CARTA ACF
Alexandra
Lúcio
A minha comunicação[1]
divide-se em duas grandes partes: sobre a instituição psicanalítica,
essencialmente a de orientação lacaniana, e sobre as relações da psicanálise
com a instituição em geral.
Porquê preferir a instituição de orientação
lacaniana? Porque é aquela cujos princípios sigo na minha prática e de uma
certa forma na minha vida através da minha análise pessoal. Também por ser a
que ousou questionar-se a ela mesma sobre a formação dos psicanalistas e sobre
a distinção a fazer entre a psicanálise e as psicoterapias.
Depois
falarei sobre a psicanálise nas instituições de saúde mental e do papel do
psicanalista e da psicanálise nessas instituições. Como em Portugal a psicanálise
está ausente ou quase destas instituições, falarei do que se pratica em França,
não somente por ser o país de Lacan, mas sobretudo porque foi lá que me
formei, estagiei e trabalhei.
Confesso
que esta comunicação não segue à risca o protocolo de uma intervenção com
uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. Ela segue mais o caminhar
das minhas reflexões sobre o tema.
Queiram
perdoar-me esta liberdade e prossigamos com a definição de instituição que
encontrei no Petit Robert: Criação, estabelecimento, fundação. Instituído
pelos homens, o oposto do que é estabelecido pela natureza. Ensinar e formar
numa escola. Uma instituição também implica regras.
É
uma comunidade de vida, todos com o mesmo objectivo, e o que faz a instituição
ficar de pé são as regras.
O
próprio Lacan pode ser considerado uma instituição no que diz respeito à
psicanálise, porque é uma referência para muitos.
Mas ele não gostava de ser considerado como um
mestre, logo, deduzo que como instituição ainda muito menos. A Instituição
psicanalítica de orientação lacaniana tem uma história atribulada. Ela começou
com saída de Lacan da Sociedade Psicanalítica de Paris em 1953 e pela sua
excomunhão da Associação Internacional de Psicanálise em 1964. Nesse mesmo
ano, ele funda a sua Escola, a Escola Freudiana de Paris. Esta Escola será
abolida em 1980 pelo próprio Lacan. Há pouco disse que ele certamente não
teria gostado de ser considerado uma instituição e é um pouco por isso que
ele aboliu a sua Escola. Os seus discípulos estavam a transformá-lo em mestre,
aquele que sempre seguimos e que quando morre veneramos e não saímos disso.
Lacan transmitia o fruto do seu trabalho através dos famosos Seminários, mas
queria que os seus alunos trabalhassem e não se limitassem a serem receptáculos
passivos do que ele dizia. Ele criou uma instituição, mas uma que ele queria
viva, capaz de sacudir o pó de vez em quando e continuar a ser criativa.
Éric Laurent escreve: “Lacan, crítico da
instituição analítica, não se contentou em criticá-la. Ele avançou para
criar qualquer coisa, um espaço onde se revela a responsabilidade do próprio
psicanalista”[i]. No texto “Teoria de
Turin” Jacques-Alain Miller expõe: “Ele [Lacan] avança e apresenta-se, não
como um sujeito que se propõe a ele próprio como Ideal, mas como um sujeito
que está em relação com um Ideal, como os outros que ele convida para se
juntarem a ele na sua Escola. Não é uma anulação do Ideal. Não há anulação
de Ideal na Escola. Se houvesse a anulação da função do Ideal, não haveria
comunidade de Escola. Não há zero, mas há o seguinte, Lacan reenvia cada um
à sua própria solidão de sujeito, à relação que cada um entretém com o
significante-mestre do Ideal sob o qual se coloca”[ii].
