CARTA ACF

 

 

Adolescente - Um sujeito em questão 

 

Jorge A. Pimenta Filho

 

 

Como a psicanálise vê a adolescência

 

 

Em suas pesquisas FREUD mostrou que constituía um erro vulgar, e mesmo um equívoco de grandes conseqüências, supor a pulsão sexual ausente na infância e só surgindo na puberdade. Assim, na Psicanálise não se pode falar em adolescência sem se remeter à criança ou mais propriamente à sexualidade infantil (FREUD, 1905/1989).

 

COTTET (1996) nos lembra que “é a partir dos sonhos do adulto ou de suas lembranças, em todo caso de sua palavra, que Freud nos transmitiu o que constitui a sexualidade infantil”. Acrescenta que são insuficientes as tentativas de elucidar a questão da infância e da adolescência a partir de categorias como desenvolvimento, como propõe a abordagem cognitivista piagetiana, ou a noção de estágios evolutivos, construída pelos kleinianos. Dirá ainda, esse autor, que essas abordagens somente conseguiram historicizar o complexo de Édipo e que tais tentativas não encontram apoio nas observações sustentadas por FREUD. Retomando FREUD, aponta-nos que a menina não sai jamais do complexo de Édipo e “que existe algo como um limite assintótico que torna problemático o fim do Édipo para ela, e indefinida a relação da mulher com a castração. (Assim)“...o complexo de Édipo na menina é antes defensivo, meio que ela acha de escapar da colagem com a mãe” (COTTET, 1996).

 

Na análise do ‘Caso Hans’, FREUD deixou-nos um legado que também evidencia seu esforço em descrever a criança a partir de sua experiência de gozo, elaborando o que chamou de “o perverso polimorfo”. (COTTET, 1996).

 

Verificamos que é mesmo uma tarefa digna de esforço de Sísifo construir, a partir da Psicanálise, a categoria adolescência. Encontramos sim esse tipo de enunciado freqüente no adulto em análise: a queixa recorrente de continuar sendo um adolescente, assim como a fascinação que exerce sobre eles, no lugar do romance familiar, o romance de sua adolescência.

 

Para circunscrevermos o que é a adolescência, o critério a seguir, acatando o convite de Freud, é o da puberdade - época da emergência da genitalidade, momento do despertar da pulsão pelo real biológico ou, em suas palavras, a puberdade é a época em que prevalece o primado das zonas genitais.

 

Temos, desse modo, como nos sugere COTTET, de fazer uma articulação entre os dois momentos: de um lado o que é impulsionado pelo real etiológico e, de outro, a construção romanesca do que dele pode advir. Não há, na Psicanálise, como fazê-lo, a não ser tomando um a um, cada sujeito adolescente em sua história, sua singularidade.

 

O interesse sobre a infância e adolescência é relativamente recente. Essa preocupação remonta ao final do século XVIII, como revelam os estudos clássicos como os de ARIÈS (1973/1978) e estudos mais recentes como os de: PERROT (1996), CARON (1996), LUZZATTO (1996), MALVANO (1996), MICHAUD (1996) e PASSERINI (1996). Desses estudos se apreende um empenho pedagógico no enfoque da aprendizagem e adestramento do adolescente, distinguindo-o da criança e do adulto, buscando sua inserção social, inclusive, nos processos produtivos, políticos e sociais.

 

Os ritos iniciáticos dos jovens, para prepará-los ao ingresso no mundo dos adultos já se faziam, a partir dos oitocentos, de forma distinta dos modelos tradicionais, familiares, campesinos e autarcizados como se verificavam anteriormente, sobretudo na Antigüidade. Entravam em cena outros componentes: o Estado, a Educação, as Unidades Produtivas, as Corporações Militares que, a partir do final do Século XVIII, sancionavam esse ingresso.

 

Podemos ver que a tese do adestramento dos jovens favorece estudos historiográficos, sociológicos e de outras disciplinas, que concentram suas análises no interesse em focalizar a criança e o adolescente através de uma representação de discurso, de uma ideologia. Nessa série, também se destacavam os romances de educação dos iluministas, dos reformadores sociais, etc.

