CARTA ACF

Nº 14 - Janeiro – Fevereiro - Março de 2000

 

NOME DE GOZO

(a propósito do “Homem dos Ratos”)

Filipe Pereirinha

 

Homem dos Ratos é o nome por que ficou  conhecido um texto de Freud dedicado à neurose obsessiva. O título original é: Observações (Bemerkungen) sobre um caso de neurose obsessiva (Zwangneurose). Trata-se, por conseguinte, de uma espécie nome de guerra (e é verdade que há uma guerra deste sujeito consigo mesmo!) visto que o verdadeiro nome do paciente de Freud, tal como veio a saber-se mais tarde, era Ernst Lanzer. No entanto, ao relermos este texto paradigmático, somos levados a crer – guiados pela mão de Freud, mas também, e sobretudo, pelo discurso do próprio paciente - , que Homem dos Ratos é, afinal,  o verdadeiro nome próprio deste sujeito. Resta, no entanto,  uma questão: “(…) a de saber – como sugere Pierre Naveau num texto recente (“Le Nom de la Jouissance Forcé”, in La Cause Freudienne, nº 39) – por que motivo o Homem dos Ratos (der Rattenmann, no original) é o verdadeiro nome de Ernst Lanzer (ou Langer, como diz Naveau)”?

 A resposta não parece difícil: assim é pelo facto de ser o próprio Ernst a nomear-se dessa forma. Vejamos em pormenor o momento em que isso acontece. Certo dia, ao iniciar a sessão de análise, o paciente diz a Freud: “Começarei hoje com o evento que me decidiu  vir consultá-lo. Estávamos em Agosto e eu encontrava-me em X. a cumprir o período anual de serviço militar como reservista (…). Interessava-me demonstrar aos oficiais que não só era um homem de estudo, mas também um bom soldado capaz de resistir às fadigas da vida militar” (Cf. P. 1446 das Obras Completas de Freud, Biblioteca Nueva, Madrid, 1996, vol. II). Ora, aqui temos alguém que tenta mostrar, por todos os meios ao seu alcance, que está à altura das circunstâncias e que é, para dizê-lo sucintamente, um homem. E no entanto, eis que acontece algo que vem manchar, por assim dizer, este belo quadro. Um certo capitão, conhecido pela sua crueldade, conta uma história, numa dessas paragens que servem aos militares para retemperar as forças. Uma história sobre um castigo particularmente horrível praticado no Oriente. E aqui, é tão ou mais importante o modo como o nosso paciente diz, isto é, conta aquele estranho suplício, como aquilo que é dito por ele, ou seja, conteúdo do mesmo. É nesse intervalo que o sujeito experimenta o dilaceramento do seu ser, nessas indecisões e reticências (de que Freud dá conta no texto). Vale a pena acompanhá-lo: “O condenado -  começou ele - era amarrado [reticências], adaptava-se-lhe um recipiente às nádegas, introduzindo nele uns quantos ratos, que de imediato [o paciente levanta-se e dá sinais de grande esforço e resistência], uns quantos ratos que de imediato se iam introduzindo…[e Freud completa] no seu ânus.” (Op. Cit., p. 1447) Ora, conclui Freud, “em todos os momentos importantes do relato, podia observar-se nele uma estranha e variada expressão fisionómica que só poderia interpretar-se como um signo de horror ante um prazer do qual ele próprio não tinha consciência” (Ibidem). É ao nível deste signo, mescla de horror e prazer, que o sujeito se nomeia contra a sua vontade. Homem dos Ratos é então o nome de um encontro: do sujeito com o gozo, isto é, com essa estranha satisfação – mistura de prazer e horror – de que a sua fala, entrecortada de silêncios, dá conta. Satisfação cuja importância Freud não desconhece, tal como se depreende da seguinte observação,  encontrada algumas páginas depois (op.cit., p. 1455): “Fiz-lhe observar – diz Freud –  que nós sabíamos muito bem que a enfermidade produz nos enfermos uma certa satisfação (sublinhado meu). 

