CARTA ACF

Nº 10 - Abril - Maio - Junho de 1998

 

OS NOMES E AS COISAS

Filipe Pereirinha

 

O interesse pela linguagem (na sua relação com o pensamento ou com a realidade) não é, como sabemos, recente. Tem, pelo menos, a idade de Platão ("Crátilo") ou de Santo Agostinho ("O Mestre"), para referir apenas dois nomes sonantes. Um e outro tomaram a linguagem como objecto de reflexão, ainda que em momentos e com propósitos diversos.

Contudo, apesar deste secular interesse pelo fenómeno da linguagem, há algo que é incontestavelmente novo: o modo singular como nos últimos anos (entenda-se: no último século) passou a encarar-se o dito fenómeno.

Tradicionalmente, com efeito (salvo uma ou outra excepção marcadamente pontuais) a linguagem era vista como coisa segunda relativamente a uma coisa primeira (fosse esta encarada como a realidade ou o pensamento, o interior ou o exterior). Na sua natureza de veículo, ela teria por função traduzir (secundariamente) o acontecimento inaugural (e inefável) da coisa mesma. Daí que - segundo esta perspectiva - algumas palavras (e algumas línguas) tivessem uma relação privilegiada com a própria coisa (respirando, por assim dizer, o seu ar) enquanto outras seriam relegadas para uma posição subalterna. Daí nasceram: um mito (da origem ), um problema (da relação entre os nomes e as coisas) e uma controvérsia (entre os que adoptavam uma posição, digamos, mais próxima das coisas ou mais próxima dos nomes).

É evidente que esta maneira esquemática de apresentar as coisas não deixa de ser redutora. Ela serve, no entanto, como pano de fundo para situar a novidade em que se inscrevem duas posições absolutamente originais e "emblemáticas" da contemporaneidade no que diz respeito ao significado e ao papel a atribuir à linguagem. São elas as posições, respectivamente, de Wittgenstein e de Lacan.

Não vou aqui reabrir nenhum debate sobre a questão de saber em que medida - ou até que ponto - estas posições (no que diz respeito ao entendimento que cada um deles tem da linguagem) são compatíveis entre si. Interessa-me apenas salientar um ponto. Qualquer que seja (que fosse ou que venha a ser) a resposta a dar à questão anterior, uma coisa é certa: Wittgenstein e Lacan recusam atribuir à linguagem um papel secundário relativamente a uma suposta coisa primeira (o que quer que isso seja…); para eles - bem pelo contrário - a linguagem tem não apenas (nem essencialmente) uma função veiculadora (de um qualquer sentido prévio, se é que existe tal sentido), mas também (e acima de tudo) uma função - como dizer? - constitutiva; só como efeito retroactivo ou contextual é que é possível falar de sentido ("meaning", "sens"). Fica, deste modo, assente que a relação entre as palavras e as coisas é, no mínimo, problemática. Como vemos, estamos longe de toda e qualquer harmonia pré-estabelecida.

Dito isto, falemos de um acaso. Um acaso feliz (não é, afinal, todo o acaso um acaso feliz?). Veio-me parar recentemente às mãos (enquanto eu preparava um trabalho precisamente sobre Wittgenstein e Lacan) um livro de um tal Francisco Sanches. Português de nascimento (1551/1623) - embora escrevendo em latim, como era, de resto, usual -, ele surpreendeu-me, desde logo, pelo carácter arrojado do título que deu ao seu livro: "Que Nada se Sabe" (Quod nihil scitur). Não é que fosse o primeiro na história do pensamento, como sabemos, a dizê-lo; de qualquer forma, e independentemente dos seus ilustres antecessores, ao vê-lo dito (ou melhor: escrito) uma vez mais, isso surpreendeu-me.