Lacan
quis uma Escola em que cada analista é responsável por si, “le psychanalyste
ne s’autorise que de lui-même”. Traduzindo dá mais ou menos “ o
psicanalista autoriza-se de si mesmo” ou seja o psicanalista é responsável
pela sua prática analítica. Gostava só de abrir aqui um parênteses que não
é bem um, para dizer que o paciente analítico também é responsável pela sua
demanda de análise. Só assim a psicanálise pode continuar sem ter que
“mumificar” os mestres, a existir face às novas evoluções da história e
do homem. “Para ajudar o psicanalista a responder às novas questões éticas,
Lacan acrescentou uma instituição no mundo. Ele inventou um novo sintoma, um
novo espaço de discurso.” (Laurent, E).[iii]
Embora
Lacan tenha dito que a psicanálise era intransmissível, ele procurou garantir
a transmissão da psicanálise através de um processo chamado o «passe». Era
uma garantia que o futuro psicanalista dava perante os seus colegas e perante os
pacientes que viriam consultá-lo. No passe trata-se do seguinte: o «passante»,
tal é o seu nome, deve relatar os pontos que ele julga mais importantes da sua
análise, não a um eminente e estabelecido psicanalista, mas a dois
analisandos, cujo analista acha que estão em passe de se tornarem analistas e
que ele designa de «passadores». Um belo dia estes passadores que não sabem
que o são recebem um telefonema do passante que os informa que ele os escolheu
para serem os seus passadores. Estes ouvem o relato do passante e vão divulgá-lo
a um júri composto por três membros. O passe é uma “instituição” única
no mundo psicanalítico. O objectivo é saber sobre o “saber-fazer” do
futuro psicanalista. O passe, embora seja uma instituição em si, é um pedido
pessoal, nem todos o fazem, é ao critério de cada um, mas mais uma vez
sobressai a responsabilidade própria que é requisitada na orientação
lacaniana. Note-se que o psicanalista que se submete ao passe obtém o estatuto
de Analista da Escola (comummente chamado AE).
A
instituição é vital para os psicanalistas. Os psicanalistas que foram para além
do sintoma, chegaram a um ponto onde há desaparecimento profundo e inconsciente
da demanda. Trata-se finalmente do desaparecimento do Outro – Outro com O
grande (A maiúsculo em francês), para o diferenciar do outro semelhante, do
parceiro imaginário. Aqui trata-se de um Outro que não se assimila, é o local
dos significantes, está para além das representações do Eu, das identificações
imaginárias. Como a demanda é feita a esse Outro, desaparecendo a demanda
desaparece o Outro. Miller diz que há uma sensação de liberdade eufórica
quando se chega aí, mas ao mesmo tempo é também a tomada de consciência de
uma solidão cínica. É também nesse momento que há o assumir e o
consentimento da castração. Viver sem o Outro, sem identificações. No
momento da dissolução da sua Escola em 1980 Lacan escreveu: “l’Autre
manque.
Ça me
fait drôle á moi aussi. Je tiens le coup pourtant, ce qui vous épate, mais je
ne le fais pas pour cela... S’il arrive que je m’en aille, dites-vous que
c’est afin-d’être Autre enfin”.
Não é fácil continuar sem o
Outro, no entanto Lacan dissolveu a Escola para deixar de ser o Outro desses
outros.
Por
isso, criou-se uma nova escola, a Escola da Causa Freudiana. “ Esse Outro sob
medida para os analistas analisados” (Miller, J.-A.)[iv].
Criou-se um Outro, mas um Outro em movimento, criativo, vivo, composto por
aqueles que estudam a psicanálise e que a fazem evoluir. Daí a importância
das jornadas, dos congressos, dos seminários, dos cartéis, etc.
Os
cartéis também são uma instituição, uma criação de Lacan, um local de
trabalho. É a célula base da Escola. Um grupo constituído por 4 pessoas que
nomeiam uma outra, que tem o nome explícito de “mais-um”. Nesse grupo
trabalham-se textos psicanalíticos e profanos. O “mais-um” tem o papel de
se encarregar da selecção, da discussão e do prosseguimento do trabalho de
cada um.
