CARTA ACF

Nº 14 - Janeiro – Fevereiro - Março de 2000

 

PULSÃO E SUBLIMAÇÃO

João Peneda

 

A pulsão em Freud tem quatro características fundamentais: a origem, a pressão, o objecto e o alvo. O alvo da pulsão <Ziel> é sempre, em todos os casos, a satisfação <Befriedigung>, a descarga da tensão ou a sua redução. A pulsão é fundamentalmente uma revindicação permanente de satisfação, diríamos com Lacan que se trata de uma exigência constante e a todo o custo de gozo; de tal modo que o meio, o objecto da pulsão, poderá ser muito diverso. O que significa que, ao nível pulsional, o sentido último, o "sentido do sentido" é a satisfação, o gozo.

Por isso, a pulsão <Trieb> em Freud é algo já muito distante do conceito de instinto <Instinkt>, está portanto para além do biológico; por outras palavras, o estímulo pulsional nunca age como uma força de impacte momentâneo <momentane Stoßkraft>, age por impacte constante <konstante Kraft>. Mas a pulsão é também algo já articulado, tem uma gramática cuja matriz é o fantasma; por exemplo, no registo do olhar, temos ver, ser visto, fazer-se ver (voz activa, passiva e média).

Se em Freud a sublimação resulta da mudança <Wendung>, da inibição da satisfação sexual em virtude da intervenção do social, do civilizacional; Lacan, por sua vez, chama a nossa atenção, antes de mais, para o papel fundamental da própria linguagem, da sua estrutura; vai ser aí, no registo dos significantes, que a satisfação, o gozo <jouissance> perdido virá a ser procurado. De qualquer modo, as análises de Freud sobre as formações do inconsciente – lapso, sonho, chiste e o próprio sintoma –, revelavam já que é nos meandros dos significantes, "restos de palavras" que o desejo inconsciente se realiza e se interdiz. Por esse motivo, a sublimação resulta à partida do confronto da pulsão sexual com a linguagem, o que tem como resultado a dessexualização e a inibição do alvo sexual da pulsão.

A questão que desde logo se coloca é saber se a pulsão sexual não é já ela fruto desse Outro que é à partida a linguagem? O que, por sua vez, também nos faz recuar no tempo o fenómeno da sublimação. De facto, o sujeito não encontra no Real outra coisa senão algo que releva já sempre da linguagem, do significante; Freud falava de "representações", dos "representantes de representação". O que quer dizer que a linguagem implica uma perda de gozo, a linguagem é o primeiro corte com a Coisa <das Ding> ("recalcamento primordial"), "a morte da Coisa" como dizia Hegel. Por isso, a noção de Coisa aparece como uma espécie de lugar mítico da satisfação plena, do gozo perdido. Também por essa razão, nenhum objecto pode satisfazer o sujeito, qualquer objecto fica aquém da Coisa <das Ding>, dessa miragem de satisfação. Mas, por outro lado, é bom não esquecê-lo, a linguagem é também o instrumento por excelência do gozo, a linguagem é o "aparelho do gozo" (Lacan).

Mas o que significa, a partir de Lacan, que a pulsão tem um alvo <Ziel> sexual, uma vez que Freud nos deixou esta ideia da sublimação como deslocamento das pulsões sexuais do seu objectivo inicial para outros fins mais elevados? Antes de mais, a pulsão é a resposta do indivíduo que visa satisfazer a demanda do Outro, o apelo do outro maternal. Através da demanda do Outro – pedido do outro articulado na linguagem –, o indivíduo é confrontado com a dimensão do desejo do Outro, com a perda, com a falta no Outro, com a questão: che vuoi? (o que queres ?)

Ora, a pulsão é o que no indivíduo responde e se ajusta a essa falta no Outro. Nesta fase, a resposta ao enigma do Outro passa fundamentalmente pelo seu corpo, que se lhe afigura como a causa desse desejo que faz enigma. O problema é que ao identificar-se com o seu ser corporal ao que falta no desejo do Outro, o indivíduo arrisca-se a perder-se nessa satisfação de um desejo que não é o seu. O que faz aqui questão é a impossibilidade que aí se inscreve, pois a satisfação da pulsão constitui o signo da própria anulação do indivíduo. Há portanto aqui qualquer coisa de mortal, o conceito freudiano de pulsão de morte traduz esta vontade de desaparecer, resultante deste mau encontro <tuch> com a palavra (noção de "primeira morte" em Lacan).