 

Para FREUD, a sexualidade é construída em dois tempos: em um primeiro, que ele chamou de pré-genital, e em outro, aquele dos aparelhos do gozo conectados à maturação da puberdade. Para os humanos, segundo a Psicanálise, a sexualidade é sempre traumática e todo sujeito terá de se haver com ela, mas sempre a posteriori: antecedendo a genitalidade, há a fantasia sexual que, na primeira infância, se apoia na relação com os pais.

 

Assim, após os cinco primeiros anos de vida, a criança realizou uma intensa pesquisa, que culmina com sua descoberta da sexualidade e a construção de fantasias infantis sobre a mesma. Segue-se, após isso, um período que FREUD denominou de latência, um período em que, efetivamente, tudo que fora objeto da curiosidade infantil ficará recalcado: “Durante esse período de latência total ou apenas parcial erigem-se as forças anímicas que, mais tarde, surgirão como entraves no caminho da pulsão sexual e estreitarão seu curso à maneira de diques (o asco, o sentimento de vergonha, as exigências dos ideais estéticos e morais).” (FREUD, 1905/1969).

 

No momento da maturação genital – da puberdade, há uma retomada, pelo sujeito dessa sexualidade. Mas esse encontro ou reencontro sexual, esse a posteriori, não se dá sem percalços, sem traumas. Há, disse FREUD, efeitos traumáticos desse encontro da sexualidade durante a puberdade, algo incontrolável, uma disjunção entre a corrente terna (da primeira infância) e a corrente sensual (da puberdade):

 

Com a chegada da puberdade introduzem-se as mudanças que levam a vida sexual infantil a sua configuração normal definitiva. Até esse momento, a pulsão sexual era predominantemente auto-erótica; agora, encontra o objeto sexual. Até ali, ela atuava partindo de pulsões e zonas erógenas distintas que, independendo umas das outras, buscavam um certo tipo de prazer como alvo sexual exclusivo. Agora, porém, surge um novo alvo sexual para cuja consecução todas as pulsões parciais se conjugam, enquanto as zonas erógenas subordinam-se ao primado da zona genital. (...). A normalidade da vida sexual só é assegurada pela exata convergência das duas correntes dirigidas ao objeto sexual e à meta sexual: a de ternura e a sensual. A primeira destas comporta em si o que resta da primitiva eflorescência infantil da sexualidade. É como a travessia de um túnel perfurado desde ambas as extremidades”. (FREUD, 1905/1969).

 

Ressaltando a tensão vivida pelo sujeito, FREUD nos lembra que:

 

“O novo alvo sexual do homem consiste na descarga dos produtos sexuais; o anterior — a obtenção do prazer — de modo algum lhe é estranho, mas antes, o mais alto grau de prazer se vincula a esse ato último do processo sexual. A pulsão sexual coloca-se agora a serviço da função reprodutora; torna-se altruísta, por assim dizer. Para que essa transformação tenha êxito, é preciso contar, em seu processo, com as disposições originárias e com todas as particularidades das pulsões”. (FREUD, 1905/1969).

 

Esse momento da maturação, ou essa puberdade como maturação, foram vistas por FREUD como um momento em que há uma reativação do Édipo e uma reativação ainda mais significativa, pois se trata daquela do objeto enquanto interditado. Assim, segundo COTTET: “O desejo sexual reativa uma interdição, o que põe em evidência a impossível harmonia entre pulsão sexual e a corrente terna sobre o mesmo objeto”. (Sendo o momento da) “puberdade (...) efetivamente uma recapitulação de todas as antigas pulsões sobre um objeto novo (...). Pois, se a sexualidade pré-genital é o arsenal do qual a fantasia do adolescente se serve para um mise au point da relação sexual, ele só pode fazê-lo ao preço de uma reativação do antigo protótipo.”. (COTTET, 1996).

