Anamorfose,

a falta e a essência de vazio da Coisa

 

José Alves

 

Dentro das vias que a história da arte nos oferece e no sentido de facilitar a compreensão mais radical da relação do sujeito com o vazio e das Ding, a Coisa que nessa "outra cena" fala, mas que também se cala, iremos recorrer à anamorfose.

A anamorfose - uma estrutura exemplar de que Lacan fez sempre grande uso para ilustrar o seu pensamento ao longo do seu ensino - "é toda a espécie de construção feita de tal maneira que, por transposição óptica, uma certa forma, que não é perceptível à primeira vista, se congrega numa imagem legível".(SVII: 161)

Curiosamente, este tipo de objectos produz prazer ao ver-se surgir uma figura inteligível a partir de uma "forma indecifrável".

A construção e utilização de "objectos anamórficos", significativamente difundidos na história da arte, constitui um fenómeno que se revestiu de uma grande "acuidade de interesse" e "até mesmo fascinação", especialmente, nos séculos XVI e XVII.

O exemplo do famoso quadro - Os Embaixadores - de Hans Holbein, várias vezes utilizado como exemplo por Lacan, apresenta na parte inferior, como que em suspensão, uma "forma enigmática alongada", figura ininteligível que no livro de Baltrusaitis sobre as anamorfoses é referida como uma espécie de concha de siba, mas que a Lacan no Seminário, livro VII, lhe faz lembrar a forma de um prato com ovos e que no Seminário XI lhe evoca o pão de duas libras usado por Dali ou ainda os relógios moles do mesmo.(Cf. S-XI: 83)

Esse quadro está em Londres, na National Gallery, estrategicamente colocado.

Com efeito, depois de ter contemplado os dois personagens dentro dos seus ornamentos de ostentação, bem como toda uma série de objetos figurativos dos símbolos da vanitas, talvez produzidos para alimentar um demorado pasto do olhar, torna-se inevitável que o espectador utilize uma determinada porta de saída. É a partir do ponto do limiar que essa mesma porta permite transpor que, devido às linhas de fuga da perspectiva, o espectador, ao voltar-se para trás, vê que o quadro perde a particularidade dos seus motivos, mas, em simultâneo, permite-lhe perceber que a forma ininteligível, voadora, aparece nitidamente como uma caveira humana, revelando assim a sua "verdade sinistra".(SXI: 83)

No desenrolar do próprio seminário sobre a Ética, Lacan terá mostrado e descrito um outro objecto anamórfico constituído por um cilindro espelhado que assentava sobre uma superfície plana onde estavam inscritos alguns traços ininteligíveis e talvez caóticos; estes, ao serem reflectidos pela superfície cilíndrica, geravam, vista de certo ângulo, uma imagem coerente. No caso apresentado tratava-se de uma bela imagem que imitava um quadro da crucificação atribuído a Rubens.

A compreensão do processo que levou à construção de um semelhante objecto anamórfico, e das razões porque se obtém prazer com ele necessitaria de um comentário mais detalhado da História da Arte. Explicita Lacan, "há por detrás dele toda a história da arquitectura, da pintura, a combinação de ambas, o impacto dessa combinação".(S-VII: 162)

Por isso, o interesse de um objeto anamórfico, como o que aqui é descrito, consiste no facto de constituir um condensador de toda uma evolução ao nível da história da arte, evolução que, para ser entendida na perspectiva lacaniana, gira em torno das diferentes formas de cercar o vazio da Coisa. Uma análise mais detalhada a deixamos para outra oportunidade.

Sendo verdadeiramente exemplar em relação ao que pretendemos evidenciar, retomemos o objecto anamórfico gerador da imagem do quadro de Rubens que, reflectido pela superfície cilindrica, surge no lugar da imagem ininteligivel.

O "êxito técnico" de tal objecto anamórfico ainda irá permitir que se precise o que permanece vago na "junção narcísica". Sabemos já que, no ensino de Lacan, a função do espelho plano é exemplar, quer ao nível da estrutura imaginária enquanto suporte da relação narcísica, quer ao nível da formação do ideal do eu, implicando a "diminuição destrutiva" e "agressiva".

Porém, no caso do espelho cilindrico será "apenas por acidente que se projeta o ideal do sujeito", de tal modo que se torna perceptível uma outra função do espelho, isto é, o "papel de limite"(cf. S-VII: 182), a barreira que não é possível transpor, determinando a inacessibilidade do objecto de que irremediavelmente o sujeito está separado.

Porquê tanta cautela? Qual o verdadeiro sentido da utilização deste exemplo? De que se trata verdadeiramente?  Trata-se, "de uma maneira analó­gica, ou anamórfica, de tornar a indicar que o que buscamos na ilusão é algo em que a ilusão, ela mesma, de algum modo se trans­cende a si mesma, se destrói, mostrando que ela lá não está senão enquanto significante".(S-VII: 163)

Na verdade, a imagem coerente, obtida no cilindro espelhado, não passa de uma organização icónica das manchas disformes espalhadas no real de uma vulgar superfície plana. Nesta relação torna-se perceptível, ainda que precariamente, a presença de falta e de vazio em torno da imagem organizada para lá da superfície polida do cilindro. Imagem, apenas uma imagem, impossível de fixar objectivamente no mundo da matéria; ela tem a estrutura do significante com que se cobre esse buraco informe do real e também a essência de vazio que ela ilude.

Eis-nos de volta à "primazia do domínio da linguagem, onde só e unicamente lidamos, em todos os casos, com o significante".(S-VII: 163)

Enredados na omnipresença da linguagem, estamos perante a função do significante e a nuclear relação com esse nada, com esse lugar nenhum para onde as linhas da perspectiva conduzem o olhar e nos confrontam com a estrutura de falta da Coisa.

Os "requintes operatórios" a que o nosso curioso objecto conduz, no jogo repetitivo do aparecimento e desaparecimento de uma imagem, faz Lacan divagar, ainda que com um profundo sentido, ao dizer que diante desse objecto anamórfico, dessa "espécie de seringa" lhe parece "um tipo de aparelho para tirar sangue, tirar sangue do ­Graal" na medida em que o sangue do Graal é exactamente o que lá não existe.(S-VII: 170)

Será que hoje a tão propalada realidade virtual, possibilitada pelos sofisticados meios  informáticos,  não constituirá a forma contemporânea desses estranhos objectos anamórficos de séculos passados, onde, hoje como ontem, a verdade do sujeito continua inevitavelmente presa à mesma estrutura da falta, presa a um resto precipitador da impossibilidade do real?