Pois bem. A questão, agora, poderia ser formulada nos seguintes termos: como prosseguir? Ou ainda, dizendo à maneira de Lacan: o psicanalista (Freud, neste caso), que “certamente dirige a cura” (Cf . “A Direcção da Cura”, in Écrits), fá-lo em nome de quê?

A esta pergunta Freud responde: em nome do pai. O psicanalista – Freud – dirige o tratamento em nome do pai. E se tal acontece, isso deve-se essencialmente a duas razões. A primeira é de natureza pessoal, isto é, baseia-se num certo posicionamento teórico e prático adoptado por Freud: é assim que ele concebe o tratamento; a segunda é apoiada na própria fala do paciente: é assim que este apresenta as coisas. Mesmo se, de vez em quando, embora muito esporadicamente, surja, na fala do mesmo, o nome da mãe. E poderíamos até, em abono da justiça, dizer  que esses momentos, se bem que ocasionais, são representativos. Como, aliás, Freud não desconhece. Veja-se, por exemplo, esta nota de 12 de Dezembro de 1907(Cf As notas manuscritas sobre o registo original do caso) em que Freud escreve, referindo-se ao paciente: “(…) Hoje arriscou-se a atacar o assunto sobre a sua   mãe. Tinha uma recordação antiga dela deitada no sofá: ela ergueu-se, tirou uma coisa amarela de debaixo do vestido e colocou-a numa cadeira. (…) era algo horrível” (sublinhados meus). E Freud prossegue a nota, relatando como este episódio provocou no nosso paciente um misto de curiosidade (que tinha como objectivo verificar se todas as mulheres teriam secreções semelhantes) e de horror. Ora, precisamente, encontramos de novo aqui esse mau encontro – seria caso  para dizer – do sujeito com essa coisa  ao mesmo tempo fascinante (na medida em que prende o olhar e aguça a curiosidade) e horrível, isto é,  com essa coisa em torno da qual a satisfação (inconsciente) do sujeito parece circular. Assim sendo, é ainda mais pertinente fazer a pergunta: em nome de que coisa o psicanalista dirige a cura? Em nome da mãe? (Não faltaram defensores dessa posição) Em nome do pai? (É a posição de Freud). Ou em nome  de outra coisa para além do pai e da mãe? (É a posição, como veremos, de Lacan). E poderíamos mesmo pensar que o relativo insucesso deste caso ( embora não reconhecido por Freud, que diz na introdução: “ (…) o tratamento, prolongado durante um ano inteiro, conseguiu reconstruir completamente a personalidade  e suprimir as inibições”) se deve, em certa medida, a essa orientação do tratamento no sentido do pai: “É que a obsessão como objecto a no pensamento (relembra José Martinho em “O Suplício do Obsessivo”, in Ditos, Fim de Século, 1999) não pode dissolver-se sem que o analista caia também da sua posição de pai simbólico ou de pai morto como puro significante (…)”.

Mas estamos a ir, talvez, demasiado depressa. Como é que tudo isto pode ser encontrado no texto freudiano? 