 

Essa questão da interdição é, nomeia FREUD, a barreira do incesto, uma exigência para a sociedade humana, uma lei que significa a confirmação da cultura humana, base de todas as proibições Ela revela a estrutura sobre a qual se assentam os aspectos civilizatórios, a prevalência do simbólico de nossas relações e o conseqüente impedimento da promiscuidade.

 

A partir da existência dessa interdição, o desejo é subjugado, mas continua a existir enquanto fantasia e é reativado na puberdade, de vez que o jovem aqui, também, já dispõe de uma maturidade somática: isso que a Medicina distingue como sendo o desenvolvimento puberal.

 

 

O desligamento da autoridade paterna

 

 

Mas FREUD, também, dá relevância a um outro aspecto que é o do desligamento da autoridade dos pais:            

 

“Em cada uma das etapas do curso do desenvolvimento por que todos os indivíduos são obrigados a passar, um certo número deles fica retido, de modo que há pessoas que nunca superam a autoridade dos pais e não retiram deles sua ternura, ou só o fazem de uma maneira muito incompleta (...) Com isso se aprende que o amor sexual e o que parece ser um amor não-sexual pelos pais alimentam-se das mesmas fontes, ou seja, o segundo corresponde apenas a uma fixação infantil da libido”.  (FREUD, 1905/1969).

 

LACAN usou de um exemplo tomado da literatura para comentar essa questão posta diante de todos os adolescentes: o trabalho psíquico que constitui o desligamento da autoridade paterna. Nesse comentário, destaca-se a impossibilidade do encontro sexual na adolescência. A referência literária é uma peça de WEDEKIND – “O despertar da primavera”, escrita em 1891 e para a qual LACAN (1974/2000) fez um prefácio em setembro de 1974.

 

É nesse momento da adolescência que o sujeito se depara com algo que não funciona a contento, há um exílio da relação sexual, há um fracasso, impasse no momento da assunção do desejo. Há também, quanto à questão da fantasia, uma possibilidade de, mesmo estando alienado ao Outro, o sujeito também dele se separar, o que é um paradoxo, possibilitado pela assunção do desejo. O comentário de LACAN remete-nos a essa problemática da fantasia quando diz que, para um rapaz fazer amor com uma moça, é necessário que ele, antes, tenha sonhado com isso. Que ele fantasie, antes mesmo de que disso venha a se ocupar. O despertar da fantasia se articula, pois, à separação, desligamento dos pais.

 

Podemos ver como isso foi articulado na peça de WEDEKIND. O que se destaca na peça são as dificuldades dos adolescentes diante da questão do encontro com o parceiro sexual. Mas se os aludidos sonhos oferecem uma mediação, eles também os angustiam porque trazem à tona os investimentos libidinais e amorosos nas figuras parentais e os impasses que eles lhes impõem. É o caso de Wendla, personagem de uma adolescente de catorze anos que se vê inteiramente presa à posição de ser “o único bem” de sua mãe, e de uma mãe que lamentava muito ver a filha crescer.

 

A cena inicial da peça traz um diálogo entre mãe e filha. A mãe tem nas mãos um vestido comprido para que a filha pudesse usar, mas é um vestido curto que ela lhe passa. Quer que ela esteja vestida de criança por mais uma primavera. É Wendla quem diz: “Se soubesse que me ias fazer um vestido tão comprido, preferia não fazer catorze anos (WEDEKIND)”. O que demanda esse Outro materno? Ela, a mãe, está preocupada em não perder essa filha, em não perder a infância dessa filha. “O vestido não está comprido demais, Wendla. Mas, afinal que é que tu queres? Que culpa tenho eu que a minha filha tenha mais duas polegadas em cada Primavera? Não podes andar por aí de vestidinho curto se já estás crescida.” E prossegue: “Não sei que te diga. Ó filha, eu bem gostaria de te guardar tal e qual como estás agora. Há raparigas da tua idade que são desajeitadas e pesadas. Tu és o contrário. Quem sabe como virás a ser quando as outras se desenvolverem?” (WEDEKIND: 37-38).

