CARTA ACF

Nº 11 - Outubro - Novembro - Dezembro de 1998

 

UM SER-PARA-O-SINTOMA

travessia pelo texto

OS CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO DE SINTOMAS*

Filipe Pereirinha

 

1- Para o leigo, a coisa seria equacionável da seguinte forma: sintoma = essência da doença e cura = remoção de sintomas. Ora, o que Freud propõe desde o início do texto é uma diferença, um corte: acabar com os sintomas não equivale a acabar com a doença (p.127).

Se pensarmos num sintoma qualquer (digamos: S¹), acabar com esse sintoma - é o que diz Freud - não significa acabar com a "doença", quer dizer, há algo que resta. O quê? A capacidade para formar novos sintomas (digamos: S²..., Sn).

Tal maneira de introduzir a questão põe-nos, desde já, de sobreaviso: parece haver no sintoma algo de irredutível (incurável?) que resiste a todo o esforço terapêutico. É essa "consistência" do sintoma (chamemos-lhe assim) que me leva a introduzir aqui a expressão: "ser-para-o-sintoma". Penso que não desvirtuo muito o pensamento de Freud se disser que é isso que ele propõe neste primeiro parágrafo: um ser-para-o-sintoma. O homem não como um ser para a cura (como acreditaria o leigo) ou para a morte (como propôs num certo momento Heidegger), mas para o sintoma. Poderíamos simbolizar tudo isso da seguinte forma: $ - um sujeito que é essencialmente um ser para o sintoma.

Bom. Mas o que é que sustenta ou dá consistência a isso, quer dizer, o que faz perdurar essa capacidade para formar novos sintomas?

2 - Em vez de responder à questão, Freud vai aguçar ainda mais o problema: os sintomas (...) são actos prejudiciais ou pelo menos inúteis para a vida do sujeito(...) de que ele muitas vezes se queixa e lhe provocam desprazer e sofrimento (p.127). No mínimo, há aqui um paradoxo. Já sabíamos que o sintoma é algo de estranho. Agora acrescenta-se: é algo de inútil. Além do mais, o sujeito queixa-se dele. E no entanto, contra tudo o que era de esperar, o sintoma permanece, resiste. O sujeito "agarra-se" a ele como se fosse a sua única identidade, o seu nome próprio: um ser-para-o-sintoma.

3 - Mas a questão mantém-se. Afinal, porque resiste o sintoma?

 

Sabemos já que os sintomas neuróticos são o resultado de um conflito que surge a respeito de um novo método de satisfazer a libido (p.128). E aqui eu sublinharia esta última parte: um novo método (ou uma nova maneira) de satisfazer a libido (eine neue Art der Libidobefriedugung).

Mas Freud continua: as duas forças (em conflito) que se separam voltam a juntar-se no sintoma e reconciliam-se no compromisso do sintoma que foi construído. É também por essa razão - acrescenta Freud - que o sintoma é tão resistente: tem apoio de ambos os lados (p.128).

Um dos parceiros em conflito é precisamente a libido insatisfeita que, tende sido repelida pela realidade, deve agora procurar outras vias para a sua satisfação (p.128).

As coisas começam finalmente a ganhar forma, a aclarar-se. Virando o sintoma do "avesso", por assim dizer, descortinamos esse qualquer-coisa-mais que o sustenta: a satisfação. O sintoma é uma modalidade de satisfação. Uma "estranha e inútil satisfação", convenhamos. E o que é isso senão um dos nomes do "gozo" (jouissance), tal como Lacan o usa e ab-usa no Seminário Encore? Pergunta ele na sessão de 21 de Novembro de 1972 a este propósito: o que é que é o gozo? E responde: o gozo, é o que não serve para nada. Por conseguinte, seguindo esta linha de raciocínio, o sintoma é um dos nomes do gozo.

4 - A direcção está tomada. Ela desloca-se progressiva e inexoravelmente no sentido da aproximação entre estes dois conceitos: sintoma e satisfação (befriedigung). O sintoma é uma modalidade de satisfação e o que lhe dá "consistência", quer dizer, o que o faz "perdurar" é a libido aí "fixada". A mesma que, segundo Freud, tem um carácter fundamentalmente imutável (p.129). Daí, talvez, a relativa "inércia" do sintoma.

