CARICATURAS DE FREUD

 

Nos 150 anos do seu nascimento

 

 

José Martinho

 

Em primeiro lugar, queria expressar o meu agradecimento à Embaixada da Republica Checa em Portugal por me ter convidado para apresentar as caricaturas de Freud de Vladimír Jiránek.

 

Não contava falar quase exclusivamente para embaixadores, adidos culturais e membros do corpo diplomático de vários países. Normalmente, quando estou em companhia de tão ilustres pessoas não falo de Freud. Mas hoje tenho a honra de saber que escutarão o que tenho para dizer sobre o homem e a obra.

 

À sua maneira, as caricaturas que viemos admirar são também uma caricatura de outras caricaturas que se fizeram de Freud.

 

Podia até dizer que o que se difunde geralmente ao nível do grande público são caricaturas da invenção de Freud. Por exemplo, dizem que Freud foi uma grande figura da medicina. Os desenhos que aqui podemos ver retratam-no também vestido com a bata de médico, mas quando lemos as legendas e observamos as poses e as situações por vezes promíscuas em que se mete, somos levados a pensar que se trata de um médico extremamente bizarro, de um medico que é a própria caricatura da respeitabilidade médica.

 

Quem sabe se Vladimír Jiránek não pensou simplesmente que o nome Freud soa quase como Freude, palavra alemã que significa alegria.

 

Mais do que um médico, um sábio de mérito e um escritor premiado, Freud condiz sobretudo com a alegria que nos trouxe, porque criou algo – a Psicanálise - essencialmente destinado a por bem disposto quem não o está.

 

No início do século XX, o pensamento e a prática freudianas tornaram-se para muitos uma verdadeira tragédia. Mas ao longo dos tempos esta tomou também ares de comédia, o que não significa que Freud seja um cómico.

 

Num dos primeiros livros que escreveu, chamado O chiste e a sua relação com o Inconsciente, Freud analisa as diferentes formas de rir, essencialmente, a maneira cómica, chistosa e humorística.

 

O que faz rir de maneira cómica, e leva por vezes a uma contagiante euforia, baseia-se na comparação entre a pessoa que ri e aquela de quem ela ri. Quem é a pessoa de quem se ri? Pode ser uma criança algo atrapalhada ou ingénua, mas também alguém que, devido a uma certa circunstância, se comporte como tal. Pelo menos para o adulto, a situação cómica contém algo de infantil e de desconfortável, até de falso, feio e mau. Assim, quando alguém vai na rua, escorrega numa casca de banana e cai no chão, a pessoa que a observa pode não conseguir conter o riso provocado pelo inesperado da situação. Há como que uma identificação do Eu da pessoa que ri com o outro que se encontra em maus lençóis, nesta base: não foi a mim que isto aconteceu, mas a ele.

 

O cómico sofre da relação imaginária com o semelhante e da interferência da situação que se constata; já as anedotas dão trabalho porque têm de ser inventadas. Este suposto labor leva Freud a estudar o processo de criação do chiste, da chalaça ou mais propriamente do dito espirituoso <Witz>.

 

Não bastam só duas pessoas para se ser espirituoso. É necessário um terceiro elemento, que se dizia desde Kant ser o «juízo». Falava-se de um juízo repentino, que enganaria a racionalidade do sujeito durante o curto momento em que provocaria o riso. Mas este terceiro elemento não é propriamente um juízo no sentido técnico do termo, não é um juízo racional, nem um juízo estético sobre o belo ou o sublime, e sim um jogo de palavras, o trocadilho que, a partir do inconsciente, produz a súbita associação de ideias que faz rir ou sorrir.

 

Freud fornece exemplos de chistes obscenos (que desnudam), de chistes agressivos (hostis), de chistes cínicos (blasfemos, críticos) e absurdos. Eu limitar-me-ei aqui a dar um exemplo actual. Encontra-se num episódio da série Meireles do Gato Fedorento. Um padre católico diz: «Jesus Cristo é o Senhor». Retorque aquele que está em frente dele: «Perdão, Jesus Cristo é o Senhor!» Ao que o padre responde: «Jesus Cristo é o Senhor!»; e o quiproquó repete-se indefinidamente. Vemos que a piada repousa inteiramente no equívoco da palavra «Senhor», que no contexto se refere tanto ao Filho de Deus, como ao cavalheiro a quem se fala.

 

O mais importante disto tudo é que não pode haver jogo de palavras sem que haja uma língua comum e um grupo social que entenda a graça. O livro de Freud está repleto de anedotas judaicas, essencialmente recolhidas dos escritos de Heine e Lichtenberg, autores que conheciam bastante bem os tiques daqueles que frequentavam a Sinagoga no anti-semita Império Austro-húngaro. Por estarem hoje fora de contexto, e ter havido entretanto alguns acontecimentos históricos bastante desagradáveis, muitas destas graças deixaram de ser engraçadas. Podemos ainda apreciar a inteligência da sua criação, mas elas já não nos fazem rir, pelo menos a bandeiras despregadas.