 

Há, também, um diálogo entre dois amigos, Melchior e Moritz, ambos adolescentes de 14 anos. Eles se perguntam por que vieram ao mundo, sobre a existência das pessoas, sobre a sexualidade. Melchior quer saber se o amigo já tivera “o primeiro sinal”. Ele se refere ao despertar da sexualidade, pois, excitado, tivera uma polução noturna. Moritz lhe responde que sim e acrescenta que foi como se tivesse sido atingido por um raio. Acrescenta ainda que sonhara muito pouco. Sonhou com pernas (de uma mulher) vestidas de meias azúis-celeste que subiam por cima da mesa do professor. E ele acordou angustiado com o que sentiu: “Pensei que não tinha cura. Pensei que tinha uma doença interna. Mas só acabei por ficar mais calmo quando comecei a apontar as minhas memórias. É verdade, é verdade, meu caro Melchior, as três últimas semanas foram um calvário para mim”. (WEDEKIND: 49).

 

Melchior, um tanto maroto, se acha mais ou menos preparado para esse momento, mas não nega que teve um bocado de vergonha com isso: “Eu não me preocupava com isso, Moritz. Segundo todas as minhas experiências, não há idade certa para a primeira vez em que se dá esse fenômeno. Conheces o Lämmermeir, grande, louro, e com o nariz de papagaio? Tem mais três anos do que eu. O Hänschen Rilow diz que ele hoje não sonhou senão com tortas e geléia de pêssego.”. (WEDEKIND: 49).      

 

As questões tratadas de maneira direta nos trazem a idéia da tensão que cerca esse momento para os adolescentes. Esses adolescentes da peça mostram a dificuldade que é falar da sexualidade para alguém, principalmente para seus pais. O autor demonstra com os diálogos dos jovens que esses, se não sabem sobre a sexualidade, também já não encontram resposta disso no desejo de seus pais. Moritz diz: “meus queridos pais poderiam ter cem filhos melhores. E para aqui estou eu, não sei bem como e tenho de assumir a responsabilidade de ter nascido. Não pensastes já também, Melchior, na maneira como caímos neste redemoinho?” Nessa preocupação está posta a exigência que se coloca para esses sujeitos: levar adiante um trabalho de separação, solicitados a assumir o seu próprio desejo, pois há uma nova situação - o real do sexo.

 

Para Wendla, às voltas com as demandas do Outro materno, resta-lhe questionar “quem sou como único bem, para minha mãe?” Se ela tivesse equacionado satisfatoriamente essa questão de “único bem”, de tesouro da mãe, quem sabe teria se dado melhor? Talvez não se sujeitasse tanto aos caprichos da mãe... Wendla, que tem encontros com Melchior num celeiro, acaba ficando grávida. Gravidez que não consegue descobrir, nem explicar, sem ajuda da mãe. Essa, talvez, tenha sido uma forma de abrir mão de assumir a responsabilidade por seu ato. Ela mostra como não queria saber de nada. E a mãe leva-a uma determinada tia para abortar e, como “único bem” da mãe, ela morre. Trata-se de um sujeito que se vê nessa prisão mortífera da demanda do Outro.

 

Sobre essa questão podemos lembrar os comentários de LACAN: “O discurso elementar da demanda submete a necessidade do sujeito ao consentimento, ao capricho, ao arbitrário do Outro como tal, e estrutura, desta forma, a tensão e a intenção humana na fragmentação significante. Para além desta primeira relação com o Outro, trata-se para o sujeito de encontrar neste discurso que o modela, neste discurso já estruturado, o seu feel, a sua própria vontade. Sua vontade, é antes de mais nada, esta coisa, – nós analistas o sabemos - , a mais problemática ou seja, o que ele deseja verdadeiramente. Para além das necessidades da demanda que fragmenta e fratura o sujeito, para além da relação com o Outro, o reencontro do desejo no seu caráter ingênuo é o problema com o qual lidamos constantemente “.(LACAN, 1958-1959/1986).