O mais curioso e enigmático, no entanto, é que, sendo o sintoma uma modalidade de satisfação, ele dificilmente seja reconhecível ou reconhecido como tal pelo sujeito. No fundo, como dirá Lacan muitos anos mais tarde no texto Télévision, o sujeito é feliz, embora se queixe. Ao nível do "inconsciente" (sem o saber) o sujeito é feliz, porque há algo aí - estranhamente - que se satisfaz. Vejamos se não é isto mesmo o que diz Freud: Assim, o sintoma emerge como um derivado muito distorcido da satisfação inconsciente de um desejo libidinal, uma ambiguidade astutamente escolhida com dois sentimentos mutuamente contraditórios (p.129).

5 - Contrariamente a uma certa ideia de "progresso", de desenvolvimento, a libido parece não conhecer o tempo "linear" e "cronológico": tendo por alvo a satisfação é capaz de retirar-se (do exterior), de contornar (o recalcamento), de regredir (para as velhas fixações): abrir caminho à força para uma satisfação real - embora uma satisfação extremamente restrita e quase que irreconhecível como tal (p.130).

6 - Fazendo jus à ideia de que a "lógica" pulsional libidinal não é "linear" e "progressiva", Freud vai iniciar agora um percurso ao contrário: em sentido "regressivo". Trata-se de introduzir um novo factor de discussão: a "causalidade".

Começa por fazer a pergunta: onde é que a libido encontra as fixações de que necessita para ultrapassar os recalcamentos? (p.130)

A resposta é aparentemente simples e conhecida. Parece não trazer nada de novo. Remete para as actividades e experiências da sexualidade infantil (p.130), para as tendências abandonadas e os objectos de infância de que desistiu" (p.130). É a eles que a libido retorna.

Como se vê, nada de novo. E contudo..., um pouco mais à frente, no mesmo parágrafo, há como um virar de página. Abre-se um novo capítulo na discussão com estas palavras: a experiência analítica obriga-nos a presumir que as experiências puramente acidentais da infância podem deixar fixações da líbido (p.130).

O que é novo, aqui, é a introdução da problemática do "acidental", do "contingente", na determinação "causal" de uma neurose. O que não parece convir muito bem à suposição que tem servido de fio condutor a esta travessia: o sujeito como um ser-para-o-sintoma.

Prossigamos, no entanto. Os próximos parágrafos são dedicados à discussão desta problemática.

7 - Poderíamos colocar a questão do seguinte modo: por que razão a libido retorna (ou pode retornar) a certos "pontos" do seu desenvolvimento que julgaríamos, em princípio, ultrapassados? E responder: porque houve aí experiências infantis (acidentais, ocasionais...) que "marcaram" (traumaticamente) o sujeito.

Mas a isto, Freud responde: há o perigo de um mal entendido que nos poderia induzir a basear erradamente a nossa visão da vida de modo demasiado unilateral na situação neurótica. Afinal, à importância das experiências infantis devemos subtrair o facto de a libido ter voltado a elas por regressão (sublinhado de Freud), depois de ter sido posta fora das suas posições posteriores (p. 132).

Deste modo, Freud relembra-nos que um acontecimento só ganha sentido "mais tarde", implicando, por isso, uma reconstrução "retroactiva" (nachträglich). Também aqui, nada de novo. É uma maneira habitual de Freud proceder. As experiências anteriores são remodeladas posteriormente em função de novas experiências. É só num "segundo tempo" (digamos: S²) que um acontecimento marcante, "significante" (digamos: S¹), ganha um "efeito de sentido".

Ora, Freud vai mais longe. Apercebe-se de que uma tal maneira de conceber as coisas é tentadora e pode levar à conclusão - insustentável - de que essas experiências libidinais (anteriores) não tiveram a mínima importância na altura em que aconteceram e que só adquiriram essa importância por regressão (p. 132).