A
instituição de orientação lacaniana é uma comunidade de trabalho, onde se
formam psicanalistas, onde se pratica a clínica psicanalítica, onde se
transmite um saber, venha ele de um analista confirmado ou de um analisado que
inicia a sua prática. Por isso estou aqui. Por ser de orientação lacaniana, o
CEP, embora eu seja noviça no estudo de Lacan, deu-me a oportunidade de
transmitir o meu trabalho, a minha reflexão sobre as minhas leituras. O que
muito provavelmente não seria possível noutra instituição analítica. E
isso, para mim, de uma certa forma, é uma questão de estilo.
*
* *
Vou
agora abordar a instituição de saúde pública, seja ela hospital psiquiátrico,
serviço de psiquiatria num hospital geral, maternidade, lar, clínica privada,
etc.
Tive
recentemente a oportunidade de entrevistar algumas pessoas que trabalham no Júlio
de Matos e no Miguel Bombarda e fiquei com a ideia de que a psicanálise tem um
lugar muito ténue ou inexistente nesses locais.
Para
começar o psicanalista que trabalha nessas instituições lida com pacientes
que não escolheram estar ali ou então que escolheram refugiar-se lá. Logo, a
demanda de um paciente em psiquiatria é diferente da demanda de um paciente
feita a um analista no seu gabinete privado. Tal como eu já disse, o paciente
que pede uma análise é responsável pela sua demanda, tal como o psicanalista
é responsável pela sua prática clínica. No hospital o paciente é levado
pela família, pela polícia. É uma inadaptação social por parte do paciente
que perturba os outros que o leva ao hospital. Aqui é uma demanda exterior.
Em
psiquiatria, o sintoma é constituído pelo psiquiatra, é ele que pratica a clínica.
O psiquiatra observa o paciente, está atento à maneira como o paciente se
expressa, às mímicas etc. faz um levantamento dos sinais que observou no
paciente e é baseando-se nesses sinais que ele determina o sintoma ou os
sintomas que vão levar ao diagnóstico.
Em
psicanálise o sintoma está no discurso do sujeito. O sujeito vem com uma
queixa, nessa queixa está o seu sintoma. “O sintoma freudiano só existe a
partir do discurso do paciente, dentro do dispositivo analítico”. (Miller,
J.-A.) [v]
Isso
modifica também a posição de cada um face ao paciente. O psiquiatra porque
pratica uma clínica da observação mantém-se a uma certa distância. O
psicanalista, a quem é dirigida a demanda, por ser o endereço do discurso do
paciente, faz parte do sintoma. Em psiquiatria há a necessidade de diagnóstico.
Como escreve Durval Mazzei Nogueira Filho num relato que ele faz dos
“Psicanalistas na Instituição Médica”: “as perguntas dos Psiquiatras
objectivam o diagnóstico de doença. As perguntas do psicanalista procuram a
posição do sujeito diante do gozo. (...) o pensamento médico é orientado
pelo conceito de doença e, como é de conhecimento comum, o conceito de doença
inclui a independência desse evento perante o simbólico e o imaginário, logo
confere um lugar secundário à responsabilidade do terapeuta”. Hoje em dia o
diagnóstico apenas serve para determinar o tratamento a dar ao paciente para
ele voltar a adaptar-se socialmente. Sem se aperceberem ou então sem saberem
como o evitar, os psiquiatras estão cada vez mais a dar poder à biologia
molecular e aos tratamentos químicos. É óbvio que esses tratamentos têm
importância, mas incidir a acção clínica apenas sobre isso, a relação com
o paciente é distorcida, e não vai para além da prescrição medicamentosa.