A certa altura, logo após haver relatado, com grande dificuldade, o suplício dos ratos, o paciente comete uma espécie de lapso. Vejamos o contexto. “Naquele instante – diz ele, reportando-se ao momento em que ouvira pela primeira vez, da boca do capitão cruel, o referido suplício – surgiu em mim a ideia de que aquilo sucedia a uma pessoa que  me era querida” (op. cit., p. 1447). Aparentemente, Ernst (de seu verdadeiro nome) referia-se a uma certa dama a quem ele dedicava presentemente as suas atenções. Foi, de resto, o que concluiu Freud. Entretanto, por entre algumas observações de natureza teórica por parte deste, o paciente recorda que, no momento em que o capitão falara daquele horrendo castigo, se havia livrado de ambas (note-se o plural) recorrendo às suas fórmulas habituais, isto é, às medidas defensivas com que tentava proteger-se daquelas ideias que “obsessivamente” e por diversas vezes o haviam fustigado apesar dele, isto é, contra a sua vontade. Freud, ao ouvir aquilo, não deixa passar o lapso. Ao dizer “ambas” referindo-se, aparentemente, a uma única pessoa, o sujeito havia sido ultrapassado, isto é, dividido, pela sua própria fala. Parecia haver, com efeito, mais alguém implicado nesse temor de que o sujeito padecia: a ideia de que aquilo pudesse acontecer a alguma pessoa querida. Quem seria, então, essa outra pessoa? É o próprio sujeito que acaba por confessá-lo: essa outra pessoa era o seu pai. Ele receava que aquela tortura pudesse ser aplicada igualmente ao seu pai.

E Freud parece encontrar aqui, pela primeira vez, o seu fio de Ariadne. Da mesma forma que esta personagem da mitologia grega, ao dar a Teseu um novelo de fio, lhe permitiu, depois de matar o Minotauro, encontrar a saída do labirinto, também Freud parece receber, pela voz do  paciente, um fio que lhe permite sair dessa espécie de labirinto em que se havia transformado (e até certo ponto continuaria a transformar-se) a fala do mesmo. O significante pai não deixa, aliás, de reaparecer constantemente ao longo da análise. Ele torna-se cada vez mais um ponto nuclear e um tema recorrente em torno do qual se vão pontuando os diversos momentos da mesma. A tal ponto que a solução da ideia dos ratos (outro tema recorrente) tende a subordinar-se cada vez mais ao esclarecimento do complexo paterno. É disso testemunho o título que Freud deu à última parte: O complexo paterno e a solução da ideia dos ratos. No entanto, a própria utilização do plural – ratos – faz-nos desconfiar de que talvez estejamos a ir demasiado depressa e nem tudo, afinal, seja redutível ao complexo paterno. E nesse caso – como recordava José Martinho numa passagem já aqui citada – a obsessão enquanto tal não pode dissolver-se sem que o analista (neste caso Freud) caia  também da sua posição de pai simbólico, ou de pai morto como puro significante. Não é por acaso, aliás, que se utiliza aqui a expressão pai morto. É de resto uma das coisas que mais desconcerta Freud: quando ele se apercebe de que o pai do paciente – de que este falava como se vivesse ainda – havia morrido há já vários anos. Então, somos levados a perguntar: por que tem necessidade este sujeito de manter vivo (ao nível do imaginário) um pai que está realmente  morto? Terá isso algo a ver com a natureza do próprio desejo do obsessivo? Um desejo, digamos, impossível ? Nesse caso, o pai morto teria por função essencial, ao nível da estrutura subjectiva, manter vivo o desejo deste sujeito, mas enquanto impossível. Vejamos se esta ideia tem ou não correspondência ao nível do próprio texto freudiano.