Isto não significa que Freud pretenda renegar tudo o que havia dito anteriormente. Continua a defender a importância da "retroactividade" no momento de conferir "sentido" a uma certa ocorrência. Pretende evitar apenas que se caia num qualquer reducionismo. É o que pode depreender-se das palavras seguintes. A afirmação - diz Freud - de que o investimento libidinal (logo a significação patogénica) das experiências infantis foi largamente intensificado pela regressão da libido é indubitavelmente correcta, mas induzir-nos-ia em erro se a considerássemos o único factor decisivo. Há outras considerações também de peso. (p.133)

Qual é, pois, a solução proposta por Freud?

 

Posso finalmente fazer-lhes notar que entre a intensidade e a importância patogénica das experiências infantis e das posteriores existe uma relação complementar (p.134).

É certo que há aqui uma velha tentativa (muito diplomática, digamos) de "conciliar" os dois pontos de vista. Uma espécie de "solução de compromisso", tal como acontece, por exemplo, na generalidade das "formações do inconsciente". Apesar disso, ficamos com a impressão de que ainda não foi dita a última palavra.

 

Devemos reflectir - aconselha Freud - que seria inconcebível que a libido regressasse tão regularmente ao período da infância a menos que houvesse aí algo que sobre ela exercesse poderosa atracção (p.134).

Interessante observação, esta. A libido regressa porque há aí - nos pontos de fixação - um "estranho atractor". Não encontro melhor expressão. Mas como acercar-se disso? Como dizê-lo?

Diz Freud: a Fixação que supusemos estar presente em determinados pontos do curso do desenvolvimento só poderá ter significado se a considerarmos como consistindo na retenção de certa quota de energia libidinal (p.134).

Temos aí, finalmente, uma primeira resposta: "isso" que atrai (um "estranho atractor", dizia eu) não é outra coisa senão um "condensador de libido". Retenção - diz Freud - de certa quota de energia libidinal. Lacan dirá mais tarde: "condensador de gozo" (escrevendo isso com uma pequena letra: a).

Temos assim uma nova maneira de entender o que significa o termo "traumático" quando Freud o emprega neste texto. Há casos - diz ele - em que todo o peso da (...) causalidade recai sobre as experiências sexuais da infância, casos em que essas impressões exercem um efeito decisivamente traumático (p.134). Creio ser legítimo concluir - após o que dissemos - que o "trauma" de que se fala aqui não é outra coisa senão o "o trauma do gozo" (ou da pulsão, se quisermos). É porque há algo aí "impossível" de suportar, mas também impossível "inscrever" simbolicamente, que toda a toda a "cadeia significante" (como dirá Lacan), ou todo o "aparelho psíquico" (como dirá Freud, por exemplo, num dos últimos textos - Esboço de Psicanálise) parece "girar" em torno desse "buraco", sem jamais conseguir tapá-lo. Eis porque o sintoma insiste, persiste e consiste: porque há algo aí que "não cessa de não se escrever", impossível, real. O carácter "necessário" do sintoma, isto é, o que "não cessa de escrever-se", de repetir-se (o que fez com que eu tivesse dito: um ser-para-o-sintoma) fundamenta-se, em última análise, num "impossível", num "real como impossível", num "desencontro" essencial e constitutivo entre o homem e a Coisa.

Creio que é tudo isso que Lacan - clarificando e simplificando de maneira extraordinária estes últimos parágrafos que tenho vindo a comentar - nos diz na sessão de 12 de Fevereiro de 1964 do Seminário Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.

 

A função da tuché - um termo que Lacan pede emprestado a Aristóteles - do real como encontro - o encontro na medida em que ele pode ser falhado, que é essencialmente encontro falhado (rencontre manqueé) - apresentou-se na história da psicanálise antes de mais sob uma forma que, em si mesma, é já suficiente para despertar a nossa atenção - a do traumatismo.

E Lacan acrescenta: não é assinalável que, na origem da experiência analítica, o real se tenha apresentado sob a forma do que há nele de inassimilável - sob a forma do trauma, determinando imediatamente, e impondo-lhe uma origem aparentemente acidental?

8 - Deixando no ar a pergunta de Lacan, voltemos ao texto de Freud. Quer dizer: voltemos aos sintomas. Eles criam, pois, um substituto para a satisfação frustrada (p.135). O sintoma é então um "substituto" (uma metáfora, diria Lacan) para uma certa satisfação. Que quer isto dizer? Ou seja: que satisfação é essa?