 

Não é este o caso da Psicanálise. Na televisão, no cinema e em muitos lugares da sociedade é frequente ouvir graças sobre ela. Na Universidade onde trabalho, todos brincam com o facto de eu ser psicanalista. E ainda noutro dia escutei numa peça de teatro em Lisboa uma série de piadas sobre os psicanalistas. Pude constatar que eram de longe as mais hilariantes. A Psicanálise é assim, não pára de fazer rir.

 

Mas o mecanismo psíquico que Freud considera mais valioso, porque se baseia no deslocamento próprio ao desejo de outra coisa, é o humor. Ele mesmo tinha imenso humor.

 

Darei um exemplo que é tanto cáustico como significativo. Como sabemos, Freud nasceu na Morávia, região que pertencia ao antigo Império Austro-húngaro e que faz parte da actual Republica Checa. Pensei até que pudesse aqui haver um início de conflito diplomático entre os Senhores Embaixadores da Áustria e da Republica Checa, para saber a quem pertencia Freud. Sabemos, também, que Freud viveu a maior parte da sua vida em Viena, e que não queria deixar a cidade por nenhum motivo. Mas por razões de força maior, foi obrigado a abandonar Viena fugindo ao regime nazi. Ofereceram-lhe, então, uma luxuosa moradia para se instalar em Londres. Um dia, passeando no jardim dessa casa, comentou com o seu amigo Ernst Jones que, quando pensava nas suas novas condições de vida, também ele tinha vontade de gritar «Heil Hitler!».

 

Este humor negro é um excelente exemplo para caracterizar aquilo sobre o qual incide a psicanálise: o sujeito atraído pelos poderes da palavra, pela boa palavra que o vai trair, quando deixa escapar a patologia da sua normalidade quotidiana, sobretudo quando mostra o objecto que lhe causa maior gozo e pavor, que, no caso, não é Hitler, mas ele mesmo.

 

Ter humor é saber rir de si, mesmo sem análise ou fora dela. Contudo, o humorista é raro, pois é alguém que até consegue rir dos seus defeitos e afectos mais dolorosos.

 

Freud não só sabia rir de si, como foi um excelente caricaturista do indivíduo e da sociedade.

 

O que liga a caricatura ao humor? A caricatura situa-se entre o cómico e o chiste. Ela nasce quando aquilo que se oculta é descoberto à luz da maneira cómica de olhar as coisas, e tornado óbvio, trivial pelo chiste.

 

Como a paródia e o disfarce carnavalesco, a caricatura é dirigida contra sujeitos e objectos de respeito, que são vistos como grandes no sentido psíquico.

 

Enquanto a caricatura sublinha um traço crítico da coisa ou da personalidade que se destaca para levar a cabo a sua degradação, a paródia e o carnavalesco realizam de outra forma a queda do que se tornou eminente: por exemplo, destroem a unidade existente entre o carácter da pessoa, tal como o conhecemos, e os seus discursos e atitudes, substituindo as figuras ou as suas enunciações por outras inferiores.

 

A caricatura política sempre teve um papel de relevo, na medida em que tende a mostrar que os representantes do povo nunca cumprem o que prometem. É o que se passa agora na Hungria, onde o chefe do governo, Ferenc Gyurcsany, caiu em desgraça após a revelação de gravações em que declarava ter mentido ao país acerca da crise económica. Como acabou deste modo por dizer a verdade sobre a sua mentira eleitoral, não pôde ser caricaturado de Pinóquio como Romano Prodi em Itália, e as ruas de Budapeste ficaram a ferro e fogo.

 

Mas a caricatura, a paródia e o carnavalesco põem-se sobretudo ao serviço do humor, da ridicularização do narcisismo do Eu, disso que cada um tem dentro de si quando se sente o primeiro e o mais importante, por vezes, senhor(a) do mundo.

 

O que a psicanálise explicou é que o Eu se comporta como Augusto, o típico palhaço de circo, que fala e se agita muito diante de todos para que pensem que é ele que criou tudo o que está em seu redor. Ora, mesmo forte, saudável e adulto o Eu nunca é senhor de si em sua casa.

 

Espero ter podido fazer entender minimamente por que a caricatura é uma das artes mais apreciadas por Freud, arte a que faz jus um compatriota seu, se assim podemos dizer, o conhecido jornalista, ilustrador, dramaturgo, cineasta e intelectual checo Vladimír Jiránek.

 

Termino recordando que comemoramos os 150 anos do nascimento de Freud. Não é uma Vingança, mas uma engraçada Vitória da Psicanálise. Aquele que assina estas caricaturas, que tem um nome próprio começado por V (Vladimír), assinala-o também com os dois dedos em V do desenho que foi escolhido para ilustrar o convite para este evento. Como diz ainda a legenda de uma das suas outras caricaturas, numa língua que permanece tão misteriosa para mim como o inconsciente, o checo, «Sigmund Freud está connosco!» ou «entre nós».