Na mesma altura em que o sujeito escuta da voz do capitão cruel o relato do suplício dos ratos, deu-se um evento que, embora aparentemente banal e insignificante, não deixaria de ter uma importância fulcral para o nosso paciente. O episódio conta-se em poucas palavras. Num desses descansos, a que já fizemos referência, o paciente perde as suas lentes (Cf. p. 1446 e ss das Obras Completas de Freud, op. cit.) e, como não tivesse sido fácil encontrá-las nem pretendesse atrasar a partida, decide telegrafar ao seu oculista de Viena para que lhe enviasse outras. No dia seguinte, o mesmo capitão de quem ouvira o relato do suplício dos relatos, entrega-lhe um embrulho postal, dizendo: “O tenente A. pagou por si o reembolso. Tem que devolver-lhe o dinheiro.” De imediato, surge no nosso paciente uma contra-ordem: “Não devolveria o dinheiro (Sublinhado por Freud) pois, caso contrário, sucederia aquilo (realizar-se-ia em relação ao seu pai e à dama venerada a fantasia dos ratos)”. Mas, logo a seguir, como era típico nele, acaba lutando contra esta “sanção” dizendo, quase em voz alta: “Tens que devolver as 3.80 coroas ao tenente A.”  Estamos, assim, perante um sujeito dividido entre dois termos de uma alternativa: devolver ou não devolver o dinheiro. Ora, a fim de percebermos, desde já, o absurdo de tudo isto (se não entrarmos em linha de conta com outra lógica: uma lógica do fantasma) é necessário dizer – como é notório ao longo das páginas em que Freud apresenta este episódio – que o paciente sabe desde o princípio, isto é, desde o momento em que recebe do capitão cruel a ordem para devolver o dinheiro, que este se havia equivocado. O sujeito sabe sem saber, ou melhor, sem querer saber, que não é ao tenente A. que tem de devolver o dinheiro. E no entanto, é como se encontrasse nesse equívoco uma ocasião, isto é, uma desculpa, um álibi para dar corpo ao seu fantasma. O que mostra, no fim de contas, como a realidade psíquica acaba por ser mais determinante para este sujeito que a realidade material. Os acasos do quotidiano acabam por ser moldados segundo a forma que lhes impõe a estrutura psíquica.

Todavia, Ernst nada quer saber disso. Ele propõe-se, a todo o custo, pagar a A., mesmo sabendo que não é a ele que deve o dinheiro. A partir deste momento, todas as suas manobras são desenhadas e conduzidas por um mesmo guia - o fantasma - numa tentativa vã e inconsequente de devolver o dinheiro a A. Quando, finalmente, se encontra com ele, este confirma-lhe, de viva voz, que há um equívoco, pois não foi ele quem pagou (nem sequer está encarregado de transportar o correio), mas o tenente B.. Como as dificuldades se avolumavam e o nosso sujeito persistia na ideia de que tinha de devolver o dinheiro a  A. – contra toda a lógica factual – magicou o seguinte plano: iria com os dois, A. e B., até ao local dos correios; chegados aí, o primeiro entregaria à empregada dos correios a quantia em dívida, a qual, por sua vez, os restituiria ao tenente B., tendo então o sujeito a oportunidade, por meio deste estratagema, de pagar a A. o dinheiro em dívida, segundo a lógica do seu fantasma. Mergulhado em tais pensamentos e indecisões – entre pagar ou não pagar – aconteceu-lhe um dia apanhar um combóio, só porque o moço da estação lhe perguntou se ia no combóio das dez (já não era, aliás, a primeira vez em que deixava conduzir-se assim pelo acaso, superando, desta forma, as eternas vacilações do pensamento) e, entre continuar ou sair na estação seguinte, acabou em Viena em casa de um amigo por quem tinha grande estima. Este, mostrando-se embora admirado de que Ernst ainda duvidasse da absurdidade de tudo aquilo, acalmou-o, prometendo-lhe que na manhã seguinte o acompanharia aos correios. E assim aconteceu. Na manhã seguinte dirigiram-se ambos aos correios a fim de remeter a quantia em dívida para os serviços que haviam recebido a embalagem postal contendo as lentes. Acontece, porém, que isto levanta um problema: se ele acaba, desta forma, por remeter o dinheiro, é porque sabia, desde o princípio, que tudo aquilo não passara de um equívoco. Freud não deixa, aliás, de notar esta contradição: “O nosso paciente devia saber – diz ele – que aquilo era um erro, e, no entanto, construiu, com base neste erro, o juramento que o havia de atormentar” (op.cit., p. 1450). Parece haver aqui, então, algo mais que uma mera dificuldade circunstancial; algo que transforma, por assim dizer, uma dívida de facto em dívida de direito; ou seja: que torna impagável, isto é, impossível de pagar uma dívida que, por um motivo ou outro, não fora paga. 