 

Descobrimos há algum tempo - diz Freud - que os neuróticos estão ancorados em algum ponto do seu passado; sabemos agora que é num período do passado em que à libido não faltou satisfação, em que eram felizes (p.135).

Dito assim, não parece haver aqui nada de verdadeiramente interessante e inovador. Os neuróticos viveriam sob o signo da nostalgia e da recordação: houve um tempo em que foram felizes...

Já a seguinte passagem introduz algo mais. Procuram - Freud continua a referir-se ao modo de proceder dos neuróticos (nomeadamente no que concerne à neurose de histeria) - na história de sua vida até encontrar um período desse tipo mesmo que tenham de recuar até ao tempo em que eram bebés de colo - e agora vem a parte essencial - como o recordam ou como o imaginam a partir de indícios posteriores (p.135).

Portanto, mais do que uma mera "nostalgia" ou "recordação", trata-se de uma "exigência" interna, impossível de contornar, que não encontra no passado a sua "origem", mas tão só a "ocasião" para se "exprimir".

 

De qualquer modo - continua Freud - o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, distorcida pela censura proveniente do conflito, transformada, regra geral, numa sensação de sofrimento e misturada com elementos vindos da causa desencadeante da doença. A forma de satisfação trazida pelo sintoma tem em si muito de estranho (p.135).

Que bela maneira esta de Freud, antes de Lacan, nomear o gozo: uma estranha satisfação.

E com isto, avançamos um passo mais. O que dá "consistência", isto é, o que faz persistir essa "capacidade" para formar novos sintomas, e que faz do sujeito, como tal, um ser-para-o-sintoma, é, afinal de contas, essa "estranha satisfação" de que acabámos de falar. Quer dizer: antes de ser para o sintoma, o homem é "um ser-para-o-gozo". E por isso, de uma forma ou de outra, por mais paradoxal que isto possa soar, a um certo nível tudo se "arranja": o sujeito é feliz.

Podemos não considerar o facto - acrescenta Freud - de essa satisfação ser irreconhecível para o sujeito que a sente como sofrimento e se queixa dela. (p.135)

A que se deve, afinal, este paradoxo?

 

Esta transformação - responde Freud - é função do conflito psíquico sob cuja pressão o sintoma teve de ser formado. O que no passado foi uma satisfação para o sujeito, pode bem provocar nele resistência ou nojo no tempo presente (p.136)

Tal "discrepância" deve-se essencialmente, como Freud vai mostrar por meio de um exemplo (a experiência do desmame, com todos os seus efeitos traumáticos (p.136) à introdução de um novo factor: a "castração". É esta que "desfigura", de certa maneira, a satisfação (a tal ponto que os sintomas nos parecem estranhos e incompreensíveis como meio de satisfação libidinal não nos fazendo lembrar nem um bocadinho qualquer coisa de que costumamos usualmente esperar satisfação - p.136). Concluiríamos: o gozo, no ser humano, é estranho e paradoxal - e isso deve-se à "castração", quer dizer, ao "preço" que cada sujeito tem de pagar para tornar-se humano.

9 - Quando pensávamos que tudo ficará dito, eis que Freud nos avisa de que temos ainda algo de novo a aprender: algo de surpreendente e desconcertante (p.137).

Bom, mas onde é que reside, afinal, essa surpresa?

 

A surpresa - responde Freud - reside no facto de que essas cenas da infância (felizes ou traumáticas) nem sempre são verdadeiras. Na realidade não são verdadeiras na maioria dos casos e em alguns deles são o oposto directo da verdade histórica. (p.137).

Quer isto dizer então que são falsas?

Não, responde Freud. Nem uma coisa nem outra. Ou uma coisa e outra ao mesmo tempo. Pois não é certo que a verdade pode vir à luz por meio da mentira e esta nascer daquela? Com efeito - pergunta Lacan na já referida sessão do Seminário sobre Os Quatro Conceitos... - como não haveria verdade na mentira (mensonge) ? - esta verdade que torna perfeitamente possível, contrariamente ao pretendido paradoxo, que se afirme - Eu minto.