 

Para o outro adolescente, Melchior, com o qual se encontrava Wendla, sabendo da gravidez, embora confuso sem saber o que isso significava, fica num mal-estar muito grande, mas termina sendo punido por isso. É internado, vai para um reformatório, mas de lá consegue fugir.

 

Moritz morre, dá um tiro de pistola na cabeça. Cometera esse auto-extermínio porque, reprovado nos exames, teme as reações dos pais que ele não conseguira satisfazer. Antes anunciara seu ato numa carta que envia à mãe de Melchior, solicitando-lhe dinheiro para fugir. Quer ir para a América. Esta nega o seu pedido mandando-lhe a resposta por carta. Moritz queima essa carta-resposta. Diante da reprovação, culpa-se por isso e, como não consegue negociar a demanda desse Outro feroz que se apresenta diante dele, passa ao ato.

 

A última cena da peça se dá num cemitério. Surge aí a figura de um homem mascarado, “o Senhor Disfarçado”. Ele entra na cena para salvar Melchior, que estava caindo na conversa do fantasma de seu amigo Moritz. Melchior, que havia fugido do reformatório, se encontra no cemitério com fantasma desse amigo que tenta, de toda as formas, seduzi-lo para que ele o acompanhe, para que lhe dê as mãos. Como um Mefisto, promete mil facilidades mostrando as vantagens de estar morto. Coloca-se acima do bem e do mal, acima da dor, acima do sofrimento. Isso pode desencaminhar o combalido Melchior que, famélico, em fuga não tem onde se amparar. “O Senhor Disfarçado” afasta o fantasma e se propõe a enviar Melchior para a casa de seus pais. Melchior lhe pergunta: “quem é o senhor?” O senhor é... o meu pai?”. O Senhor Disfarçado pede-lhe confiança e não lhe diz quem é. Nega, no entanto, que ainda fosse seu pai, porque se o fosse, Melchior teria reconhecido sua voz. Assim o “Senhor Disfarçado” diz a Melchior: “O senhor teu pai procura agora consolação nos braços fortes da tua mãe. Eu abro-te as portas do mundo. A tua perplexidade momentânea é o resultado do teu estado miserável. Um bom jantar e rir-te-ás dela.”. (WEDEKIND: 172). Com essa intervenção do “Senhor Disfarçado”, de fato, Melchior é reenviado à cena das relações parentais. Cena diante da qual, podemos dizer, ele já estava estruturalmente excluído.

 

Num dos últimos diálogos da peça, Melchior dirige-se ao mascarado: “O que pensa da moral?” E homem mascarado lhe responde: “Entendo por moral o produto real de duas grandezas imaginárias. As grandezas imaginárias são o Dever e o Querer. O produto chama-se moral e não deixa negar sua realidade.”. O fantasma de Moritz admite que, se houvesse adotado essa moral, não teria suicidado. “Se me tivesse dito isso há mais tempo! A minha moral lançou-me na morte. Por amor dos meus queridos pais é que peguei a arma assassina ‘Honra pai e mãe para que tenhas longa vida’. Comigo a Sagrada Escritura falhou redondamente.”. (WEDEKIND: 175).

 

Temos aqui o que para esse sujeito, Moritz, é uma impossibilidade de articulação do Dever e do Querer. Ele não conseguiu dialetizar essas duas grandezas. Tomemos, para pensar essa impossibilidade, esse Querer na vertente do desejo: como um querer saber. Moritz, nessa acepção, é então aquele que não conseguiu, diante do Outro, aceder a seu querer (a seu desejo, portanto). Não conseguiu assumir-se enquanto sujeito de seu desejo. Ficou, tal como Wendla, - a outra personagem -, preso à demanda do Outro e a ela se alienou mortiferamente. Não se efetivou, para ele, a possibilidade de separar-se, de desligar-se desse Outro. Condição para que pudesse aceder ao seu desejo. Ficou preso a um dever.