Há
também necessidade de diagnóstico para o psicanalista, este deve de saber com
que tipo de estrutura está a lidar. Para a psicanálise, pelo menos a de
orientação lacaniana, pois ela é a única que não se entusiasmou com o caso
limite borderline, existem estruturas sólidas e não intercambiáveis: psicose,
neurose e perversão. O psicanalista tem de ter o cuidado de saber com que tipo
de estrutura está a lidar, seja quando está a receber em seu gabinete privado
ou numa instituição de saúde pública. É na clínica psiquiátrica que ele
se baseia, na clínica clássica. Clínica que tem vindo a ser posta de parte
desde o “boom” dos medicamentos para as doenças psiquiátricas. Tanto o
psiquiatra como o psicanalista deveriam se unir para reabilitar e melhorar esse
ensino. É necessário fazer a diferença entre uma histeria e uma psicose.
Muitas vezes por um paciente manifestar um discurso estranho é etiquetado de
psicótico.
Miller
diz bem que apesar de um discurso estranho, extravagante, o que vai permitir o
diagnóstico diferencial são o que ele chama de “fenómenos elementares”:
·
Automatismo mental. Irrupção de vozes, de
discursos alheios na mais íntima esfera psíquica;
·
Automatismo corporal: estranheza, desmembramento,
distorção temporal e ou deslocamento espacial;
·
Quando o paciente diz que pode ler no mundo sinais
que lhe são especialmente destinados, etc.
Quero
aqui transcrever o que Miller expôs em Lacan
elucidado[vi]: “Que pode ela [a psicanálise]
fazer por nós, terapeutas de psicóticos? Devemos de reconhecer que ela, com
frequência, não pode fazer nada, que a lição do Dr. Lacan, nas suas
apresentações de doentes, era apenas uma lição de humildade. Podemos tentar
interpretar os sintomas para os psicóticos delirantes, mas eles o fazem bem
melhor. Ao invés disso, podemos manter actividades de apoio com méritos
sociais, mas que não estão no campo da psicanálise. Precisamos saber quando
estamos dando apoio a alguém, no caso do psicótico, pois, se nos dispusermos a
ajudar uma histérica, afundá-la-emos, não deixando saída alguma para que se
safe. É por isso que o diagnóstico estrutural pode ter importância. Não é
assistência social o que a psicanálise pode fornecer à psiquiatria, mas
concurso para exame de casos e seu desenvolvimento. Fora isso, mesmo sendo
especialmente pessimista, Lacan elaborou a tese de que o psicanalista não deve
jamais recuar diante da psicose. (…) Para a psicanálise a frequência no
hospital psiquiátrico é importante somente num sentido: é necessário que os
psicanalistas se defrontem com a loucura enclausurada, hospitalizada, porque se
tranca cada vez menos. Não é tanto pela clínica, mas pelo facto de os loucos
demonstrarem a exterioridade do inconsciente. (…) [além de que] a experiência
da psicose é o fio condutor do ensino de Lacan.”
Posto
isto, o trabalho de um psicanalista numa instituição é particular, em relação
ao trabalho que ele faz no seu gabinete. Isso levou os psicanalistas a
reflectirem sobre o seu trabalho na Instituição nas últimas jornadas da
Escola que se organizaram em Paris em Novembro passado.
O
que eu tirei como ensino do que ouvi e dos textos que li, é que o psicanalista
quando pratica em instituição psiquiátrica, sendo ele mesmo psiquiatra, não
deixa de ser psicanalista. A sua análise pessoal modificou-o profundamente. A
maneira como ele vai conduzir a entrevista de um paciente ou uma apresentação
de doentes tem subjacente a teoria analítica, o ensino que lhe foi dado durante
a sua formação. Como já vimos antes a formação de um analista, pelo menos
na orientação lacaniana, passa pela sua própria análise e pelo seu trabalho
sobre os textos fundamentais de Freud e Lacan, passando também pela clínica
psiquiátrica, cito Lacan “a técnica não pode ser compreendida, e por
conseguinte correctamente aplicada, se se desconhece os conceitos que a
fundamentam”. O que ele pratica nas instituições não é psicoterapia se ele
tem em conta o ensino de Lacan e a orientação lacaniana. Ele pratica psicanálise
aplicada, aplicada ao sintoma. A psicanálise pura iria mais longe, iria para além
dos efeitos terapêuticos da psicanálise aplicada. Mas, numa instituição isso
é difícil se tomarmos em conta as regras, os limites que a própria instituição
impõe aquele que lá trabalha.