Freud, pela sua parte, confirma por completo esta "intrincação" da verdade e da mentira. Verifica-se - diz ele - que as experiências infantis construídas ou recordadas na análise são por vezes indiscutivelmente falsas e outras vezes absolutamente correctas, e na maioria dos casos são um composto de verdade e mentira (p.137).

Parece, afinal de contas, como nota Freud logo a seguir, que andámos a perder o nosso tempo com histórias inventadas (p.138).

Mas não se trata disso. É outra coisa. Uma coisa bem mais essencial. Para além da já sublinhada intrincação da verdade e da mentira ( e o que deriva disto: que a verdade - como dirá Lacan por diversas vezes - só pode ser dita por "metade"), é o próprio estatuto da "realidade" (e do real) que aqui está em causa.

 

As fantasias - diz Freud - possuem uma realidade psíquica. Portanto, não são "ilusórias" ou falsas. É certo que não possuem uma realidade material. Mas - como sublinha Freud - no mundo das neuroses, a realidade psíquica é que é decisiva (p.139).

A "realidade" material" tem um papel secundário relativamente à "realidade psíquica". É como se fosse dispensável. A única impressão com que ficamos é que esses acontecimentos da infância são de um modo ou de outro exigidos como uma necessidade, que fazem parte dos elementos essenciais de uma neurose. Se ocorrerem na realidade tudo bem; mas se não encontrarem apoio na realidade, são construídos a partir de alusões e complementados pela fantasia (p.141)

Falta ainda, no entanto, responder a uma questão: de onde vem a necessidade dessas fantasias e o material para elas?

Responde Freud: Não pode haver dúvida de que a sua fonte reside nas pulsões (p.141).

O sintoma descobre finalmente o seu rosto. A sua "consistência" deve-se ao facto de ele estar "suspenso", preso, estreitamente ligado a um fantasma "fundamental". Na expressão: um ser-para-o-sintoma", a palavra "ser" sublinha essa consistência - a consistência do fantasma. Se o sintoma "insiste" - é caso para dizer - é porque o fantasma "consiste".

Por outro lado - e é isto que retiro das palavras de Freud - sintoma e fantasma são já um "modo" de lidar com isso: a pulsão. É porque há aí algo de "excessivo" e incontornável que o sujeito tem de "responder" de uma forma ou de outra. Se entendermos a pulsão como um dos nomes do gozo (um dos nomes freudianos do gozo), perceberemos o que diz Jacques-Alain Miller no Seminário de Barcelona sobre Die Wege der Symptombildung: Há no gozo qualquer coisa de excessivo - diz ele - que obriga sempre o sujeito a defender-se contra o gozo que ele procura (texto incluído no Le Symptôme-Charlatan, Seuil, 1998, p. 28).

E não se pense que estou a afastar-me do texto freudiano. É Freud, ele mesmo, quem dá conta disto em várias passagens, salientando a necessidade de introduzir o que ele chama de factor económico. Quer dizer, para Freud não é suficiente descrever os processos mentais de um ponto de vista qualitativo, é necessário descrevê-los também de um ponto de vista quantitativo. E deste ponto de vista, o alvo último da actividade mental, que qualitativamente pode ser descrito como uma procura no sentido de obter prazer e evitar o desprazer, emerge, visto do ponto de vista económico, como a tarefa de dominar as cargas de excitação (massa de estímulos) que operam no aparelho mental e de manter baixa a sua acumulação, que cria desprazer (p.145).

Concluindo: não se trata de prometer mais felicidade lá onde o sujeito já é feliz, mas de levá-lo a interpelar-se acerca de "quanto custa" essa suposta felicidade, para que não aconteça que venha a pagá-la demasiado caro: com a própria vida.

É por isso, talvez, que Freud termine este pequeno mas riquíssimo texto com uma breve alusão a uma outra via (Weg) de satisfação pulsional: a sublimação. Não quer isto dizer que este caminho não tenha também o seu "preço"... Mas isso, por si só, dava outro texto.

*Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, "Conferência 23", in Textos Essenciais de Psicanálise, Vol. III, Lisboa, Publicações Europa-América, 1989.