Para que isto se torne claro, é ainda necessário introduzir, pelo menos, dois elementos. O primeiro diz respeito ao sujeito e constitui, no dizer de Freud, a causa imediata que havia precipitado a sua doença; o segundo diz respeito, digamos, à pré-história do sujeito, mais concretamente a uma certa dívida que o seu pai contraiu e não chegou nunca a pagar. Entre um e outro, ou seja, “(…) entre esses elementos iniciais da constelação subjectiva e o desenvolvimento último da constelação fantasmática” (Cf. Lacan, O Mito Individual do Neurótico, Assírio e Alvim, 1987, p. 56) há uma estrita correspondência. “Tudo se passa – acrescenta Lacan um pouco mais à frente (p. 60) – como se os impasses próprios da situação original se deslocassem para um outro ponto da organização mítica, como se o que num sítio não está resolvido se reproduzisse sempre noutro”. É esse deslocamento do que não está resolvido, do impasse, que tende a perpetuar-se como impossível. Um impossível a que faltaria ainda (com um passo mais)  aceder à impossibilidade lógica, essa que não gira simplesmente em torno do mito (individual do neurótico) ou do pai (cuja morte não impede de estar vivo), mas da estrutura. É em nome desta estrutura, para além do pai, que Lacan começa a desenvolver as suas análises no Mito Individual do Neurótico.

Mas vejamos, em pormenor, como as coisas se passam ao nível do texto freudiano. “Numa das sessões do tratamento – diz Freud na página 1461 (Cf. Op.cit) – o paciente mencionou por acaso um acontecimento em que tive de reconhecer a causa precipitadora  da enfermidade, ou, pelo menos, o motivo recente do desencadeamento da mesma”. Esse acontecimento não foi mais nem menos que o conflito experimentado pelo sujeito - quando lhe foi sugerido pela mãe que casasse com a filha rica de um dos seus parentes abastados – entre a mulher que amava (pobre) e a mulher (rica) que lhe fora sugerida pela mãe.  Ora, encontramos aqui uma identificação – uma vacilação, um recuo, um passo atrás – no mesmo ponto em que o seu pai havia recuado: pois também este abdicara do seu desejo (que consistia em casar com uma certa mulher desprovida de recursos) em favor de um casamento, digamos, por conveniência. Fora a primeira dívida – seria caso para dizer – que o seu pai não havia saldado: uma dívida para com o seu desejo. Na impossibilidade de resolver o conflito com que  se debate presentemente, Ernst, à imagem do seu pai, acaba vítima dele e adoece. Mas falta ainda referir uma outra dívida contraída por seu pai e que, por circunstâncias nunca inteiramente esclarecidas, não chegara jamais a ser paga. Certa ocasião, num jogo de cartas, o seu pai (rato-de-jogo: Spielratte) perdera uma pequena soma que lhe estava confiada na qualidade de suboficial. Tal facto, ter-lhe-ia custado caro se não fosse a ajuda de um amigo que lhe adiantou o dinheiro. Quando abandonou o exército e adquiriu uma situação financeira confortável, procurou o amigo a fim de lhe devolver o dinheiro mas não conseguiu encontrá-lo. Era penoso, para Ernst, recordar esta falta juvenil de seu pai, visto que o seu inconsciente estava cheio de dúvidas hostis relativamente às qualidades do mesmo. Assim, ao ouvir do capitão que tinha de pagar a A., essas palavras soaram como uma alusão à dívida não saldada do pai. Eis como os vários fios da trama subjectiva começam a ligar-se. Vale a pena, neste ponto, escutar Lacan. Numa passagem do Mito Individual do Neurótico, ele escreve o seguinte: “A constelação – e porque não? No sentido em que dela falam os astrólogos – a constelação originária  que presidiu ao nascimento do sujeito, ao seu destino, e diria quase à sua pré-história, a saber as suas relações familiares fundamentais que estruturam a união dos seus pais, mostra ter uma relação muito precisa, e defínivel talvez por uma fórmula de transformação, com o que aparece como sendo o mais contingente, o mais fantasmático, o mais paradoxalmente mórbido do seu caso, a saber o último estado de desenvolvimento da sua grande apreensão obsidiante, o cenário imaginário ao qual chega como à solução da angústia ligada ao desencadear da crise” (op.cit, pp 53-54). Não é esta, afinal, uma outra maneira de dizer que o inconsciente é o discurso do Outro, ou seja, dessas falas anteriores e exteriores ao sujeito que acabam por tornar-se no mais intimamente exterior (ou, segundo um termo de Lacan, no mais êxtimo) dele mesmo?