 

Se as fantasias podem trazer para o sujeito marcas de antigos investimentos libidinais incestuosos, como nos lembra FREUD (1905/1969), elas também, paradoxalmente, podem servir-lhe de apoio para se defrontar com situações novas, mesmo que elas se apresentem na forma de devaneios imaginativos. As fantasias podem facultar aos sujeitos as condições para sua separação. Ou melhor, proporcionar-lhes meios para melhor equacionar essa difícil questão da alienação e da separação.

 

Lembremos que é na puberdade quando surge para os jovens um momento de indeterminação diante das escolhas amorosas. Momento da confirmação ou não das escolhas de objeto que haviam sido feitas prematuramente na primeira infância, mas que aqui haverão de ser confirmadas.

 

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O autor é Sociólogo, Mestre em Educação, Membro da Equipe do Setor de Saúde do Adolescente/Serviço de Pediatria/Hospital das Clínicas da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, Analista Praticante e Aderente da EBP - Escola Brasileira de Psicanálise do Campo Freudiano, exercendo atividades em Belo Horizonte.

 

E-mail: [email protected]

 

 

RESUMO - A Psicanálise referencia a adolescência a partir da sexualidade que, como propõe Freud, deve ser pensada em dois tempos não cronológicos, mas lógicos. Assim falamos de um pré-genital, quando há uma prevalência da corrente terna e de um outro tempo conectado à maturação da puberdade em que há a prevalência da corrente sensual. Há na adolescência uma disjunção entre o terno e o sensual o que torna para todo o sujeito humano a sexualidade como traumática.

PALAVRAS-CHAVE - Adolescência, Sexualidade, Puberdade, Interdição, Fantasia, Desligamento da autoridade paterna.

 

 

TITLE – Adolescent, a subject in question.

ABSTRACT: Psychoanalysis references adolescence from sexuality which, as Freud proposes, should be considered at two non-chronological, but logical moments. We therefore speak of a pre-genital, when there is a prevalence of the tender current, and another moment, connected to the maturation of puberty in which there is the prevalence of the sensual current. There is in adolescence, a disjunction between the tender and the sexual, which results in sexuality as traumatic for every human subject.

KEYWORDS: Adolescence, Sexuality, Puberty, Interdiction, Fantasy, and Disconnection.

 

 

 


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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COTTET, S. Estrutura e Romance Familiar na Adolescência. In: Adolescência: o despertar: Kalimeros – Escola Brasileira de Psicanálise – Rio de Janeiro, RJ: Contra Capa Livraria, 1996.

 

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LACAN, J. Hamlet, por Lacan, Campinas, São.Paulo: Escuta Editora / Liubliú Livraria Editora / UNICAMP: 1986.

 

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LUZZATTO, S. - Jovens rebeldes e revolucionários: 1789-1917. In: História dos Jovens 2 -  A Época Contemporânea, Org.: Giovannni Levi, Jean Claude Schimitt - São Paulo: Companhia das Letras: 195-258: 1996.

 

PASSERINI, L.- A juventude , metáfora de mudança social. Dois debates sobre os jovens: a Itália fascista e os Estados Unidos da década de 1950. In: História dos Jovens 2 - A Época Contemporânea, Org.: Giovannni Levi, Jean Claude Schimitt - São Paulo: Companhia das Letras: 319-382: 1996.

 

PERROT, M. - A juventude Operária, da oficina à fábrica. In: História dos Jovens 2 -  A Época Contemporânea, Org.: Giovannni Levi, Jean Claude Schimitt - São Paulo: Companhia das Letras: 85-136: 1996.

 

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MICHAUD, E. - Soldados de uma idéia; os jovens sob o Terceiro Reich. In : História dos Jovens 2 - A Época Contemporânea, Org.: Giovannni Levi, Jean Claude Schimitt - São Paulo: Companhia das Letras: 291-317: 1996.

 

WEDEKIND, F. O Despertar da Primavera, Tradução. Maria Adélia Silva Melo, Lisboa: Editorial Estampa Nova Seara, s/d.