O paradoxo é o seguinte: por um lado, é o desejo do Outro – um vazio –, que traz à existência o sujeito, por outro, a resposta a esse desejo constitui a sua própria perdição, pois o individuo responde com o próprio corpo à inconsistência do simbólico. A linguagem condena assim o sujeito a um lugar onde este corre o risco de desaparecer ao procurar suprimir a falta no Outro. Por último, face a essa "primeira morte", colocam-se duas saídas, duas alternativa que Freud explicita na sua famosa Conferência XXIII: o sintoma e a sublimação.

O sintoma é a primeira resposta do indivíduo a esse mau encontro, é o que permite ao sujeito defender-se da sua alienação no desejo do Outro. O sintoma constitui um compromisso paradoxal que se resume ao impasse do fantasma: a miragem de gozo na qual o sujeito se perde está associada à interdição desse gozo. Por outras palavras, o paradoxo do sintoma neurótico consiste no facto do sujeito recear, defender-se e queixar-se de um gozo que ele próprio procura atingir; o neurótico aspira a perder-se na miragem de gozo a que ele próprio se interdita. Deste modo, no sintoma, a erotização do corpo e da palavra do sujeito respondem a um desejo que não é seu e do qual ele está cativo, sofrendo o efeito de um gozo acéfalo. Sucede que o sujeito no sintoma irá perseguir, sem o saber, na sua vida, na sua actividade e no seu corpo esse gozo que a matriz do seu fantasma encena e que a pulsão a todo o custo reclama.

Em contrapartida, a sublimação seria, neste quadro, o processo que faculta ao sujeito dessexualizar a posição que ocupava face ao desejo do Outro, isto é, desidentificar o sujeito com o "falo", melhor, afastar-se da identificação com o objecto do desejo materno e, nesse lugar, fazer emergir algo de positivo, algo que escapa à regressão e à repetição do sintoma; ora, é aí que pode despontar algo de criativo, a obra, algo que já não é mais uma resposta ao desejo do Outro, um gozo imposto pela pulsão (sexual), mas algo que vem positivar um vazio que é efeito da distância do sujeito ao objecto causa do seu desejo, algo que é criado a partir do nada, ex nihilo, resultado de um sujeito que não está mais submetido ao jugo do objecto, mas que o sabe conformar, "elevar à dignidade da Coisa".

É nisto que consiste a dessexualização da pulsão; o sujeito tirando partido da pulsão, da fantasia, do seu objecto (a voz, o olhar, o corpo), produz uma obra única que vem no lugar daquilo que ele era para o Outro. Não é mais a relação de rivalidade imaginária ao Outro que pontifica, mas o sujeito assume a paternidade de uma obra original. A rivalidade fálica é substituída pelo trabalho criativo; vai ser aí que o sujeito irá depositar todos os seus investimentos. Não é o corpo do sujeito que é instrumentalizado para tapar o furo no Outro, mas é a obra que aí positiva um traço original. Aí, o sujeito encontra um modo de exorcizar, de manter à distância a identificação que lhe é mortal, cuja satisfação implica a sua anulação, o seu desaparecimento.

A obra põe esse gozo mortal fora do corpo, toma o lugar do falo, do objecto que o sujeito era para o desejo do Outro, toma o lugar da identificação do sujeito ao que falta no Outro, falo imaginário. Esse lugar passa a ser não de identificação, mas de criação. É a obra que em última instância, ao produzir um rasgo inédito, reinventa o sujeito, faz dele um nome, suprimindo à sua maneira a falta no Outro. Daí a famosa fórmula de Lacan: "a sublimação eleva um objecto à dignidade da Coisa." (S-VII, p. 140-1).

Por estas razões, a sublimação apresenta-se ao sujeito como um imperativo, como vital, dado que é, por intermédio da criação, que o sujeito, como refere Lacan a respeito de Joyce, "se faz um nome", dá finalmente conteúdo à sua identidade vazia, suprime o "sem-nome" do sujeito do sintoma.

Assim, se a experiência do sublime proporcionava uma experiência que apresenta a inadequação, a impossibilidade de atingir a Coisa, objecto perdido do desejo, sublinhando que a Coisa está para além do representável, o objecto artístico, por seu lado, vem ocupar o lugar da Coisa em falta, "vem envolver esse vazio"; a esse respeito, temos o exemplo de Lacan do vaso como objecto primordial da produção humana, mostrando que o objecto artístico é um "certo modo de organização em torno desse vazio" (S-VII, p. 162). Deste modo, na sublimação, o objecto artístico vem substituir-se à Coisa em falta, representa em parte o gozo perdido; só que, ao contrário do que sucede no sintoma, aqui o sujeito não está submetido a um gozo acéfalo que o percorre, mas conquista supremacia ao domar e modelar esse gozo segundo os propósitos da sua arte.