Mas faltava ainda deslindar o papel do rato e mostrar até que ponto, como  pretende Freud, ele se articula ao complexo paterno: ajudando a esclarecê-lo ou sendo esclarecido por ele. Segundo Freud, a história dos ratos é um ponto nodal (ein Knotenpunkt) onde vêm entroncar os diversos fios da meada. Mas como situar esta coisa: como significante? Como objecto? Ou como um misto de significante e de objecto? Não faltam, no texto de Freud, elementos que apoiam uma ou outra das diversas posições. Vejamos.

Em primeiro lugar, é evidente que se trata de um significante, quer dizer, de um termo que serve de base a uma ou várias equações simbólicas do tipo: rato=pai=pénis=coito=criança=florins, etc. Tudo isto assente no mero jogo significante (e mesmo literal) da palavra rato. Vejamos apenas alguns exemplos, tais como eles aparecem na fala do paciente: Raten (prestações, pagamentos), Ratten (ratos), Spielratte (rato-de-jogo), Heiraten (matrimónio) e por aí fora. No capítulo final – O complexo paterno e a solução da ideia dos ratos – bem como na Notas manuscritas sobre o relato original do caso, este trabalho de Freud com base no significante – guiado pela própria fala do sujeito – está bem patente. Deste ponto de vista, a análise tenderia no sentido de uma progressiva significantização da experiência, de forma a restituir ao sujeito o sentido (perdido) da sua história. E, em última análise, esse sentido poderia formular-se numa única frase. E é interessantíssimo ver como Freud acredita, no fim de contas, ter chegado a essa  frase. Vejam-se as páginas 1471-72 (op. cit): “devolverei o dinheiro ao tenente A. quando o meu pai e a minha noiva tiverem filhos”. Ou: “É tão certo devolver o dinheiro como o meu pai e a minha noiva poderem ter filhos”. Quer dizer, num caso ou noutro, é impossível. Um desejo impossível de realizar. Ou realizando-se – isto é, auferindo uma satisfação – sob a forma desse impossível.

No entanto, há um resto objectal que não é redutível ao significante. Esse resto circula na própria fala do paciente: associando os ratos às lombrigas que o haviam atormentado na infância, às  doenças, nomeadamente de natureza sifilítica, que estes transportavam, à repugnância que provocam pelo facto de se alimentarem de excrementos e correrem  pelos detritos, etc. Se há uma nítida significação sexual em muitas das associações elaboradas pelo sujeito, há também algo que resiste a essa significação: um a  mais de gozo, como que a demonstrar que nem todo o gozo é fálico

Entre significante e objecto, este signo – rato - vem nomear o sujeito, enquanto sujeito roído pela’língua , na medida em  que esta, a’língua (lalangue, segundo a expressão de Lacan), não é apenas o solo maternal onde se nasce, quer dizer, onde se é primordialmente falado, mas também o aparelho com que se é forçado (sujeito) a gozar. Homem dos Ratos é então, parafraseando Pierre Naveau, o nome de um gozo forçado (Cf. Op. cit., pp. 55 e 60). Não é esse forçamento, aliás, um dos nomes do gozo?