não temos palavras para tal"[vii].

[i] Cf. S.VII: 142 [Ed. Port.: 149].

[ii] Philippe Julien (1995). L'Étrange Jouissance du Prochain: Éthique et Psychanalyse. Paris: Ed. du Seuil, pp.100-101.

[iii] Cf. Jacques-Alain Miller (1997). Lacan Elucidado: Palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Lda. p.449.

[iv] Ibidem. pp.449-450.

[v] Ibidem. pp.449-450.

[vi] Alain Abelhauser (1997). "L'Exigences du Bien-Dire". Conferência apresentada no Congresso sob o tema "Os Poderes da Palavra em Psicanálise", realizado em Lisboa, na Universidade Lusófona em 18 de Maio de 1996.

[vii] Ibidem.