É claro que uma proposição destas - "que nada se sabe" - é difícil de manter. "Pois - a ser coerente, como reconhece o próprio Francisco Sanches logo no início do seu livro - nem sequer sei que não sei nada" . O que me leva a concluir: afinal de contas, esta dúvida deixa esperança. Esperança a quê? A um saber…futuro. E sob o carácter aparentemente "histérico" (no sentido de que põe em causa todo o saber suposto) das considerações de Francisco Sanches podemos ouvir, em surdina, um desejo ou uma aspiração: a que um mestre - afinal - produza um saber (se sabe) ou reconheça a sua impotência (que não sabe). Eis o que não deixa de quase-dizer o próprio Francisco Sanches, com estas palavras, no fim do seu livro: "Se alguma coisa sabes, ensina-me: muito agradecido te ficarei." ¾ E acrescenta, seguidamente, o que pode ser lido como uma promessa - de quê? - de saber: "Entretanto nós, cingindo-nos ao estudo das coisas, diremos num outro livrinho se alguma coisa se sabe, e como: nele exporemos o meio de saber tanto quanto é compatível com a humana fragilidade."

Seria necessário dar um passo mais (ou um passo atrás, se o lermos retroactivamente) para concluir, com Wittgenstein, que a dúvida não só conduz (ou pode conduzir) a uma certeza, mas que a pressupõe desde o início. É o que ele - Wittgenstein - afirma, precisamente, num livro intitulado Da Certeza. Vejamos alguns exemplos.

 

Para começar, diz Wittgenstein: "Quem não tiver a certeza de facto nenhum, também não pode ter a certeza do significado das suas palavras." Depois: "Quem tentasse duvidar de tudo, não iria tão longe como se duvidasse de qualquer coisa. O próprio jogo da dúvida pressupõe a certeza." E finalmente: "(…)as perguntas que formulamos e as nossas dúvidas dependem do facto de certas proposições estarem isentas de dúvida (…)"

Seja como for (e contra toda e expectativa), se convoco o nome de Francisco Sanches é porque ele se aproxima das posições de Wittgenstein e de Lacan acerca da linguagem (estranhamente, talvez!), em certas passagens do seu livro. Senão, vejamos.

Fala-se, a certa altura, na tendência, por parte de alguns, em "estabelecer (…) que a filosofia não pode ser ensinada senão na língua grega ou latina." Um dos motivos invocados, para tal, seria o facto de não haver palavras - dizem eles - "para traduzir muitas das que existem naquelas línguas(…). Não vou aqui deter-me nos exemplos profusamente evocados por Francisco Sanches. Basta reter, para já, a seguinte ideia: de acordo com o que ficou exposto, certas línguas teriam, por assim dizer, uma relação privilegiada com a coisa (a coisa de que se trata, naturalmente).

E podemos ir ainda mais longe, como acrescenta Francisco Sanches logo a seguir. "Junta a isto - diz ele - a frívola opinião de alguns que assinam às palavras não sei que força própria, para como consequência dizerem que os nomes foram impostos às coisas segundo a essência de elas. Levados por isso é que alguns não menos estultamente procuram mesmo tirar de alguma coisa a significação de todas as palavras (…)"

E quanto à etimologia? Quer dizer, à suposição de que haveria uma raiz primitiva da palavra ligada à própria natureza da coisa… Quanto a isto, adverte F. Sanches: "Se a palavra lapis foi, como dizes, imposta pela natureza da coisa, diz-me: será da natureza da pedra ferir os pés? Suponho que não; mas seja. Como é que a palavra laedo representa a natureza do dano que significa? Como é que a palavra pes representa a natureza do pé? Vamos dar ao infinito."

E a argumentação continua: "Se alguma coisa indicares em virtude da qual esta se diga, o mesmo perguntarei a respeito de ela, e assim iremos dar novamente ao infinito; se parares em alguma palavra, já não se saberá como é que ela mostra a natureza da coisa que significa."

Se restasse alguma dúvida ainda acerca do grau de pureza ou legitimidade que teriam certas línguas relativamente às demais no que diz respeito à sua relação com as coisas, bastaria acrescentar "o facto de as línguas se alterarem continuamente." Na verdade, como sublinha F. Sanches um pouco mais à frente: "Sucede à linguagem o mesmo que com as coisas ¾ alterar-se completamente com o uso, e a alteração chega a ser tal, que a linguagem degenera por completo e torna-se inteiramente diversa." Além disso - continua F. Sanches - "(…) este vai pedir emprestadas àquele muitas palavras, e aquele a outro; e assim julgo que não nos resta nenhuma língua legítima e pura."