Mas o objecto artístico vem igualmente dissimular o objecto perdido do desejo, proporcionando uma quota efectiva de gozo. Por essa razão, podemos igualmente encontrar aí o traço ilusório do objecto artístico, pois também contribui para a miragem que o fantasma procura produzir, isto é, mascarar a inconsistência do simbólico, apagar a inexistência estrutural do objecto do desejo. Contra essa dissimulação, a arte contemporânea responde ela própria com "o retorno do real" (Hal Foster).

Neste quadro, qual pode ser o papel da psicanálise? Efectivamente, já não se espera, como no tempo de Freud, que a psicanálise revele a indesmentível, mas também inconsequente conexão entre a obra do artista e os meandros da sua vida inconsciente; agora, é porventura a arte, o objecto artístico que antes de tudo indica o caminho, que capta "o sintoma na civilização <das Unbehagen in der Kultur>" (Freud). Foi nessa direcção que seguiu o trabalho de Lacan, como é o caso das suas análises da obra de André Gide e de James Joyce. Esta inversão tem contudo as suas consequências para a psicanálise, esta não deverá procurar na arte a confirmação das suas teorias, mas renovar a sua teoria à luz daquilo que do real faz sintoma, e aí a arte toma a dianteira.

Por último, cabe perguntar se há finalmente uma simbolização não patológica? Se a operação da sublimação pode dar resto zero, se há de facto um real irredutível? Éric Laurent pergunta de um modo um tanto provocatório: "se a satisfação sublimatória é assim tão perfeita, porque é que o artista não é feliz? Porque é que ele não sublima de um modo suficiente para se libertar dos seus maus génios, e porque é que ele neurótico, psicótico ou perverso, não se cura a ele mesmo?" (La Cause freudienne nº 25). Este é também o dilema com que Freud se deparou; a esse problema, acabou por responder com a impossibilidade da auto-análise. O que é impossível é que o sujeito reencontre ele próprio o desejo que se interdiz na sua palavra, ora é justamente isso, esse real que a noção freudiana de inconsciente recobre. Lacan traduz bem este impossível modalizando à sua maneira o cogito cartesiano; ao triunfante "penso logo existo" de Descartes, apõe a sua fórmula: "eu não penso lá onde eu sou", ou ainda, "eu sou lá onde eu não penso". Por outras palavras, o sujeito do inconsciente, o sujeito da enunciação eclipsa-se  justamente quando o sujeito pensa, quando produz os seus enunciados. É neste sentido que o aforismo de Freud nos adverte: "wo es war, soll Ich werden"; traduzo livremente por: onde estava o gozo acéfalo do qual o sujeito estava cativo, aí deve advir o Eu, o que Lacan chamou de sinthome, identificação ao sintoma.

Ora, o dispositivo analítico freudiano constitui uma resposta vigorosa a este real, a este irredutível, na medida em permite ao sujeito aceder às condições do seu gozo acéfalo, aos significantes do gozo, aos nomes do gozo ("Nomes-do-Pai" em Lacan), no fundo, aos significantes que suturam o vazio no Outro; o final da análise coincide com a extracção do objecto que obtura o furo no Outro (causa do desejo), como o qual o sujeito (pulsão) se constituía como resposta ao enigma do desejo do Outro.

Nesse sentido, o dispositivo analítico depõe num Real, numa errância, num mundo irredutivelmente marcado pelo real que lhe ex-iste e por um Outro que não existe. Por seu lado, a sublimação, a arte, ao "elevar o objecto à dignidade da Coisa", consiste em nomear uma porção do real, apelando a partir daí a um certo destino, produzindo obra que faz porventura sintoma na civilização. Aí, a arte toma a dianteira, e à psicanálise só lhe cabe ser sua aliada. Assim, se a psicanálise propõe a "travessia do fantasma", a "identificação ao sintoma", a arte oferece a sublimação, nas palavras de Freud, oferece "uma via de retorno da fantasia à realidade <Rückweg von der Phantasie zur Realität>" (Conf. XXIII). Se a arte confere ao real, uma positividade, uma destinação, a psicanálise denuncia o real como impossível, nesse lugar oferece uma ética, uma ética que decorre do confronto com a causa do desejo, com o real constitutivo do sujeito.

Por todas estas razões, termino afirmando que a verdadeira sublimação coincide com a ética, não com a ética do Bem, mas com a ética do "bem dizer" o real da condição humana e a sua destinação.