O
problema fundamental foi distinguir a psicanálise das psicoterapias que
florescem desde há muito, desde a musicoterapia, passando pela arte-terapia, à
psicoterapia de orientação analítica. Não as subestimo, mas há que
diferenciar.
Num
texto que se chama “Psicanálise pura, psicanálise aplicada e psicoterapia”[vii],
que faz parte de 2 lições de Miller no seu seminário de 2000-2001 le
lieu et le lien, ele refere-se a três respostas sobre a diferença entre a
psicanálise pura-psicanálise aplicada e a psicoterapia que poderiam ter sido
dadas por Lacan, uma tendo sido efectivamente dita na entrevista que Lacan deu
à televisão e cujo texto se chama Televisão.
1ª Na psicoterapia é iludida a questão do gozo. Ora é
sobre o gozo que a psicanálise questiona o paciente, sobre a sua posição
perante o gozo. O sintoma de que se queixa o paciente, ele não se quer desfazer
dele. Foi uma surpresa para Freud constatar isso. Os pacientes, por mais
desprazer que isso lhes possa dar, gozam do seu sintoma. a psicoterapia trata
simplesmente de o(s) fazer desaparecer, sem questionar o fundamental, pois nada
impede que o sintoma volte. O recalcado nunca está só, está sempre
acompanhado pelo seu retorno.
2ª Na psicoterapia o que predomina é o discurso do amo,
que é conforme ao inconsciente. O paciente reclama uma identificação que se
sustenha. Ele sofre quando ela vacila e a urgência em psicoterapia é de
restitui-la, diz Miller. Isso em detrimento do fantasma.
3ª (a que Lacan deu efectivamente) a psicoterapia dá
importância ao sentido, à interpretação. Se há uma clínica que ensina os
limites e sobretudo a impotência da interpretação é a clínica da psicose.
Lacan dizia que “devia-se ser o secretário do louco”, apenas isso.
Para
Miller é nesta terceira resposta que se encontra o caminho, caminho que leva ao
último ensino de Lacan, à psicanálise do “fora de sentido”. Este ensino
tem sido o mais controverso e o mais problemático, a impressão que ele deixa
é que Lacan põe tudo em questão, até o seu próprio ensino. Temos aqui matéria
para mais umas jornadas. Por isso concluirei baseando-me sobre a primeira
resposta, aquela que diz que a psicoterapia só age a nível do sintoma. Isso
implica ficar-se pelos efeitos terapêuticos e poderíamos dizer que sendo assim
os psicanalistas nas instituições de saúde pública praticam psicoterapia.
Permitam-me discordar, e à luz do que escrevi até agora, repetir mais uma vez,
que é tudo uma questão de estilo.
[1] Conferência proferida nas IX Jornadas da ACF-CEP (7 de Junho 2003)
[i]
LAURENT, E., Les deux plis du symptôme et de l’institution, Ornicar ?
digital, p. 3.
[ii]
Miller, J.-A., “Théorie de Turin sur le sujet de l’École ». Aperçus
du Congrès de l’AMP à Buenos Aires, juillet 2000, Paris,
EURL-Huysmans, 2001, pp. 62-63.
[iii] Ibid., p. 5.
[iv] Miller, J.-A., Lacan Elucidado: Palestras no Brasil, Rio de Janeiro, Campo Freudiano no Brasil, Jorge Zahar Editor, 1997, pp.441-444.
[v] Ibid., p.123.
[vi] Ibid., pp. 129-130.
[vii]
Miller, J.-A., “Psychananalyse pure, psychanalyse appliquèe et psychotérapie »
La cause Freudienne nº 48, Paris, 2002.