Conclusão de Francisco Sanches: "Não têm portanto as palavras nenhuma faculdade de indicar a natureza das coisas a não ser aquela que lhes vem do arbítrio de quem as cria. A palavra canis, por exemplo, tanta força tem para significar um cão como para significar pão, se assim nos agradar. Há todavia alguns nomes impostos às coisas, não em virtude da essência, mas de algum efeito ou acidente. Efectivamente quem é que conhece a essência das coisas para lhes impor nomes em virtude de ela? O que é que há de comum entre as coisas e as palavras?"

O que ressalta de tudo isto?

Não querendo ser exaustivo, há, no entanto, um conjunto de aspectos que importa sublinhar. Primeiro: a recusa, por parte de F. Sanches, em atribuir um papel privilegiado a qualquer língua no que concerne à pretensa capacidade da mesma para dizer mais adequadamente a coisa em questão. Segundo: o carácter intrinsecamente problemático da relação entre os nomes (ou as palavras) e as coisas. E por último: o facto - também sublinhado por F. Sanches - de que o sentido (da linguagem, das palavras…) se altera com o tempo e com o uso. Daí a legitimidade da pergunta final de Francisco Sanches: "o que é que há de comum entre as coisas e as palavras?"

Vejamos como Wittgenstein poderia responder (ou, melhor dizendo: evitar ) a questão. Diz ele no parágrafo 30 (Primeira parte) das Investigações filosóficas: "É preciso já saber (ou dominar) um mínimo para poder perguntar pelo nome de uma coisa." E adianta um pouco mais à frente, no parágrafo 31: "Podemos dizer: com sentido, só pergunta pelo nome de uma coisa quem já sabe o que vai fazer com ela." Por conseguinte - eis a minha conclusão - não se trata apenas de realçar o carácter problemático da relação entre as palavras e as coisas (como fizera F. Sanches), mas de mostrar que, para que tenha sentido perguntar sobre a natureza dessa relação, é já necessário habitar, por assim dizer, no campo da linguagem.

´É o que Wittgenstein não deixa de salientar num outro livro. Diz ele, a certa altura: "O erro que estamos sujeitos a cometer poderia ser expresso deste modo: procuramos o uso de um signo, mas fazemo-lo como se ele fosse um objecto coexistente com o signo. (Uma das causas deste erro é, de novo, o facto de estarmos à procura de uma "coisa correspondente a um substantivo")." Contra esta tendência, Wittgenstein acrescenta logo a seguir: "O signo (a frase) obtém o seu significado, do sistema de signos, da linguagem à qual pertence. Numa palavra: compreender uma frase significa compreender uma linguagem."

E quanto à suposta relação entre as palavras e as coisas, bastaria dizer - para concluir - o seguinte: "(…) As palavras não são a tradução de algo que já existia antes delas." É, pelo menos, o que conclui Wittgenstein num outro livro.

E Lacan? Estaria ele de acordo com esta concepção de linguagem?

Vejamos - para começar - o que ele diz a este propósito, ainda no Seminário I: "A palavra ou o conceito não é de modo algum outra coisa para o ser humano que a palavra na sua materialidade. É a coisa mesma. Isso não é simplesmente uma sombra, um sopro, uma ilusão virtual da coisa, é a coisa mesma."

Por conseguinte, não se trata apenas de mostrar que a relação entre as palavras e as coisas (como duas entidades distintas) é mais ou menos problemática, mas de salientar isto: a coisa de que aqui se fala é ela mesma falante, quer dizer, é uma criação da linguagem.

"A palavra - diz Lacan - institui-se como tal na estrutura do mundo semântico que é o da linguagem. A fala (parole) não tem nunca um único sentido, a palavra (mot) um único uso (emploi). Toda a palavra (parole) tem sempre um além, sustenta diversas funções, envolve diversos sentidos. Por detrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer, há ainda um outro querer-dizer, e nada será jamais esgotado ¾ o que vai dar nisto, que a palavra tem função criadora, e que ela faz surgir a própria coisa."

Quanto à outra coisa, à coisa real (e nessa medida impossível de dizer), ela está estruturalmente perdida. E se não há uma língua (como reconhecia F. Sanches) que tenha o privilégio de dizer a coisa, é porque esta não existe (a não ser miticamente); daí que reste a cada língua materna dizer (à sua maneira) não a coisa mas a sua falta.